Depois de tudo o que você me fez passar

Você deve pensar que eu te desprezo

Mas no fim, eu quero te agradecer

Porque você me fez muito mais forte

Fighter — Christina Aguilera

Roma, Estados Papais

24 de Outubro de 1818

Bianca avançou pelos corredores do hospital, apertando a pilha de papéis nas mãos, ansiosa. Já se faziam alguns dias desde que ela vira o corpo de Pietra descer em um caixão. Desde então, não conseguia descansar enquanto não descobrisse porque tudo tinha acontecido. Por que logo com Pietra.

E, quem diria, ela tinha conseguido descobrir. E estava completamente atordoada.

Felizmente, os pais de Francesca não estavam ali agora. Com sorte, seriam apenas ela e Lorenzo no quarto de hospital e os três poderiam conversar sem problemas ou interrupções. Bianca bateu na porta, quase pulando de ansiedade no lugar, até que Lorenzo abriu para ela.

— Senhorita Sartori? Não estávamos lhe esperando hoje…

— Me desculpe, é muito importante… Incomodo?

— Não! De forma alguma, foi só a surpresa. Entre, por favor.

Bianca entrou no quarto muito luxuoso que Francesca vinha ocupando no hospital. Da primeira vez que estivera ali para ver a caçadora, tinha ficado um pouco surpresa com a fineza da mobília, mas estivera mais preocupada com Cesca deitada na cama em um sono profundo. Agora a caçadora já estava sentada, almoçando. Embora ainda um pouco pálida, parecia bem melhor do que na última visita de Bianca.

— Parece ter se recuperado bem, senhorita da Vinci.

— É, eu vou chegar lá — a caçadora respondeu, dando mais uma garfada em sua sopa e fazendo uma expressão de puro desagrado depois.

Francesca tinha perdido o enterro de Pietra. Bianca e Lorenzo tinham sido os únicos lá que realmente a conheciam. Alguns outros caçadores tinham ido por pura cortesia, mas tanto Bianca quanto Lorenzo sabiam que essa cortesia só se estendia porque os detalhes daquela noite no Coliseu não tinham escapado ainda. Quando viessem à tona, os quatro seriam taxados como rebeldes e excomungados. Nenhum da Vinci seria cortês a eles depois disso.

Lorenzo e Francesca ainda tinham suas famílias, mas tendo que esconder sua relação com uma rica família italiana, Bianca duvidava que alguém de sua própria fosse comparecer ao funeral dela. Sua morte seria, de qualquer forma, vazia. Devia fazer algo com sua vida, então.

— Me desculpe incomodar, senhorita da Vinci… Mas andei pesquisando e observando algumas coisas nos últimos dias… Eu posso dar uma olhada em seu ferimento?

Cesca olhou surpresa para Bianca, e então para Lorenzo, mas acabou concordando. Bianca a ajudou a levantar alguns dos curativos e olhou por um bom tempo para os cortes que estavam ali.

E então percebeu que estava certa.

— Temos que conversar. Senhor da Vinci, a porta está trancada?

Ela reparou que o rosto dele parecia preocupado. Também estaria.

— O que aconteceu? — o caçador perguntou, indo até a porta e virando a chave.

Francesca, que tinha colocado a sopa de lado para deixar Bianca olhar seu ferimento, não a pegou de volta.

— Eu descobri o plano de Murray. Ou… Ao menos uma parte dele.

O silêncio no quarto pesou. A caçadora pegou os papéis que vinha carregando e entregou a Lorenzo, que se sentou ao lado de Francesca para que os dois pudessem ver os escritos juntos.

— São minhas anotações — ele comentou. — Não entendo… O que isso significa?

— Lembra-se de como estávamos divididos em duas pesquisas diferentes? Os símbolos e a pintura? Até depois do… funeral… — Bianca engoliu em seco. — Eu ainda não conseguia entender como as duas coisas poderiam estar interligadas. Depois de pensar um pouco, eu concluí que não estão.

Os caçadores levantaram o olhar dos papéis para ela. Bianca sabia como isso tudo soava. Mas tinha muita certeza do que estava dizendo.

— O que quer dizer? Estava tudo no mesmo lugar — Francesca comentou. — Eu mesma cortei o papel de parede, encontrei a pintura…

— Sim, eu sei. O que quero dizer é que tem um motivo pelo qual nunca conseguimos desvendar esses escritos. Acredito que eles sejam só símbolos aleatórios. Um monte de coisas aleatoriamente rabiscadas para nos distrair do objetivo principal de Mina. Perdemos muito tempo tentando decifrar os símbolos… E nos esquecemos de um detalhe. Bem… Nós três nos esquecemos. Pietra ainda sabia.

