Eles estão vindo, rastejando a partir do canto
E tudo que eu sei é que eu não me sinto seguro
Eu sinto uma batida no meu ombro
Eu me viro em um estado alarmante
Mas estou perdendo minha mente?
Eu realmente acho que sim
Não uma criatura à vista
Mas o que você não sabe é que
Nightmare — Set it Off
Roma, Estados Papais
19 de Outubro de 1818
Existe um curioso limbo entre a consciência e a inconsciência. Uma das formas que ele se manifesta é através da terrível capacidade de ouvir tudo que acontece ao seu redor, mas estar muito fraco para abrir os olhos ou responder e deixar as pessoas ao seu redor saberem que você está bem.
Lorenzo passou por isso pelo que pareceram a ele horas inteiras.
Ele não se lembrava bem do que tinha acontecido. Ele entrou na névoa. Estava frio e. quanto mais ao fundo, mais esfriava. Era terrível. Mas ele continuou indo, mesmo que seu corpo gritasse, que suas roupas congelassem. Mesmo que ele preferisse estar morto a seguir em frente. E embora não conseguisse ver o que estava à sua frente, ele viu luzes, e simplesmente atirou.
Alguma pressão o jogara no chão. Ele bateu a cabeça na mesa e desmaiou, não sabia por quanto tempo, até acordar… preso?
Não, não era uma prisão. Era um abraço. Estava frio, tão frio… Havia uma fonte de calor ao seu lado, e a intenção do abraço claramente era aquecê-lo. Sua cabeça doía, e seus ouvidos estavam afetados por alguma pressão. Ele não conseguia ouvir nada, e mal conseguia respirar. Seu pulmão doía.
Ele se encolheu, percebendo de repente que começara a tremer. A pressão em seu ouvido começou a diminuir, aos poucos, e ele começou a ouvir uma voz distante. A voz o chamava em tom choroso, pelo nome, e parecia muito assustada.
Francesca?
Não… Não era ela… Era…
Bianca.
— Lorenzo, por favor, por favor…
Ele sentiu o ar faltar na garganta. Ainda não estava completamente consciente. Estava zonzo, não conseguia se mexer e não conseguia encontrar forças para dizer alguma coisa. Bianca estava desesperada e ele não conseguia dizer a ela que estava bem. Que ia ficar bem, só precisava continuar se aquecendo mais um pouquinho… Só mais um pouquinho…
Depois disso, tudo aconteceu em lapsos. Ele tinha buracos em suas memórias nos quais perdera a consciência, mas se lembrava de algumas coisas. Se lembrava de ouvir as vozes de Francesca e Pietra, e de ficar muito aliviado em saber que as duas estavam bem. Se lembrava de ser puxado para cima, de discutirem que ele não estava consciente, e de ter tentado dizer que conseguia ouví-las, sem sucesso. Seu corpo ainda não o respondia.
Se lembrou de ser carregado, de se sentar em uma carruagem, e depois de mais nada.
Até agora. Ele acordou aos poucos, tendo primeiro consciência de uma forte fonte de calor próxima dele e depois de vozes femininas agitadas. O que quer que estivesse enrolado nele antes se fora, e havia sido substituído pelo que parecia um grosso cobertor.
Lorenzo abriu os olhos. À sua frente havia uma grande lareira acesa com um caldeirão de alguma coisa cozinhando nela. Cheirava a sopa.
Ele tentou se sentar e percebeu, feliz, que dessa vez seu corpo o respondeu. Na verdade, estava muito bem. Completamente recuperado, como se nada tivesse acontecido.
— Enzo?
Lorenzo se virou, soltando o cobertor. Estava ficando até com calor agora. O que quer que Bianca e as meninas tivessem feito por ele tinha funcionado perfeitamente.
Era Francesca que estava sentada ali ao lado. Ela se levantou da cadeira às pressas e foi até ele, o abraçando, gesto que ele respondeu ainda meio atordoado. Percebeu naquele momento que não sabia onde estava. Não era sua casa, e não era a Capela Sistina ou o Porão dos Da Vinci.
— Cesca, o que aconteceu? Que lugar é esse?
Quem respondeu foi Pietra. Ela saiu de uma porta ao lado, carregando o mosquete de Lorenzo. Bianca e uma outra mulher que o líder não reconheceu vieram atrás dela.
— É uma das tavernas da cidade. Queríamos te levar pra Capela, mas achamos que você ia acabar morrendo congelado no meio do caminho. Então achamos a taverna aberta e pedimos pra senhora deixar você se acomodar na frente da lareira. Isso foi na madrugada passada.
Lorenzo olhou surpreso para o relógio. Eram duas da manhã do dia vinte e um, então.
— Alguém avisou…
— ...seus pais? Eu. Mas não fomos até a Igreja ainda.
