Oh, meu amor, meu querido
Eu anseio pelo seu toque
Há um longo e solitário tempo
O tempo passa tão devagar
E o tempo pode fazer tanto
Você ainda é meu?
Eu preciso do teu amor
Eu preciso do teu amor
Deus me dê o seu amor
Unchained Melody — Righteous Brothers
Londres, Inglaterra
30 de Outubro de 1818
Não demoraram dois minutos para que, depois de entrar no baile, Thomas perdesse Alban e Lily de vista. Ele suspirou e, sinceramente, não ligava. Especialmente quando Aaron apareceu ao seu lado, ajeitando a barra da gola do terno e coçando a garganta.
— Bem, isso foi rápido.
— Eles provavelmente vão encontrar um lugar quieto para ficar e observar a festa — Thomas respondeu, sabendo que Aaron se referia ao desaparecimento súbito de seus amigos. — Nós devíamos falar com as pessoas.
Aaron concordou, em silêncio, e Thomas julgou isso como sendo o suficiente. Então, ele pegou duas taças de vinho de um garçom que passava ao lado. Ofereceu uma a Aaron e começou a olhar em volta, procurando por uma boa pessoa para conversar. Pelo canto do olho, reparou que Aaron abriu um sorriso pequeno ao experimentar o vinho, e se sentiu levemente orgulhoso por isso. Escolhera aquela taça de vinho especificamente pensando nele, afinal de contas, e obviamente tinha acertado. Conhecia Aaron o bastante para saber que sua bebida preferida era vinho, e para saber que tipo de vinho ele gostava de beber: tinto e seco.
E eram tantas as pequenas coisas que sabia sobre ele… Sabia que ele morria de medo de qualquer inseto voador, de forma que Thomas sempre tinha que matar qualquer coisa que entrasse voando no quarto quando estavam juntos. Sabia que Aaron vinha de origem muito humilde e tinha a família grande, que os visitava de vez em quando e que vivia trocando cartas com um dos irmãos. Sabia que Aaron tinha um longo histórico na cama, mas que seu coração era tão inexperiente quanto poderia ser. Por vezes, tinha receio de magoá-lo por isso, mesmo que ele dissesse que sabia que eram só um caso.
Céus, sabia o seu nome completo, e que Jerome, o nome do meio, era motivo de vergonha por ser bíblico. Tinha descoberto ao pegar os documentos dele para reservar entradas em uma festa para os dois. Tivera o bom tato de não dizer a Aaron que reparara nisso, porque ele parecia bem sem graça com a origem cristã daquele nome.
Sabia que Aaron tinha medo de morrer sem deixar sua marca no mundo.
Talvez soubesse mais sobre ele do que sabia sobre si mesmo, em algum nível. Para alguém que nunca pretendera se prender a relacionamentos de nenhuma forma, era um pensamento assustador. Mas era também confortável. Era uma mistura estranha e agradável, e vinha pensando muito nisso recentemente.
— Thomas? — Aaron chamou, e Thomas piscou os olhos algumas vezes, atordoado, percebendo que estivera o encarando.
— Sim. O que foi?
Aaron ergueu um pouco sua taça, apontando para um ponto atrás de Thomas, e o caçador se virou. Lorde Fallenworth estava ali, e o olhava com um ar muito discreto de interesse, cautela e dúvida. Thomas engoliu em seco. Sabia o que aquele olhar significava e, em outra ocasião, teria seguido o homem para qualquer que fosse o canto onde ele quisesse estar sem pensar duas vezes.
Mas, daquela vez, ele olhou para o líquido escuro em sua taça e não sentiu aquele arrepio, aquela adrenalina que costumava sentir quando um homem o chamava para um canto qualquer. Na verdade, a mera ideia de estar com Lorde Fallenworth em um quarto o deixou levemente nauseado.
Não que fosse culpa do homem. Thomas seria o primeiro a reconhecer que Lorde Fallenworth era extremamente atraente, e talentoso. Sua esposa certamente era muito sortuda, ao menos no aspecto sexual da vida. Mas… Não queria. Não sabia explicar, só não queria.
Thomas lançou um olhar para Aaron, percebendo que ele tinha abaixado o olhar para o próprio copo e não estava falando nada. Não parecia muito animado também. Em verdade, conhecia Aaron para saber que para que ele estivesse em silêncio, quieto, e sem um sorriso no rosto, algo de muito errado estava acontecendo.