Ela viu o olhar de Francesca se anuviar, sem foco, e soube que ela tinha percebido.

— O livro… — a caçadora murmurou.

— Mina Murray queria aquele livro. — Bianca se levantou. Estava ansiosa. Não conseguia ficar sentada agora. — Aquele exato livro que, por uma não questionada coincidência, tinha a exata mesma imagem dela do que a pintura que encontramos. E como foi Pietra quem o encontrou na estante, quem estava o lendo nas horas vagas por pura curiosidade de descobrir os podres de nossa igreja… Era dela que Murray precisava. E depois que não precisava mais, a matou para que não nos contasse nada. E colocou fogo ao livro, para que não descobríssemos o que ela tanto queria nele.

— Ela… Nos usou? — Lorenzo perguntou, parecendo em um forte estado de negação.

Bianca não o conhecia tão a fundo, mas conhecia o bastante para saber que ele estava prestes a ficar muito, muito bravo.

— Bem… Sim. Eu consegui recriar os passos dela, ou ao menos eu acho que sim… E tudo indica que ela tinha isso em mente desde o começo.

— Eu preciso de um charuto — o caçador comentou, enfiando a mão no bolso do casaco.

— Senhorita Sartori… — Francesca chamou, ainda lendo os registros de Lorenzo. — Você diz ter recriado os passos dela. O que acredita que tenha sido seu plano?

Bianca ainda não tinha tanta certeza sobre até onde tinha acertado. Era tudo baseado em observação de detalhes e dedução, e embora fosse realmente boa nisso, não eram coisas que pudesse provar. Eram apenas modos de ligar os acontecimentos que faziam sentido, mais do que qualquer outra teoria que tivessem montado antes.

Ela sabia que Francesca tinha um certo apreço por métodos científicos, e não sabia se a caçadora aceitaria uma hipótese sem provas. Mas era tudo que tinham agora.

— Eu não posso provar nada do que estudei, senhorita da Vinci…

— Francesca está bom — a caçadora comentou, sem tirar os olhos dos papéis. — Depois de tudo que passamos juntas parece uma formalidade muito tola nos tratarmos pelo sobrenome.

— Ah, sim. — Bianca ficou levemente corada. Não estava acostumada a receber esse tipo de tratamento íntimo de pessoas do status de Francesca, não importando o quão legal essas pessoas fossem. — Sim, eu concordo.

— Quanto a provas… Toda prova parte de uma hipótese. Temos que ter por onde começar. E há o suficiente de da Vinci em mim para considerar deduções como verdades, se forem boas o bastante para isso.

Lorenzo voltou até elas. Ele parecia um bocado estressado. Bianca não o culpava por isso.

— Conte-nos sua versão da história — Lorenzo pediu.

Seria como recriar os passos da vilã. Contar uma história.

— Certo. Se eu estiver correta, Mina vem planejando isso há muito mais tempo do que imaginamos. Acredito que ela mesma tenha colocado os símbolos e a pintura por debaixo do papel de parede do cortiço, e a julgar pela qualidade da tinta, isso pode ter acontecido há vários e vários anos. Quando acreditou que estava pronta, ela começou a testar a última parte de seu plano. Todos os símbolos que cravou no corpo daquela garota que você exorcizou eram ela tentando descobrir uma forma de cravar feitiços no corpo de alguém.

— Cravar feitiços? — Francesca questionou.

— Símbolos. Com uma arma específica, ritualística provavelmente, acredito que se possa amaldiçoar alguém se o símbolo certo for desenhado. Era isso que ela estava testando em Mirella, eu acredito. E depois de conseguir o que queria e comprovar sua teoria, ela cravou uma série de outros símbolos na garota para acobertar o que tinha feito. Então a possuiu e esperou que você chegasse, senhor da Vinci.

Lorenzo levantou uma sobrancelha.

— Ela queria que eu a visse?

— Acredito que sim, até porque foi se lembrar do rosto dela que nos fez nos ater à pintura. E foi a pintura que nos levou ao livro.

— Aquele livro relata como ela morreu — Francesca comentou. — Quando, onde… E até onde eu me lembro, dizia também quem mais morreu junto com ela, em que circunstância, e onde todos os tesouros deles foram parar. Mas eu não me lembro de nenhuma das informações…

— Pietra se lembraria — Bianca concluiu.

E naquele instante ela notou que não precisava explicar mais nada. O resto era claro. Bianca sabia, pois Lorenzo a contara, que Mina tinha berrado a ele que conhecia seus segredos. Esses segredos eram, com certeza, a Ordem Secreta.

