O vento frio sopra para meu verdadeiro amor

E a chuva cai gentilmente

Eu só tive um amor verdadeiro

E em madeira verde ele jaz, morto

Quando vamos nos encontrar novamente, querido,

Quando nos encontraremos novamente?

Quando as folhas de outono que caem das árvores

Ficarem verdes e a primavera vier novamente

The Unquiet Grave — Sarah Greene

Roma, Estados Papais

21 de Outubro de 1818

O gosto forte do vinho era conhecido por atacar a garganta, de certa forma, especialmente a quem não estivesse acostumado ao álcool. Para Francesca, que bebia ocasionalmente nas reuniões de família, o sabor quente não era estranho. Estranho foi a sensação de garganta arranhada que se seguiu a isso, e então a forte queimação.

Francesca começou a tossir e deixou a taça cair no chão. Estava se engasgando… Não, sua garganta estava fechando, o que era ainda pior. Era como uma crise alérgica. Era como...

— Enzo… — ela murmurou, se apoiando na mesa próxima, tentando puxar o ar, sem conseguir.

E então o pior aconteceu.

Francesca estava se sentindo zonza. Não conseguia exatamente ouvir ou discernir o que acontecia ao seu redor. Pelo que foram quinze dos piores segundos de sua vida, ela não conseguiu respirar, até que sua garganta começou a desinchar e ela se deu conta do que estava acontecendo.

Estava ajoelhada no chão. Suas mãos estavam amarradas em suas costas. Ela piscou os olhos algumas vezes até sentir ser puxada para ficar de pé de novo.

— Tudo bem, Cesca. Nós vamos dar um jeito, eu prometo.

— Dar um jeito em quê? Lorenzo, o que está acontecendo?

Era ele atrás dela, a segurando pelos pulsos. Pietra sacara uma faca de algum lugar e Bianca segurava um livro muito pesado nas mãos. Ambas ao redor de Francesca e claramente prontas para atacar se necessário. Ela conhecia o primo o bastante para reconhecer desespero na voz dele, e sabia que a forma como as mãos dele estavam geladas agora não tinham nada a ver com o recente incidente no Coliseu.

Ele não respondeu a pergunta. Francesca não teve escolha senão seguir em frente enquanto o primo a empurrava pelo caminho. Tudo isso enquanto grunhia de dor pelo ferimento na cintura que vinha tentando fingir que não a incomodava, para não preocupá-lo. Na verdade, porém, ela não sabia como ainda estava de pé. O maldito corte ardia como o inferno…

A caçadora foi escoltada, em silêncio, até um dos escritórios próximos à biblioteca. Lorenzo a soltou lá dentro, fechou a porta e virou a chave na fechadura.

— Lorenzo? — ela chamou, segurando a maçaneta e tentando abrir a porta, sem sucesso. — Lorenzo?! Enzo, o que está fazendo? Enzo?

Mas por mais que ela brigasse com a maçaneta, acabou tendo que aceitar que estava presa ali dentro. E que ou não havia ninguém do lado de fora, ou quem estava lá simplesmente não ligava.

— Ótimo — ela murmurou. — Ótimo, e mais essa agora… O que está acontecendo?

A caçadora respirou fundo, pressionando as têmporas e se sentando em uma das poltronas do escritório. Precisava pensar. De nada adiantava ficar nervosa agora, tinha que pensar. Lorenzo jamais a prenderia em algum lugar sem um ótimo motivo para isso.

Pensar… Ela precisava pensar. O vinho tinha feito muito mal a ela, quase uma reação alérgica. Depois disso ela tinha sido enfiada sem respostas em um escritório…

Sem respostas.

— Ah, não…

Lorenzo achava que ela estava possuída. Sim, era o protocolo. Devia ter batizado o vinho com água benta, e o fato de não ter explicado nada, nem Pietra ou Bianca terem dito alguma coisa, era típico do protocolo de segurança ao redor de pessoas possuídas. Não dizer nada. Não entregar informações. Só tinha um problema bem pequenininho…

Ela não estava possuída. Caçadores eram treinados para saberem identificar possessões mesmo em situações nas quais pessoas normais não perceberiam, especialmente em si mesmos. E Francesca era boa nisso, só perdia para Bianca.

Mas então… Porque tinha reagido à água benta?

Não fazia sentido, nada fazia… E tinha certeza de que estava perdendo alguma coisa no meio do caminho.

