Estou fora de alcance?

Estou fora do meu lugar?

Quando eu continuo dizendo que

Estou procurando por um espaço vazio

Oh, estou desejando você aqui

Mas estou desejando que você vá

Eu não posso ter você, e só vou lhe fazer mal

Oh, eu vou arruinar tudo

Oh, isso é apenas minha sorte

De novo, de novo e de novo

Me desculpe por tudo, oh tudo que eu fiz

A partir do segundo em que nasci

Parece que eu tinha uma arma carregada

E então eu atiro, atiro, atiro em tudo que eu amei

Oh, eu atiro, atiro, atiro através de cada coisa que eu amava

Shots — Imagine Dragons

Londres, Inglaterra

30 de Outubro de 1818

Jekyll estava conversando com uma jovem nos arredores da roda de dança. Infelizmente para Alban, o homem escolheu esse exato momento para perceber que tinha sido visto também.

Não houve tempo para pensar. Jekyll começou a sair andando na direção oposta, e no mesmo instante Lily disparou a correr atrás dele. Alban precisou de um segundo para sair do choque e ir correndo atrás dela, aproveitando o caminho recém-aberto entre as pessoas.

— Frankestein! Estou a serviço! Frankestein, com licença, estou a serviço!

Ele fez o melhor para segui-la, mas àquele ponto, já estava começando a se perguntar como ela tinha conseguido abrir caminho com tanta facilidade. Era de uma força incrível. Acabou ficando vários passos para trás e, quando finalmente atravessou o mar de pessoas, estava de frente para um corredor da casa. Tudo que conseguiu ver foi a barra da saia de Lily sumindo na curva ao fim do corredor, e ele teve que se apressar para seguí-la.

Lily era rápida. Por muito tempo ele correu e correu apenas se focando em não perdê-la de vista. De repente, se viu do lado de fora da casa, na frente do labirinto de sebes que era o jardim de Lady Fallenworth.

Jekyll não era visto em lugar nenhum.

— Eu o perdi — Lily disse, com a respiração afobada, se sentando em um banco na entrada do labirinto. — Eu não fazia ideia de que ele podia correr tanto! Se não tivesse o olhado no rosto, diria que era outra pessoa!

Alban ficou nas pontas dos pés, olhando em volta, ansioso. Mas se Jekyll tivesse se abaixado um pouquinho que fosse, estaria escondido nas sebes.

— O maldito… Nos odeia tanto a ponto de sair correndo desse jeito? É questão de honra agora. Eu vou atrás dele nem que tenha que invadir sua casa!

O líder olhou irritado para a sebe. Precisavam da ajuda dele! Ele tinha ido até eles em primeiro lugar, querendo dividir seus conhecimentos! Não podia dividir agora? Pessoas poderiam acabar morrendo!

E depois era ele quem era péssimo em engolir o orgulho… Ao menos não saíra correndo como aquele puto maldito desgraçado…

— Alban… Eu preciso de ajuda…

Ele desviou o olhar da sebe na mesma hora, se virando para Lily. A caçadora tinha apoiado o pé sobre uma das pernas, e percebeu que ela poderia ter torcido.

O líder não era médico. Em verdade, de todos os quatro ele era o que menos entendia de tudo isso. Sua especialidade era Física. Não sabia bem como poderia ajudá-la fora do mais básico possível.

— Devo buscar Thomas ou Aaron?

Ela balançou a cabeça.

— Não… Espera, acho que vai ficar tudo bem.

Alban se sentiu ansioso. Ela começou a massagear o pé e, por mais que ele quisesse ajudar, sabia que seria péssimo se vissem os dois sozinhos ali fora. Ele com as mãos no tornozelo dela, ajoelhado ao seus pés… Poderia acabar com a reputação de Lily.

— Consegue se levantar?

Ela demorou mais alguns segundos, mas tentou e conseguiu. Alban conteve um suspiro aliviado. Ao menos estava bem.

