Eu olho para o mar

Reflexões nas ondas

Acendem minhas memórias

Algumas felizes, algumas tristes

Eu lembro dos meus amigos de infância

E dos sonhos que tivemos

Nós vivemos felizes para sempre

E então a história continua

Come Sail Away — Styx

Valência, Espanha

25 de Outubro de 1818

Os Flores já estavam em Valência há três dias. A cidade portuária era o local ideal para encontrarem o barco que os levaria a Minorca, ou assim Santiago tinha dito. O caçador vinha passando os últimos dias em busca de um barco com tripulação para navegar levá-los na viagem, mas não era um trabalho simples. O custo extra de carregar cinco mais pessoas era alto para o capitão. Teria que valer a pena de alguma forma.

Durante esses dias, Pietra se viu igualmente admirada pelo que o clã estava fazendo por ela, e ansiosa pelo que isso ia resultar. Naquela ilha ela poderia encontrar sua mãe… Ou poderia não encontrá-la. Ela ainda não sabia qual das duas possibilidades era mais assustadora.

Tinha acordado muito cedo naquela manhã, e parara para observar o nascer do Sol do alto do teto de seu vurgon. Ela já estava sentada ali há alguns minutos, vendo o Sol começar a surgir no horizonte, quando ouviu um barulho surdo. Olhou para trás, sobressaltada, a tempo de ver Apolo se sentar rapidamente ao seu lado.

— Acordou cedo — ele comentou, com um sorriso largo no rosto.

— É… Eu queria ver o Sol nascer.

— Aaaaaah, eu entendo. Ele é lindo, não é? Não é à toa que Apolo é o deus mais bonito da mitologia grega… — o rapaz comentou, se escorando nas mãos.

Pietra riu, baixinho. Vinha passando bastante tempo com Apolo ultimamente. Os dois já eram um pouco amigos antes, mas apenas tanto quanto qualquer outro Flores seria. Mas depois que ele tinha feito tanto para ajudá-la a perseguir seu passado, seria impossível não se aproximarem mais. Pietra descobrira, enquanto crescia, que quando enxergava alguém com outros olhos, essa pessoa já teria se aproximado dela e criado uma conexão antes. Não sabia explicar. Não acontecia sempre, mas ocasionalmente alguém acabava se tornando especial para ela e, de repente, essa pessoa era especial demais.

Apolo se deitou no teto do vurgon dela, e ela tirou um instante para observar a forma como ele tinha dobrado os braços para trás da cabeça. Ele tinha a pele coberta de sardas que ela julgava muito bonitinhas, e o sorriso em seu rosto era bastante… Luminoso.

— Eu queria te agradecer, mais uma vez… — ela comentou, se deitando também, ao lado dele. — Isso tudo que você fez é muito importante para mim.

— Ei, somos todos uma família.

Ela sentiu o olhar de Apolo recair, sobre ela, e se virou para ele também. Ele tinha olhos castanhos avelã que pareciam estar sempre brilhando com algum toque de infância nunca perdida. Era muito bonita a capacidade dele de se admirar com coisas tão simples. As pessoas costumavam dizer que ela era a criança inocente do clã e que Apolo era a criança teimosa. Mas, ultimamente, ela vinha percebendo que, assim como ela, Apolo era apenas um adulto que não deixara as alegrias simples da vida escaparem de si com a idade. E isso, também, era incrível.

— Ainda assim… Obrigada — ela insistiu, segurando a mão dele e enlaçando seus dedos nos do rapaz.

Pareceu certo, naquele momento. Ela já tinha percebido que, em uma mágica concordância com seu nome, Apolo sempre parecia um pouco quente ao toque. Era confortável, especialmente no frio fora do comum que vinham sentindo recentemente.

— Ao seu dispor, madame — ele respondeu, ainda com aquele largo sorriso no rosto.

Eles voltaram a olhar para o nascer do Sol e, quando tinha acabado e o céu já tomara a cor azul da manhã, eles ouviram batidas fortes na porta do vurgon.

— Pietra? — Era Charles. — Vamos, Santiago encontrou um navio para nós!

Ela se sentou de uma vez.

Era isso. A viagem que poderia mudar sua vida. Revelar seu passado, alterar seu futuro. Sua história estaria lá… Ou não estaria em lugar nenhum. Aquela ilha era sua única pista.

— Tudo bem?

