Não desista de si mesmo
Pois todo mundo chora
E todo mundo se machuca, às vezes
Então aguente firme
Consiga conforto em seus amigos
Todo mundo se machuca
Não se entregue, oh, não
Não se entregue
Quando você sentir como se estivesse sozinho
Não, não, não, você não está sozinho
Everybody Hurts — R.E.M.
Roma, Estados Papais
21 de Outubro de 1818
L orenzo soube assim que chegou ao Palácio do Quirinal que tinha sido enganado. Não tinha ninguém esperando por ele. O local sequer estava aberto àquela hora, apesar do aviso pedir urgência. Pensar que ter ido até ali significava deixar sua prima possuída sozinha na sede com duas caçadoras não-treinadas na Ordem Secreta o deixou imediatamente desesperado.
Mesmo tendo pedido ao chofer que voltasse imediatamente, ele sabia que ia demorar para que chegasse na Capela Sistina. Até lá, algo terrível já poderia ter acontecido. Ele engoliu em seco e tentou não pensar nisso. Tentou mentalizar que Francesca estava segura presa no escritório e que Pietra e Bianca estavam seguras longe dela. Contudo, esse pensamento sumiu no instante em que ele entrou no porão dos da Vinci e viu a fumaça que saía de lá.
Isso não poderia ser boa coisa.
Lorenzo disparou escada abaixo e pegou um revólver que decidira carregar consigo, caso necessário. Logo após entrar ele percebeu que o fogo vinha da biblioteca, o que não podia ser bom considerando que livros espalhariam o fogo rapidamente. E era ainda pior quando ele se lembrava de que era onde tinha deixado Pietra e Bianca antes de sair.
— Senhorita Sartori? Senhorita da Vinci?
Talvez elas já tivessem saído, ele pensou. Talvez tivesse entrado ali à toa, e elas já estavam à salvo em outro lugar.
Devia ir embora? Devia procurar por elas em outro lugar? Havia tanta fumaça… Se alguma delas estivesse lá dentro, aquela quantidade de fumaça poderia sufocá-las. Porém se fosse até lá e elas não estivessem, então ele iria definitivamente passar mal e não poderia ajudá-las…
— O que eu faço… O que eu faço…
Tinha que entrar. É claro que tinha. Elas podiam ter saído de lá, mas outra pessoa poderia estar lá dentro, e esse era o trabalho dele como um caçador. Salvar vidas. E se elas estivessem lá dentro, poderiam… Poderiam...
— Por Deus, não… Não…
Ele começou a rezar. Murmurava um pai-nosso atrás do outro, implorando a Deus, por favor, por favor que nada ruim tivesse acontecido… Ele devia ter estado ali. Como poderia ter sido tão ingênuo ao ponto de achar que seria chamado para um depoimento no exato instante em que achara alguém possuída em sua equipe?
— Burro, burro… Você foi burro, Lorenzo… Burro!
Ele chegou na porta da biblioteca e usou seu casaco para segurar a maçaneta quente e a abrir.
Uma onda de fumaça saiu do aposento de uma vez. Lorenzo tossiu e sentiu os olhos arderem, apertando a blusa contra o rosto e tentando recuperar a respiração. Ele lacrimejou, e cambaleou um pouco, tentando enxugar os olhos. O calor estava intenso, e ele ouvia o forte crepitar das chamas engolindo a biblioteca. Ele piscou os olhos várias vezes, e olhou para dentro vendo, para seu horror, que como temia Bianca estava presa lá dentro. Mas não era Pietra com ela.
Lorenzo franziu a testa, mas não podia tentar entender nada agora. Elas precisavam de ajuda. Ajudar primeiro, pensar depois… Isso, pensar depois… Ele viu através da fumaça que Bianca se mexia, chiando e respirando com dificuldade. Estava tentando tirar a mesa de cima dela.