— Excelente. E agora, o que faremos? — ele perguntou. — Já tentamos ficar de tocaia na casa dele, e não deu em nada. Não conseguimos o alcançar em casa, não conseguimos em espaços públicos… E desde quando ele consegue correr tão rápido assim?

— Eu não sei Alban… Eu…

Lily mordeu o lábio, e o líder sentiu todo seu corpo reagir a isso em um arrepio involuntário. Alban fechou os olhos, balançando a cabeça.

Ela não era para ele. Ela era nobre. Tinha que ficar com alguém à altura. Alguém da classe de Thomas. Não ele. Não era para ele. Ele não era o suficiente. Ela não o merecia…

— Talvez eu devesse tentar… — ela sugeriu.

Alban respirou fundo. Foco, Alban. Foco.

— Tentar o quê?

— Ficar de tocaia. Talvez ele seja mais aberto à presença de uma mulher. Não vai me ver como uma ameaça...

Depois disso, Alban não ouviu o resto. Sua mente desligou. Estava vendo a boca dela se mexer, mas tinha se perdido depois de pensar na possibilidade de Lily, sozinha, de noite, na porta da casa de um homem solteiro esperando que ele abrisse para ela.

Não. Não, algumas coisas eram demais. Algumas coisas não eram questão dela não ligar para sua reputação, ou de seu trabalho com os Frankestein. Algumas coisas eram perigosas. E não achava que ela entendesse isso.

— Não.

Ela pareceu genuinamente triste.

— Por que não? Poderia dar certo! Talvez ele…

— Não, Lily, que demônios te possuíram para pensar numa coisa dessas?! Você perdeu a noção do perigo?

A voz de Alban subiu algumas oitavas ao dizer isso. Ela era um gênio para várias coisas, mas para outras... Quase desafiava a paciência dele. Quase.

Ela franziu a testa de um jeito muito particular que Alban sabia que significava que ela estava a um argumento de ficar muito irritada.

— Você tem alguma ideia melhor? Não podemos perder outra chance, Alban. Precisamos dele!

— A custo da sua segurança!?

— A qualquer custo! Você me conhece o bastante para saber que não vou colocar minha vida acima da segurança de Londres. É o meu trabalho, Alban!

Sim. Era.

— E o que eu faço se homens como Gresham te encontrarem na rua sozinha desse jeito?

Ela se calou. Lily poderia ser uma ótima caçadora, mas ainda era uma só. Ela contra três homens não era um conflito de resultado difícil de se prever.

Alban se aproximou, pousando as mãos em seus ombros e olhando em seus olhos. Tinha que fazê-la entender que não era indestrutível. Nenhum deles era.

— Por favor… — ele pediu. — Não faça uma coisa dessas. Eu vou dar um jeito, ok?

O líder percebeu naquele instante que embora tivesse tido uma grande descarga de adrenalina perseguindo Jekyll. Os efeitos de dançar com ela não tinham passado completamente. Talvez não devesse estar a segurando tão perto de si desta forma.

— Você não tem que dar um jeito em nada sozinho! — Lily insistiu. — Somos uma equipe, Alban, fazemos as coisas juntos! Nós temos que…

Ela continuou falando, e falando, e falando, e não parecia ter entendido absolutamente nada de tudo que ele tinha acabado de dizer. E, de repente, ele se frustrou e cansou de discutir. O que ia fazer? Amarrá-la à estátua do jardim para impedi-la de sair?

— E se eu for com você?

— Ele não vai te deixar entrar.

— É um impasse, então.

— Sim, é.

Alban abaixou a cabeça. Não tinha mais o que dizer. É claro, poderia ordenar a ela que ficasse. Mas ele nunca fora esse tipo de líder, e não queria ser. E agora sentia que ela sairia andando daquela casa sozinha, e que seria seguida por alguém e que…

— Alban?

Ele sentiu o toque dela em seu braço, e desviou o olhar para a caçadora.

— Confie em mim. Eu consigo…

— Não é em você que eu não confio, Lily.