É claro que não. Tinham muito a explicar. Antes de entrar no tópico "por que três mulheres sem conhecimento da Ordem Secreta estavam caçando fantasmas no Coliseu". era melhor ter certeza de qual seria o destino do líder do clã. Tudo seria muito mais complicado se Lorenzo não tivesse sobrevivido.
Ele olhou para a mulher que entrara junto com as caçadoras. Ela tinha um sorriso doce no rosto, e trazia consigo toalhas, uma bacia com água e uma tigela.
— Parece estar bem melhor, senhor da Vinci.
Lorenzo olhou para Bianca. Não sabia o quanto elas tinham contado, então não sabia o que podia falar.
— É. Estou mesmo, completamente recuperado. Só precisava me aquecer.
Ele respondeu ainda olhando para Bianca. Ela fez um movimento bem pequeno de cabeça, quase imperceptível, e Lorenzo soube que isso era tudo que devia dizer. A mulher foi até a lareira, encheu a tigela de sopa e o entregou. Isso acabou fazendo Lorenzo a olhar.
— Não precisa me dar os detalhes, senhor da Vinci. Todo mundo percebeu que aconteceu alguma coisa no Coliseu. Tenho certeza de que o senhor e as senhoritas preveniram algo muito ruim de acontecer.
Bem, então ela não era do tipo que fazia perguntas. Melhor assim. Ele agradeceu a sopa e começou a tomar. Engolir algo quente estava sendo ainda melhor do que tinha imaginado que seria, mesmo que já não sentisse frio. Era como se estivesse colocando o resto de sua saúde no lugar.
— Devíamos ir para a Capela — Pietra sugeriu, enquanto Lorenzo comia.
Ele pensou em perguntar o porquê, mas não precisou. Relatórios, guardar as armas, e com certeza Francesca o faria ficar lá até que chamasse um médico, mesmo que ele se sentisse melhor.
— Deveríamos — o líder concordou, terminando a sopa o quão rápido pode. — Muito obrigado, senhora. Me certificarei de que a Igreja lhe envie uma bonificação.
A isso, a mulher fechou a cara. Ela recolheu a tigela e entregou as toalhas e a bacia de água para que ele se livrasse do excesso de suor.
— Não ouse, senhor da Vinci. Foi um favor. Não se paga favor.
Ele poderia ter discutido, e geralmente teria sido bem insistente, mas apesar de saudável estava muito mentalmente cansado para isso. Ele apenas sorriu e concordou.
— A sopa estava maravilhosa — ele agradeceu, entregando a tigela para ela. — Mais uma vez, muito obrigado.
E assim, ele saiu da taverna para descobrir exatamente em que parte da cidade estava.
As três caçadoras ainda ficaram mais um tempo lá dentro, se despedindo. O suficiente para que ele percebesse que estavam a poucas quadras da Capela. Podiam ir a pé.
Lorenzo respirou fundo. O ar da noite não estava mais tão gelado. Ainda um pouco mais frio que o comum para a época do ano, mas algo que poderia ser confundido com um simples evento aclimático. Agora, porém, ele sabia que a origem da temperatura incomum era outra.
As caçadoras saíram da taverna. Lorenzo abriu um sorriso pequeno, apreciando o fato de que estava vivo depois de tudo que acontecera, sendo que realmente não tinha achado que fosse estar. E isso graças a elas. Unicamente a elas.
Ele se virou para as três.
— Esperem. Antes de irmos… Eu quero agradecer.
Lorenzo coçou a garganta. Essas coisas não eram fáceis para ele, mas ele era suficientemente nobre para atender a esse tipo de formalidade. E, bem, não era como se estivesse agradecendo qualquer coisa. Elas tinham-no salvo a vida. Agradecer era literalmente o mínimo que ele podia fazer.
— Vocês nem precisavam estar lá. A igreja vai excomungar vocês, e é minha culpa. Eu…
— Lorenzo, não seja arrogante — Pietra comentou. — Não entramos naquele Coliseu por sua causa. Entramos porque se dependesse só de você a cidade inteira estaria condenada.
O líder abriu a boca, incrédulo, mas logo entendeu o orgulho de Pietra em não querer admitir que se preocupara com ele. Ele riu, baixinho, e deu de ombros, começando a caminhar em direção à Capela.
— De tudo isso, só lamento que Mina tenha escapado — ele acrescentou.
— Eu sei… — Bianca respondeu. — Ela estava bem ali, do meu lado. Mas o frio era muito forte e eu não tinha mais balas na arma. E então tudo explodiu e…
— Você a viu?! Quando estava sozinha?!
Lorenzo sentiu o coração saltar. Ele a deixara sozinha. Já tinha sido uma decisão péssima quando pensou que Bianca teria que lidar com fantasmas por si, mas pensar que Mina a encontrara e que ele não estava lá…
— Todas nós vimos — Francesca comentou.