Isso o incomodou. Por qualquer motivo que fosse, incomodou muito. Thomas enfiou a mão dentro do terno, com a expressão bem séria, e tirou seu distintivo. O clã não usava muito os distintivos que tinha, mas ocasionalmente poderia ser útil, como daquela vez. Ele mostrou o distintivo de Frankestein para Lorde Fallenworth, o metal da insígnia refletindo um pouco a luz do local, e ele viu um pequeno sorriso de concordância no rosto do homem. Então, deu as costas para o anfitrião e chamou Aaron com um aceno de mão.
— O que foi isso? Por que mostrou o distintivo pra ele?
— Achei melhor deixar claro que vim à serviço.
Distintivos eram mesmo bem úteis. Às vezes Thomas pensava se os outros clãs também deveriam ter os deles. Contudo, deveria ser inútil aos Flores, uma vez que não tinham casa, e também para os da Vinci e os Van Helsing, visto que eram respaldados pela igreja e isso já era status suficiente. Mas, de qualquer forma que fosse, eram úteis para eles. E… Havia uma certa sensação de poder em carregar um consigo.
E era sobre isso que Thomas era, no fim das contas. Poder. Era o que importava. O poder de Lorde Fallenworth tinha o colocado ali dentro, mas não faria mais nada por ele agora. Então, não tinha problema em dispensá-lo de maneira discreta e não suspeita, certo?
Alguma coisa parecia ter feito Aaron recuperar a postura e o jeito divertido ao seu lado, Thomas percebeu. Ele tinha um sorriso no rosto, de novo, e estava rindo das coisas mais bobas. Fazia piadas sem sentido de uma outra roupa de alguém, ou da comida, ou de qualquer coisa que permitisse uma piada tão sem graça que talvez fosse melhor nunca ter sido nem ouvida.
— Hm… Mas talvez pudéssemos ter perguntado a ele sobre Jekyll, não?
Thomas soltou uma risadinha sarcástica. Estava claro que Aaron estava feliz daquele jeito porque Thomas dispensara a chance de ir se encontrar com o Lorde.
— Se ele estiver aqui, vamos encontrar. Ou Alban e Lily irão. Isso é certeza. Vamos só continuar circulando por agora, certo?
Aaron concordou, e para Thomas, isso foi o bastante.
Ele estava acostumado com festas o suficiente para caminhar com classe entre as pessoas, lento o bastante para ter conversas curtas, rápido o suficiente para não se atrasar demais em lugar nenhum. Ainda assim, não conseguiram ver Jekyll, ou ouvir dele de ninguém. Em algum ponto, Thomas começou a considerar que tudo que tinha feito fora por nada, e que o homem simplesmente não fora à festa. Talvez inclusive tivesse descoberto que os dois iam, e tivesse faltado por isso. Que inferno… Todo aquele esforço, por nada?
Thomas e Aaron se recostaram na mesa de comida depois de um bom tempo. Enquanto estavam ali, uma música de valsa começou a tocar. Thomas estava distraído o bastante com sua bebida e os petiscos para não prestar atenção no que acontecia na pista, mas logo ele sentiu um tapa leve no ombro, e se virou.
— O que foi? — perguntou a Aaron.
O caçador apontou para a pista, e Thomas olhou.
Sem chance.
Alban estava dançando com Lily.
O queixo de Thomas caiu.
— O que eu perdi?
— Incrível — Aaron comentou, baixinho. — Anos para que eles se dessem conta de alguma coisa, e já estão dançando, enquanto…
O caçador parou de falar, e Thomas olhou para ele, pensativo. Enquanto o quê? Aaron tinha engolido em seco, e voltara a tomar um gole de seu vinho. Estava claro para Thomas que ele tinha parado uma frase no meio do caminho.
Olhando para Alban e Lily girando no salão, não sabia dizer exatamente como, mas Thomas percebeu o que Aaron estava sentindo. E, de repente, ele também ficou furioso. Anos e anos, Alban e Lily ao lado um do outro. Eles tinham acabado de se dar conta de que sentiam algo e estavam ali, dançando como se fossem heróis de um romance. Enquanto isso, ele e Aaron, que tinham uma história de anos, não podiam ter metade daquilo.
Thomas era médico. Ele sabia que não tinha nada de errado consigo, nem com Aaron. Errado estava quem pensava menos de si por não caber em qualquer narrativa senil que tinham construído a respeito do mundo.
