Quando eu era jovem eu vi
Meu pai chorar e amaldiçoar o vento
Ele partiu seu próprio coração e eu assisti
Enquanto ele tentava consertá-lo
E a minha mãe jurou que ela
Nunca mais se deixaria esquecer
E foi nesse dia que eu prometi
Que eu nunca cantaria sobre amor se ele não existisse
Mas, querido, você é a única exceção
The Only Exception — Paramore
Londres, Inglaterra
31 de Outubro de 1818
O tom laranja do céu ao nascer do Sol foi a visão mais acolhedora que Lily poderia desejar. Estava exausta. Exausta e extremamente dolorida. A queda do dia anterior não fora brincadeira, e seu corpo ainda reclamava de cima a baixo do impacto sofrido. Thomas e Aaron tinham revezado pela noite. Enquanto um dormia, o outro montava vigília, mas Lily simplesmente não conseguira dormir. Ficou a madrugada inteira acordada, ouvindo os sons de invasão lá em cima e com a faca apertada na mão, vigiando Alban e temendo que os perigos do andar de cima fossem chegar até eles, ou pior, disparar alguma reação perigosa no líder.
Felizmente, a janela de maior perigo era só até às três da manhã. Foram três das horas mais sofridas da vida da caçadora. A casa não estava preparada para esse tipo de pesadelo. Essa foi a primeira vez na qual ela sentiu como era para uma pessoa de condições monetárias limitadas passar uma noite sob risco de um ataque, sem poder se defender.
Ela suspirou. Tudo bem, tinha passado. O sol estava nascendo.
A caçadora olhou para cima. Durante as piores horas da madrugada, bastante sangue tinha escorrido pelo teto, caindo através das tábuas de madeira que separavam o andar de cima do porão. O cheiro ainda estava forte, e havia poças esporádicas no chão. Ela estava com um certo receio de ver o que tinha acontecido lá em cima de madrugada, e parte dela realmente não tinha pressa nenhuma de sair de lá.
Mas, eventualmente, o sol terminou de nascer. O céu foi de cinza-alaranjado para cinza-azulado e ela respirou aliviada, querendo muito acreditar que isso significava que Alban ficaria bem.
Deveria significar, ao menos. Sua curiosidade sobre os Flores só a permitira aprender uma certa quantidade de coisas sobre eles. O máximo que sabia era que, em tese, se um lobisomem estava em forma humana quando o sol nascesse, ele tinha se curado. O problema era que Alban não era um lobisomem normal, e era muito provável que as regras normais não se aplicassem ali.
Lily engoliu em seco. Não queria pensar nisso agora. Era bom ser cautelosa, com certeza, mas tudo parecia estar bem. Não tinha porque ficar paranoica sobre algo que poderia acabar nem acontecendo.
Agora, tinham que sair dali, mesmo que não quisesse exatamente ver o lado de fora do seu porão seguro. Precisavam examinar Alban, ter certeza de que tudo ficaria bem, e só poderiam fazer isso na Torre.
— Alban? — ela chamou, passando a mão carinhosamente pelos cabelos dele.
Depois da convulsão, Alban acabou pegando no sono. Aaron e Thomas estavam dormindo também, embora Lily conhecesse Thomas bem o bastante para saber que a mão dentro da jaqueta segurava o cabo da faca.
Se o líder não acordasse, ia precisar dos dois para o carregar.
— Alban, acorde. Está de manhã. Alban…
Não importou, porém, o quanto ela o chamasse e fizesse carinho em seus cabelos, o homem não respondeu. A caçadora chegou a aproximar a mão do rosto alheio, só para sentir sua respiração e se acalmar.
Ele ia ficar bem. Mas precisava de ser examinado. Tinham que sair dali.
— Thomas, Aaron.
Ao contrário de Alban, Thomas acordou na mesma hora. Não estivera dormindo de fato, apenas descansando o corpo. Aaron precisou de um pouco mais de insistência, mas logo também acordou.
— Bom dia. Estamos vivos — Thomas comentou, bocejando de maneira debochada.
Lily não respondeu. Não achava que tivesse estômago para as brincadeiras do colega de clã agora.
