Olá escuridão, minha velha amiga

Eu vim falar com você novamente

Porque uma visão suavemente sinistra

Deixou suas sementes enquanto eu dormia

E a visão que foi plantada em minha mente

Ainda continua dentro do som do silêncio

The Sound of Silence — Simon & Garfunkel

Mar das Baleares

27 de Outubro de 1818

Rhuan estava de pé no cesto da gávea, com um braço enrolado em uma das cordas do mastro e o outro sustentando uma luneta à frente de um de seus olhos. Graças à tempestade, a viagem durara apenas dois dias. Ele já conseguia ver o pequeno pontinho ao longe que era Minorca, destacado no nascer do Sol, e que aumentava bem devagar à medida que se aproximavam.

O caçador guardou a luneta e respirou fundo, sentindo o cheiro da maresia. Nem tinha saído do barco ainda e já estava com saudade, de certa forma.

Ele desceu da gávea, passando por Apolo e Pietra que estavam sentados juntos no convés como dois pombinhos apaixonados. Rhuan abriu um pequeno sorriso. Embora nunca tivesse pensado nos dois dessa forma, agora que tinha acontecido parecia muito certo. Quase premeditado. Eles realmente combinavam.

Para alguém que não acreditava em amor, como Rhuan, era algo que colocava alguns pensamentos em perspectiva.

O caçador se apoiou na amurada do barco, olhando o caminho à frente e levantando a luneta de vez em quando para ver a ilha se aproximar. Não soube quanto tempo se passou depois disso.O céu já fora por completo do laranja do nascer do Sol para o azul piscina da manhã quando viu Charles chegar ao seu lado, escorando também na amurada.

— Então… Apolo e Pietra — ele comentou.

— Não estou surpreso — Rhuan respondeu, pois realmente não estava. — Eles fazem um bom casal.

Houve um curto período de silêncio. Ele e Charles eram muito diferentes. Opostos, quase. Charles era sempre brincalhão e barulhento, muito sedutor. Marcava sua presença nos lugares com bastante força. Rhuan era mais… quieto. Não tímido, não. Mas tendia a interiorizar muita coisa, às vezes. Charles era mais espontâneo. E se estava quieto daquele jeito, Rhuan sabia exatamente no que ele estava pensando.

Tinham uma coisa em comum, afinal de contas. Nenhum dos dois acreditava em amor. Talvez por isso tivessem encontrado um calor confortável na cama um do outro com tanta facilidade. Sem perguntas. Sem se prenderem. Sem cobranças. Rhuan não conseguia acreditar em amor depois de toda a história que permeara seus pais. Desconfiava de que Charles perdera as esperanças depois de ver a mãe de sua filha morrer.

De qualquer forma, ele fingia bem. Rhuan pensava que só reconhecia esse lado dele porque tinha um exatamente igual.

— É bom para eles. Eu não sei, eles parecem tão… inocentes — Charles comentou, olhando para os dois sentados do outro lado do convés e dividindo uma tigela de morangos. — Apolo e eu temos a mesma idade, mas às vezes eu sinto como se fosse vários anos mais velho que ele.

— É. Eu entendo.

Entendia. Alguns acontecimentos marcavam uma pessoa. Podiam fazer alguém envelhecer vários anos sem que um mês a mais se passasse. Rhuan tinha tido sua cota desse tipo de experiência, e sabia que Charles também.

Eles gastaram mais algum tempo olhando para o mar, até Rhuan perceber que o amigo começara a ganhar um tom meio verde no rosto. Talvez devessem fazer outra coisa. Rhuan enfiou a mão dentro de sua blusa, tirando seu crucifixo para fora. Por algum motivo muito estranho, se lembrou naquele momento de que nunca dera nada de presente de aniversário para Charles. Tinha acontecido um mês atrás. Ainda estava no mar, nesta data, mas depois tinha passado aquela noite no vurgon dele em uma comemoração… particular. Mas não dera nada para ele. Nenhum presente.

— Você merecia algo — Rhuan murmurou.

— O quê?

— Pelo seu aniversário. Eu voltei de viagem dois dias depois, não tive tempo de te conseguir nada…

— Santiago… — Charles abriu um largo sorriso de flerte, e foi como ver uma máscara cair por cima do rosto do caçador. — Nós comemoramos. Quatro vezes, que eu me lembre, mas eu estava meio grogue e posso ter perdido a conta depois da segunda…

— Não, sério.

Rhuan olhou para os próprios dedos, para a enorme quantidade de anéis ali. Ele abriu um sorriso pequeno e pegou um dos anéis que achava que combinava com Charles. Os dois tinham o mesmo gosto para bijuteria: preferiam peças de latão puro, sem pedras e com gravações legais. Ele esticou um dos anéis para Charles, que, ainda com o sorriso no rosto, deu uma risada baixa.

— Está me dando um anel, Santiago?

— É só um presente amigável — ele respondeu, com um sorriso simpático, mesmo sabendo que não precisava explicar.