Talvez estivesse mesmo em algum limite senil, porque levantou sua mão e fez um carinho suave no rosto dela. Sua mão tremia um pouco, e para sua surpresa, ela inclinou um pouco o rosto, na direção de sua mão.

Aquele pequeno gesto fez uma possibilidade louca percorrer a mente de Alban. Louca, sim, porque não tinha a menor chance de ser verdade. Não tinha a menor chance de Lily o desejar como ele a desejava.

Ela devia ter bebido ponche demais. Devia ter porque não tinha a menor chance de…

Lily se colocou na ponta dos pés.

— L-lily… O que está…

Ela o beijou.

Primeiro, Alban não entendeu direito o que estava acontecendo. Não reagiu, chocado ao sentir o toque dos lábios que tanto vinha imaginando como seriam nos seus. Macios. Doces. Exatamente tudo que tinha imaginado. E ele podia até ser virgem, mas essa não era a primeira vez que beijava alguém. Algo de diferente estava acontecendo. Havia algum tipo de… faísca? Não sabia dizer. Ele sentiu seu corpo se arrepiar de cima a baixo, e algo em seu coração relaxou. Como se estivesse apertado há muito tempo sem ele saber e de repente fosse solto. Como se de repente ele tivesse chegado em casa.

Então, ele ouviu um "oh" surpreso atrás de si, seguido da voz de uma mulher de meia-idade:

— Eu sabia que era uma libertina. E, trabalhando com esses homens, era claro que ia dar nisso…

Foi como se um balde de água fria caísse sobre Alban. Ele empurrou Lily delicadamente pelos ombros, chocado, sentindo sua respiração acelerar.

O que tinha acabado de acontecer?

Os segundos seguintes pareceram se passar em câmera lenta. Ele viu a expressão surpresa e um pouco magoada no rosto de Lily. Olhando para trás, viu duas mulheres, uma delas dona da fala, deixando o jardim. De certo iam espalhar para todo o baile que Lily tinha acabado de beijar seu chefe. Então, olhou para as próprias mãos e viu que estava tremendo.

O que tinha feito?

De "Lily estava beijando o líder de seu clã no jardim", a fofoca logo iria crescer para "Lily tem um caso ilegítimo com o homem que vê todos os dias a serviço". Não existia reputação que sobrevivesse a aquilo.

— Não… — ele murmurou. Estava ficando tonto. — Não… Não, não, não, não…

Tudo que ele tinha lutado tanto contra… Por que sim, poderia tê-la cortejado da maneira correta. Considerara isso. Pensara a respeito e desistira da ideia várias vezes por achar que ela devia conseguir coisa melhor. Assistira Lily dispensar um homem atrás do outro, se perguntando internamente se demoraria muito para que ela conseguisse se apaixonar por alguém. Para que ela se casasse logo e ele pudesse matar suas esperanças de vez… E agora…

— Por quê? — ele perguntou, apenas, se sentando no banco ali ao lado. Estava começando a lacrimejar.

Todo esse tempo esperando que ela se apaixonasse por alguém, e ela escolhera se apaixonar por ele?

— Eu… — Alban ouviu na voz dela uma nota de confusão. — Eu pensei que você… Pensei que… Me quisesse…

Lily suspirou. Houve um período de silêncio no jardim e ela decidiu ir embora.

Alban soube naquele momento que se a deixasse ir sem falar nada as coisas jamais seriam as mesmas entre eles. E isso era algo que ele não poderia aceitar.

— Lily… Sente-se aqui, por favor.

Ela se virou para ele devagar, e ele notou que ela também lacrimejava. A caçadora enxugou os cantos dos olhos, e Alban tentou ignorar aquela dor pungente no peito por tê-la feito chorar.

— Eu nunca te contei a história de como me juntei ao clã — ele começou.

Não era algo sobre o qual gostasse de falar. Mas se não falasse ela não iria entender.