— Foi ela quem tirou a Ordem do caminho, não foi? — ele perguntou. — Mandou cartas a todos, menos a mim. Eu fui o único que ficou na cidade.

— E quando ela armou o cerco no Coliseu, ela sabia que você confiaria em nós para lhe ajudarmos, ainda mais por ela ter sido vista por lá — Cesca completou. — Foi o plano dela para colocar os caçadores envolvidos no caso dela no mesmo lugar…

— ...Então, ela me possuiu. E descobriu em minhas memórias que Pietra era quem ela estava procurando. Me usou como Cavalo de Tróia para entrar na base, encontrou Pietra, encontrou o livro, colocou fogo em tudo para nos atrasar e fugiu para conseguir o que queria. O que nos traz à última peça do quebra cabeça...

Bianca pegou as anotações de Lorenzo. Ele tinha separado os símbolos que tinham encontrado na casa e na garota nos diferentes conjuntos culturais que conseguira. Gregos, celtas, egípcios, eslovenos, vários outros grupos e até uns sem identificação. No meio dos papéis, havia um em branco.

— O que é isso? — Lorenzo questionou.

A caçadora pegou esse papel e foi até Francesca, pegando também um carvão. Colocou o papel ao lado do ferimento dela e escreveu por um tempo. Havia algo ali. Antes encoberto pelo sangue, e então pelos pontos tortos dos médicos. O tipo de coisa que homens de ciência deixavam passar despercebido, e que Francesca e Lorenzo não tinham visto por não se interessarem pelo que estava debaixo dos curativos, desde que estivesse se curando.

Então ela viu seus colegas caçadores empalidecerem, e entendia perfeitamente o medo dos dois.

— Ela… — Cesca engoliu em seco. — Ela me amaldiçoou?

— Não foi só você. — Bianca desceu uma das luvas enormes que usava, mostrando um ferimento atrás de um braço.

Ela precisara de um espelho para conseguir ler o que estava ali. Mina tinha cravado uma outra palavra ali, onde um humano não possuído jamais conseguiria se virar para ler.

— Então foi por isso que você não soube dizer se ainda estava possuída por Mina… — Cesca murmurou, surpresa.

— ...e por isso você se engasgou com a água benta, mesmo não estando possuída.

— Espera — Lorenzo as interrompeu. — Você disse "lâmina especial" antes, não disse?

— Ah... Sim.

— Merda — ele sussurrou. — Merda, merda, merda… Como eu pude… Como…

Lorenzo se levantou. Ele soltou um palavrão atrás do outro, começando a andar em círculos pelo quarto. Indignado. Possesso.

— Enzo? — Francesca chamou.

Francesca não podia se estressar. Ela estava se recuperando ainda.

Céus.

— Senhor da Vinci… — Bianca correu até ele, mas não fazia ideia de como poderia acalmá-lo. Não sabia o que estava acontecendo e não o conhecia tanto assim.

— Estou bem, estou bem! Merda… Merda!

Ele apagou o charuto e se sentou de volta na cadeira, com o rosto entre as mãos. Bianca não sabia o que fazer. Ela olhou para Cesca, que levantou um pouco a mão para ela, a pedindo para esperar.

E Bianca esperou. Esperou por algum tempo, até Lorenzo parecer se acalmar um pouco. Então. para a confusão dela, ele começou a desabotoar o casaco. E então a blusa por baixo.

A caçadora corou um pouco. Que despudor era esse?

— Senhor da Vinci, o que está…

As palavras se perderam quando ela viu o que ele mostrar. No lado esquerdo do peito dele logo abaixo do ombro, havia uma palavra gravada à faca. Ela não sabia o que era. Não reconheceu a língua. Mas a coincidência estava clara.

— Enzo? O que é isso?

— Enoquiano. Significa "proteção". É gravada em todos os participantes da Ordem Secreta no dia da iniciação. Eu ia fazer em você, Cesca, porque ela protege o portador de possessões. Foi como eu tive certeza de que não era eu possuído no dia em que voltamos do Coliseu. Eu não posso ser possuído. Mas eu não pude fazer, Cesca, porque as lâminas utilizadas e o procedimento correto só são de conhecimento do Colégio de Cardeais… Então eu esqueci o assunto. — Lorenzo começou a abotoar as roupas novamente. — Se é possível abençoar alguém com palavras gravadas por uma lâmina ritualística… Murray pode sim ter descoberto como amaldiçoar. Você tem razão, senhorita Sartori.

Bianca pegou as duas folhas com as palavras escrita nela e em Francesca e estendeu para Lorenzo.

— Você sabe o que está escrito?