Lorenzo amarrou seu casaco no rosto e correu até elas, agradecendo a Deus por ter ouvido suas preces, por elas estarem perto da porta e não engolidas pelo fogo ou cercadas por ele…
O caçador foi até a mesa, a puxando para cima. A ajuda de Bianca empurrando o móvel era frágil, mas fazia uma diferença palpável e foi graças a isso que ele conseguiu colocar a mesa de pé. Ele a ouviu suspirar em alívio, mas Francesca não reagiu, e com a mesa de pé ele pode ver que a mancha de sangue do vestido dela tinha aumentado bastante. Aumentado até demais.
— Onde está a senhorita da Vinci?
Bianca teve que fazer muita força para responder, ele percebeu. Não teria perguntado se não fosse importante, mas precisava encontrá-la também… Céus, se algo acontecesse a uma delas, a qualquer uma delas… Era ele quem tinha as colocado nessa situação!
— Era ela, senhor da Vinci… Sempre foi ela…
O quê?
Ele olhou para o fogo que engolia as prateleiras, para Bianca e Francesca presas debaixo da mesa…
Bianca começara a se levantar. Ele não podia surtar com isso agora, não podia. Precisava tirar as duas dali. Ele se abaixou e pegou Francesca nos braços, percebendo agradecido que o peito dela subia e descia com sua respiração.
— Tem mais alguém na base? Consegue andar? — ele perguntou a Bianca.
A caçadora negou para a primeira pergunta, e concordou para a segunda. Embora estivesse cambaleando, conseguiu se pôr de pé. Ia ter que ser o suficiente. Ele não conseguiria carregar as duas pra fora.
Lorenzo estendeu o revólver a Bianca, e indicou o caminho com a cabeça, para que ela fosse na frente. A caçadora ergueu a arma, e Lorenzo foi caminhando atrás dela.
Talvez por estar com a adrenalina disparada no corpo, talvez por estar tão decepcionado consigo mesmo, ele quase não conseguiu acreditar quando viu que os três estavam sãos e salvos do lado de fora da Capela Sistina.
Havia um aglomerado de pessoas do lado de fora, incluindo médicos e bombeiros que tinham literalmente acabado de chegar.
— EU PRECISO DE UM MÉDICO, POR FAVOR! — Lorenzo gritou, ainda carregando Francesca.
Um grupo de médicos correu até eles, com uma maca, onde ele colocou a prima. Percebeu aterrorizado que a mancha no vestido dela tinha aumentado ainda mais, e que suas mãos estavam cobertas de sangue. O médico chamado para sua prima antes que Lorenzo saísse para a suposta reunião chegou, mas ele obviamente não conseguira entrar com o lugar em chamas.
E agora poderia ser tarde.
Não, não era. Não era. Ela ia ficar bem.
— Nós somos da Vinci — ele murmurou apressado para uma das enfermeiras que tentava limpar as mãos dele. — Qualquer atendimento, não importa o custo… O que ela precisar…
— Vamos fazer o melhor, senhor da Vinci.
Ele engoliu em seco, e ficou atordoado vendo Cesca ser carregada na maca para dentro de uma carruagem, e alguns médicos seguirem para dentro.
TInha que ir com ela. Claro, tinha que ir. Precisava se certificar de que ela ia ficar bem…
E Bianca. Bianca, Bianca… Ele se virou, vendo que ela também estava sendo atendida por um médico. Agora estava de pé sem cambalear, mas ainda não estava com uma das melhores caras.
— Senhorita Sartori!
Ele foi obrigado a aceitar que não havia nada que pudesse fazer por Francesca agora. Por mais que isso doesse, tinha que confiar que os médicos fizessem o trabalho deles… E fazer o seu próprio. E o seu trabalho, agora, era entender o que tinha acontecido. E encontrar Pietra. E impedir Mina…
Céus, ia explodir. Ele se sentou no chão e abaixou a cabeça entre as mãos, tentando controlar a respiração que começara a sair do controle. Não podia surtar agora, não podia surtar agora, não podia…
Céus… Deus o ajudasse. Ele começou a rezar de novo, a rezar com uma intensidade que não tinha rezado nem antes de entrar no Coliseu. Era a única coisa que o acalmava quando entrava em pânico, e não podia entrar. Era o líder do clã, tinha que manter as coisas em ordem. Tinha que resolver os problemas.
