Tudo o que quero fazer
É correr para você
Correr para você
E por toda minha vida, eu prometo
Continuar a correr para você
Não posso dizer como os dias serão
Não posso mudar o que o futuro nos reserva
Mas eu quero você nele
Cada hora, cada minuto
Running Home To You — The Flash
Londres, Inglaterra
30 de Outubro de 1818
— De que tipo de "estúpido" estamos falando?
Apesar de Thomas fazer a pergunta com o mesmo ar superficial que trazia em tudo que falava, Lily o conhecia o suficiente para ver por baixo da capa de nobreza e da postura de indiferente. Ele estava realmente preocupado. Thomas e Aaron deixaram a sala e a seguiram em direção à saída da festa. Precisavam de uma carruagem. Urgente.
— Do tipo mortal — ela respondeu. — Falta uma hora para Madrugada dos Mortos-Vivos e ele decidiu se enfiar na rua e ir atrás de Jekyll! Sozinho!
— O que? — Thomas perguntou, chocado.
Sua reação tinha sido a mesma. Era de se esperar que Alban, como líder do clã, ia se lembrar que a madrugada do dia 30 para o dia 31 de outubro era uma das piores insurgências de névoa que poderiam enfrentar. O quão transtornado tinha ficado para esquecer uma coisa dessas? Iam sair monstros de todos os cantos da cidade e ele decidira sair pela rua sozinho?!
Lily o viu tirar o relógio de bolso para conferir, e isso resultou em um palavrão.
— Não falta uma hora, falta meia. O que ele tem na cabeça? O que foi que vocês fizeram para ele tomar uma decisão idiota dessas?
Ela não conseguiu evitar o tom rosado nas bochechas, e se virou de costas, tímida. Não precisava que os dois soubessem o que tinha acontecido. Mas, para seu desespero, aquele leve tom vermelho no rosto foi o suficiente.
— Bem, já não era sem tempo, não é? — Aaron comentou, fechando a porta atrás de si.
Lily não achava que pudesse falar disso agora. Ela apenas começou a caminhar em direção à saída do baile, de novo com o distintivo em mãos para abrir caminho.
Porque, afinal de contas, eles não entendiam. Não que não tivessem seus problemas, era claro que tinham. E eram com certeza piores que os dela. Mas, ainda assim, era uma situação diferente. Não tinha como eles entenderem o que era ser uma mulher, conseguir um trabalho depois de todo o esforço que fizera para isso, e se apaixonar pelo chefe. O mínimo que iria acontecer seria todo mundo dizer que ela só conseguira seu trabalho por estar se deitando com ele. No máximo… Bem, alguém tinha os visto juntos. Não dava para ficar muito pior que aquilo.
Então, sim, era claro que ela tinha se impedido de declarar seus sentimentos por todo esse tempo. E agora que tinha estava profundamente arrependida. Engoliu em seco, tentando não pensar em todos os problemas que teria que lidar depois de ter sido vista com Alban. Céus, não queria pensar nisso agora. Ele estava em perigo. Precisava salvá-lo.
— Desculpe, acho que ainda não entendi — Thomas comentou.
— Tom, eles estão juntos agora.
Lily levantou uma sobrancelha. Então era "Tom" agora?
O que estava acontecendo naquele escritório antes que chegasse?
— Isso eu entendi — Thomas cortou, dando um tapa amigável nas costas da cabeça de Aaron. — O que não estou entendendo é o porquê de isso despertar desejos suicidas em Alban, se ele também a queria.
A caçadora permanecia corada e em silêncio. Não queria e não ia discutir isso com os dois agora. De preferência, não ia discutir nunca. Ela entrou na carruagem de Thomas e se sentou ao lado da janela, mexendo as mãos no colo e tentando conter a ansiedade.
Então a carruagem partiu. Não sabia o que ia fazer se, no fim das contas, Alban não estivesse na casa de Jekyll. Onde ia procurar por ele? Não tinham muito tempo antes da meia-noite. Se Alban estivesse no meio da rua…
O coração de Lily acelerou. Alban não seria assim tão irresponsável, é claro que não. Ele era mais esperto que isso. A caçadora se dividiu entre ver o caminho pela janela, que em sua opinião não passava rápido o bastante, e olhar ansiosa para Thomas, como se esperasse que ele pegasse o relógio de bolso para conferir quanto tempo tinham.
