Não é fácil amar, mas você tem amigos em quem pode confiar

Amigos serão amigos

Quando você precisar de amor eles lhe darão carinho e atenção

Amigos serão amigos

Quando você está cansado da vida e sem esperanças

Segure suas mãos

Porque amigos serão amigos

Até o fim

Friends Will Be Friends — Queen

Londres, Inglaterra

31 de Outubro de 1818

Se Thomas acreditasse em deus, teria jurado, assim que viu Alban sair pela porta apesar de todas as suas recomendações contra isso, que o mataria quando ele voltasse. Então talvez fosse bom que não acreditasse. Talvez.

Suspirou, socando a mesa em frustração. Atrás de si, ouviu um som forte que indicou que Aaron tinha fechado o livro que vinha lendo, e o médico arrastou a cadeira até estar do lado do amante.

— Devíamos ter impedido ele de sair, Aaron. Foi irresponsável.

— O que queria fazer? Amarrar ele aqui? Ainda não sabemos bem a natureza da transformação dele, não acho que seja uma boa ideia o contrariar por agora.

Realmente, não era. Se tivessem o prendido na Torre, ou tentado impedi-lo de sair de qualquer outra forma, não tinha como garantir que isso não fosse desencadear a transformação dele de novo. E isso definitivamente não era algo que queriam que acontecesse.

— Talvez devêssemos ter ido com ele.

— Visitar Lily? Quando eles estão cheios de assuntos não resolvidos?

Thomas não respondeu. Tinha sido mesmo uma sugestão inútil.

O caçador suspirou e se levantou. Já estava ali esperando o líder voltar há meia hora. Tinham o feito prometer que não ia se demorar e que voltaria direto para lá depois de terminar o que quer que tivesse isso fazer, mas ainda assim, estavam esperando. E esperando. E esperando…

— Espero que ao menos sirva para eles se acertarem logo, ou eu juro que eu vou parar de pisar em ovos e falar diretamente que eles estão sendo ridículos.

— Bem… Nós dois também demoramos um bom tempo para nos resolvermos, não demoramos?

Thomas teria discutido, teria mesmo, mas seria ridículo. Aaron tinha razão. Tinham enrolado por muito mais tempo até perceberem que tudo que precisavam estava bem ali.

Abriu um sorriso pequeno e um pouco cansado, e puxando Aaron pela mão, o moveu da cadeira para seu colo. Embora visse que o amante tinha ficado um pouco aflito com o gesto, ele não fez menção de sair, e isso deixava a mensagem clara para Thomas. Aaron queria estar ali. E era só isso que importava.

— Se Alban voltar agora ele vai nos matar, Tom. — Em seguida Aaron começou a imitar o tom de voz irritadiço do líder. — "No laboratório? De todos os lugares, logo no laboratório? E se alguém vê vocês?"

— Então… — Thomas sussurrou em resposta, aproximando os lábios dos de Aaron. — Vamos torcer para que ele demore só mais um pouquinho.

O outro caçador não cedeu. Thomas conteve o impulso de gemer de frustração. Estava com saudades. Não vinham tendo tempo para eles e aqueles minutos roubados no baile tinham sido muito poucos antes que Lily aparecesse. E depois disso tinham ido de "resistência à invasão de monstros" a "babás de um Alban infectado" em minutos. Era demais. Queria poder descansar, e nem isso podiam fazer.

— Você não estava agora mesmo se preocupando com a demora dele?

— Hm. Estraga prazeres.

Aaron se levantou. Thomas poderia ter resmungado ainda mais com isso, mas não teve tempo. A porta do laboratório se abriu, revelando Lily e Alban muito sorridentes do outro lado.

Thomas não conseguiu nem empatizar com a felicidade dos dois. Estava cansado e ainda aflito. Afinal, ele e Aaron já tinham feito uma série de testes e ainda não sabiam afirmar o que tinha de errado com Alban, ou o que Jekyll fizera com o líder.

— Bem. Aí está — Thomas resmungou, sem nem mudar a expressão no rosto. — Meia hora foi um pouco mais do que o combinado, Alban.

— Eu sei… Tive que fazer uma parada em casa antes.

Devia ter ficado muito óbvio no rosto de Thomas a vontade que sentiu de agredir Alban naquele instante, pois logo o caçador sentiu as mãos de Aaron em seu ombro, tentando o acalmar. Bem, estava funcionando. Aaron era o único que conseguia fazer isso, de qualquer forma.

— Como está se sentindo?

Thomas viu Alban dar de ombros à pergunta de Aaron e quis bater a cabeça dele no tampo da mesa. Felizmente, o líder detalhou a resposta depois.

