Meninos e meninas de todas as idades
Vocês não gostariam de ver algo estranho?
Venha com a gente e você vai ver
Esta nossa cidade do Halloween
Este é o dia das bruxas, este é o dia das bruxas
Abóboras gritam na calada da noite
Este é o Halloween, todo mundo fazer uma cena
Doces ou travessuras até os vizinhos morrerem de medo
É a nossa cidade, todos gritam
Nesta cidade do Halloween
Eu sou aquele que se esconde debaixo de sua cama
Dentes afiados e olhos brilhando em vermelho
Eu sou aquele que se esconde sob suas escadas
Dedos como cobras e aranhas no meu cabelo
This Is Halloween — The Nightmare Before Christmas
Londres, Inglaterra
31 de Outubro de 1818
Aaron prendeu a respiração, pegando sua adaga de soco inglês e a colocando na mão. Era muito forte, provavelmente o mais forte dos quatro, mas ainda assim era o menos habilidoso em combate. Thomas tinha uma graça e elegância que se alinhavam perfeitamente com seu status, e o fazia se parecer até demais com um Van Helsing, em campo. Lily era rápida o suficiente para que, na maioria das vezes só fosse vista pelo inimigo quando já era tarde demais. E Alban, mesmo que menor e mais fraco que Aaron, era com certeza o mais bruto do clã. Aaron presenciara uma vez o líder partir o crânio de um zumbi batendo a cabeça da criatura na parede até quebrar.
Thomas costumava dizer que mesmo que fosse forte, Aaron era gentil demais para fazer bom uso disso, e só foi entender o que Tom queria dizer no dia que viu Alban brutalizar um zumbi pela primeira vez.
Agora, Alban não podia lutar. Lily não sairia de perto dele, e ele e Thomas não conseguiriam manter todos os monstros fora da casa sozinhos.
Estavam perdidos.
— Tom? Precisamos de um plano.
Foi naquele momento que a porta veio abaixo. O caçador prendeu a respiração. O plano teria que esperar. Dois zumbis entraram na casa, e o caçador respirou fundo, indo diretamente para o mais à esquerda.
Nem mesmo precisava olhar para Thomas para saber o que ele estava fazendo, e isso era importante naquele momento. Não podia se distrair por mais que se preocupasse com o outro. Tinha seu próprio inimigo para cuidar.
Aaron levantou as mãos, se colocando em posição defensiva. Não usava adaga de soco à toa. Era um bom boxeador e preferia brigar assim. Ele socou a cara do zumbi à sua frente, usando o soco inglês embutido no cabo da adaga. O som feito deixava bem claro que o nariz da criatura tinha quebrado.
Sabendo que velocidade era uma vantagem, Aaron não perdeu tempo em socar o zumbi de novo, agora no maxilar, e de novo, no peito. Ainda resistindo à vontade de ver como Thomas estava indo, ou de procurar Alban e Lily com os olhos, golpeou o zumbi com a lâmina, cortando seu pescoço.
Depois disso, era fácil. Ou devia ser. Aaron enlaçou o pescoço da criatura por trás, acertando a articulação dos joelhos do morto-vivo para o jogar ao chão. O zumbi grunhiu, e Aarou ouviu um forte som de soco atrás de si. Esperou sinceramente que tivesse sido feito por Thomas, e não recebido por ele.
Tudo bem. Zumbis não socavam, certo?
O caçador apertou a lâmina nas mãos, se abaixando para cortar os tendões dos tornozelos e dos joelhos do morto-vivo caído.
Ele se virou para trás, respirando um pouco cansado. Não era um zumbi forte, não tinha colocado nenhuma resistência. Thomas, por outro lado…
— Tom!
O zumbi dele era um dos perigosos. Tinha agarrado o pescoço de Thomas e Aaron logo percebeu que o som que ouvira antes era a cabeça do amante batendo na parede. O caçador conteve um grunhido e pegou a faca de Tom, caída ao chão, correndo até o zumbi e as fincando no pescoço dele.
A criatura nem mesmo se mexeu. Thomas começara a se debater, e Aaron ouviu grunhidos distantes que indicavam muito claramente que outros zumbis poderiam estar chegando. A porta ainda estava no chão.
Aaron rangeu. Ser um pouco como Alban era necessário às vezes.
O caçador puxou as lâminas, as enterrando agora nos pulsos do zumbi, com toda força que tinha. Foi o bastante para que as mãos dele enfraquecessem e Thomas conseguisse se soltar. E claramente o caçador estava furioso.
