Eu estou fora de mim por você
Como uma onda, eu fui puxado para dentro
É um sentimento que eu não posso lutar
Como um incêndio, profundo
Você está levando meu coração pela tempestade
Estou perdido em seu amor, perdido em seu amor
Eu não posso segurar mais
Estou perdido em seu amor, perdido em seu amor
Storm — Ruelle
Mar das Baleares
25 de Outubro de 1818
Apolo já tinha imaginado que seria difícil ficar tanto tempo sem sair falando com todo mundo. Era parte de quem ele era. O que não imaginou foi que em poucas horas já estaria beirando a loucura.
E talvez tivesse mesmo enlouquecido… se não fosse por Pietra. Ela era uma garota mais esperta do que as pessoas lhe davam crédito. Levara bem ao pé da letra o fato de que Apolo não podia iniciar conversas, e isso resultara nela indo puxar assunto com ele o dia inteiro só para que o ruivo pudesse responder.
Era de se admirar. E, ah, ele admirava. Cada um daqueles pequenos momentos nos quais Pietra se aproximava para conversar sobre o clima, ou sobre enjôos, ou sobre qualquer outro assunto o fazia se iluminar por dentro. Só de saber que um pequeno comentário sobre as nuvens poderia virar uma conversa inteira era animador.
E talvez, ele pensou, olhando para o céu, as nuvens merecessem mais do que um pequeno comentário agora.
Já estavam no barco há horas. A viagem poderia durar qualquer coisa entre quinze horas e dois dias inteiros, dependendo do vento, e a julgar pelo céu Apolo temia que seria a última opção…
Isso se a viagem fosse concluída.
— Você está vendo também, não é? — a voz de Pietra comentou ao seu lado.
Ele engoliu em seco. Essa era a primeira vez no dia em que não tinha vontade de responder com o máximo de palavras possível.
O céu à distância estava cinzento e furioso. Relâmpagos caíam sobre o mar e não parecia haver forma do barco desviar disso. A tempestade era extensa.
— Letitia disse que sonhou com mortes sobre água salgada — ele respondeu, se lembrando da leitura de cartas que tinha feito.
O vento estava ficando mais forte, e Apolo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Correndo os olhos pelo barco, viu que a movimentação estava mais agitada. Embora Letitia ainda estivesse sentada no convés sem fazer nada, Santiago parecia ansioso, distribuindo mensagens entre os marinheiros e passando ordens para Charles. Ele se parecia muito mais com um líder agora do que Letitia.
— Ela precisa fazer alguma coisa… — Pietra murmurou.
— Ela tem receio de fazer. Nós três nem devíamos estar aqui, que dirá nos metermos nas coisas.
Pietra não respondeu. Isso encerrava a conversa entre os dois, Apolo pensou, e significava que ele ia ficar algum outro tempo sem dizer alguma coisa. E, durante esse tempo, a viagem seguiu.
Foram mais vários e vários minutos de velas sendo ajeitadas, ordens passadas do capitão para a tripulação, Santiago orientando Charles até que, enfim, Apolo sentiu algumas gotas de chuva caírem em si. Assim, soube que tinham chegado à tempestade.
Não começou como uma chuva fina que se agrava, não. Talvez por terem navegado diretamente para dentro dela, as primeiras gotas de chuva já foram grossas e pesadas. E não demorou para que fossem preocupantemente frequentes. Logo o convés estava cheio de água e o barco começou a brigar com ondas violentas, e era isso. Estavam na tempestade.
— Todo mundo se segure bem em alguma coisa! — o capitão gritou, agarrado ao leme. — Chegaremos a Minorca, ou pereceremos em tentativa! Tripulação, aos remos!
— Ele tem espírito — Pietra sussurrou, se agarrando à amurada ao lado de Apolo.
— Poderia ter menos. Eu não quero morrer ainda.