— É, mas não estamos todos bem — respondeu, se levantando da mesa e indicando Alban com a cabeça.
Thomas e Aaron se olharam rapidamente e logo foram até o colega, Aaron pegando o pulso dele para analisar os batimentos.
— Alguma mudança? — Thomas questionou, puxando a pálpebra do líder para cima para ver seu olho.
— Não. Ele simplesmente não quer… — Engoliu em seco. — Não quer acordar.
Silêncio. Lily sabia muito bem que aquele silêncio não significava boa coisa, e não sabia o que fazer.
— Vamos levá-lo para a Torre — Thomas disse, depois de algum tempo. — Aaron, me ajude aqui.
Realmente, era a melhor coisa a se fazer. Enquanto os dois tentavam se entender sobre o melhor jeito de carregar Alban até a Torre, Lily decidiu subir na frente para abrir caminho. A primeira parte, tirar a barricada da frente do alçapão, foi demorada, mas não exatamente difícil. Grunhiu ao ralar a mão em algumas lascas soltas do armário que bloqueava a maior parte da escada, mas foi isso. Quando conseguiu terminar, Aaron e Thomas tinham passado os braços de Alban pelos seus ombros, e o sustentavam pela cintura com os braços livres.
Ela conteve um suspiro de decepção. Tivera uma certa esperança de encontrar Alban de pé e desperto, embora o plano fosse carregá-lo desde o princípio.
A caçadora tentou não mostrar o tamanho de seu desapontamento, e subiu as escadas até a escotilha. Assim que percebeu que precisava de mais força do que o esperado para abrir a passagem, começou a ranger os dentes, irritada. Não estava com humor para imprevistos. Lily virou o corpo, começando a investir contra a escotilha com o ombro. Ela precisou de três pancadas para conseguir destravar a saída, e quando finalmente empurrou a porta por cima da cabeça pôde ver o porquê.
A cozinha da casa estava abarrotada de corpos, uma mistura nojenta de vampiros e zumbis empilhados, e até um ou outro lobo caído. A julgar pelo sangue que caíra do teto durante a madrugada, ela já tinha imaginado que a situação estaria ruim no andar de cima. Não tinha imaginado, porém, que seria tanto.
Ela saiu pela escotilha, empurrando o corpo de um zumbi sem um dos braços com o pé. O braço em questão tinha sido arrancado, e recentemente, a julgar pelo sangue na ferida e o estado recente dela. Céus, os zumbis tinham se comido. Ela franziu o nariz, horrorizada. A um dos zumbis faltava uma perna, a outro a cabeça inteira, e ainda haviam alguns pedaços aleatórios espalhados que ela nem queria saber de onde tinham saído.
Em todos os seus seis anos de caçadora, nunca tinha visto uma coisa parecida. Zumbis eram selvagens e perigosos, verdade, mas nunca tinha os visto comendo uns aos outros. Isso explicava até porque tinham parado de tentar entrar no porão com o tempo. Preferiram virar a briga a eles mesmos do que insistir.
Ela ouviu passos vindo pela escada e logo Aaron e Thomas saíram para a cozinha carregando Alban. Lily deu passagem para os dois, ainda olhando chocada para o mar de sangue e carnificina no chão. Os outros dois pareciam tão estupefatos quanto ela, embora Thomas tentasse disfarçar isso com a pouca classe que poderia manter com o corpo se curvando sob o peso de Alban.
— Eles… — Aaron murmurou, claramente horrorizado. — Eles se devoraram?
Lily franziu a testa, enojada, pulando um dos corpos no chão. Seus sapatos já estavam ficando embebidos em sangue e o cheiro ali em cima era ainda pior do que no porão. Quanto antes saísse dali, melhor.
— Vamos… Vamos para a Torre.
Em um silêncio perturbador, o grupo foi caminhando pela casa, pulando a horda de corpos que continuava pela sala principal. Lily respirava devagar, tentando controlar os nervos que estavam prestes a fazê-la surtar. Tinham estado mais perto de morrer do que ela tinha imaginado. Perto demais.