Ele podia aguentar a crueldade do mundo, estava acostumado a isso. Mas Aaron era bom demais para ver esse tipo de coisa. Thomas sabia nos pequenos detalhes de como Aaron se portava agora, como a respiração e a postura, o quão frustrado ele estava.
Não ia deixar isso assim. Não podia, céus. Se importava muito para isso. Ele soltou uma risada sarcástica em seguida. Sim, se importava… Como isso tinha acontecido?
Thomas deixou o salão, chamando Aaron para o acompanhar. Estava sentindo o peito pesado de uma forma estranha, e sabia que não era por si mesmo. Céus, já tinha visto dezenas de casais dançarem e sinceramente não ligava se Alban e Lily finalmente tinham tirado as cabeças dos buracos do chão e percebido um ao outro. Mas Aaron parecia ligar. E sentir. E agora Thomas estava sentindo também.
O destino final do caçador foi um dos vários escritórios vazios da casa. Ele trancou a porta depois que os dois tinham entrado, e respirou fundo, ajeitando o terno. Dali conseguiam ouvir a música do salão, mesmo que um pouco distante, e a valsa que Alban e Lily vinham dançando tinha acabado de chegar em seus últimos acordes, e foi seguida por alguns aplausos.
Thomas coçou a garganta e, pomposamente, estendeu a mão para Aaron.
— O que é isso? — Aaron perguntou, e ele ainda tinha um ar de tristeza no rosto que fez Thomas querer, ao mesmo tempo, o abraçar e bater em todo mundo que estava dançando lá embaixo.
Que sentimento louco! O mais estranho de tudo era um arrepio de alegria por baixo de tudo, algum tipo de… orgulho? Sim… Não sabia de que estava se orgulhando, mas estava, e era tudo tão confuso… Mas… Bom… Sim, era um sentimento bom.
— Estou te convidando para dançar — Thomas respondeu.
E como Aaron parecia chocado demais para sair do lugar, ele puxou o homem pelo pulso, passando uma de suas mãos para a cintura dele, e a outra segurando firme a mão de Aaron. A música seguinte começou lá embaixo e Thomas começou a dançar de um lado para o outro.
— Viu só? — ele perguntou. Atordoado, Aaron colocou a mão livre no ombro de Thomas.
Eles balançaram devagar por alguns segundos, mas Thomas percebeu que aquilo não apagou a expressão preocupada do rosto do caçador, e sentiu o coração dar um salto. E agora, o que ia fazer? Não era uma boa pessoa para lidar com os sentimentos dos outros. Sua sinceridade rígida era seu pior defeito. E agora?
— Aaron, o que está acontecendo?
Thomas se perguntou se ele tentaria desviar do assunto, fingir que não tinha nada de mais, pois seria um esforço infrutífero. Por algum tempo, Aaron pareceu estar ponderando exatamente isso, mas no fim das contas, ele cedeu.
— Não é… justo.
E Thomas sabia exatamente o que Aaron queria dizer.
— Não… Não é. Nós dois vivemos uma história por anos, nas sombras. Eles acabam de começar a deles e já podem fazer isso na frente do mundo.
Thomas engoliu em seco. Agora que tinha falado isso em voz alta, percebeu que estava muito mais incomodado com a situação do que tinha imaginado que estaria. Aaron abaixou a cabeça, e Thomas esperou por um tempo até ele voltar a falar, porque sabia que ele falaria. O conhecia assim.
— É só que… — Aaron engoliu em seco antes de continuar, e Thomas sentiu um aperto no peito porque conhecia aquele jeito dele de tropeçar nas palavras. Significava que Aaron poderia chorar a qualquer instante. — Eu… Eu os amo. Alban é meu amigo. Lily é minha irmã, praticamente. Eu… Eu não quero sentir…
— Inveja?
Aaron abaixou a cabeça, e Thomas levantou o rosto dele em tempo de ver uma lágrima escorrendo.
Não. Não, não. Isso não. Aaron era muito bom para chorar. Muito puro. Como era possível que o universo tivesse coragem de fazer Aaron se sentir triste com qualquer coisa que fosse?
— Está tudo bem, Aaron… Eu também tenho inveja. Não quer dizer que somos ruins, ou… Ou que não gostamos deles… Ou… Ou…
Outra lágrima escorreu, e no segundo seguinte Aaron estava realmente chorando, misturando lágrimas com soluços. Thomas o abraçou, desejando que pudesse ser mais alto para o segurar em seu peito como Aaron tinha feito com ele daquela vez. Não sabia o que fazer.