O caçador não fez isso, e ela teve que passar o resto da viagem aflita, até que se lembrou que levava sua adaga borboleta em um dos bolsos do vestido. Pegou-a e começou a brincar com a lâmina, algo que fazia quando estava nervosa. Não pensara que fosse de fato chegar a usar a arma essa noite, era apenas uma prevenção. Andar com armas e distintivos era um hábito dos Frankestein, afinal de contas.
A carruagem parou. Lily arfou, sobressaltada, e abriu a porta correndo, saltando para fora.
— Thomas, horas — ela pediu.
— Temos dez minutos — o caçador respondeu, olhando o relógio. — Vamos ter que nos trancar aí dentro pelo resto da madrugada.
Lily conteu uma forte vontade de xingar. Inferno, Alban, o que tinha na cabeça? Obviamente quando ela tinha mencionado ficar de tocaia na porta da casa de Jekyll planejava fazer isso na manhã seguinte, não agora! Poderiam estar presos no baile enquanto a cidade virava um inferno madrugada afora, mas não. Graças a ele, estariam na casa de Jekyll até amanhecer.
— Eu juro… Se acharmos o Alban vivo, eu mesma vou MATAR ele!
Agarrando a aldraba da porta, começou a bater com uma energia tão forte que em alguns segundos sentiu os dedos doerem. Mas não se importou, e bateu de novo. E de novo.
— Thomas?
— Oito minutos.
Lily gritou. Ela viu uma expressão surpresa no rosto de Aaron, e não podia culpá-lo por isso. Não achava que os dois já tivessem a visto tão frustrada na vida.
— Agora sete minutos.
— Aaron, arrombe a porta.
Houve silêncio. Se afastou da entrada e cruzou os braços, dando passagem para Aaron. Ele estava obviamente relutante, e Lily reparou no olhar trocado com Thomas.
— Isso é legal?
— Somos uma força da lei, é claro que é legal entrar em residências de suspeitos. — Ela deu de ombros.
O caçador ainda parecia muito dividido, mas acabou cedendo, seja porque ela estava os assustando, seja porque ele mesmo se preocupava com a situação. Embora tivesse quase um metro e noventa de altura e com certeza músculos em excesso, Aaron ainda precisou fazer uma boa força para a madeira ceder.
A porta se abriu com um estrondo violento depois de que o colega de clã se jogasse contra ela três vezes. Lily girou a faca nas mãos, a colocando em posição de combate, e entrou na casa com cautela.
Nada se mexia nas sombras da sala principal. Ao menos ali, estavam sozinhos.
— Barriquem a porta — ela pediu. — Eu vou olhar no andar de cima. Depois vocês se dividem entre o primeiro andar e o porão.
— Lily, eu não acho que…
O que quer que Aaron achasse, ela não ficou lá para ouvir. O tempo estava passando. Se Alban estivesse sozinho em algum lugar de risco, tinham uns cinco minutos para o tirar de lá antes que a cidade virasse uma loucura.
A caçadora subiu as escadas, encostada ao corrimão e ainda empunhando sua faca. Parte de si temia que fosse tarde. Que não fosse o encontrar… Ou que não fosse o encontrar com vida. Sua mão tremia, muito de leve, na faca, e ela tentava fingir que não tinha percebido. Que não estava com medo. Claro que não estava…
Decidiu se focar em detalhes. O andar de cima era feito de uma longa sacada, que dava para uns dois quartos diferentes. Embaixo, ela viu Aaron e Thomas arrastando mobília para fazer uma barricada na porta e na janela.
A mulher respirou fundo e entrou no primeiro quarto.
Estava vazio. Literalmente, vazio. Com a exceção de uma grossa camada de poeira e umas cortinas puídas na janela, não havia mais nada lá, nem ninguém. Lily franziu a testa e saiu, indo para o próximo quarto.
O segundo era claramente o quarto de Jekyll. A cama estava bagunçada, e havia uma pequena pilha de livros espalhada sobre ela. Uma escrivaninha estranhamente vazia ocupava o outro lado do quarto e encontrou muito poucas roupas para compreender todo o guarda-roupa de um homem do escalão dele quando abriu o móvel na parede oposta.
— O que raios…
A poeira no outro quarto, o guarda-roupa vazio… Tudo parecia indicar que ninguém ia naquela casa há um bom tempo.
E se o líder não estivesse na casa de Jekyll? Alban poderia estar em outro lugar, sozinho. Em perigo. Céus, não…
Lily engoliu em seco e abriu a última porta.