Isso ficou ainda mais claro ao saírem da casa e verem que a tragédia se estendia até ali. As pilhas de corpos de zumbis se acumulavam pela rua, e ali fora também havia muitos corpos humanos. Nem todo mundo tinha conseguido se barricar tão bem em casa, pelo visto.
— Frankenstein!
Lily se virou, a tempo de ver um homem caminhando através dos corpos destroçados, com um lampião apagado em uma mão e uma pistola na outra.
É claro. Watchman. Os sentinelas de segurança do estado.
Infernos…
— Eu cuido disso — ela disse, se virando para os companheiros de clã. — Levem o Alban daqui, encontro vocês na Torre.
— Não — Aaron respondeu.
Não? Como assim "não"? Infernos, o sentinela estava quase ali…
— O que quer dizer com…
— Vá para casa depois. Thomas e eu dormimos durante a noite, você sequer fechou os olhos.
Como?
— O quê? Eu não vou…
— Aaron tem razão. Não tem nada que você possa fazer por Alban agora, ele precisa de repouso e assistência médica. Nós vamos cuidar de tudo. Te mandamos notícias se algo acontecer.
Normalmente, Lily teria discutido, mas o homem já tinha atravessado mais da metade da pilha de corpos que os separava e ela realmente não queria atrasar a recuperação de Alban. A caçadora respirou fundo e concordou. Ainda observou Aaron e Thomas carregarem o líder pela rua por um tempo, antes de se virar para o sentinela que a chamara.
— Bom dia, senhor.
Céus, estava exausta. Agora que tinha parado de andar, que a energia estava passando, ela percebeu que os rapazes tinham razão, e que realmente devia ir logo para a casa.
— Não me venha com "bom dia"! O que raios aconteceu essa noite?!
Lily considerou sinceramente fingir que não sabia do que ele estava falando, mas era muito visível que a chacina daquela noite fora muito pior do que a anterior, no solstício de inverno de 1817. Extremamente pior. Noites como o Halloween costumavam resultar em algumas casas invadidas, sim, mas as portas da rua inteira pareciam ter ido abaixo.
— A Madrugada dos Mortos-Vivos, senhor.
O homem parecia muito irritado. Lily se perguntou se haveria família dele entre os corpos no chão.
— Disso eu sei! Eu quero saber porque virou esse pesadelo absurdo!
A caçadora olhou para o chão, sentindo o estômago afundar. Debaixo do corpo de um dos zumbis, ela conseguiu ver a mão de uma criança que não devia ter mais de cinco anos de idade.
— Eu não sei…
— Você não…
— Estamos trabalhando nisso, senhor.
Lily apertou as mãos, cobertas com as luvas sujas de sangue. Aquilo tudo estava acontecendo, e ela e o resto do clã estavam trancados em um porão? Não era como se pudessem ter feito algo a respeito, contudo. Se saíssem de lá, teriam morrido. Mas não era toda casa que tinha um porão, e agora ela estava começando a sentir um forte pontada de culpa por seu instinto de sobrevivência.
Não tinha tempo para gastar ali. Alban precisava de ajuda e, para ajudá-lo, precisava dormir. Estava se sentindo exausta, mal conseguia continuar de pé.
— Se estiver enfrentando algum problema, senhor, encaminhe para a Torre de Londres. Iremos fazer o possível para resolver. Agora, se me dá licença, eu realmente preciso ir.
E embora o homem ainda estivesse resmungando e xingando repetidamente, Lily decidiu que era o bastante. Precisava de um banho. Precisava dormir.
Não adiantava procurar uma carruagem para a levar, as ruas estavam interditadas por monstros e humanos mortos até onde seus olhos conseguiam ver. Sua casa era relativamente longe dali, mas não era impossível de chegar a pé, e foi o que ela fez.
Foi uma longa e péssima caminhada. Seu corpo doía de cima a baixo da queda no dia anterior. Não bastassem os corpos e o sangue nas ruas por onde passava, não era raro alguém a reconhecer e a encarar como se Lily pudesse ter feito algo a respeito. Podia jurar ter ouvido alguém comentar algo como "estava beijando o líder de seu clã quando devia estar nos protegendo".