Ele não soube se Pietra ouviu sua resposta. O barco começara a balançar muito, e o vento e os trovões estavam muito ruidosos. E, Apolo sabia, não poderiam evitar a tempestade nem se quisessem. Era muito grande. Mesmo se tivessem desviado o barco, ela chegaria até eles. Tudo que podiam fazer era sobreviver.
Tarefa que, aos poucos, foi se mostrando cada vez mais difícil. O barco começara a subir ondas cada vez mais perigosas, e por várias vezes Apolo pensou que era agora que o barco ia virar, que ele ia cair no mar e morrer. Mas por mais forte que a fúria da natureza estivesse, Apolo estava aguentando… Apesar de estar completamente aterrorizado.
— ESTÃO TODOS BEM?
Apesar de Santiago ter gritado, o ruivo mal conseguiu o ouvir sobre o barulho das ondas. O barco deu outra guinada e ele viu Pietra se desequilibrar perigosamente para a frente. Mal teve tempo de segurá-la pela cintura para que não caísse.
Seu coração saltou. Tinha sido por pouco. Por muito pouco.
— ATÉ AGORA SIM — ele respondeu, gritando também para ser ouvido. — MAS NÃO SEI ATÉ QUANDO.
— VAMOS FICAR JUNTOS, OK?
— ISSO É NORMAL? — Pietra perguntou, se segurando a Apolo como se isso pudesse ser mais eficaz que a amurada do barco para impedi-la de cair.
Apolo engoliu em seco, vendo as mãos dela fechadas com força no tecido de sua blusa. A próxima guinada do barco poderia levar os dois. Ele olhou para a tripulação e percebeu uma comoção no convés. Logo identificou que a mesma guinada que quase jogara Pietra no mar tinha sucedido em fazer isso com um dos marinheiros.
— NÃO. NESSA ÉPOCA DO ANO, NÃO É.
O caçador engoliu em seco. Era o que ele não queria ouvir, mas o que já esperava. Parte de si queria chorar. Estava entrando em pânico. Tinha sentido enjoos durante parte da viagem mas nem isso o assustava agora, engolido que estava em puro pânico.
Os cinco continuaram encolhidos, segurando um nos outros e nos mastros do navio, vendo o barco passar por cima de onda atrás de onda, cada vez mais perigosa. Outro marinheiro caiu no mar. Pietra começara a tremer, e Apolo não sabia se era o frio da chuva ou o medo da tempestade.
Ele a abraçou, esperando que pudesse ajudá-la a se aquecer e se acalmar, embora soubesse que ele mesmo estava frio e aterrorizado. E então, como se as coisas já não estivessem ruins o bastante, uma onda do mar engoliu o navio.
Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Apolo viu a onda crescer em sua frente, alta e violenta, furiosa com a ousadia da tempestade. Viu que era alta o bastante para o engolir, e então que era alta o bastante para engolir o barco inteiro, e não teve muito tempo para pensar. Envolveu Pietra com um braço, enrolando o outro quantas vezes pode em uma das cordas do mastro mais próximo, e a onda veio.
Ele mal conseguiu segurar a respiração. Embora a passagem da onda tivesse sido rápida, foi forte. O impacto da água do mar doeu e tentou o carregar para longe, além de forte o bastante para que sentisse uma dor incalculável no ombro. Por muito pouco não soltou a corda por isso. Quando a onda passou, por algum milagre o barco estava de pé. Apolo se viu deitado no convés, e a primeira coisa que percebeu foi que sua mão ainda estava fechada firmemente no braço de Pietra.
Ela estava ali. Estava bem. Seu ombro doía tanto que seus olhos começaram a lacrimejar. Mas ainda assim, ele se forçou a levantar e olhar em volta.
Charles estava caído ali perto. Parecia bem. Santiago estava se desamarrando de cordas de um dos mastro, pareciam ser nós muito complicados. E Letitia…
Onde estava Letitia?
