Se tem alguma coisa estranha na sua vizinhança

Quem você vai chamar? Caça Fantasmas!

Se tem alguma coisa esquisita, e isso não parece bom

Quem você vai chamar? Caça Fantasmas!

Eu não tenho medo de nenhum fantasma

Ghostbusters — Ray Parker Jr.

Roma, Estados Papais

19 de Outubro de 1818

Às vezes, Bianca se perguntava como algo tão majestoso e antigo como o Coliseu podia estar de pé depois de tanto tempo. Tendo vindo morar em Roma, ela prometera a si mesma que visitaria a construção um dia, nem que apenas por fruto de sua curiosidade. Mas nunca, em sua vida inteira, imaginaria que aconteceria nas presentes circunstâncias.

Ela seguiu ao lado de Lorenzo até a entrada do Coliseu. Ali a onda de névoa negra se tornara mais violenta, se guiando para fora do Coliseu com a intensidade de uma ventania que precede uma tempestade.

Bianca guardou a pistola e cobriu os olhos com uma mão, apertando seu revólver na outra com firmeza. Não conseguia ver com detalhes, mas conseguia sentir. E o que sentia era a névoa vindo de dois lados diferentes, mas indo para o mesmo lugar.

Ela ouviu um tiro e olhou na direção de Pietra bem a tempo de ver um gladiador sumir no ar depois de ela tê-lo atingido com um tiro de mosquete.

Bianca engoliu em seco. Iam morrer. Algum deles ia morrer, estava sentindo isso.

— Para onde vamos? — Francesca perguntou.

Bianca também gostaria de saber. Com a névoa vindo de duas direções principais, ela tinha uma noção do que Lorenzo ia sugerir e não estava gostando disso.

— Vamos ter que nos separar.

Exatamente, ela pensou.

— Bianca, você comigo — Lorenzo chamou.

Ela conseguiu ver no rosto dele que ele não estava satisfeito com a escolha, mas não era difícil entender porque. Ele obviamente não queria se separar de Francesca, mas tanto Pietra quanto a prima dele tinham noção de como atirar. Bianca não. Seria mais seguro com ele.

Pietra e Francesca seguiram para a direita, e Bianca respirou fundo. Estava muito frio ali dentro e o vento gelado fazia as maçãs do rosto dela doerem. Ela não conseguia ver muita coisa, cegada pela onda de vento negro, e agora que estava dentro do Coliseu também não conseguia ouvir. O assobio do vento era forte demais.

Ela sentiu um toque suave em seu ombro, e percebeu que Lorenzo estava falando com ela.

— O QUÊ? — ela gritou, tentando fazer sua voz sobressair ao ruído da ventania.

— EU DISSE PARA VOCÊ IR NA FRENTE, ASSIM EU CONSIGO VIGIAR SUAS COSTAS.

Bianca engoliu em seco com a sugestão, mas rapidamente percebeu que preferia Lorenzo atrás dela. Ela levantou o revólver, ainda sentindo o peso desequilibrado em sua mão, e começou a avançar para dentro do Coliseu.

Embora não conseguisse ouvir Lorenzo, sabia que ele estava firme atrás dela, como prometido. Conseguia sentir. O lugar era ainda maior visto de dentro, e isso fez Bianca se sentir menor e mais assustada. Sua mão tremia na arma, e ela via coisas se mexendo para todos os lados, mesmo que fosse só a névoa.

Então começou.

Por trás da névoa escura, Bianca viu a figura de um homem vestindo armadura de gladiador e segurando uma maça, com a expressão vazia de um fantasma em seu rosto.

Ele parecia transparente. Bianca apontou a arma, sabendo que só poderia atirar quando ele estivesse tangível, mas sequer fazia ideia do que isso significava.

Ela gelou.

— Senhor da Vinci…

No mesmo instante, a expressão vazia sumiu do rosto do fantasma, dando lugar a uma de fúria, e ele avançou em direção a ela.

Agora, ela pensou. Atire agora.

Mas a mão de Bianca parecia ter travado na arma, e o que aconteceu foi Lorenzo a empurrando para o lado e dando um tiro preciso de mosquete na cabeça do fantasma. O homem se desfez em névoa negra e se misturou à névoa que já se espalhava pelo local. Bianca sentiu o impacto de uma ventania forte o bastante para jogá-la vários passos para trás e se não fosse por Lorenzo, que a segurou no instante seguinte, ela tinha certeza de que teria caído no chão.

— Tudo bem? — ele perguntou, perto o bastante dela para que não precisasse gritar.

Bianca não sabia. Estava inteiramente arrepiada e assustada. Marchara para dentro do Coliseu sem fazer perguntas porque era seu dever. Porque era uma da Vinci e estava ali para caçar fantasmas e proteger o povo. Mas agora que estava lá dentro…

— Você precisa ir sozinho, Lorenzo. Eu…

— Nem pensar. De pé.