— Aaron, conversa comigo… Por favor…
— Eu… — ele soluçou mais um pouco. — Por que eu tive que nascer assim? Por quê?
Thomas mordeu o lábio. Começou um carinho nas costas de Aaron, mas não sabia se estava adiantando. Céus, não sabia se nada adiantava àquela altura. Aquela inveja visceral também estava nele, afinal de contas. A diferença era que Aaron era bom o bastante para se sentir mal por isso, enquanto que em Thomas a inveja se tornava ódio. Cada vez mais. Não ódio de Alban e Lily, claro que não. Mas de todos os outros, todo mundo que tinha os escrutinado a ponto de que o único lugar onde podiam se sentir seguros tinha se tornado ilegal…
De repente, Thomas pensou nos sonhos que Aaron sempre tinha para o futuro. O amante nunca o incluíra nele quando conversavam, mas era claro para Thomas que nos sonhos de Aaron os dois estavam juntos. Que não era Aaron morando sozinho numa casa no interior, eram os dois. E ultimamente… Thomas vinha sentindo que queria isso.
— Sabe Aaron… A casa no campo… Eu iria com você. — Thomas levantou a mão para fazer um carinho nos cabelos de Aaron, ainda tentando o acalmar. — Talvez eu esteja ficando velho, procurando uma forma de me aquietar na vida…
Thomas soltou uma risada baixinha. Sim, talvez fosse isso. Às vezes ele se esquecia de que era dez anos mais velho que Aaron. Em outras ocasiões essa diferença ficava clara. E, às vezes, Aaron parecia mais maduro que ele.
— O-o quê está dizendo? — Aaron perguntou, se afastando um pouco do abraço.
O amante enxugou as lágrimas do rosto, fungando um pouco.
— Você vivia falando que queria se mudar para uma casa no campo um dia… Não sei quando você queria fazer isso, mas… Quando resolvermos isso com Jekyll, talvez possamos falar à respeito. Largar tudo… E ir.
Ele viu nos olhos de Aaron o quanto ele estava incrédulo, e isso fez Thomas se perguntar exatamente o quanto de sua afeição pelo caçador nunca tinha aflorado antes. Era sua culpa. Se acostumara a ser uma pedra de gelo, quando Aaron era muito sensível e alegre. Nunca deveria ter dado certo para eles. Por vezes Thomas tinha sentido que estava corrompendo o outro, quem diria… Mas… De alguma forma, funcionava. E funcionava mais do que qualquer outra coisa que Thomas já tinha sentido na vida.
Ele não queria deixar isso escapar.
— Fique comigo — Thomas pediu, puxando Aaron para perto e tocando seus lábios nos dele.
Thomas sentiu a tensão no corpo de Aaron. A surpresa. E sentiu também ele relaxar depois, sentiu os braços de Aaron o abraçando e a paixão na resposta do beijo que claramente queria dizer sim. Thomas ainda estava surpreso. Nunca tentara ter um amante sério antes. Embora todo o tempo que já tinha passado com Aaron pudesse contar com um amante fixo, um sério era outra coisa. E era algo que ele queria… Ah, com Aaron queria, para o resto da vida que fosse, céus, até o fim dos tempos! Estaria com ele até…
Ele ouviu batidas na porta.
Thomas respirou fundo, decidindo que não ia se estressar com interrupções. Seriam as últimas, e depois eles iriam embora. E fim.
— Thomas? Aaron? Estão aí?
Então o caçador franziu a testa. Era Lily.
Ele e Aaron se olharam. Thomas deu ao amante alguns segundos para terminar de limpar o rosto e parecer apresentável antes de abrir a porta.
Lily estava ofegante. Era óbvio que estivera correndo. E estava bem vermelha, também.
— Lily? O que aconteceu? — Aaron perguntou, indo até a porta.
— Finalmente… Eu já olhei em dois andares dessa casa gigante! — Ela respirou fundo, e Thomas percebeu imediatamente que a caçadora estava sozinha.
Talvez Alban estivesse procurando por eles em outro lugar, pensou. Mas… Sentia que não era isso. Lily estava vermelha, afobada e cansada. E parecia muito aflita. A voz dela saiu falha, no meio de uma respiração forçada, quando ela voltou a falar.
— É o Alban. Ele está meio transtornado com uma coisa que fizemos e… E agora eu acho que ele está indo fazer algo muito, muito estúpido. Eu preciso de ajuda.