— Não…
Ele se virou, se sentando, desesperado. Onde estava Letitia? Olhou em volta, zonzo, ainda tossindo água do mar e tentando ignorar seu ombro. Não conseguia vê-la em lugar nenhum. Sua visão estava ficando escura e turva, e acabou caindo ao convés de novo de dor.
— Apolo? — Ele ouviu Pietra o chamar.
Estava quase inconsciente. Não conseguia ouvir chamados muito bem, não conseguia distinguir pessoas na sua frente. Doía tanto… Tanto… Não sentia sangue, não sabia dizer o que estava acontecendo. Não conseguia se levantar.
Ele sentiu as mãos de Pietra o balançarem devagar e gritou. O movimento o fizera sentir ainda mais dor, e ele começara a choramingar. Não conseguiu por um bom tempo distinguir o que estava acontecendo ao seu redor, até que enfim fez distinção da voz de Charles atrás de si.
— … eu vou ter que colocar no lugar, vai doer. Apolo, você está me ouvindo? Deslocou o ombro…
Apolo concordou com dificuldade. Sim, isso fazia sentido. A onda tinha sido muito forte. Ele segurara Pietra com um braço e a corda com o outro, o impacto provavelmente seria forte para isso. Sentiu o toque de Charles em seu outro ombro e em seu braço, e engoliu em seco.
— Vou contar até três, ok. Um… Dois…
No "dois" Charles empurrou o osso de volta para o lugar. Apolo gritou, e sua visão ficou preta com a dor que se seguiu a isso. O grito foi excruciante e, se houve alguma reação a isso, ele não conseguiu ouvir. Sentiu Charles o soltar, mas ainda ficou algum tempo deitado no convés, cheirando a água salgada e tentando controlar a respiração no lugar e as lágrimas que escaparam com a dor.
Ok. Ele estava bem. Tinha sobrevivido e estava inteiro. Apolo se sentou, devagar, e ficou surpreso ao ver não só Charles, Pietra e Santiago em sua frente, mas Letitia também.
Ela estava bem. Ele suspirou aliviado, se levantando muito devagar e aceitando o apoio que Pietra oferecera para isso. Ainda conseguia ouvir gritos e resmungos do lado de fora, a maioria soando muito como "estão vendo? É isso que se ganha por colocar duas mulheres e um ruivo no barco, os deuses estão furiosos com a gente!", mas ele escolheu ignorar.
— Você está bem? — Pietra perguntou.
A garota parecia genuinamente preocupada, e Apolo respondeu a isso com um sorriso pequeno e caloroso.
— Estou… Ainda vai doer um pouco, mas nenhum dano sério aconteceu. E você, engoliu água? Eu pensei por um instante que…
Nesse instante, eles ouviram um rangido. Apolo percebeu naquele momento que por mais que eles tivessem sobrevivido ao impacto do barco, não significava que o barco em si teria sobrevivido. E olhando para cima, ele viu um dos maiores mastros começar a cair em sua direção.
Não houve tempo de pensar. Pietra se soltou de Apolo, levantando os braços pronta para segurar o mastro. Ela não ia conseguir sozinha.
No momento em que a madeira chegou à altura dos dois, Apolo também estava pronto para segurar, e o impacto da madeira chegou aos braços deles. Apolo gemeu, cedendo ao peso. Ajoelhou com uma das pernas e viu Pietra fazer o mesmo a sua frente, também carregando o mastro sobre sua cabeça.
A tempestade ainda uivava furiosa ao redor deles. Não sobreviveriam a outra onda.
— Apolo! Você está…
O barco guinou e Pietra não acabou sua pergunta. O caçador viu Charles e Santiago se aproximarem para ajudar com o mastro, mas a onda tinha afetado várias partes do barco. Logo eles tiveram que correr para verificar os tripulantes perdidos, e várias outras coisas.
— Eu… — ele gemeu. Seu ombro gritava de dor. Não deveria estar fazendo esforço agora, isso era surreal… — Eu estou bem… Aaaah!