Pietra. Tinha que encontrar Pietra.
Ele realmente não queria incomodar Bianca agora. Ela parecia muito cansada, e pela forma como tinha se sentado no banco da carruagem de bombeiros, não queria se levantar tão cedo. A enfermeira sentada ao lado dela não parecia preocupada ou desesperada, então ela devia estar bem. E ia precisar da ajuda dela. Não ia conseguir encontrar Mina sozinho. Ou detê-la.
— Senhorita Sartori… — ele chamou, se aproximando.
A enfermeira entregou um copo de água para a caçadora e saiu, deixando que os dois conversassem a sós.
— Como está se sentindo? — o caçador questionou.
Bianca abriu um sorriso cansado.
— Bem melhor. Um pouco de água e ar fresco e um anestésico para os quadris eram tudo que eu precisava. — Então, o sorriso sumiu do rosto dela. — E a senhorita da Vinci?
— Não sei… Ela foi para o hospital. Eu devia ter ido com ela, mas…
Ele não precisou explicar. Percebeu pela expressão de Bianca que ela entendia.
Assim, a caçadora resumiu rapidamente para Lorenzo como tinha encontrado Francesca no corredor misteriosamente, sem saber como ela saíra da sala, e o encontro com Pietra que ocorrera depois.
— ...ela me possuiu para entrar na sede, mas acho que notou que eu não sabia o que ela precisava, pois deixou meu corpo para pegar o de Pietra. E quando ela saiu… Foi tão estranho, senhor da Vinci… Não foi como uma possessão normal, parecia que ela ainda estava lá… A senhorita da Vinci, sua prima, me encontrou, e eu quase acreditei que ainda estava possuída... E embora eu me lembre de tudo que fiz nesse período de tempo, não consegui descobrir nada sobre ela, nada!
— Então você não sabe o que ela queria? Ou para onde ela foi?
— Me desculpe… Eu desmaiei quando bati a cabeça no chão… Quando acordei já estava tudo em chamas, e a senhorita da Vinci estava inconsciente do meu lado, e então você chegou…
— Tudo bem. Você não foi nada além de incrível, senhorita Sartori… — ele comentou, abrindo um sorriso para ela.
E era a verdade. Apenas a verdade. Sempre soube que Bianca era forte, capaz. Sempre soube que ela era um recurso e tanto para o clã. Mas agora estava vendo que a maioria disso vinha do espírito resistente dela, e que ela mesma não se dava crédito por isso. E ela merecia.
— Temos que encontrá-la, senhor da Vinci…
— Sim. Mas por onde vamos começar?
— Você acha que ela voltaria ao cortiço?
Lorenzo negou com a cabeça. Não, ela era mais esperta que isso… Não estaria lá.
— Seria óbvio demais.
— Mas… Ela morreu lá, não foi? Eu estava pensando nisso nos últimos minutos… Seria arriscado, mas ela teve todo esse trabalho para se certificar de que não iríamos segui-la, não imediatamente. Isso não deveria ser um problema se não sabíamos para onde ela ia. Mas se o lugar fosse óbvio… E considerando que ela morreu lá, é o lugar onde sua ligação com o nosso mundo deveria ser mais forte, não é?
Lorenzo deixou o queixo cair.
Como, ele se perguntou, como Bianca tinha a audácia de pedir desculpas por alguma coisa?
— Você é uma das mulheres mais incríveis que eu conheço, senhorita Sartori — ele disse, com um sorriso no rosto.
Em instinto, ele pegou as mãos da caçadora e beijou as costas delas, o que ele notou que deixou a mulher um pouco corada. Então ele se adiantou para a frente, pegando as rédeas do cavalo.
— Senhor da Vinci! Essa é a carruagem dos bombeiros!
— Nós vamos devolver depois.