Ele olhou o papel por um segundo e suspirou.

— Não. Reconheço o alfabeto, mas não corresponde a alguma das línguas que eu fale que o usa.

Bianca não conseguiu esconder a decepção. A biblioteca dos da Vinci tinha pegado fogo, e mesmo que todos os livros que tinham lá ainda estivessem inteiros, não seria sábio voltar lá com uma excomungação pairando em suas cabeças. Lorenzo falava sete línguas diferentes. Era a última esperança dela. Temia buscar um tradutor e a história acabar se arrastando até a igreja. Eles tinham ouvidos em todos os lugares.

— A questão é que com Francesca marcada para reagir como se estivesse possuída, e eu marcada para achar que estava, ou algo parecido, nenhum de nós desconfiou de Pietra. E depois de ler o que precisava, ela se livrou das provas.

Houve um período de silêncio. Lorenzo ainda encarava o papel, e levou um tempo até ele quebrar o silêncio.

— Nunca estivemos à frente dela, estivemos? Ela nos guiou o tempo todo. Feito gado.

Ele começou a apertar as mãos com força, e Bianca agradeceu internamente ao ver Francesca tirar os papéis das mãos dele. Era a única pista que tinham. Não podiam deixar isso se perder agora.

— Não terminamos ainda!

— Como não, senhorita Sartori? Ela conseguiu exatamente o que queria de nós, sem fazer força, sem se importar com danos colaterais…

— Não podemos ter terminado! — Ela se levantou, de uma vez. — Lorenzo da Vinci, não ouse me dizer que terminamos! Vamos ser excomungados, os três! Eu não vou voltar para casa fracassada, senhor da Vinci. Você pode se contentar com isso se quiser, mas eu tenho orgulho na pele para voltar para minha família como nada menos do que uma vitoriosa! Você quer se deitar, rolar e desistir? Faça isso sozinho.

Lorenzo abaixou a cabeça. Bianca sentiu o sangue ferver de uma forma estranha. Nunca tinha falado com ninguém desse jeito, especialmente alguém que tinha feito tanto por ela… Mas não podia deixar isso morrer assim. Não. Sabiam o que Mina tinha feito, mas o que ela queria ainda era um mistério. E enquanto ela não terminasse, ainda podiam impedir.

— Bianca?

A caçadora suspirou, ainda com uma adrenalina estranha correndo no sangue.

— Pois não?

— Acho que eu sei que língua é essa.

Até Lorenzo se virou para Francesca depois disso. Bianca a olhou com um brilho esperançoso nos olhos. Por favor, que soubesse… Qualquer pista era pista…

— O que é?

— Eu não tenho certeza… Mas andei lendo sobre Vlad e Mina no tempo livre. Nada que Lorenzo já não tenha nos falado, foi pura curiosidade científica de ler uma versão escrita das coisas… E… Sabe quando você olha para uma palavra em italiano que nunca ouviu antes, mas simplesmente sabe que é italiano, porque conhece sua língua? Então. Isso aqui… Isso aqui se parece muito com esloveno para mim. Haviam muitos escritos em esloveno nos livros que li. E considerando de onde Mina e Vlad vieram…

Os três se olharam por um instante.

— Tudo está apontando para isso, não está? Para o Império Austro-Húngaro — Bianca comentou.

— Se você acha que ainda podemos perseguir essa história, eu tenho uma certeza — Lorenzo respondeu. — Há apenas um local na Europa onde podemos descobrir os detalhes sobre a vida dos dois agora que nossa biblioteca se foi. O que me preocupa é pensar que Mina possa ter planejado isso também. Mas eu não vejo outra saída.

O caçador se levantou e ajeitou a roupa, ainda um pouco amassada por ele tê-la desabotoado. Bianca conseguia ver que ele ainda estava nervoso, mas ao menos estava tentando voltar a ser o excelente líder que era. Ia ajudá-lo nisso.

— Cesca, quanto tempo o médico lhe deu para se recuperar?

— Mais três dias.

— Faça serem dois. Senhorita Sartori, me acompanhe por favor. Precisamos colocar uma viagem em ação o mais rápido possível. É imperativo que nós três estejamos fora da Itália quando a igreja resolver nos julgar pelo Coliseu, ou não conseguiremos mais sair.

— Para onde estamos indo, senhor da Vinci?

Ele suspirou. Não parecia feliz com a resposta, então, realmente, deveria se tratar de algum tipo de último recurso.

— O Castelo de Corvin, em Hunedoara. Vai ser uma longa viagem… Mas agora, a sede dos Van Helsing é o único local que pode nos dar as nossas respostas.