O grito de dor veio acompanhado de um choro. Ele viu Pietra começar a olhar em volta, mas sabia que ela não poderia fazer nada. Sabia que ela tinha segurado o mastro em vez de rolar para fora de seu rumo de queda porque, se fizesse isso, Apolo não conseguiria escapar, e seria atingido. Tinha ficado debaixo do mastro por ele. Mas agora nenhum dos dois poderia soltar. O outro não conseguiria segurar sozinho.
— Está tudo bem, Pietra — ele sussurrou. — Nós conseguimos isso, ok? Olha pra mim.
A garota levantou a cabeça, e ele encontrou seu olhar com o dela. Ela sustentava o mastro com os braços e com as costas, também ajoelhada, e Apolo poderia jurar que ela começara a tremer um pouco.
A maior parte do peso estava nela, afinal de contas. Apolo sentiu uma súbita vontade de carregar o mastro sozinho e tirá-la dali, mas não tinha como fazer isso, e sabia disso. Sabia que não podia fazer nada. Estava preso ali, com ela. E Charles com Santiago, correndo para reparar outras urgências no barco enquanto eles conseguiam segurar por ali…
E Letitia parada no convés, olhando perdida para a confusão.
De repente, Apolo quis gritar. Estava morrendo de dor no ombro, não podia sair dali sem ferir Pietra e sabia que ela não sairia por não querer o ferir. A tripulação do barco ainda estava contando os corpos levados pelo mar ou consertando funções vitais do navio como alguns buracos no casco. E no meio de tudo isso, Letitia. Parada no convés.
Ele sentiu um estalo na mente. Na leitura para Letitia, tinha encontrado um ás de espadas ao contrário, uma leitura indicando resistência a mudanças. E ele conseguia ver agora, nos olhos de Letitia, que ela estava lutando contra algo. Lutando contra si mesma.
— LETITIA! — ele gritou, sentindo o braço do ombro deslocado começar a ceder. — O QUE QUER QUE ESTEJA PENSANDO EM FAZER, FAÇA! SÓ FAÇA POR FAVOR!
Ela olhou surpresa para Apolo. Parecia muito alarmada.
— Mas…
— VOCÊ VAI MATAR A TODOS NÓS SE NÃO TOMAR UMA ATITUDE!
Ok, isso era dramático. Exagerado. Mas ele era uma pessoa dramática e estava desesperadamente tentando arrancar uma reação dela. Tinha que fazer algo.
Apolo a viu olhar zonza para eles, e depois para Charles e Santiago, que estavam segurando uma parte do barco com cordas. Por favor, pensou. Por favor Letitia, é agora… O momento da sua leitura é esse… Tome uma atitude…
Ele começara a desistir, e ouviu o som de algo se rasgando.
Apolo levantou o olhar. Letitia tinha rasgado um bom pedaço de sua saia, abrindo uma fenda para se mover melhor. Então ela prendeu os cabelos atrás da nuca, e ele a viu sussurrar um pedido de desculpas.
A caçadora subiu no mastro que os dois estavam segurando. Apolo acabou cedendo sobre o joelho que ainda estava de pé, mas até que confessava que ela não era assim tão pesada. Mais uma vez, ele focou seu olhar nos olhos de Pietra, e sem dizer nada, encontrou força neles e soube estar passando força para ela. Não sabia o que Letitia estava fazendo em cima do mastro, e apenas esperou, até ouvir a voz dela.
— Apolo, preciso de um impulso.
— Estamos na direção certa?
— Sim. Agora, por favor.
Ele olhou para Pietra novamente. Então começou a contar, e no três, os dois colocaram toda a força que tinham em erguer o mastro de uma vez.
Não conseguiram fazer muita força, mas a força que fizeram foi o suficiente. Apolo viu, por cima do ombro, o qual doía mais do que ele achava que pudesse aguentar, que Letitia tinha amarrado várias das cordas daquele mastro na cintura. O impulso a lançara até que ela pudesse se segurar na gávea do mastro central.