Rhuan sabia que Charles sabia que era apenas aquilo entre eles, até porque já tinham tentado. Havia sido um período muito complicado para os dois… Rhuan perdera o pai e Charles perdera a namorada, tudo mais ou menos ao mesmo tempo. Mas não demorou para que percebessem que estavam melhor como amigos.

Talvez fosse ser assim com qualquer um, Rhuan pensou. Sempre um amigo colorido. Nunca nada mais.

E não era algo ruim, certo? Então… Por que o incomodava?

Ele suspirou. Estava muito reflexivo ultimamente. Talvez fosse efeito de todas as mudanças que vinham acontecendo no mundo. Essas mudanças traziam preocupações com elas… Não achava que estivessem rumando pra algo muito bom.

Eles ficaram em silêncio por mais algum tempo, e Rhuan olhou para Charles. Precisava esvaziar a cabeça. E a natureza de seu relacionamento com ele permitia isso.

— Charles… Quer descer para os quartos? Estaremos em Minorca em algum tempo.

O mais comum era o oposto, que Charles o chamasse, mas isso não significava que o contrário não acontecesse. Viu o caçador coçar a barba, parecendo verdadeiramente pensativo, mas logo ele concordou.

Rhuan já conhecia os jeitos de Charles. Na maioria das vezes, quando estavam apenas se divertindo, haviam várias piadas envolvidas. Muitas brincadeiras. Provocações. Charles gostava de o provocar até que Rhuan risse e respondesse. Gostava de transformar a coisa que eles tinham em um jogo.

Daquela vez, o que dominou entre eles foi o silêncio. Rhuan sabia que isso queria dizer que Charles tinha percebido que ele estava preocupado. Charles podia até gostar de brincar e flertar com muita frequência, mas mesmo ele reconhecia quando alguma coisa séria estava acontecendo. Como agora.

Charles não era tão procurado para ir para a cama com os outros à toa. Ele sabia o que fazer, quando fazer, e como fazer. O simples detalhe de ter tirado um tempo para acender um incenso relaxante no quarto antes que começassem deixou claro que, mais uma vez, Charles lia muito bem as necessidades de alguém.

Foi diferente de como era na maioria das vezes entre os dois, mas foi exatamente o que Rhuan precisava. Charles era um excelente massagista. O incenso estava ajudando bastante e orgasmo também era algo relaxante. Não demorou para que Charles o fizesse esquecer suas preocupações.

Mas Rhuan se perguntou se o caçador teria esquecido as dele.

O navio já estava próximo o bastante de Minorca para começar a aportar. Os dois estavam deitados um ao lado do outro. Charles olhando a fumaça do incenso, pensativo, e Rhuan olhando para Charles.

Sabia no que ele estava pensando.

— Rosa vai ficar bem. — sussurrou, fazendo um carinho displicente nos cabelo do caçador.

A resposta foi se sentar, soltando um suspiro cansado e abrindo um sorriso pequeno em seguida.

— E nós?

Charles não precisava explicar pra Rhuan saber o que queria dizer. Sim, deixar Rosa para trás era a melhor forma de protegê-la. Mas Charles estava claramente com medo de não voltar da viagem. De que Rosa, que já perdera a mãe, fosse ficar sem o pai também. E tendo ele mesmo perdido o pai, Rhuan sabia bem como isso iria doer para a menina.

— Ela nunca vai estar sozinha, Charles — Rhuan comentou, se sentando também.

Sabia que não era a mesma coisa. Sabia porque por mais que o clã o tivesse mantido de pé depois de perder toda a família, aquele buraco causado pela perda dos pais ainda estava lá. E sempre iria estar.

— Obrigado — Charles respondeu, se levantando.

Rhuan observou o caçador espreguiçar, sendo brevemente distraído pelo brilho do anel recém-colocado no dedo dele. Pensou por um instante em todos os significados que um homem se levantando de uma cama ao seu lado, nu, com um anel no dedo que ele tinha dado poderia ter.

Engraçado. As coisas realmente eram diferentes do que pareciam, às vezes.

— Acho melhor a gente subir — Rhuan disse, se levantando também. — Vamos aportar em breve.

— Sim — Charles respondeu, vestindo suas roupas.

Então, ele se despediu de Rhuan e deixou o quarto, sabendo que o caçador queria um tempo para si.

Rhuan ficou olhando pela janela, pensando agora no que encontrariam em Minorca. Seria péssimo para Pietra se não encontrassem nada, mas às vezes ele não conseguia evitar em pensar se alguns segredos não haviam sido feitos para permanecerem assim. Ela poderia não gostar do que fosse encontrar.

Ele ficou ali até sentir a âncora do barco descendo. Então suspirou, vestiu suas roupas, pegou suas coisas e saiu.

O resto seu clã estava acabando de sair da ponte de desembarque quando os alcançou. Fazia parte do acordo que ajudassem a descarregar o barco também, então ficaram ali por um tempo, passando caixas de um para o outro. Rhuan acabara entre Apolo e Letitia, e ela parecia muito pensativa.