Apolo tinha se sentado. Ela sentiu o toque da mão dele sobre suas costas, e aquele foi um dos momentos em que ela viu nos olhos dele que ele não era uma criança. Não, ele era muito inteligente. Provavelmente o mais inteligente de todo o clã. E essa inteligência escapava algumas vezes em um olhar maduro e preocupado. Como agora.

— Ah, sim! — Ela riu, um pouco nervosa. — É só que… Hm…

— Entendi.

E ela sabia que ele tinha mesmo entendido.

Apolo soltou a garota, saltando do vurgon para o chão e estendendo uma mão para pegá-la. Ela desceu bem mais devagar, aceitando o apoio e a ajuda dele para chegar ao chão. Então, os dois deram a volta no vurgon para encontrar Charles do outro lado.

— Ah, Apolo! Passou a noite aí? — o caçador perguntou com um sorriso muito malicioso no rosto.

Pietra corou. Às vezes achava que era a única pessoa do clã com quem Charles não tinha dormido, à exceção da família dele. Não conseguia entender exatamente o que o tornava tão aprazível à maioria das pessoas, embora tivesse ouvido dizer que ele conseguia operar milagres com seus incensos. Talvez a fama dele o precedesse afinal de contas, mas ela nunca tivera interesse em saber.

— Não, acabei de chegar. O que Santiago tem para nós?

— Um barco de mercadores — Charles respondeu, se alongando um pouco. — Vão transportar mercadoria para Minorca. Eles ofereceram passagem para nós em troca de ajuda para carregar e descarregar o barco e fazer alguns serviços à bordo, como remar.

Pietra sorriu. Os Flores tinham uma fama de terem ótima força bruta e resistência física, por conseguirem domar lobisomens na força bruta, então não era incomum que fossem chamados para esse tipo de serviço.

— E nossos vurgons?

— Não se preocupe, Pietra. Meus pais vão cuidar para que tudo siga direitinho na caravana.

Ela mordeu o lábio. Sabia que, como com os outros Flores, o vurgon era quase uma parte de si mesmo. Não era simples abrir mão dele, mesmo que apenas por uma viagem. Mas ela soube, naquele instante, olhando para Charles, que ele tinha aberto mão de bem mais.

— Vai deixar Rosa com eles também? — Apolo perguntou.

— É… É melhor. É mais seguro se ela ficar com meus pais, longe de tudo… Não sabemos o que está acontecendo ainda. Pode ser perigoso, entende?

A tristeza na voz dele era palpável, e sim, Pietra entendia. Rosa era como a filha ou irmã mais nova de qualquer um no clã. E embora ela reconhecesse que ninguém ali sentia pela garotinha o mesmo que Charles, sabia que ninguém hesitaria em se separar dela se fosse para mantê-la segura.

— Bem… — Charles voltou a falar. — Peguem o que quiserem pegar em seus vurgons. Vamos nos encontrar no porto ali de baixo em uma hora.

Pietra se despediu brevemente de Apolo e voltou para dentro de seu vurgon. Não havia muito que ela quisesse pegar. Alguns vestidos, poucos livros, outros itens básicos e seu astrolábio. A bordo de um navio certamente haveria muito tempo para olhar as estrelas… Isso, ao menos.

Ela respirou fundo, fechando a porta de seu vurgon com um aperto por ter que se despedir dele. Apertou a bolsa nas mãos com uma forte ansiedade, e entregou a chave para um colega de clã que esperava na porta.

Pietra lançou um olhar melancólico a seu vurgon. Sentiria saudades… Mas essa era uma viagem que ela precisava fazer. A garota deu as costas à sua casa e seguiu seu caminho em direção ao porto.

Ela foi a terceira a chegar. Ainda tiveram que esperar um tempo até que Apolo e Charles se juntassem a eles para enfim ouvir o que Santiago tinha a falar. Ele parecia um bocado cansado, e isso fez Pietra se perguntar a quanto tempo ele estava tentando arranjar a viagem.

— Acredito que todos estão à par dos termos — ele começou. — Ajudaremos a embarcar e desembarcar mercadoria e com qualquer outra atividade que precise ser exercida no navio. Em troca, recebemos o transporte com comida e hospedagem no caminho. Agora…

Santiago olhou demoradamente para Letitia, Pietra e Apolo, e a garota franziu a testa. Ele parecia ansioso. Tinha feito algo de errado.