A mulher usou a força dos braços para se impulsionar para dentro da gávea, e segurou as cordas que amarrara na cintura. Apolo a viu apoiar os pés na cerca da gávea e logo olhou para Pietra, sabendo o que aconteceria.
— Pietra, ela vai puxar o mastro. Nós temos que empurrar na hora, ok?
A garota, começando a suar um pouco, concordou com a cabeça. Apolo manteve os olhos em Letitia e, assim que viu a líder começou a puxar as cordas, fez um sinal para Pietra, e os dois começaram a empurrar o mastro para cima.
Ele não se lembrava de já ter sentido tanta dor em sua vida, mas mesmo que seu ombro gritasse, mesmo que todo seu corpo tremesse e implorasse para que desistisse, Apolo continuou empurrando, e conseguia sentir Pietra fazendo o mesmo atrás dele.
Ouviu Letitia soltar um grito, e ele mesmo queria fazer isso, mas continuou empurrando, e empurrando, até achar que não ia aguentar mais. Ouvia Pietra o incentivando, via Letitia puxar e puxar do cesto da gávea, até que enfim o mastro estava no lugar.
Apolo e Pietra ainda tiveram que segurá-lo por um bom tempo até uma parte dos tripulantes se desocuparem dos buracos do navio e irem até lá para colá-lo, e quando isso finalmente aconteceu, Apolo se permitiu soltar o mastro.
Então, a dor o venceu e ele desmaiou.
Por um longo tempo, não soube o que estava acontecendo. Chegou a ouvir vozes em meio aos seus murmúrios de dor, a sentir toques suaves e algo gelado em seu ombro. Teve a impressão de ser carregado, não sabia para onde. Quando finalmente abriu os olhos, estava em uma cama de um dos quartos do navio.
Ele abriu os olhos, devagar. O ombro já não doía tanto, era suportável. Apolo tocou o local e sentiu algo gelado ali, alguma compressa de alguma coisa. Tinha a impressão de que era coisa de Charles, porque também havia um resto de incenso ali do lado, já apagado. E, lendo em uma cadeira ali ao lado, Pietra.
— Pietra? — ele chamou, se sentando com bem mais facilidade que antes.
O barco navegava com suavidade, e havia silêncio do lado de fora. A tempestade tinha passado.
Ela levantou o olhar do livro e o colocou de lado, abrindo um sorriso suave.
— Finalmente, Apolo… Você está bem? Preocupou todos nós…
— É… — ele tentou mover o ombro, e logo se arrependeu. — Eu vou ficar bem. E você?
Pietra abriu um sorriso um pouco cansado e mostrou as mãos para Apolo. Estavam todas raladas, mas fora isso, ela parecia bem.
— Os outros estão bem também. A tempestade passou. Devemos chegar em Minorca em algumas horas.
— Eu fiquei apagado por quanto tempo?
— Umas dez horas. A tempestade nos jogou na direção da ilha mais rápido, então…
Ela parou de falar. Apolo sabia o que a caçadora estava pensando. Sim, tinham chegado mais rápido… Mas a que custo? Vários tripulantes tinham caído no mar. E Apolo estava intrigado… Santiago dissera que aquela tempestade não devia estar acontecendo nessa época do ano. Parte de si não conseguia deixar de sentir que era como se a natureza estivesse furiosa com eles.
Os dois ficaram em silêncio por alguns instantes, ouvindo o barulho do mar bem mais calmo do lado de fora. Então, Pietra se levantou.
— Acho que devo avisar os outros que você acordou. Com licença…
— Espera.