Ele não era o único, então.

— Aconteceu algo? — perguntou.

Não gostava de se intrometer, preferia que ela dissesse algo se assim desejasse. Mas aprendera com a vida que Letitia tinha um defeito muito similar ao dele: guardava muito as coisas para si. E isso não era bom.

— Só tenho pensado algumas coisas…

Não iria insistir, então esperou. De fato, passaram mais algumas boas caixas antes que ela voltasse a falar. Os braços de Rhuan estavam começando a ficar um pouco cansados do esforço, mas ele não reduzira o ritmo por isso. Pegou uma caixa com Apolo e quando se virou para o lado para entregar para Letitia, ela falou.

— A leitura de Apolo, sobre mudança… Ele tinha razão. Eu tenho resistido a uma coisa.

Rhuan deu a ela o tempo para pensar nas palavras certas. Se manteve em silêncio, mas olhou para a líder, deixando claro que estava ouvindo. Estava esperando. Ela eventualmente continuou.

— Eu não sou uma boa líder, Rhuan. O barco estava no meio da tempestade, todo mundo fazendo alguma coisa. E eu… travei.

Ele franziu a testa. Não, não era assim que as coisas funcionavam.

— Letitia, acontece. Foi sua primeira navegação, não foi?

— Foi a primeira de Apolo também. — Ela suspirou, e abriu um sorriso pequeno. — E ele e Pietra carregaram um mastro nas costas.

— Letitia…

— Não. Eu tenho pensado nisso. Tenho pensado muito. E… Depois de ver como você cuidou de tudo, eu tenho certeza… Você merece esse cargo mais do que eu.

Rhuan quase deixou a caixa cair.

Ele a olhou completamente estático por um tempo. Letitia pegou a caixa de mão do caçador, que só voltou a si quando sentiu Apolo o cutucando com a próxima caixa.

— Santiago?

— Ah! Perdão.

Ele pegou a caixa e se voltou para Letitia.

— Eu… Eu estou lisonjeado, mas eu não posso, Letitia. Eu… — ele olhou para o mar, atrás de si. — Eu não posso ficar. Eu sempre vou querer ir, e…

— Eu posso ser sua substituta para quando você for. Mas quando você estiver aqui, eu acho que você deveria comandar, Rhuan. É a mudança que eu tenho resistido fazer, porque… — Ela engoliu em seco. — Eu posso ter sido escolhida pelo bom coração, mas isso não torna mais fácil entregar esse posto para alguém. Mas ainda assim sei que é o certo a se fazer.

Rhuan não respondeu. Ele viu Apolo e Pietra cochichando um para o outro ao seu lado, e Charles olhando fixamente para ele enquanto fazia seu trabalho, ainda se perguntando se estaria bem.

— Eu não sei…

— Não precisa decidir agora, ok? Vamos fazer uma coisa cooperativa… Depois se você quiser perguntamos aos outros o que eles acham. Se você decidir que não vai dar certo mesmo eles nem precisam ficar sabendo. — Ela suspirou. — As cartas me disseram para parar de resistir à mudança que eu queria fazer, Rhuan… E é isto. Agora só depende de você.

O caçador pegou a última caixa, entregou a Letitia e deixou a fila. Ele se sentou no porto por algum tempo, vendo as ondas batendo no cais e pensando sobre aquela vontade que sentia de voltar para o mar. A vontade que sempre sentia…

...e que era combatida pela vontade de ficar perto da família que ainda tinha. Poderia voltar ao mar, como passara, por anos, com Santiago. O marinheiro de quem pegara o nome ao se juntar ao clã. Mas isso fora antes de conhecer Letitia, e Charles, e Apolo, e Pietra… Agora que eram parte de sua família, não conseguia deixá-los.

Como era possível viver dividido ao meio daquele jeito? Subir num barco sentindo saudades de seu clã, e voltar a seu clã sentindo saudades do mar?

— Santiago!

Era Pietra o chamando. O descarregamento tinha acabado por completo e Letitia tinha terminado de se despedir da tripulação em nome do clã. Abriu um sorriso disfarçando o que sentia, e foi até eles.

Um breve olhar trocado com Letitia deixou claro que, ao menos por agora, a resposta dele era não. Ela, então, assumiu as ordens.

— Bem, precisamos encontrar um lugar que nos deixe dormir e comer, e depois começar a busca. Acho que podemos nos separar e nos encontrarmos aqui ao pôr-do-Sol. Santiago, comigo. Apolo e Pietra, procurem para dentro da cidade. Charles, vá para o centro. Depois que nos ajeitarmos, vamos sair à procura da Guarda Perséfone.

O clã concordou, e seguiu seus caminhos. Rhuan sabia bem porque estava com Letitia agora, mas não disse nada a respeito.

Ela tinha jogado um tsunami em cima dele com essa notícia. Agora, ele ia deixar a onda passar.