Lorenzo tinha servido vinho para os quatro. Então… Ele sabia que algum deles estava possuído, mas não sabia qual. E agora achava que era ela.

— Mas não sou eu… E não pode ser ele, ele me disse que todos os integrantes da Ordem Secreta são imunizados a possessão no ritual de iniciação. Então…

Então isso deixava Bianca e Pietra como possibilidades. E as duas estavam sozinhas com Lorenzo lá fora.

— Essa não… Eu preciso sair daqui.

Chave. Ela tinha que achar uma chave reserva. Mas mesmo antes de começar a procurar ela já sabia que era um esforço quase que infrutífero. Lorenzo era cuidadoso. Não a colocaria presa lá dentro se fosse assim tão fácil de sair.

Ainda assim, ela revirou as gavetas, as estantes e debaixo dos tapetes, sem sucesso. Sua busca era dificultada pela dor do ferimento na cintura, e a cada segundo ela pensava que dois de seus amigos estavam em perigo, pensando estarem a salvo porque ela estava presa ali. Eles iam baixar a guarda..

— Por favor… Por favor, uma chave reserva, por favor…

Ela revirou a última gaveta e soltou um grunhido sonoro. Não tinha chave. Ela tinha que arrumar outro jeito de sair.

Sem chave, a única opção era arrombar a fechadura, mas o conjunto de gazuas que levara ao coliseu tinha sido guardado junto com as armas. Ia ter que improvisar.

Tudo bem. Era nisso que ela era boa, certo? Soluções fora do padrão esperado para problemas inesperados.

— Pense Francesca. Respiro fundo, e pense. — Ela respirou fundo duas vezes. — Para arrombar uma porta, é preciso uma dupla de gazuas. Uma peça de alavanca e uma peça para os pinos. Duas peças metálicas. Preciso de dois arames. Dois arames…

Se encontrasse dois arames, podia torcê-los nos formatos certos. Mas onde ia encontrar isso ali dentro? Ela pousou a mão no ferimento de leve, tentando controlar a dor, e de repente, percebeu.

Ela estava vestindo dois arames. Bem em seu corset.

Aquela definitivamente não era uma solução confortável, mas não estava em condições de exigir demais de suas soluções. Com alguma dificuldade, Francesca desabotoou seu vestido e desamarrou o corset, o tirando. A peça seria inútil sem os arames, então ela abotoou o vestido de volta. Ia ter que andar pela base sem corset, mas suas prioridades agora eram outras.

Francesca agradeceu internamente o seu hábito de carregar o abridor de cartas consigo, e o usou para soltar a costura da peça. Torcer os arames foi um pouco mais difícil, eram mais grossos do que ela tinha esperado e a caçadora temeu que não fossem caber na fechadura.

Mas a sorte parecia ter sorrido para ela daquela vez. A alavanca improvisada coube perfeitamente. Ela se ajoelhou na frente da porta, enfiou a gazua, respirou fundo e começou.

Arrombar uma porta era um trabalho de paciência e finesse. Francesca estava tremendo e nervosa, e isso não ajudava em nada. Mais de uma vez ela teve que parar e começar de novo. E de novo.

Paciência. Calma. Era uma pessoa explosiva, agora precisava se acalmar, ou não ia adiantar de nada. Calma.

Ela parou mais uma vez e respirou fundo. Não era uma fechadura complicada. Ela tinha aprendido com Lorenzo a abrir coisas piores. Só precisava ir com calma. Devagar.

Francesca colocou a alavanca na fechadura e puxou. Então mais uma vez começou a empurrar os pinos com a gazua improvisada. Ia dar certo. Ela só precisava de calma. Paciência. Calma…

Ela colou se aproximou da porta, ouvindo cliques, pouco a pouco estava conseguindo…

A porta se abriu.

— Isso!

Passo um, concluído. Agora ela precisava procurar Lorenzo. Não podia confiar em Bianca ou Pietra, podia ser qualquer uma das duas. Ela segurou o abridor de cartas na mão, até porque não tinha outra coisa que pudesse usar para se defender. Tirou as botas para não fazer barulho, saiu do escritório e fechou a porta atrás de si.

Onde Lorenzo estaria? Ele pensava que ela estava possuída. Devia estar em desespero, completamente desolado… E procurando uma solução. Com sorte, procurando uma solução dentro da sede. Na biblioteca, talvez?