A mulher ficou confusa. Aquele parecia ser o quarto de Jekyll. Estava limpo e arrumado. Uma cama finamente ajeitada, uma escrivaninha muito organizada. Curiosa, ela abriu o guarda-roupa e encontrou uma boa seleção de roupas mais que o suficiente para uma pessoa usufruir ao longo da idade adulta.
Mas então… De quem era o outro quarto?
Ela estava confusa, mas balançou a cabeça, afastando esse pensamento. Não tinha que se focar nisso agora. Estava procurando…
Uma badalada soou de um sino próximo do lado de fora. E mais outra. E mais outra…
— Não… Não…
Lily saiu do quarto, atordoada. Meia-noite. Alban não estava ali.
Tudo bem. Tudo bem, talvez ele tivesse mudado de ideia. Talvez tivesse desistido e começado a procurar por ela na festa. Talvez tivessem se desencontrado. Ele poderia estar naquele momento ilhado no baile, sem poder sair na rua por causa da Madrugada dos Mortos-Vivos. Talvez estivesse preocupado por não saber onde ela tinha ido parar.
Ela respirou fundo. A oitava badalada estava soando quando deixou o quarto. Talvez Alban estivesse lá embaixo, e os rapazes iam o encontrar. Não tinha porque já contar com a derrota.
Lily olhou para baixo, pela sacada, e viu Thomas parado na sala, aparentemente já tendo terminado sua breve busca no primeiro andar. Aaron não demorou muito para aparecer, também sozinho.
A caçadora conteve um xingamento. Alban ia ouvir umas poucas e boas quando o encontrassem, a se ia, porque IAM o encontrar. Tinha que o encontrar para gritar com ele pela irresponsabilidade até que ele…
Lily ouviu um rosnado.
Primeiro, ela não teve certeza do que era. Algum barulho de algo se arrastando? Um cachorro de rua do lado de fora? Mas o rosnado se repetiu, alto e selvagem, e antes que pudesse gritar ou se dar conta do que era, uma grande forma escura se jogou contra si.
A caçadora bateu as costas na cerca da sacada que, já um pouco desgastada, acabou cedendo ao peso dela e de seu atacante. Lily sentiu a cerca quebrar, e ela caiu.
Não era uma queda tão alta, mas ainda assim, era de um andar para o outro. Ela gritou, e em poucos segundos seu corpo atingiu o chão.
Lily tentou proteger a cabeça por instinto e, mesmo que tivesse conseguido evitar um impacto forte, ainda a bateu de leve no chão. Todo seu corpo doía, e ela ainda sentia o peso enorme do lobisomem que a tinha atacado em cima de si. A caçadora choramingou, sentindo a visão escurecer. De repente, ouviu um rugido forte, e o peso saiu de cima dela.
Não sabia dizer mais o que estava acontecendo. Ouvia rugidos, impactos, barulhos de luta, mas sua cabeça doía e não conseguia se apoiar em seu corpo para se levantar. Não parecia ter quebrado nada, então precisava se levantar. Simplesmente precisava.
Ela fez força para se apoiar nos braços, rolando no chão e levantando o rosto. Do outro lado da sala, Aaron e Thomas empunhavam suas facas, tentando dominar a besta, mas não podiam simplesmente esfaqueá-lo. Lobisomens não eram corpos mortos saídos das covas. Eram homens vivos, recuperáveis. Havia alguém por baixo de todo aquele pelo…
Oh.
OH.
— AARON, THOMAS, PAREM!
Todo o corpo de Lily reclamou quando ela conseguiu se por de pé. O lobo rosnou e tentou avançar em direção a Thomas, mas, em um ato de desespero, Aaron enlaçou o animal pelo pescoço, tentando o segurar no lugar. Thomas se juntou a Aaron em seguida, ainda com a faca em mãos. A caçadora se forçou a caminhar até o lobo, ainda tonta e dolorida.
O animal rosnava e tentava se soltar desesperadamente. Thomas estava sendo um pouco arrastado de um lado para o outro, mas felizmente Aaron parecia mais capaz de se manter firme no lugar.
— Inferno… — Thomas resmungou. — Como aqueles selvagens conseguem dominar essas coisas?
— Bem, eu sempre disse que eles deviam ser bem mais fortes do que lhes era dado crédito…
Lily não deu tanta atenção à pequena discussão dos dois. Sua opinião sobre os Flores sempre fora bem neutra e curiosa, e graças àquela curiosidade ela acreditava ter uma noção do que fazer agora. E seria simples…
...se um impacto não tivesse acontecido na porta.
