(Instrumental)
Dance of Pales — Castlevania: Symphony of the Night
Hunedoara, Império Austríaco
01 de Novembro de 1818
As horas que se passaram com Edgar gritando em frente à cela e depois atirando suas facas em direção ao vampiro foram algumas das mais dolorosas da vida do caçador. Eventualmente, as facas acabaram, ele se cansou e tudo que restou foi o homem exausto e com o rosto inchado de lágrimas jogado na porta da cela.
As masmorras estavam no mais absoluto silêncio. Edgar não tinha mais lágrimas para chorar. Nem mesmo sentia mais dor ou desespero por dentro. Estava atordoado demais para isso. Não sentia nada.
Ele levantou o olhar para a chama que dançava no archote na parede à frente, e afogou-se em seus pensamentos. Parte dele queria ficar ali para sempre, até morrer e apodrecer. Parte dele queria se levantar, pegar uma espada, ir atrás de Nosferatu e fazê-lo sofrer tanto quanto pudesse. A outra parte… A maior parte, a que estava vencendo, queria subir ao alto da maior torre do castelo e se atirar de lá.
Talvez devesse fazer isso. Certamente seria melhor. Sua presença só estava fazendo tudo pior para Pandora, tinha certeza. Sabia pela forma que ela o olhava, como se fosse somente um constante lembrete do que tinham perdido. De sua filha, Clarissa. Não podia voltar para casa de novo… Não podia fazer isso com Pandora…
Mas tampouco podia continuar ali. Voltara para o clã com a esperança de encontrar o vampiro que matara sua filha. Para vingá-la, para dar paz ao espírito da garotinha. Mas, desde então, o que tinha feito? Passara dez anos procurando por ele, sem sucesso. No meio tempo, falhara na simples tarefa de salvar um de seus colegas de clã. E agora, que finalmente uma pista aparecera, sequer tinha sido ele a conseguir.
Talvez fosse hora de assumir que era um fracasso. Talvez fosse hora de parar de tentar. De desaparecer. Matar Nosferatu nem mesmo ia trazer Clarissa de volta. Não fazia sentido. Qual era o sentido?
Qual era o sentido de tudo?
Edgar segurou uma das barras da cela atrás de si para se levantar, mas não chegou a fazer isso. O silêncio do corredor das masmorras foi cortado por batidas curtas e firmes que indicavam os passos de um salto baixo. Ele suspirou. Logo, a barra de um vestido vermelho vinho se fez visível na luz do archote e, em poucos segundos, Narcissa Van Helsing estava em sua frente.
— Então… É aí que você está.
Ele não respondeu. Devia ter se levantado antes. Não queria mais… Não queria mais tentar. Não queria ser chamado para outra batalha, não queria ter que ir, ter que fazer algo… Não queria. E sabia que era para isso que ela estava ali.
— O que aconteceu?
— Estávamos procurando por você. Levou um tempo para a gente pensar que ainda poderia estar aqui.
Em vez de responder, Edgar virou o rosto para o outro lado. Em parte porque não queria olhar Narcissa nos olhos, em parte porque não queria que ela visse as lágrimas acumuladas nos dele.
Engraçado. Imaginara que suas lágrimas tinham secado. Aparentemente não.
— Se importa se eu me sentar aqui? — a caçadora perguntou.
Edgar deu de ombros. O que ele deveria responder? Era o castelo do clã, ela podia sentar onde bem entendesse, embora não achasse que jamais tivesse visto Narcissa o fazer tão casualmente no chão. Especialmente fora de combate.
— Eu já estou de saída.
— Está? Ah, que pena. Eu poderia usar a companhia. Eu… Eu tenho tido bastante na minha cabeça. Estava torcendo por dentro para que fosse eu a encontrar você. Acho que você é o único de quem eu consigo estar perto agora sem querer matar alguém ou a mim mesma.
Ele conteve a vontade de suspirar. Ótimo. Uma conversa, então. Narcissa parecia precisar de ajuda. E depois… Depois, ele seguiria o próprio rumo. Seja lá qual fosse.
Edgar limpou a garganta e enxugou os olhos da maneira mais discreta que pode, antes de se virar para ela.
— O que aconteceu?
— Eu quem lhe pergunto…
A caçadora indicou o vampiro dentro da cela, perfurado por facas de cima a baixo. Edgar não se incomodou com a visão. A criatura tinha merecido. Seu único arrependimento era não ter mais facas para jogar nele.
— Ainda precisavam dele?
— Não exatamente… Mas não seria ruim tirar algum dinheiro da captura.
— Não foi solicitado pela igreja, não iam nos pagar de qualquer forma. Salvar Tavvy foi pro bono.