Se saísse andando por aí podia acabar esbarrando com alguma das garotas, mas não tinha escolha. Se alguém estava possuído e Lorenzo sabia disso, ele já devia ter trancado a base, e a fechadura da porta principal era uma detector, de Jeremiah Chubb. Impossível de arrombar. Ninguém tinha conseguido até aquele dia.

Precisava contar com a sorte. Só mais um pouquinho… Era tarde. Pietra não se preocupava tanto com as pessoas, então talvez já estivesse dormindo. Era Bianca que era a incógnita. Teria se retirado ou estava pesquisando algo para tentar ajudá-la?

Isso tudo é claro sem nem levar em conta que uma delas estava possuída, e Francesca não fazia ideia de qual. Tinha que tomar cuidado. Não podia encontrar nenhuma delas antes de ter certeza de…

— Abaixe a lâmina, Murray!

Perfeito.

Francesca se virou no corredor, levantando as mãos em sinal de rendição. Bianca estava do outro lado do corredor, com uma das pistolas que Lorenzo tinha, em tese, guardado, apontada para ela.

E agora? O que ia fazer?

— Bianca… Sou eu, Francesca. Por favor…

— De joelhos! — a caçadora ordenou.

Ela não tinha tempo para isso. Droga, ela não tinha. E se fosse Bianca? Ela estaria ajoelhada na frente da fantasma com uma arma apontada para ela!

— Não sou eu, Bianca! Não sou eu, eu tenho certeza de que não é o Lorenzo, então você e Pietra…

— Não sou eu! Não sou eu, não sou!

Mas Francesca viu que Bianca não acreditava de verdade nisso. Ela parecia nervosa. Ansiosa. Duvidando de si mesma.

— Bianca…

— Ajoelhe-se! Se você não é o fantasma, não tem o que temer! Por que não ajoelha?!

— Por que se você for o fantasma vai ter me convencido a me ajoelhar com uma arma na minha cabeça! Como você pegou uma, inclusive? Lorenzo não as tinha guardado?

— Eu… Eu senti que algo parecia errado e guardei uma comigo! Eu… Eu… Não tente virar isso contra mim, Francesca, de joelhos, agora!

Bianca começara a chorar de nervosismo. Não fazia sentido. Se Bianca fosse o fantasma já teria atirado, certo? Elas estavam sozinhas ali. Ela podia dizer que tinha atirado em legítima defesa. Mas ela não estava atirando. Não estava atacando. Estava com medo tanto de Cesca quanto de si mesma.

Não era Bianca. Isso queria dizer…

— Bianca, onde estão Lorenzo e Pietra?

A caçadora apertou a mão na arma.

— Eu vou atirar.

— Bianca, eu não acho que seja você! Mas não sou eu também, e não pode ser o Lorenzo. Você sabe o que isso significa, não é? Estamos perdendo tempo aqui, precisamos nos ajudar!

Bianca ainda não parecia convencida, mas ao menos estava menos certa de que era Francesca. Isso teria que bastar. Cesca viu a caçadora engolir em seco e afrouxar o aperto na arma, embora ainda apontasse para ela.

— Lorenzo saiu. Ele foi chamado para reportar o ataque.

— A essa hora da madrugada? Bianca, é uma armadilha! Murray devia querê-lo fora da base! Ela o mandou para longe e me prendeu num quarto, assim só teria uma pessoa para tentar parar ela!

— E-Eu… A água benta! Você...

— Acredite, eu estou tão confusa quanto você está. Não temos tempo para isso Bianca, precisamos encontrar Pietra, agora! Ela pensa que eu ainda estou presa, temos vantagem!

Bianca hesitou. Francesca viu os olhos dela em dúvida, e então, finalmente, ela cedeu. Ao menos um pouco.

— Você vai na frente — Bianca disse. — Estou com a arma nas suas costas, não tente nenhuma gracinha, entendeu?

Ia ter que servir.

— Onde Pietra estava da última vez que a viu?

— Na biblioteca.

Foi o bastante. Francesca apertou o abridor de cartas na mão e saiu correndo em direção à biblioteca, sendo seguida de perto por Bianca. Talvez ainda não fosse tarde. Se encontrassem Pietra à tempo, ainda dava para impedir o que quer que estivesse acontecendo, ainda dava para salvar alguma coisa…

As duas escancararam a porta da biblioteca. E ali, parada no meio do aposento, estava Pietra, carregando um livro pesado nos braços.

Houve silêncio por um instante. E aquele breve silêncio disse tudo que as três precisavam saber.

Pietra, que em verdade era Mina agora, enfiou a mão no bolso do vestido, tirando um revólver de lá e o apontando para as duas.