Como sua vida poderia ter virado de ponta-cabeça tão rápido? Como as pessoas poderiam estar os culpando por isso? Os Frankenstein eram apenas eles. Só os quatro. Cientistas viviam querendo entrar, mas eles não entendiam que ser um Frankenstein não era apenas estudar em um laboratório. Eram lutas. Eram guerras. Essa parte ninguém queria assumir. Como quatro pessoas poderiam ter guardado a cidade debaixo dos braços e a protegido de tudo isso?
Lily mordeu o lábio e balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. As pessoas só estavam assustadas. Ia passar. A raiva ia passar…
Foi com a expressão irritada e o coração apertado que ela pisou em casa.
Sua primeira reação foi de alívio em ver que, apesar de bastante arranhada, a porta estava no lugar. Sua família era muito abastada no fim das contas. Tinham condições de pagar pelas melhores medidas de segurança da época, incluindo uma porta e janelas bem resistentes.
A caçadora não perdeu tempo em solicitar um banho à criada que a recebeu, e a pediu que dissesse aos tios que não queria ver ninguém por agora. Só queria dormir. Lily se enfiou em uma banheira quente e ficou na água por tanto tempo que a pele dos dedos começou a enrugar. Seu corpo estava coberto de hematomas, resultado da queda provocada por sua nádega direita, particularmente, a dor era tanta que ela começou a se perguntar se poderia ter quebrado algum osso.
Tinha esvaziado por completo a mente, pois não achava que fosse aguentar pensar em alguma coisa além da própria miséria agora, e não queria fazer isso. E então, depois de seu banho, ela vestiu uma camisola, fechou as cortinas do quarto e foi se deitar.
Por mais que a caçadora precisasse de uma boa tarde de sono acima de qualquer coisa, não foi o que conseguiu. A imagem dos corpos espalhados pela cidade, o banho de sangue... Tudo ainda estava gravado em sua mente. Ainda acordou diversas vezes suando frio e sentindo o estômago se contorcer em náuseas.
Foi depois de acordar pela terceira vez que ela conseguiu dormir por um tempo razoável. Ainda conseguia ouvir os gritos do lado de fora, mas eventualmente seu cérebro se acostumou a isso e a permitiu descansar por sete horas inteiras, até o sol já ter se posto. E teria dormido mais, se não tivesse acordado com batidas na porta.
— Senhorita Ayers! Senhorita Ayers, você tem visita!
Ela fez o máximo para não reclamar. Tinha a sensação de que uma "visita" agora seria, no melhor cenário, Lorde Gresham. No pior, alguém furioso com os acontecimentos da noite anterior.
Lily se levantou, ainda se sentindo muito dolorida. Se vestiu com dificuldade, quase desistindo de calçar as luvas de tanto que seu corpo reclamou do esforço. Então, ainda mancando pelo caminho, saiu de seu quarto.
Qual não foi a sua surpresa ao ver Alban sentado no sofá da sala de sua casa.
— Ah, céus! Alban!
O homem abriu um sorriso ao vê-la, mas foi um sorriso fraco. Lily se adiantou até o sofá, se sentando ao seu lado e mal acreditando que ele estava, de fato, ali.
Meio verde, suando um pouco, parecendo enjoado. Mas estava ali. O sorriso era fraco, mas estava em sua frente, acordado e bem.
— Eu estou bem… — Alban respondeu, segurando suas mãos enluvadas entre as dele. — Quer dizer… Me sinto muito enjoado, e minha cabeça dói mais do que eu já senti em qualquer ressaca na minha vida. Mas estou melhorando.
Estava melhorando. Ok. Estava melhorando…
Ela suspirou, nem mesmo contendo o alívio. E então sua tia entrou na sala, seguida de uma criada com uma bandeja de chá e biscoitos, e Lily imediatamente soltou as mãos das de Alban.
Mas viu no rosto de Lady Blythe que o estrago já estava feito.
— Senhor Frankestein… — a mulher cumprimentou. — Devo dizer, não esperava vê-lo tão cedo depois dos acontecimentos da noite anterior.