Ha. Salvar. Certo…
Ele olhou para Narcissa por um instante, e viu que a mulher tinha um olhar bastante cansado no rosto. Não o tipo de cansaço físico, não. Como se estivesse cansada de mentir. De esconder. Já vira isso em muitas pessoas para saber o que era, inclusive em si mesmo.
— Tem algo que queira me contar? — ele perguntou.
Talvez ela precisasse se abrir, mas não pudesse fazer isso com Nicoleta ou Vladimir, dada a natureza delicada do relacionamento dos três. Ele sabia como isso podia ser complicado. Já sentira vezes demais que haviam coisas que não poderia dizer a Pandora… Talvez devesse ter falado quando tivera a chance.
Talvez.
— Eu…
Ela fez uma pausa, procurando palavras. Edgar deu a ela todo o tempo que precisava.
— Eu posso, talvez, ter estragado as coisas… Entre Vlad, Nico e eu. Eu… Não sei… É… Complicado.
Complicado era uma palavra que Edgar conseguia entender. Ele não achava que fosse conseguir dar um bom conselho agora. Sequer conseguia entender porque as pessoas continuavam voltando para lhe pedir conselhos quando ele mesmo estava com tantos problemas na vida. Talvez fosse muito melhor em dizer as coisas do que em fazê-las, no fim das contas.
— Eles te olham como se você tivesse roubado o espírito deles? Se não… Ainda existe algo entre vocês.
Porque era assim que Pandora olhava para ele.
— Eu não sei como consertar.
Um conselho. Não poderia ser assim tão difícil. Ao menos isso ele ainda tinha que saber fazer.
— Talvez eu possa ajudar melhor se entender vocês um pouco melhor. Eu… sinceramente não acho que jamais tenha entendido vocês por completo. Você e Nicoleta parecem realmente se gostar muito, mas Vladimir… Não parece ser a mesma coisa. Não… — Ele fez uma pausa, porque não conseguia pensar em uma forma não potencialmente ofensiva de dizer o que pensava. Eventualmente, aceitou que tinha que ser sincero. — Não entendo o que ele está fazendo com vocês. Vocês não parecem amá-lo como se amam.
Para surpresa e alívio de Edgar, Narcissa riu. Foi uma risada curta e sarcástica, mas o bastante para ele saber que, ao menos dessa vez, não magoara ninguém ao abrir a boca.
— Você provavelmente tem razão, Edgar. Nós não o amamos como nos amamos… Nico e eu temos almas parecidas. Nós somos pessoas muito amarguradas, não conseguimos confiar em ninguém. Tendemos a levantar nossos escudos com os outros e a tentar nos proteger das pessoas. Nos identificamos muito uma com a outra então talvez por isso pareçamos mais conectadas. Mas… Vlad… Edgar, ele é algo completamente diferente.
Nesse instante, um sorriso se abriu no rosto de Narcissa. Um sorriso doce e claramente apaixonado. De repente, Edgar se sentiu até mal pelo que tinha falado, embora não se arrependesse pelo uso exato de palavras. Nunca foi de se desculpar pelo que tinha dito.
— Diferente como?
— Ele sempre está feliz. Já reparou? Eu nunca vi Vlad triste, ou preocupado. Até nas piores horas, até quando ele se irrita, não leva mais de segundos para que faça alguma piada, mesmo que seja ruim. Ele sempre tentar deixar todo mundo feliz junto com ele. Para pessoas como Nico e eu, isso é como um abraço quente em uma noite de inverno. Eu amo Nico por ser como eu, e eu amo Vlad por ser tão diferente de mim… De nós. Algumas pessoas dizem que se sentem completas quando encontram uma alma gêmea… Eu me senti completa quando encontrei duas. Minha alma é trigêmea.
Agora, foi Edgar que sorriu. Mas era um sorriso melancólico. Ele entendia exatamente o que Narcissa queria dizer. Quando conhecera Pandora, aquela cigana livre, aquela bela artista, fora como encontrar tudo que era diferente de quem ele era. E então, de repente, descobrira que tinham muito um do outro, e que combinavam mais do que era de se esperar. Nunca pretendera que ela fosse mais do que um caso de uma noite com ele. E então, se vira completamente apaixonado.
— Eu entendo — ele respondeu, apenas. Porque entendia. — E me parece que você já tem a resposta. Se os ama tanto…
— Eu não sei se amor pode consertar isso, Edgar. Acho que o dano pode ser bem permanente dessa vez.
Ele não sabia o que dizer. Independente de ter entendido os três ou não, o que Narcissa, Nicoleta e Vladimir tinham sempre parecera muito sólido para ele. Nunca imaginara que eles pudessem passar por uma crise dessas e se perderem.