Ele a puxou até que estivesse em pé. Bianca respirou fundo uma vez. Duas. Três. Ela conferiu se seu revólver estava carregado e o segurou, apontando para a frente.

— Do meu lado, por favor. — ela pediu a Lorenzo.

Ela viu a hesitação. Ele não achava que era a melhor ideia, mas acabou concordando, e se colocou ao lado de Bianca, levantando o mosquete, já armado de novo.

— Acho que está vindo do centro do Coliseu. Temos que dar um jeito de chegar lá — ele comentou, vendo o sentido do trajeto da névoa.

Bianca concordou. Não importava o quanto andassem, o frio sempre estava mais intenso do lado direito. O lado de dentro do Coliseu.

— Tenho a impressão de que mais para perto do centro significa mais perto do perigo?

Lorenzo olhou para Bianca e ela conhecia o olhar. Ia dizer a ela novamente para ficar para trás.

Bianca respirou fundo. Não.

Ela levantou o revólver e começou a caminhar.

Dois passos para a frente e um fantasma caiu do teto, ainda com a típica expressão vazia. Bianca mirou a pistola, e viu Lorenzo manter o olhar nos arredores, vigiando enquanto ela cuidava daquele ali.

A expressão do fantasma mudou. Naquele átimo de segundo, dessa vez, ela se forçou a apertar o gatilho. O coice da arma jogou sua mão um pouco para trás e ela quase errou, mas por pouco a bala atravessou a cabeça do fantasma, o transformando em névoa.

A cabeça de Bianca deu voltas inteiras. O que tinha naquelas balas? Porque os fantasmas tinham estados de latência e agressividade? Eles eram feitos da névoa ou a névoa era feita deles?

Ela voltou a se concentrar ao ver Lorenzo caminhando ao seu lado, e ela passou a segui-lo. Mais cinco passos e um gladiador brandindo uma espada romana avançou até Lorenzo em um grito silencioso de guerra. Bianca tremia, mas Lorenzo sequer se mexeu, focado na mira com a arma, e atirou no momento exato, transformando não só aquele fantasma em névoa como também outro que vinha atrás dele e que até o momento ela sequer tinha conseguido ver.

Bianca soltou a respiração que tinha prendido sem se dar conta. Lorenzo voltou a avançar, devagar, esperando que ela o acompanhasse.

O avanço foi lento. Mais dois passos e outro gladiador chegou pela esquerda, e Bianca precisou de três tiros para acertá-lo no momento certo. Isso não era bom. Ela podia acabar sem balas se continuasse assim.

Mais um pouco para frente, Lorenzo acertou dois fantasmas com um único tiro outra vez. O frio estava ficando mais e mais cortante, e Bianca sentiu seus dedos enrijecerem na arma. Havia névoa branca saindo de sua boca com a respiração, e ela começara a tremer de leve.

Era setembro. Não devia estar tão frio.

O vento forte também tornava o avanço difícil e o centro do Coliseu, já parcialmente escavado pelo tempo, abria caminho para os labirintos debaixo da arena. Labirintos, Bianca percebeu, que era de onde a névoa estava vindo.

Lorenzo parou de andar. Estavam perto, agora, mas o vento era muito forte e os empurrava cada vez mais para longe de onde tentavam ir. Os fantasmas apareciam com mais frequência, e um deles conseguiu cortar a perna de Bianca com uma espada. Ela gritou, mas o frio era tão forte que a ferida sangrou por pouquissimo tempo antes de congelar.

— LORENZO, VAMOS CONGELAR ATÉ A MORTE SE CONTINUARMOS SEGUINDO!

— EU SEI! MAS...

Bianca viu naquele instante que ele sabia disso o tempo todo. Desde o começo. E de repente o humor alterado dele nos últimos dias fez sentido. Ele já estava esperando morrer ali.

— BIANCA, VOCÊ CONSEGUE SE CUIDAR AQUI SOZINHA?

— O QUÊ?

— EU VOU PARA O CENTRO, VOU PARAR ISSO!

— MAS…

— POR FAVOR!

Ela ficou boquiaberta. Não sabia o que dizer. Seus olhos lacrimejaram, mas as lágrimas não escorreram muito antes de congelarem em seu rosto.

Não. Não Lorenzo. Ele era um líder excepcional. Ele tinha sido a primeira pessoa a dar uma chance a ela no clã. Ele tinha seus modos particulares em como a tratava na vida particular, mas nunca tinha a desmerecido profissionalmente. E por mais triste que soasse, ela sabia era o melhor que poderia esperar dele. De qualquer um.

Já era demais.

— LORENZO!

— Se cuide.

Ela só entendeu as últimas palavras por ler o que os lábios dele tinham dito. Então, Lorenzo levantou o mosquete e sumiu para dentro da névoa.