— Eu não sei. Acho que o que quer que seja que Jekyll fez comigo, passou. Meu corpo deve ter absorvido. Acho que é a mesma coisa que uísque. Você toma um tanto, faz coisas das quais se arrepende e ganha uma senhora dor de cabeça depois, mas quando passa é isso. Acabou.

O olhar de Lily deixou claro para Thomas que ela não tinha muita certeza disso. A discussão poderia ficar muito acalorada se fossem levantar esse assunto agora, então foi bom que a caçadora decidisse intervir.

— Bem, de qualquer forma, viemos aqui com outro motivo. Alban e eu temos novidades!

O casal puxou cadeiras para se sentar de frente para os outros dois, e Aaron voltou ao seu lugar. Thomas já tinha uma boa ideia do tópico da conversa, e olhou para baixo, pensativo. Ele e Aaron também tinham algo para contar, mas não sabia se queria fazer isso agora. Talvez fosse deixar Aaron decidir.

— Alban foi me visitar… — a caçadora começou, com um largo sorriso no rosto. — E… Ah, bem. Aqui está.

Ela estendeu a mão e Thomas viu, no dedo anelar dela, um belo anel com uma esmeralda. Era isto, então. Ele tinha a pedido em casamento.

Uma forte sensação de melancolia tomou conta de Thomas. Não sabia o que sentir. Estava óbvia e genuinamente muito feliz pelos dois, claro. Eram seus melhores amigos e ver aquele olhar bobo apaixonado no rosto de Alban assumir um tom tão sereno era muito gratificante. Mas… Não pode deixar de pensar em Aaron, e em como ele queria tantas coisas que não poderia ter…

Thomas sorriu, embora soubesse que no fim das contas o sorriso saiu um pouco estranho.

— Isso é ótimo — ele disse. — De verdade. Estou mesmo feliz por vocês. Quer dizer, depois de todo esse tempo…

Lily corou, e Alban também. Seria bom para eles, tinha certeza.

— Nós… Nós gostaríamos que vocês fossem os padrinhos.

Thomas levantou o rosto de uma vez.

Ele olhou surpreso para os dois, e então para Aaron, e então de volta para o casal. Não conseguia acreditar. Alban, o mesmo Alban que sempre ficava tão incomodado quando os dois se comportavam como um casal, estava os chamando para ser padrinhos do casamento deles? Juntos?

Thomas sentiu o aperto em seus ombros se intensificar. Sabia o que Aaron estava pensando. Não podiam. Era mais uma coisa que não podiam fazer.

— Alban…

— Nós pensamos em tudo — Lily cortou. — Você vai ser o padrinho do Alban, e Aaron, o meu. Eu tenho umas duas outras primas para parear com vocês, e assim nada vai ficar… Estranho.

Oh. Thomas levantou uma sobrancelha, genuinamente surpreso, e olhou para Aaron de novo. Os olhos dele estavam brilhando… E Thomas percebeu naquele instante que ele mesmo estava perto demais de lacrimejar.

Seus melhores amigos iam se casar. E mesmo com tudo que poderia implicar nos riscos envolvidos, os primeiros que tinham considerado para ser os padrinhos da cerimônia eram os dois. Exatamente do jeito que eram.

Thomas deixou o queixo cair. Passara a vida dizendo que tanto fazia o que pensavam dele. Que era dono da própria vida e que escolhera a viver perigosamente. Que era ousado e irreverente pelas suas escolhas… Tudo isso porque não queria lidar com o que era ser tão recusado pelo mundo.

Até agora.

Ele passou os dedos rapidamente pelos olhos, tentando não deixar claro o quão perto estivera de chorar.

— Nós… — A voz de Aaron saiu embargada. Ele claramente não tinha problemas com demonstrar choro. — Vai ser uma honra… Eu não sei nem o que… Como…

Aaron engoliu em seco e Thomas quis rir, quis chorar. Não sabia o que dizer. Logo agora… Eles tinham que vir com isso logo agora?

— Mas que droga, Alban. Você vive para dificultar minha vida, só pode… Inferno, é claro que aceitamos, mas logo agora?

Ele viu o ar de confusão no rosto dos amigos. É claro que estavam confusos. Esse não era o cenário no qual pretendera contar aos dois, mas… Cedo ou tarde teria que acontecer, certo? Sim, teria.

— Logo agora? O que tem agora?

— Aaron e eu vamos partir.

Lily e Alban ficaram visivelmente confusos. Eles se olharam muito devagar, e Thomas viu a boca de Lily começar a se abrir para perguntar algo. E já sabia o que ela ia dizer.