— Não é que eu acredite, mas existem superstições de todo o tipo quando o assunto é o mar. E, bem, eu sigo algumas delas bem fielmente, mas não todas. O resto da tripulação porém pode ser um pouco mais retraído. Então, algumas coisas importantes antes de partirmos, para garantir uma boa relação com o restante da tripulação. Antes de mais nada, acredita-se que mulheres num navio é sinal de azar. Tomem cuidado, vocês duas… Qualquer coisa que der errado, é provável que culpem vocês. E, se der errado demais, podem querer atirar vocês do navio.

Pietra sentiu o estômago dar um salto. Ela olhou para Apolo imediatamente, alarmada, e ele passou um braço pelos ombros dela. Parecia assustado também.

— Uma ova que vão — ele disse, com a mesma pompa que costumava ter.

— Podem querer jogar você também, Apolo. Você é ruivo.

— Mas que merda! A próxima que vai me dizer é que acreditam em sereias!

Santiago levantou uma sobrancelha. Bem… Lobisomens eram reais, porque sereias não poderiam ser? Pietra não culpava o marinheiro por acreditar.

— E tem mais — o homem continuou. — Apolo, você só fala em uma conversa depois que todo mundo te dirigir a palavra.

O queixo de Apolo caiu. Pietra se sentia péssima por isso. Já tinha visto Apolo ouvir muitas coisas complicadas de pessoas que o achavam diferente ou menos por ser ruivo, como se ele fosse um demônio ou alguém amaldiçoado por isso.

— Agora eu sei que você está brincando comigo.

— Apolo, são menos de 48 horas. Você certamente consegue ficar calado só por dois dias. Por favor.

Ele suspirou, frustrado. Pietra franziu a testa. Não queria saber, não ia deixar ele se sentir sozinho por dois dias. Não era justo.

— Eu te faço companhia — ela ofereceu, sorrindo.

Apolo não sorriu em retorno. Isso não era um sinal muito bom.

— Santiago Flores?

O clã se virou para ver um homem de idade avançada com uma barba generosamente comprida se aproximar deles. Ele a penteou, pensativo, e olhou para o grupo de caçadores. Pietra engoliu em seco e deu um passo à frente, se colocando quase que à frente de Apolo. Ele tinha feito muito por ela. Merecia nada menos que coisas boas vindo em seu caminho.

— Sim, senhor — Santiago respondeu.

— Hm… Esse é seu grupo?

Pietra viu o olhar do homem recair nela, em Letitia e em Apolo por um tempo maior.

— Sim.

— Hm… Hm…

A caçadora desejou que o homem parasse de murmurar sozinho. Ele deu a volta no grupo, olhando todos de cima a baixo, principalmente ela, e Pietra se sentiu muito desconfortável com isso. O que tanto tinha para olhar?

— Eu tinha ouvido falar que Flores eram os caçadores mais fortes da Europa — o mercador comentou. Então, ele apontou para Pietra. — Ela não me parece que consiga carregar uma saca de grãos, quem dirá uma das caixas de mercadoria.

— As aparências enganam… — ela disse, rapidamente. — Senhor.

— Espero que sim, porque estou sem dinheiro sobrando e vocês foram os únicos que concordaram com fazer o serviço de graça. Então é melhor irmos andando logo com isso. Tem muita coisa pra subir no Onda. Vamos, vamos!

Onda, Pietra logo descobriu, era o encurtamento para "Onda Selvagem", o nome do navio do mercador. O trabalho de embarcar caixas no navio foi feito muito rapidamente pelos Flores e pelo restante da tripulação, passando uma caixa para o outro em uma fila de pessoas. Depois de alguns minutos, o navio já estava estocado, e o mercador parecia ter aceitado a capacidade do grupo de fazer o trabalho.

Então, começou todo o trabalho de baixar velas, levantar âncoras… Santiago e Charles estavam ajudando a tripulação com essa parte, mas aos outros três Flores foi pedido que se sentassem quietos no convés e tentassem não fazer nada de mais. Ainda incomodada, Pietra obedeceu.

— Vão ser dois dias longos — Letitia comentou ao seu lado.

Era a primeira vez que Pietra a ouvia falar o dia inteiro. A mulher tinha, realmente, deixado Santiago tomar as rédeas do clã por agora, e parecia ser uma escolha esperta.

Do seu outro lado, Apolo concordou, acenando com a cabeça sem falar nada. A própria Pietra não tinha como contestar, mas não se importava. Seu estômago estava dando uma volta atrás da outra. Qualquer coisa poderia acontecer quando o navio ancorasse em Minorca… e ela não sabia se estava pronta para isso.