Os monstros da Madrugada dos Mortos-Vivos estavam do lado de fora, afinal de contas. Outro impacto na porta fez a cristaleira que a barrava se mover de leve. Mas, eventualmente, o que quer que estivesse do lado de fora, desistiu.
Era apenas uma questão de tempo até outra ameaça aparecer, porém. Essas madrugadas já eram péssimas em situações normais. Agora, então, com a névoa se comportando de maneira atípica até nos dias comuns…
E se não conseguissem destransformar o lobo? E se a névoa estivesse forte demais?
Lily suspirou por um segundo, se culpando por dentro. Alban tinha a contado, minutos antes, como guardava dores e arrependimentos dentro dele. E agora…
Ela se aproximou, pousando a mão perigosamente no rosto do lobo. Poderia acabar a perdendo se o animal decidisse morder ao lado, mas valia o risco.
Alban valia o risco.
Lily olhou nos olhos azuis que tanto amava, reconhecendo neles o mesmo brilho de angústia que Alban sustentava mais cedo. Não sabia exatamente como tinha piorado tudo a ponto de levá-lo a uma transformação. Caçadores deveriam ser a prova de névoa. A igreja fazia os devidos rituais em todo Da Vinci, Van Helsing ou Frankestein, mesmo que a certo desgosto dos cientistas, para prevenir isso. Mesmo os Flores tinham os seus métodos. Nenhum caçador devia se transformar num monstro. E ainda assim…
— Alban… — ela sussurrou, olhando nos olhos do lobo.
O animal pareceu se acalmar. Parecia hipnotizado por Lily, e ela percebeu isso. Mesmo dentro daquele estado, ele ainda, de alguma forma, a reconhecia.
— Estamos aqui. Somos sua família também, ok? E nós te amamos… Do jeito que você é. Com todas as partes. As boas e as ruins. Nós amamos você. Por favor…
Não soube por quanto tempo murmurou que o amava, por quanto tempo o implorou para que se acalmasse. Thomas e Aaron estavam ficando realmente exaustos, e ocasionalmente uma batida na porta ia ecoar com uma força preocupante. Se algo entrasse ali dentro agora, estavam perdidos.
— Sou eu, Alban, Lily… Eu sinto sua falta. Nós sentimos. Nós gostamos de você. Você não está sozinho…
De repente, Alban soltou um uivo baixinho. Lily sentiu o lobo começar a se mexer embaixo de si, e foi em alguns segundos que ela percebeu que ele não estava se mexendo. Estava diminuindo de tamanho, se deitando no chão, os pelos encolhendo.
E de repente, era Alban ali de novo. Nu, ela logo percebeu, o que a fez corar muito e olhar para o teto, distraída.
— Alban? — Ela ouviu Aaron chamar, ainda sem ter coragem de olhar de novo.
Tinha visto o… Bem… Tinha visto demais. Não queria ver de novo naquele momento, não mesmo.
Lily ouviu a respiração exausta de Alban começar a se transformar em uma forçada, quase como se saísse através da dor. Devia olhar? Céus, o que estava acontecendo? Ela teve que esperar por um tempo enquanto Thomas foi ao segundo andar pegar roupas de Jekyll para que Alban vestisse. Mas eventualmente isso foi feito e ela pode se virar para ele.
A primeira coisa que percebeu foi que os olhos dele estavam com as córneas extremamente avermelhadas. E que ainda respirava com muita dificuldade. Sequer conseguira se pôr de pé.
— Alban…
— Fique… Longe… — ele pediu.
Aquilo foi o bastante para Lily notar que a transformação não estava completamente revertida, e que permanecer humano exigia muito de seu esforço. Precisavam encontrar um Flores para ele, o mais rápido possível! Mas nem mesmo podiam, agora.
Ela ouviu um baque forte contra a porta, e dessa vez a cristaleira cedeu, caindo ao chão.
Lily empunhou a faca, se colocando imediatamente na frente de Alban. Podia ter dificuldades para ficar de pé no momento, ainda levemente zonza e muito dolorida, mas ao menos conseguia ficar.
— Tudo bem. Se concentre em si mesmo, eu vou cuidar de tudo.
— Nós vamos — Aaron completou, se colocando ao lado dela.
Os três caçadores fecharam uma fila na frente de Alban, que ainda respirava de maneira forçada demais para ser saudável.
Então, um último baque jogou a porta da casa no chão.