Bianca tentou ir atrás dele, imediatamente, mas por algum motivo ele parecia ter mais resistência à névoa que ela. O vento era muito forte e o frio estava começando a fazer os pulmões de Bianca doerem.

Ela se sentiu zonza. Bianca viu um gladiador se aproximando, mas não conseguia mirar, e deu três tiros cegos antes de conseguir acertá-lo.

A caçadora tinha balas em uma bolsa transversal, mas seus dedos estavam dormentes demais e ela não conseguia abrir a bolsa de balas.

A garota segurou o cano da arma. Se não pudesse atirar com ela, iria bater. Ela respirou fundo, o que doeu, mas se manteve firme onde estava, esperando o próximo fantasma chegar. Se caísse, cairia lutando.

E ela esperou. Esperou e esperou a morte chegar, ainda teimando com a bolsa de balas, sabendo que estava cumprindo seu dever. E então, ela viu.

Mina Murray.

A fantasma estava bem ali. A olhou diretamente nos olhos, e parecia ensandecida. Ela deveria saber que Lorenzo estava no centro. Iria tentar chegar até ele.

— Não!

Bianca forçou os dedos a lhe obedecerem, enfiando uma mão desajeitada dentro da bolsa, pronta para matar Mina se fosse necessário.

Então o Coliseu explodiu.

Ou ao menos foi o que Bianca pensou ao ser lançada vários metros para a frente por uma forte onda de ar gelado. Ela bateu as costas em uma parede de pedra e caiu no chão, sentindo o corpo doer de cima a baixo. Sua arma e as balas tinham sumido no impacto e, ela percebeu, Mina também.

E a névoa. A névoa tinha desaparecido.

— Não acredito… — ela se apoiou no chão, sentindo o corpo reclamar de dor. — Ele conseguiu.

Lorenzo. Precisava ser se ele estava bem.

Bianca ficou de pé, se apoiando na parede e tentando entender onde tinha se machucado. Tinha caído em cima de um dos pés e ele doía bastante, mas não parecia quebrado. Seu braço doía muito também, mas era só o impacto. Todo o lado direito de seu corpo reclamava. Ia ter muitos hematomas, mas fora isso, parecia que estaria bem. Sua perna tinha voltado a sangrar onde tinha se ferido, agora que a temperatura começara a subir para um nível normal. Isso era bom, certo?

— Lorenzo. Lorenzo.

Bianca deixou o nome do líder povoar sua mente. Ela percebeu naquele instante que nunca antes tinha o chamado pelo nome, e céus, não queria perder a oportunidade. Não queria…

A caçadora foi aos tropeços e apoiando onde dava caminhando para onde tinha visto o líder sumir. Ela chamava por ele, não conseguia ouvir resposta, e queria achar que era só porque estava longe dele, não porque ele não podia responder.

Por Deus, que ele pudesse responder. Por favor, que pudesse…

Ela o encontrou depois de vagar por três minutos. Ele estava ajoelhado em frente a uma mesa baixa, desmaiado com a cabeça deitada na mesa. O mosquete estava caído em seu lado, e haviam tigelas, plantas e velas no chão, além de marcas de tiro.

— Um altar… — ela sussurrou.

Algum tipo de ritual tinha causado isso e Lorenzo destruíra a mesa.

A que custo?

— Lorenzo?

Bianca se arrastou até ele e se ajoelhou ao lado do líder, passando uma mão nas costas dele com o coração acelerado. Não o vira responder. Não o via se mexer ou respirar. Não o via reagir.

— Lorenzo, por favor. Lorenzo?

Ela passou uma mão sobre o rosto dele. Estava frio como uma pedra de gelo, frio demais para alguém suportar. Ela viu uma pequena névoa branca sair da boca dele e respirou aliviada, sabendo que ele estava vivo. Mas frio daquele jeito não dava para saber por quanto tempo.

Ela olhou em volta, desesperada. A única coisa que tinha por perto para esquentá-lo eram as velas e a toalha da mesa.

Ia ter que servir.

Bianca puxou a toalha, enrolando o líder nela. Ela sabia que Lorenzo fumava e que conseguiria pegar um isqueiro no bolso dele. A garota acendeu algumas das velas, a colocando sobre a mesa, e se sentou à frente dela, puxando Lorenzo para perto e o abraçando em seu colo.

Não conseguia pensar em outra maneira de mantê-lo aquecido agora e não conseguiria carregá-lo até a saída. Precisava que ele conseguisse ao menos caminhar para fora. Tinham que levá-lo para a Capela Sistina, e rápido. Ele precisava se sentar à frente da lareira. Ele precisava de uma sopa quente.

Mas Bianca estava sozinha. E a cada segundo, Lorenzo morria mais em seus braços.