Aaron devolveu a faca ao amante segurou o zumbi por trás, enquanto Thomas cortava os tornozelos da criatura. Assim que o zumbi caiu ao chão, o casal correu até a porta caída no chão, a colocando de pé e se jogando contra a madeira assim que a sentiram ser socada por outro zumbi.
— E aquele plano? — Aaron perguntou, olhando para os outros caçadores.
Alban tinha vomitado. Lily o levara para o outro lado da sala. O líder tinha suado bastante, estava pálido e tremia.
Não podiam ficar ali. Não daria para protegerem Alban e ele não parecia nada bem.
— O porão — Thomas disse, por fim. — Vamos para o porão e barricamos as escadas com os entulhos que eu achei lá embaixo. É a melhor coisa que podemos fazer.
Aaron engoliu em seco. Não sabia se era o melhor plano, mas sentiu outra pancada na porta e percebeu que não daria para conseguirem nada melhor agora.
— Certo. Lily, como estamos aí?
Thomas deixou a porta para levantar a cristaleira de novo, e ele e Aaron barricaram a entrada. Não ia aguentar por muito tempo, principalmente agora que a porta já tinha se arrebentado. Lily ajudou Alban a se levantar, e embora ela parecesse muito pequena para sustentar o peso dele, parecia que estava conseguindo.
— Tudo bem — ela disse. — Vamos descer!
Os dois esperaram um pouco. Alban e Lily sumiram em direção à cozinha, e o casal ouviu a escotilha se abrir. Eles esperaram o som da escotilha se fechar também, e se olharam.
— No três?
Aaron concordou. Thomas começou a contar, e quando chegou a três os dois saíram de cima da cristaleira e começaram a correr.
Ainda levaram umas três pancadas para que a cristaleira e a porta caíssem de vez. Dessa vez a sorte os abençoou, deixando o móvel ainda perto da entrada e o espaço para que criaturas entrassem muito apertado. O tempo que ganharam com isso foi crucial.
O casal chegou à cozinha, e Aaron puxou a escotilha de uma vez, dando passagem para Thomas. Desceu logo atrás dele, e tinha acabado de puxar a escotilha para fechar a passagem quando ouviu a cristaleira ser empurrada para longe de vez.
— Tom, temos que barricar!
— Estou trabalhando nisso!
Mas entre os sons das criaturas entrando e de Tom arrastando móveis pela escada, o mais terrível foi o som de Alban gritando abaixo deles. Aaron olhou em direção ao líder, e viu que Lily tinha o deitado em uma mesa velha do porão. E ele não parecia nada bem.
O que Thomas achou para barrar a passagem de vez foi um armário um pouco quebrado. Aaron desceu as escadas correndo e ajudou o amante a empurrar o armário para cima. Esperava que isso fosse aguentar até amanhecer, ou ao menos pelas próximas três horas, quando a ocorrência de criaturas começaria a diminuir. Zumbis conseguiam derrubar uma porta batendo nela, mas levantar uma escotilha exigia um pouco mais da inteligência que as criaturas não costumavam ter.
E era com isso que estava contando agora, pois precisava se focar em outra coisa. Alban começara a ter uma convulsão.
Aaron desceu as escadas, correndo. Lily estava à beira de lágrimas, tentando segurar Alban, mas ele era visivelmente mais forte que ela e a tarefa se mostrara muito hercúlea. Aaron chegou ao líder bem a tempo de ver Thomas tirar um de seus lenços do bolso e colocar na boca de Alban para o impedir de se machucar, mas fora isso… O que poderiam fazer?
— Eu não entendo… — Lily murmurou, ainda segurando os braços de Alban. Thomas e Aaron tinham se juntado a ela. — Isso… Isso não parece normal… Eu não sou uma Flores, mas não me parece normal…
Não, não parecia. Podia não ser um lutador tão bom, mas a paixão de Aaron o tornara um médico mais investido que Thomas, que era suficientemente indiferente com a profissão para não se dedicar tanto quanto o outro se dedicara. Embora a igreja pudesse dizer que o comportamento recente de Alban era resultado de uma possessão, ele sabia mais que isso. Aquilo era uma reação a algum fator externo, tinha certeza.
A convulsão durou dois minutos inteiros, um tempo preocupantemente longo para a condição. Em dado momento, ele e Thomas se olharam, ambos sabendo que nenhum surto de convulsão que durasse aquele tempo todo poderia ser coisa boa.
Quando finalmente passou, Aaron mal conseguiu conter a expressão de alívio. Tinha até se esquecido da confusão no andar de cima, mas pelos ruídos que conseguia ouvir, os zumbis não pareciam mesmo saber abrir a escotilha. Ou talvez nem tivessem se dado conta de que ela estava lá.