Excelente. Francesca tinha sido a única a realmente devolver as armas para a bolsa quando chegaram naquela taverna?

— Eu não quero machucar ninguém — Mina disse.

O tom de voz dela era tranquilo e cauteloso, e ela realmente parecia sincera no que dizia.

— Você quer dizer mais ninguém. Lorenzo quase morreu. Francesca está ferida…

— Mas estão vivos. Por favor, não me façam atacar de novo. Já houve muito derramamento de sangue…

— Pessoas estão morrendo! — Francesca reclamou, sentindo a fúria subir pela sua espinha. — Por sua causa! Como você ousa dizer que não queria?

— Largue esse livro, Murray — Bianca ameaçou.

— Não. É sua última chance. Saiam do meu caminho.

Nem Francesca e nem Bianca se moveram. E então elas tiveram apenas tempo o bastante para correr para trás de uma mesa e a abaixar, usando de cobertura, antes de Mina atirar.

Um baque surdo indicou que Mina tinha virado uma mesa para ela também.

— Quantas balas você tem?

Bianca girou o tambor do revólver. Nada bom…

— Três.

Francesca soltou uma palavra de baixíssimo calão. A sorte não estava mais do lado dela.

— Vocês ainda podem me deixar sair! — Mina gritou, de trás de sua mesa. — Vai ser melhor para todos, sim?

— Lorenzo vai demorar? — Cesca perguntou em um sussurro.

— Ele foi convocado no Palácio do Quirinal! São três quilômetros e meio daqui!

— Isso faz muito tempo?

— Razoavelmente, mas acho que não podemos contar com ele agora…

Mais uma vez, Cesca xingou. Eram só as duas contra Pietra. Ia ter que bastar.

— Pegue. — Bianca disse, oferecendo a arma. — Temos poucas balas, você atira melhor que eu.

Ela pegou a arma, em receio. Não queria matar Pietra…

Mas um tiro ecoou e uma bala passou voando bem rente à sua cabeça, que estava na beirada da cobertura da mesa, e ela foi obrigada a aceitar que talvez não tivesse opção.

Francesca se ajoelhou e saiu da cobertura, esperando Mina se levantar. Em alguns segundos, isso aconteceu, e tão rápido quanto pode, Francesca atirou.

Ela errou. Francesca viu Bianca encolhida ao seu lado e sentiu o coração acelerar. Tinha que dar um jeito. Estava confiando nela, tinha que dar…

Foi a vez de Mina atirar. Francesca se abaixou atrás da mesa, e um dos tiros atravessou a madeira um centímetro acima de seu ombro. A caçadora rangeu os dentes e se levantou novamente, mirando na mesa de Pietra e esperando acertá-la do outro lado…

Por qualquer capricho da mão do destino, Francesca errou seus outros dois tiros. Ela e Bianca se deitaram no chão, diminuindo a área de contato, e ouviram mais quatro tiros passarem por cima delas.

E então um clique surdo de arma.

Era agora.

As duas se levantaram, saltando por cima da mesa. Mina parecia saber que lidar com duas caçadoras era um problema, ou não teria tentado prender uma delas. A mulher correu um pouco para dentro da biblioteca, sendo seguida pela dupla, e Francesca pensou que era agora. Que finalmente iam pegá-la.

— Me desculpem. Não posso deixar que venham atrás de mim.

E então, com a força extra de um fantasma, Mina chutou uma das mesas que voou na direção das caçadoras. Francesca sentiu o baque do tampo em seu estômago e sentiu o ar fugir, até bater no chão, com a mesa em cima dela. Bianca batera a cabeça no chão e estava desmaiada. Francesca também tinha batido a cabeça e não achava que fosse continuar consciente por muito tempo.

Ela estava com a visão turva e os sentidos confusos. Não conseguia se levantar sozinha, a mesa era pesada demais para manuseá-la sem a ajuda de Bianca, e ela mesma estava tonta demais.

Não houve muito que Francesca conseguisse ver depois disso. Ela ouviu a voz de Pietra cantarolando uma canção folclórica inglesa e a mulher atravessou a biblioteca, passando ao lado das duas com o livro em mãos. Depois disso, ela viu Pietra pegar um castiçal.

— Mina… Não…

— Não tentem me seguir.

A fantasma soltou o castiçal no chão, e o fogo alcançou uma das estantes do fundo da biblioteca. Então, Mina se foi.