E antes que ela pudesse protestar mais ele balançou as rédeas, dando partida à carruagem. Não estavam muito longe do cortiço. Se Mina já sabia que eles iriam encontrá-la, estaria esperando por eles. Ele só tinha cinco balas naquele revólver.
— O lugar pode estar infestado de fantasmas, senhorita Sartori. Precisamos ter cuidado.
Ela concordou com a cabeça. Ainda estava com o revólver de Lorenzo, e ele a viu devolver a arma.
— Você atira melhor que eu.
Agora não era hora de discutir. Guardou a arma no coldre e respirou fundo, tentando manter a mente no lugar. Francesca estava bem, estava com os médicos. Ele não podia ajudá-la agora. Mas podia ajudar Pietra. E ela precisava. Não podia chegar tarde demais… Não podia…
Lorenzo nem esperou a carruagem parar por completo na frente do cortiço antes de descer. Bianca desceu atrás, e ele ergueu o revólver, disparando para dentro do cortiço.
As pessoas estavam adormecidas nos quartos.
— Devíamos acordar as pessoas — ele murmurou.
— E anunciar nossa chegada?
— Ela já sabe que estamos vindo. Não sabemos o que ela planeja. Temos que salvar quantas pessoas pudermos.
A caçadora concordou, enfim. Eles começaram a bater nas portas e acordar mulheres e crianças cansadas e confusas. Depois de um tempo, as próprias moradoras começaram a bater nas portas das amigas, e os dois puderam se focar no que tinham ido fazer ali.
— Senhor da Vinci, se lembra do quarto vazio? Onde encontramos…
— Sim. Vamos.
Eles seguiram pelas escadas. Lorenzo na frente, Bianca atrás. Ele com o coração na boca. E se fosse tarde demais? Poderia ser tarde demais…
Ele chegou na porta do quarto, e a chutou de uma vez.
Os instantes seguintes, pareceram se passar em câmera lenta.
Havia uma lixeira de metal com algo pegando fogo dentro dela, mas isso não era o que chamava atenção no quarto. Era Pietra, deitada na cama.
Ele observou quando Bianca disparou para dentro do quarto. Observou quando a caçadora subiu na cama e pegou Pietra nos braços. E observou quando Pietra não reagiu.
Lorenzo não soube exatamente quanto tempo ficou parado na entrada, em choque, vendo Bianca balançar a amiga nos braços, até se dar conta de que ela estava chorando.
— Ela a matou… Ela a matou, senhor da Vinci, ela está morta… Ela está morta…
Ele guardou o revólver no coldre, quase sem se dar conta. Ao se sentar na cama, ao lado de Bianca, reparou que Pietra estava com o pescoço quebrado. Algo que uma fantasma poderia facilmente fazer com um corpo que possuísse.
Queria dizer algo a Bianca. Sabia que as duas eram amigas, embora não soubesse o quanto. As duas tinham sido desprezadas pelo clã juntas, e tinham encontrado apoio uma na outra. Ele tinha visto isso. Céus, tinha agradecido que elas ficassem amigas, pois mesmo que sua relação conturbada com Pietra não indicasse, se importava com elas.
E agora Pietra tinha morrido. E era sua culpa. Ele tinha a convencido a entrar no Coliseu. Ele tinha…
— Senhorita Sartori…
Ele não sabia o que fazer. Ela chorava, e chorava, e chorava, abraçada ao corpo de Pietra, e o estômago dele começara a embrulhar, e…
Lorenzo abraçou Bianca. Não sabia o que fazer além disso, e ele percebeu, quando a caçadora começou a chorar contra seu ombro, que também precisava daquele abraço. Não achava que já tivesse se aproximado da caçadora daquela forma, mas aquilo não importava agora. Nunca achara que Bianca mereceria uma dor dessas. E pior…
Nunca se odiara tanto por ter sido ele a causar tanto sofrimento a alguém com quem se importava tanto. A causar a morte de alguém que ainda tinha toda uma vida pela frente, mas que sua existência fora efêmera… E por sua culpa.
E não achava que jamais fosse se perdoar.