Lorenzo sabia que ela estava dizendo isso para tentar acalmá-lo, mas não era muita ajuda. Na verdade, se isso fazia algo, era piorar tudo. E para encerrar, ele escolheu esse momento para olhar para a prima e ver que o vestido dela estava rasgado e sujo de sangue na altura da cintura.
— Cesca…
— Enzo, é sério. Estamos todas bem. Salvamos a cidade. Ainda precisamos encontrar Mina? Precisamos. Mas uma coisa de cada vez. Por favor, será que podemos só saborear a vitória e deixar o que poderia ter acontecido para lá?
Ele não disse mais nada, mas sua mente ainda estava trabalhando nisso. Se sentia péssimo. Miserável, quase. No que estava pensando quando as levara com ele? Tudo bem, ele sabia que sem elas lá para dividirem a atenção dos fantasmas ele não teria durado muito além da entrada. Mas qualquer coisa que tivesse dado minimamente errado era, agora, responsabilidade dele.
Lorenzo suspirou. Não queria render o assunto agora, ainda estava absorvendo tudo que tinha acontecido. Ele continuou o caminho até a Capela, vazia a essa hora, e dali abriu a porta para que as garotas entrassem no porão dos Da Vinci.
Ele precisava era de um bom tempo em um divã da biblioteca, isso sim. Tinha ficado apagado por mais de um dia e ainda se sentia cansado. Como isso era possível? Talvez se recuperar de hipotermia fosse, por si só, um processo cansativo, afinal de contas.
O líder seguiu atrás delas, alongando o pescoço e olhando para a parede, distraído. Francesca tinha razão. Muita coisa poderia ter dado errado. Algumas certamente iriam. levando em conta que invariavelmente a Igreja iria descobrir a participação das garotas na caçada. Mas, por agora… Por agora tinham impedido Roma de ser tomada por fantasmas e muita gente de morrer. Podiam descansar a aproveitar isso. Podiam se sentir como heróis por um dia. Podiam…
Podiam…
Ele perdeu a linha do pensamento. Havia algo de errado na parede da entrada do porão. Ele olhou para o corredor, ao longe, vendo as três conversando umas com as outras. Não haviam outras luzes acesas no porão, então era fácil assumir que apenas os quatro estavam ali.
Lorenzo voltou o olhar para os símbolos pintados na parede. Ele era simbologista. Ele tinha pintado grande parte daqueles símbolos com as próprias mãos. Não ia fingir entender que tipo de bênção divina funcionava neles, era coisa dos bispos que abençoavam os sigilos, mas os símbolos tinham uma espécie de vida própria. Eles se ofuscavam ou se destacavam em determinadas situações. Às vezes mudavam de lugar. Naquele momento, a configuração da parede estava diferente. E Lorenzo sabia exatamente o que aquilo significava.
— Uma delas está possuída… — ele sussurrou.
O líder sentiu o sangue gelar. Ele olhou para as três, novamente. Bianca, parecendo tranquila e um pouco cansada. Francesca, com a mão casualmente pousada sobre o ferimento supostamente causado por Mina. Pietra, carregando a bolsa de armas no ombro e um mosquete em uma das mãos. Todas elas tinham visto Mina, em algum momento.
— Não…
Podia ser qualquer uma delas. Podia ser qualquer uma e ele não iria saber até que fosse tarde…
A sopa se revirou em seu estômago. Ele levou a mão ao cinto, mas não tinha nenhuma arma lá. Ele não tinha como se defender… Ou como defender as outras duas.
— Enzo?
Olhar para elas agora era como um conto de terror. As três pareciam normais. Bianca serena, mas um pouco preocupada; Francesca claramente em vias de ir arrastá-lo pela mão; Pietra não dando a mínima para o que acontecia…
As armas. Ele precisava tirar as armas de perto das três.
— Ah. Oi. — ele respondeu, pigarreando um pouco. — Desculpe, acho que tive uma breve recaída.
Minta, Lorenzo. Minta melhor.
Ele abriu um sorriso simpático.
— Nada que um tempo na frente da lareira não ajude. E… você tem razão, Cesca. Vamos comemorar hoje. Amanhã eu me preocupo com o resto.
— Enzo…
O líder chamou as caçadoras e foi caminhando para a biblioteca. Precisava de um plano. Precisava de um plano agora… Precisava pensar.
Ele abriu a porta para elas como costumava fazer por gentileza, mas discretamente trancou a fechadura e guardou a chave no bolso depois de passar.
— Senhorita da Vinci… Pode me entregar a bolsa agora — ele pediu, estendendo a mão para a bolsa de armas.