Não precisava ser muito esperto para saber que Blythe se referia ao beijo no jardim, e não a todo o resto que acontecera.
— Sim… É… — ele coçou a garganta. — É exatamente por isso que estou aqui, Lady Blythe. Para… Me responsabilizar pelos meus atos.
Lily levantou uma sobrancelha e olhou surpresa para Alban.
— Alban?
O líder se voltou para Lily e pegou as mãos dela novamente, mas dessa vez a caçadora não as puxou de volta. Estava atordoada demais para isso.
— O que aconteceu entre a gente no jardim… Lady Blythe, foi só dessa vez. Eu sei o que estão dizendo, e quero que a senhora saiba que eu sinto um respeito imenso pela sua filha, e que ontem foi um deslize. Nunca tinha acontecido antes. Lily é uma mulher incrível, e eu jamais a desrespeitaria de qualquer forma.
Lily olhou atordoada para a tia. Se a mulher estava surpresa, não demonstrou.
— E ainda assim… — Blythe respondeu. — O fez.
Houve um breve silêncio. Alban abaixou o rosto e fez uma breve careta de dor, mas a dispensou rapidamente respirando fundo. Aquilo era ridículo. Ele não tinha que estar ali agora, tinha que estar descansando! E não tinha sido sua culpa, ela o beijara primeiro. O que ele pensava que estava fazendo?
— Alban, você precisa ir descansar.
— Não. — Ele se voltou para Lady Blythe. — Sim, senhora, eu o fiz. E me arrependo.
Lily sentiu o estômago afundar. Excelente. O melhor jeito de terminar o pior dia de sua vida certamente era com Alban dizendo que se arrependia de tê-la beijado.
— Arrependimento não vai corrigir nada, senhor Frankestein.
Blythe ainda carregava o mesmo ar austero no rosto. Lily estava surpresa de que Alban não estivesse tão pressionado, mas logo a ocorreu que o homem estava em dor e enjoo demais para ligar ou se importar.
— Não vai. Mas… É verdadeiro. Eu nunca quis… — Ele parou, como se buscasse as palavras. — Eu sempre tive esperanças de que Lily fosse arrumar um bom cavalheiro com quem se casar… Para que eu pudesse esquecê-la. Mas isso acabou não acontecendo. Então, se fosse para acontecer algo conosco, eu queria que fosse do jeito certo. Não… Assim.
Lily franziu a testa. Nada mais estava fazendo sentido. Esperança? Como se ele estivesse pensando nela por todo esse tempo? A queria esquecer? Fazer o que do jeito certo?
— Alban… Você está me confundindo…
— Estou. Perdão.
Ele limpou a garganta mais uma vez e enfiou a mão no bolso da jaqueta, tirando alguma coisa que Lily não pode ver.
— Deixe-me tentar de novo — ele pediu. — Lily, eu sou completamente apaixonado por você há anos. Mas nunca me julguei digno. Eu sempre pensei que você pudesse encontrar alguém melhor, e… Bem… Veja onde estamos, não é? Eu acabei piorando tudo. E eu temo que a reputação que eu estou ajudando a colocar em você possa ser até perigosa… Eu temo o que os outros homens podem decidir fazer, uma vez que assumirem o que quiserem de você.
Lily olhou confusa para sua tia. Podia jurar que a mulher tinha um sorriso de canto nos lábios. Quase imperceptível, mas tinha.
— Eu não estou entendendo… — a caçadora sussurrou.
— E ainda que eu tenha profundos sentimentos por você, eu sei que não sou digno…
— Eu não teria tanta certeza, senhor Frankenstein — Lady Blythe interrompeu. — Nós somos uma família de caçadores. Temos caçado há tantas gerações que nem mesmo sabemos o registro. E ainda assim, nunca tivemos um líder na família. Curioso, não é?
O que estava acontecendo? Lily olhou tonta da mulher para Alban, e de volta para ela, e então para Alban, que estava levemente corado.