Isso não podia acontecer. Para pessoas que se amavam de verdade, de verdade mesmo, do fundo do coração… Sempre existia uma chance, não é?
Narcissa não poderia simplesmente desistir. Não podia jogar tudo para o alto se ela queria, e se Vladimir e Nicoleta queriam também.
Qual era o sentido?
— Você vai desistir deles, então? Isso não parece certo, Cissa. Não se vocês se amam tanto.
E, para a surpresa de Edgar, a resposta dele não era o que ela esperava. E ele percebeu que sabia exatamente porque.
— Você não quer desistir, quer?
— Jamais, Edgar — ela respondeu, se levantando com um sorriso no rosto e estendendo uma mão para ele. — E você?
E ele?
Ele tinha três escolhas. Ele podia ficar ali e definhar lentamente. Podia tomar o caminho mais rápido e saltar da torre mais alta do castelo. Ou podia se levantar e seguir em frente.
— Eu não acho que consiga me forçar a superar isso… Eu já tentei, Narcissa. Acho que não é assim que funciona — respondeu, levantando a mão para ela. — Mas eu quero. Céus, eu quero fazer as coisas darem certo. Eu só não sei como… E não sei se consigo…
— Querer é o melhor dos começos.
A caçadora apertou a mão de Edgar, o puxando para que se levantasse. Ele sentiu o corpo reclamar de dor, um pouco, mas fora isso estar de pé foi muito… diferente. O caçador olhou para o vampiro morto na cela, e então para Narcissa, que tinha um brilho feroz nos olhos, e sentiu parte dessa ferocidade passar para ele.
De repente, foi como levar um choque. De repente, Edgar entendeu. Nosferatu estava perto. Ele poderia, finalmente, terminar o que tinha tentado há tanto tempo…
— Nico tem razão — Narcissa comentou, dando o braço a Edgar e começando a andar com ele pelo corredor. — Nós deveríamos ser uma família. Deveríamos trabalhar com os outros, não para os outros. Está na hora de corrigir isso, sim?
Ele apenas concordou em silêncio. Narcissa continuou falando.
— E quanto a você e sua esposa… Eu prometo, Edgar, vou te ajudar a conseguir um desfecho com isso, certo? Qualquer um que seja. Nós… O que aconteceu com você foi horrível, e nós não estávamos lá para você. Devíamos ter te apoiado. Devíamos ser uma família. Eu sei que já fazem dez anos mas, para qualquer efeito que seja, eu sinto muito.
Edgar percebeu, naquele momento, que de todas as vezes que ouvira essas três palavras desde que sua filha se fora, aquela foi a primeira vez na qual ele realmente as sentiu. Conseguiu sentir que, sim, Narcissa sentia muito. E isso fez uma torrente de memórias começar a voltar a ele. Jantares, festas, conversas no jardim, beijos de boa noite, tantas coisas que os homens de sua classe não costumavam fazer, e que ele aprendera com os costumes ciganos da esposa… Até as vezes em que repreendera a filha. Os bons momentos e os ruins…
Ele abaixou a cabeça. Estava entrando em choque.
— Nós costumávamos dançar, sabe? Clarissa e eu. Eu sempre dançava com Pandora, e ela via, e me pedia para subir nos meus pés e… Bem…
Narcissa parou de andar. Edgar levantou a cabeça e percebeu que tinha divagado em suas memórias por muito tempo, pois estavam no salão principal. Notou, naquele instante que sequer sabia onde estava indo.
— Onde está me levando?
— Nico quer fazer uma reunião de estratégia. Mas… Antes…
Cissa se abaixou. Por algum tempo Edgar não fez ideia do que ela estava fazendo na barra do vestido, até perceber que, na verdade, ela tinha tirado os sapatos.
— Narcissa?
A caçadora foi até Edgar, pisando suavemente sobre as botas grossas dele, passando uma mão em suas costas e segurando a outra na dele.
— Vocês dançavam assim?
O queixo de Edgar caiu. Ele tremeu, e soube que Narcissa estava sentindo isso.
— N-Narcissa…
— Não. Não pense sobre nada disso. Memórias doem, às vezes, mas às vezes abraçá-las, mesmo que junto com a dor, vale muito mais a pena do que deixá-las desaparecerem. Acho que você enterrou as suas por tempo demais… Vamos dançar um pouco. Nico pode esperar.
Edgar olhou meio atordoado para as botas de Narcissa no chão, e depois para o salão completamente vazio. Não havia música, mas, naquele momento, não pareceu fazer diferença.
Fechou os olhos, se lembrando de tanto do seu passado que, sem perceber, deixara sua sede de vingança apagar.
E então, ele dançou.