— Minha mãe conheceu meu pai em um desses bailes. Ela é daqui, da Inglaterra. Meu pai era da Escócia. No primeiro baile em que foram, eles foram vistos se beijando em uma varanda… — Exatamente como tinham acabado de ver os dois. — ...E como resultado, acabaram se casando duas semanas depois.

Isso era muito comum. E agora que todo mundo ia sair falando que os dois eram amantes, ele percebeu de repente que era muito provável que acontecesse com eles também. Era isso ou ela estaria arruinada pelo resto da vida…

Alban viu no rosto da caçadora que ela tinha acabado de perceber a mesma coisa. Não era isso que estavam conversando agora, porém. Ele realmente não gostava de entrar em detalhes naquela história, então achou melhor resumir qualquer parte que não fosse importante.

— Longa história resumida… Ele era um canalha. E beijou minha mãe na sacada porque sabia que a obrigariam a se casar com ele. A levou para a Escócia para morar com ele e… Eu sou o filho mais velho, e não demorei a nascer. Minha mãe não queria se deitar com ele em nenhuma das ocasiões em que isso aconteceu, mas teve que fazer assim mesmo. E foi assim que eu nasci.

Agora a expressão de Lily era de nojo. Não a culpava. Ele mesmo estava sentindo um pequeno enjoo na boca do estômago.

— Talvez por isso eu só tenha me apaixonado por você depois de sermos amigos por tanto tempo. Eu nunca quis me apaixonar. Sempre quis morrer sozinho, sabe? Eu… Meu pai vivia batendo na minha mãe. Ela não queria que eu soubesse, mas eu fui crescendo e fui percebendo. Não era só bater. Tenho certeza de que ele a levava para a cama à força também. — Ele sentiu um nó na garganta.

— Você nunca disse nada disso… — Lily sussurrou.

Não. Nunca. Para ninguém. E ainda não tinha acabado.

— Um dia… — Ele tentou não chorar, mas agora já tinha começado. — Um dia ele estava batendo muito nela, porque ela saiu à noite com uma vizinha sem avisar. E ele não parava… Ele não ia parar, Lily… Eu fiz o que eu tinha que fazer…

Alban sentiu Lily segurar sua mão. Ele respirou fundo algumas vezes, tentando tirar as imagens de sua mente. O sangue... Sua mãe completamente ferida… Tudo aquilo…

— Alban…

— Eu o matei. Eu peguei a arma dele no escritório e atirei q-quatro vezes… — sua voz começara a gaguejar. — Duas nas costas, uma na nuca, uma atrás da cabeça. E ele morreu.

O líder viu Lily levar a mão à boca. Era exatamente como sabia que ia ser. Ele era um monstro, no fim das contas. Ele era. E sabia disso.

— E ele se levantou — Alban continuou. — Por uma semana, eu tive que matar ele todas as noites, porque ele era um louco violento que continuava levantando como um zumbi… Isso até um Frankestein aparecer… E depois de resolver o problema, ele me recrutou.

Alban se levantou. Não achava que conseguia falar mais alguma coisa por agora. Ainda não sabia o que fazer com o beijo que ela tinha o dado. Ainda não sabia o que fazer com quase nada. Nessas horas, a única coisa que podia fazer era se focar no que tinha de segurança para si: seu trabalho.

— Você precisa encontrar alguém que seja bom para você. Que tenha um bom título. Que não traga toda essa… Essa sujeira junto.

Houve um tempo de silêncio. Alban respirou fundo, tentando colocar sua consciência no lugar. Ainda estava perdido.

— Eu vou encontrar Jekyll — ele anunciou, por fim. Lily não ia sozinha, de jeito nenhum. — Você vá atrás de Thomas e Aaron. Vamos conseguir o que precisamos de Jekyll nem que tenhamos que arrancar dele.

Daquela vez, tinha falado em tom de ordem. Ela apenas concordou, percebendo a mudança em sua voz. E, assim, Alban respirou fundo e deixou a casa de Lady Fallenworth.