— Alban, o que…
— Senhorita Ayers… — Alban deslizou do sofá para o chão, se ajoelhando aos pés de Lily e mostrando o que estava em sua mão, e que tirara do bolso. Um anel de ouro com uma pedra de esmeralda. — Você me daria a enorme honra de se casar comigo?
O queixo de Lily caiu.
Alban estava a pedindo em casamento.
Alban. Alban, que ela tinha amado por anos e anos e afastado de si por medo de complicações. Aquele Alban estava a pedindo em casamento, e dizendo que a amava.
Ela olhou surpresa para a tia, que teve a decência de se fingir muito ocupada em ajeitar a luva em vez de olhar para a cena em sua frente. E então de volta para Alban, ainda a olhando meio verde de enjoo e suando frio, ela percebeu, nem tanto pelo que quer que Jekyll tivesse feito mas de nervoso.
Nervoso por tê-la pedido em casamento.
Alban tinha a pedido em casamento.
Lily teve que repetir isso em sua cabeça porque ainda não conseguia acreditar. Foi obrigada a perceber, porém, depois de um silêncio preocupantemente longo, que não importava o quanto repetisse, não faria mais sentido. Era isso. Ele tinha pedido.
E Ela só tinha que responder.
— Eu…
Passara a vida fugindo de casamentos que seu pai insistia em tentar arranjar. Nunca pensara em ter marido e filhos, mas parte de si sempre sonhara, sim, em encontrar um grande amor.
E era isso, não era? Estava ali, em sua frente. Ele a queria.
E ela o queria também.
— Sim.
Lily teve certeza de que nunca vira nada tão belo quanto o sorriso que Alban abriu em seguida. Ele a abraçou com bastante força, o que a fez soltar um gemido de dor em meio a algumas risadas de surpresa.
Ainda estava zonza. Ele tinha mesmo a pedido em casamento? Sim! E ela tinha aceitado!
— Desculpe, desculpe… — Alban murmurou, a soltando como se procurasse onde tinha a machucado.
— Tudo bem…
— Bom — Blythe interrompeu, se levantando. — Se me dão licença, vou tomar a liberdade de começar os arranjos para a cerimônia, antes que a reputação de minha sobrinha se arraste ainda mais pela lama. Vamos tentar fazer acontecer o mais rápido possível, certo?
A mulher deixou a sala, e Alban aproveitou a nova privacidade dos dois para puxar a luva do braço de Lily. A caçadora percebeu o rosto dele se entristecendo ao ver a quantidade de hematomas que a luva estivera cobrindo, mas o líder não disse nada. Ele apenas deslizou o anel em seu dedo e deixou um beijo sobre a mão da, agora, noiva.
— Lily… Esse é o melhor presente de aniversário que eu já recebi em toda a minha vida.
Ela riu, baixinho. Realmente, tinha se esquecido! Era aniversário dele! Era mesmo uma data bem especial para ficarem noivos, ela pensou, ainda olhando atordoada para o anel em seu dedo.
— Feliz aniversário — a caçadora sussurrou, com um sorriso no rosto. — Thomas e Aaron vão ficar surpresos quando descobrirem…
Alban riu, e se acomodou no sofá, abraçando Lily para que deitasse a cabeça em seu ombro.
— Vão… Mas acho que, antes de nós, eles sabiam que chegaria aqui.
Lily virou o rosto, olhando para Alban, e ele a olhou também. Ah, queria beijá-lo… Havia uma parte dela que, talvez, fosse mesmo libertina, porque algo nos olhos do caçador era tão…
Mas preferiu se acomodar no sofá, se afastando um pouco. Não precisava da tia os pegando aos beijos.
— Deveríamos ir falar com eles, então. Quer dizer… Eles tem que ser os padrinhos, não é?
Alban sorriu. Ele se levantou e ofereceu o braço a Lily.
— Como desejar, minha noiva.
Noiva. Lily sorriu. Seu pai não aprovaria esse casamento, tinha certeza. Ele odiava o clã, e odiaria ver Lily se casar com alguém sem título. Mas ele estava morto. E naquele momento, pouco importava a Lily a aprovação de qualquer um. Ela se sentia a mulher mais feliz de toda Londres.