— Estamos cansados, Lily — ele cortou. — Cansados. Aaron e eu conversamos e decidimos que Jekyll seria nosso último caso, e é isso. Vamos embora. Morar na cidade está muito perigoso… Nós…

Thomas olhou para Aaron, com os olhos carregados de um pedido de ajuda. Ele não era bom com explicações delicadas e tendia a pisar nos sentimentos dos outros com facilidade demais. Aquilo, porém, era importante. Estava dizendo aos seus melhores amigos que ia embora para não voltar. Pedia um pouco mais de sensibilidade. Felizmente, Aaron percebeu e seguiu a explicação ele mesmo.

— Nós queremos uma vida. Não podemos ter isso em Londres… Precisamos ir para o mais longe da cidade que pudermos. Uma casa no campo, talvez até em outro país. Thomas tem algumas propriedades em outros lugares, então estávamos pensando… Pensando em partir. Construir uma vida, como vocês estão fazendo. Vamos terminar com Jekyll e ir ao seu casamento, e depois…

Ele parou. O próprio Thomas não sabia o que mais dizer, então entendia o silêncio profundo que pousou no lugar. Logo, viu uma lágrima cair no rosto de Lily, e depois no de Aaron, e até Alban tinha começado a chorar. Foi demais mesmo para Thomas, que abaixou a cabeça e desistiu de fingir ao menos daquela vez que não tinha sentimentos.

Esperava que eles entendessem. Não sabia se conseguiria viver em paz com Aaron se sua paz com ele trouxesse o ressentimento de seus melhores amigos. Era ainda muito assustador ir se dando conta de que se importava com esse tipo de coisa em níveis muito mais fundos do que jamais imaginara que se importaria. E, ainda assim, ali estava ele. Chorando por ter decidido partir.

— Nós… — Lily disse depois de um tempo. — Entendemos.

Alban confirmou com a cabeça. E isso era tudo que Thomas precisava ouvir.

Não que fosse doer menos. Não. Alban era seu melhor amigo. Desde que o conhecera e levara três socos por ter flertado com ele sabia que o líder teria um impacto em sua vida. Nunca imaginara, porém, que seria assim. Que ele seria tão importante. E só agora que o plano de se mudar de Londres era realmente palpável era que Thomas sentia o quanto ia sentir falta daquele maldito…

Ia. Profundamente. Desesperadamente. Era como deixar um pedaço de sua família para trás.

— Céus, olhem só para isso, que cena! — Lily disse, de repente, se levantando.

Thomas piscou os olhos, um pouco perdido com a espontaneidade do gesto. Ela ainda enxugava lágrimas, mas tinha um grande sorriso no rosto.

— Hoje é aniversário de Alban! E aqui estamos, os quatro chorando num laboratório! Que despropósito! Deveríamos estar em um restaurante, bebendo e comendo juntos!

Thomas riu, baixinho. É claro… É claro que seria Lily a tentar mudar o clima. Era tão típico dela! Quando eram apenas ele e Aaron, não costumavam tentar afastar as crises de tristeza. Antigamente as afogavam em sexo. Hoje choravam até que se esgotasse. Mas levantar, sorrir e sugerir uma festa? Lily. Sempre Lily.

Ia sentir falta disso também.

— Lily, nenhum lugar vai abrir hoje — Aaron comentou. — As pessoas ainda estão tirando os corpos das ruas. A coisa foi… Feia, essa madrugada.

— Eu sei. Eu vi. Fui para casa a pé porque carruagens não estão circulando — ela retrucou. — Então vamos para o apartamento de Thomas. Ele é Visconde afinal de contas! Vai nos conseguir comida e bebida e pronto, temos uma festa!

Os três ficaram algum tempo parados vendo Lily de pé, até perceberem que ela tinha razão. Thomas sorriu, se levantando e pegando o casaco de Aaron para ele. Tinha uma adega razoável em seu apartamento, e poderia pedir aos criados que cozinhassem várias coisas com o que tinham em casa. Dava para deixar Alban escolher o que quisesse comer.

O quarteto logo seguiu para a casa de Thomas. Alban comentou algo sobre levar o secretário, mas ele claramente decidira matar o trabalho depois do caos da madrugada anterior, como a maioria da cidade fizera, então eram apenas os quatro.

E era perfeito, Thomas percebeu. Depois de todos esses anos, percebia agora a família incrível que tinha ali, e como iria, de verdade, sentir falta daquilo.

— Lembre-se de nos escrever. E nos visitar também — Alban comentou.

— Certamente. Vocês também são bem vindos, sempre.

Os dois trocaram um sorriso. Quando pisaram nas ruas de Londres, ainda haviam corpos sendo recolhidos, tripas pelo chão e várias poças de sangue. Ainda haviam pessoas os olhando como se fosse culpa deles que tudo aquilo tivesse acontecido. Thomas estava acostumado com olhares acusatórios a todo o tempo e realmente não se importava, então ignorou. As ruas de Londres sangravam, e para Tom, nada disso importava.

Estava com sua família agora. Isso sim importava. Nada mais.