Apolo não sabia o que lhe tinha dado para chamá-la de volta desse jeito. Pietra não era uma garota de se envolver com as pessoas, ele sabia disso. Todos sabiam disso. Mas ainda assim, depois do que vinham passando juntos desde o tradutor em Madrid, o caçador sentia algo quase tão intenso quanto aquela tempestade quando ela estava por perto. Igualmente forte, mas em vez de agressivo e destrutivo, era uma onda quente. Confortável. Não parecia certo deixar um sentimento tão agradável ir embora pela porta de seu quarto e perder uma chance que não sabia se teria novamente.
Para sua surpresa, Pietra fechou a porta e se virou para ele.
— O que foi?
Embora a caçadora estivesse tímida, Apolo conhecia um flerte. Tinha muitos anos de experiência nisso. Ela tinha um sorriso pequeno no rosto e se encostara contra a porta, esperando. Apenas esperando.
Ele se levantou. Seu ombro ainda doía um pouco com o esforço, mas não se importou com isso. Aquele sorriso brincalhão tinha voltado ao rosto de Apolo e ele estava muito empolgado. Já há um bom tempo sentia vontade de cortejar Pietra, mas nunca imaginara que ela fosse corresponder. Estava surpreso… E muito feliz.
Apolo puxou a garota para perto pela cintura com a mão do braço bom, encostando sua testa na dela e deixando sua respiração se misturar à de Pietra.
— Você quer ir embora? — ele perguntou, porque lhe pareceu certo.
Ele sabia que se fosse Charles, ou Santiago, ou qualquer outro com quem já tinha estado, a pessoa iria simplesmente dar as costas se não quisesse algo, mas Pietra ainda era uma incógnita para si. Queria que ela soubesse que a porta estava literalmente destrancada se quisesse sair.
Em vez de responder, ela segurou o rosto dele entre as mãos e o beijou.
Apolo percebeu, naquela manhã, que vestidos femininos eram quase impossíveis de se tirar com um braço imobilizado, mas ainda assim conseguiu. Percebeu muito incomodado que a confusão da noite anterior resultara em muitos hematomas pelo corpo de Pietra, principalmente nas costas, e isso o fez perceber exatamente o quanto ela tinha sustentado o peso por ele.
Não conseguiu tirar as próprias roupas sozinho. Mal conseguia mover o braço para tocá-la, que dirá levantá-lo para tirar a blusa. Mas Pietra conseguiu e ele percebeu que, sob todas as sardas de seu corpo, também estava cheio de hematomas.
— Me desculpe… — ela sussurrou, passando uma mão sobre uma das marcas no ombro bom dele. — Você salvou minha vida ontem… Eu devia ter…
Apolo não a deixou terminar de falar e a beijou. Não deixou porque não achava que poderia aceitar que ela se desculpasse por alguns hematomas em seu corpo quando segurara tanto peso sobre suas costas por ele e que agora estava muito mais marcada que Apolo estava.
Eles tinham se salvado. Quantas pessoas podiam dizer que tinham passado por isso? Quantos homens, pensou, poderiam se deitar ao lado de uma mulher como ela, sabendo que ela tinha literalmente a força para mantê-lo vivo quando ele não conseguia se salvar?
Não muitos. Talvez nenhum.
— Você foi não é nada menos do que perfeita, Pietra. Eu tenho sorte de ter você aqui — ele sussurrou, deixando um beijo no canto da boca dela.
A caçadora sorriu e o beijou mais uma vez. Apolo deixou que ela o guiasse para a cama, e deixou também que ela se sentasse sobre seus quadris. Deixou que ela controlasse aquele pequeno momento dos dois, não apenas porque queria e podia, mas porque ele não conseguiria estar por cima dela com o ombro tão dolorido e incapaz de sustentar o próprio peso nos braços.
Deixou porque ela estava muito feliz e radiante em fazer isso. Deixou… Não, ele não tinha que deixar nada. O que fez foi simplesmente entregar aquele momento nas mãos dela, um gesto que a deixara tão feliz quanto jamais a tinha visto antes. E vê-la feliz era, sem sombra de dúvidas, a parte mais prazerosa de todo aquele momento que compartilharam juntos.