— Ah… Eu tinha esperança de poder ficar com alguma dessas de presente — Pietra resmungou, entregando a bolsa para Lorenzo.
O curioso era que, sim, em outras circunstâncias, ele daria uma para ela. Ela merecia. Mas agora…
— Isso não é brinquedo. Eu vou colocar no lugar. Vocês esperem aqui.
E ele saiu para a porta dos fundos, para a sala da Ordem, antes que elas pudessem perceber como ele estava alterado.
Lorenzo começou a guardar as armas no piloto automático, a mente dando voltas no que fazer com as três lá em cima. O simples fato de tê-las deixado lá, sabendo que uma delas representava risco às outras duas, o deixava nervoso. Mas o que ia fazer? Dizer a elas que sabia que uma estava possuída? Perder o elemento surpresa?
Não. Não, se fazer de desentendido tinha sido a melhor ideia. O que precisava era de uma forma de descobrir… De descobrir…
Droga… Não conseguia pensar! Não era justo, nada disso era! Elas tinham o salvado a vida! Francesca, sua irmã que fora para protegê-lo; Pietra, que nem queria estar lá e fora convencida pelas palavras dele; Bianca, que nem por um instante duvidara de seu dever, e o aquecera enquanto o frio tentava matá-lo…
Não podia simplesmente… Não podia…
— Lorenzo, pense. Calma… Mantenha a calma… Você precisa respirar…
Ele respirou fundo uma vez. Outra. Mais outra. Tudo bem, era só se acalmar. Não significava que estava tudo perdido. Ele era parte da Ordem Secreta há anos. Se tinha alguém que podia descobrir qual das três estava possuída e salvá-la, era ele.
Salvar. Isso. Ninguém ia morrer sob sua responsabilidade.
Ele foi até uma das pias próximas e lavou o rosto, tirando o suor nervoso que tinha começado a escorrer. Então começou a correr pelos suprimentos da ordem, procurando algo que lhe pudesse ajudar.
Não podia demorar muito por lá ou elas ficariam desconfiadas. E se a caçadora errada ficasse desconfiada, ele teria problemas.
Facas não iam ajudar, não queria machucar ninguém. Nem armas, céus, muito menos isso. Haviam outros símbolos religiosos, mas se ele tentasse colocar uma cruz na mão de uma delas e errasse a suspeita, daria tempo para a outra reagir. Precisava de algo que atingisse as três ao mesmo tempo, de maneira discreta, e que não as machucasse…
— Pensa Lorenzo, pensa… — ele murmurou, revirando baús e cristaleiras, sentindo o coração acelerar a cada segundo que passava ali embaixo.
Ele tinha que pensar em alguma coisa. Alguma…
— Água benta!
O caçador pegou um vidrinho de uma das cristaleiras. Não seria exatamente confortável fazer uma pessoa possuída ingerir um pouco, mas também não seria fatal. Certo… O que ele precisava era de uma forma de convencer as três a beberem ao mesmo tempo…
Ele olhou para outro dos gabinetes, e sabia exatamente o que fazer.
Lorenzo pegou uma garrafa de vinho tinto e a abriu, derramando um pouco pelo ralo da pia e repondo o conteúdo com a água benta do vidrinho. Então ele pegou quatro taças e subiu de volta à biblioteca.
Foi muito estranho, ele pensou, voltar e encontrar as três sentadas conversando como se nada tivesse acontecido. Ele engoliu em seco e respirou fundo. Precisava atuar. Era bom nisso. Escondia coisas das pessoas o tempo todo. Não tinha sido escolhido para ser parte de Ordem Secreta à toa.
— Ei, meninas, achei algo interessante — ele comentou, mostrando a garrafa de vinho com um sorriso no rosto.
— Uuuuuh! Então foi por isso que demorou. Perdoado — Pietra respondeu, se adiantando e pegando uma das taças.
Ele distribuiu as taças para elas, vendo Francesca pegar a sua com um sorriso e Bianca olhar meio desconfiada para a taça.
— Não vai recusar, não é, Senhorita Sartori? — ele perguntou, ainda com o sorriso no rosto. — Por favor, você me salvou de morrer. Me deixe retribuir de alguma forma.
— Bem… Ok. — ela concordou, embora ainda parecesse receosa.
Lorenzo tentou não tremer enquanto servia as quatro taças de vinho. Tentou também não olhar para elas. Seria completamente inatural. Ele encheu as taças, devolveu a rolha ao vinho e levantou sua taça. As caçadoras seguiram o gesto.
— Um brinde a termos salvado Roma hoje. Amanhã teremos com o que nos preocupar. Por hoje — ele olhou para Cesca —, comemoramos.
— Comemoramos — ela confirmou.
Eles levantaram as taças e brindaram. Então, os quatro beberam seus vinhos.