Tanto melhor. Só o que precisavam fazer agora era durar até o sol nascer.
— Alban? — Aaron chamou, analisando os olhos dele.
Thomas tirou o pano da boca do líder, e Alban ainda parecia meio catatônico. A isso se seguiu um silêncio interrompido de vez em quando por batidas nas paredes do andar de cima e algumas fungadas de Lily perdidas no meio de lágrimas.
Um silêncio relativamente longo… E então Alban pareceu voltar a si.
— Estou… Estou bem…
Ele se sentou bem devagar. Lily se adiantou em lhe oferecer apoio, e apesar de conseguir ficar sentado, o líder ainda se apoiava na caçadora.
— Vá devagar — Aaron recomendou.
— Me desculpe, Alban… — Lily comentou, fazendo um carinho distraído nas costas do líder. — Eu não queria… Não sabia que era tudo tão pesado pra você reviver desse jeito, eu…
— O quê? — o líder perguntou, olhando confuso para ela.
Aaron franziu a testa. Lily parecia ter insinuado que ela tinha disparado a transformação de Alban.
— Bem, a gente…
— Você acha que falar com você sobre o que aconteceu causou isso?
Falar com ela sobre o quê? O que tinha acontecido? Thomas parecia tão curioso quanto ele. A diferença era que enquanto Aaron ainda tinha a decência de não se intrometer, Thomas não parecia ligar.
— Falar sobre o quê? — o visconde perguntou.
Lily e Alban olharam para ele, e o líder parecia bem sem graça. Aaron não achava que já tivesse visto aquilo na vida. Seja lá o que fosse, devia ser muito pessoal.
— Tom, isso parece pessoal. Tenha tato.
Thomas levantou uma sobrancelha, mas isso pareceu funcionar. Interessante. Aaron não sabia exatamente até onde conseguia fazer demandas no relacionamento deles, mas era legal ver que Thomas respeitava seu bom senso. Até porque, se não viesse de Aaron, certamente não viria de Thomas.
— Lily, eu passei mais de vinte anos com isso na cabeça, nunca me aconteceu nada. Não ia ser dessa vez que ia acontecer. Se algo mudou, foi que falar com você me ajudou a me sentir melhor.
Agora Lily parecia tão confusa quanto os outros caçadores. Aaron se sentiu levemente bem por isso. Detestava ser o único a não entender alguma coisa.
— Mas…
— Jekyll fez alguma coisa comigo. Ele me apagou quando o encontrei no jardim e eu acordei aqui. Ele não devia ter aquela força toda, mas tinha. Eu lembro que ele injetou algo na minha veia e depois disso só lembro de estar no chão da sala com vocês do lado.
O queixo de Aaron caiu. Da forma que Alban estava falando…
— Espera — o caçador interrompeu. — Está dizendo que Jekyll ativou sua transformação com químicos?
Alban concordou.
— Eu tenho uma noção do que aconteceu. Eu sei que me transformou em um lobo. Mas os detalhes… Não consigo me lembrar de nada.
Aaron olhou para Thomas. Não sabia o que pensar. Seu olhar se cruzou com o do caçador e ele viu que, para seu desespero, Thomas não sabia muito mais o que poderia fazer.
— Descanse — Tom recomendou. — Nós vamos ficar de vigília até amanhecer. Acredito que estejamos seguros aqui.
Alban ainda olhou preocupado para Lily, mas ela se adiantou em tirar seu casaco e dobrá-lo várias vezes, fazendo um travesseiro improvisado para o líder. Não houve, então, discussão. Alban foi obrigado a aceitar, até porque nunca fora ingênuo de ir contra recomendações da ciência.
Em pouco tempo, Aaron percebeu que Alban tinha caído no sono. Lily estava sentada na beirada da mesa, ao lado dele. Segurando uma das mãos do líder em uma das suas, e a faca firmemente na outra.
— Tom… Ele vai ficar bem? — Aaron perguntou para Thomas, em um sussurro.
Lily parecia distraída o bastante para não ouvir, mas de qualquer forma, Thomas não respondeu. Eram pouquíssimas as ocasiões nas quais Aaron via Thomas realmente sério, sem nenhum resquício de sarcasmo no rosto. Podia ser ruim para interpretar sarcasmos, mas aquela expressão séria de Thomas, aquela realmente séria, não tinha como fingir.
Aaron engoliu em seco. Se Thomas tivesse o perguntado a mesma coisa, também não saberia responder. E agora estava pensando, assim como sabia que Thomas também estava, que poderiam acabar perdendo o amigo de vez.
