(Instrumental)
Bloody Tears — Castlevania II: Simon's Quest
Hunedoara, Império Austríaco
03 de Novembro de 1818
Narcissa nunca teria imaginado, antes do acontecimento no salão do castelo, que Edgar precisasse tanto de uma amiga em sua vida, e também, não sabia se era a melhor pessoa para isso. Era muito estranho perceber que, dos quatro, ela era a mais emocionalmente estável, especialmente levando em conta todos os demônios internos que ela tinha para resolver.
E era exatamente por isso que ela iria no ataque ao ninho de Nosferatu com eles. A coisa toda era uma bomba prestes a explodir. Nico e Edgar tinham acertos pessoais para fazer com o vampiro, e se ela não fosse com eles para lembrá-los de qual era a missão de verdade, tudo iria acabar dando errado. Vlad não teria o discernimento necessário para isso. Ela tinha que ir.
No dia anterior, eles tinham vasculhado registros históricos pensando onde Nosferatu poderia estar, e no fim das contas, Vlad tinha tido uma ideia. Um pouco louca, mas ainda assim, uma ideia. Podiam não saber qual a conexão de Nosferatu com Mina Murray ou Drácula, mas se ele queria o diário dela para alguma coisa indicava que ele tinha um interesse geral na família. Então, Vlad sugeriu, talvez ele estivesse no Castelo de Poenari.
Louco. Cissa tinha dado risada na hora. O Castelo de Poenari? O próprio local onde Drácula tinha governado Wallachia três vezes? Era uma viagem de seis dias dali. Mas Nico tinha ido até a Catedral mais próxima pedir informações em nome do clã, e o Castelo estava registrado como ninho ativo.
De acordo com os registros, haviam tido três tentativas de limpar o local nas últimas décadas, todas falhas. Não era um fato muito animador, e Nico estava levando isso muito a sério. Ela tinha reunido uma armada de mercenários tão grande que parte de Cissa sentia que estavam indo para a guerra.
Talvez estivessem. Ainda não tinham certeza se o castelo era ou não o esconderijo de Nosferatu, mas as coincidências estavam começando a se empilhar demais. E com isso, o ataque tinha sido organizado.
Cissa terminou de guardar suas últimas facas e estava fechando o malão quando ouviu alguém bater na porta de seu quarto.
— Cissa?
Excelente, pensou irônica. Vlad. Sabia muito bem o que ele estava querendo falar com ela agora.
Ela suspirou, calçou as luvas e abriu a porta do quarto. A caçadora estava em trajes de viagem, e usava um casaco pesado para o frio crescente. Vlad também tinha se vestido para viajar.
Ele franziu a testa.
— O que está fazendo?
E pronto. Ali estava o problema. Ela decidiu que a melhor coisa a se fazer era se fingir inocência.
— Preparando minha mala. Acabei de organizá-la. Se importaria de levar para mim, como um bom cavalheiro?
E o fato de que o queixo dele caiu certamente não significava boa coisa.
— Você… Você… Cissa, você não vai.
Poucas coisas tinham a capacidade de deixá-la tão incomodada quanto alguém a dizendo que não podia fazer alguma coisa. Ela fechou a expressão e colocou as mãos na cintura, levantando uma sobrancelha para Vlad. Geralmente conseguia o intimidar.
Não dessa vez, porém.
— Não me diga o que posso ou não fazer.
— Cissa…
Ele olhou nervoso para trás, e pareceu concluir que os dois estavam sozinhos no corredor, pois entrou no quarto da caçadora, fechando a porta atrás de si.
Ele parecia… preocupado. Cissa sabia o porquê, mas ainda assim, era diferente ver Vlad preocupado com qualquer coisa. Responsabilidade não ficava bem nele.
— Você não pode ir na sua condição. Ficou maluca? O que acontece se te jogarem em uma parede? Ou te atravessarem com uma arma? E se você pegar uma infecção, o que acontece com o…
Narcissa bufou. Era exatamente isso que a tinha feito demorar para contar a Vlad sobre sua situação. Não precisava dele a tratando como uma donzela em perigo, e era óbvio que isso ia acabar acontecendo quando ele descobrisse sua gravidez.
Típico instinto masculino.
— Corro esses riscos estando grávida ou não, e nunca deixei de ir. E tem mais. Se eu não for, o que vamos dizer a Nico? Você está pronto pra contar pra ela?
Havia malícia na voz de Narcissa, e ela estava usando o exato tom que usava quando manipulava alguém. Não queria acabar fazendo isso com Vlad, mas naquela situação em específico estava ficando sem escolhas. Sabia bem o quão cabeça dura o caçador poderia ser.
Ele resmungou, passando a mãos pelos cabelos e dando uma volta pelo quarto.
— Diga a ela que está doente.
— É mentira, e isso nunca me impediu de sair. Eu posso esconder algo dela, Vlad, mas não vou mentir.
Ele suspirou. Narcissa quase conseguia ver a frustração crescendo nele, e já sabia com isso que ia vencer. Sempre vencia.
— Se quer tanto ajudar — ela comentou. — leve minha mala para mim. Te vejo na carruagem.
E ela deixou o quarto antes que Vlad pudesse mudar de ideia. Cissa o conhecia o bastante para saber que ele teria cedido. Essa era parte da magia dele. Ele era muito… ingênuo, às vezes. E Cissa sabia que ele sempre achava que era o elo fraco da relação. Talvez não devesse ter usado isso contra ele, mas, naquele instante, precisava da versão de Vlad que tentaria a agradar acima de tudo.
Aquela missão precisava dela mais do que qualquer um em campo fosse admitir, e ela sabia ser a única que percebia isso.
Com isso, horas depois ela estava a meio caminho do castelo, dentro de uma carruagem de luxo, com Vlad e Nico. O restante dos mercenários os seguiam e mais um comboio inteiro vinha atrás carregando as armas.
Não era a primeira vez que Cissa fazia uma longa viagem de caça, mas definitivamente, era a pior. O clima dentro da carruagem ficou pesado pelos seis dias nos quais viajaram, e era uma mistura da tensão entre Vlad e Cissa por estarem escondendo algo, e o receio dos três de estarem indo purgar um ninho que já mandara três grupos de caçadores embora nas últimas décadas.
Alguém poderia acabar morto nesse cenário. Não era à toa que Vlad tinha se preocupado tanto, afinal de contas.
Parte de Cissa só queria se afastar um pouco dessa tensão por um dia ou dois, mas não tinha como estando os três viajando juntos, e ela foi obrigada a ficar todo esse tempo companheira de seus próprios pensamentos. Ainda conseguia sentir a desaprovação de Vlad em relação à decisão que tomara, e sabia que ele estava pronto para entrar na frente de uma lança ou fazer qualquer outra coisa idiota do tipo para garantir que ela não se machucasse.
Não podia deixar que isso acontecesse, tampouco. Não queria o perder.
Ao passo em que as carruagens pararam nos arredores do Castelo de Poenari, a tensão da batalha tinha vencido qualquer outra tensão que existia durante a viagem. O comboio começou a descarregar as armas, e os caçadores e mercenários a vestir as roupas de batalha. Enquanto os mercenários preferiam variações de armaduras de couro ou metal, os Van Helsing preferiam a liberdade de calças e blusas com apenas um peitoral de couro. E, na opinião de Cissa, já era demais. Ela preferia não colocar armadura nenhuma, mas reconhecia que o ataque daquela noite era mais perigoso que o normal. Além disso, só de pensar em entrar sem armadura já conseguia ouvir os protestos de Vlad em sua cabeça, e preferia evitar o estresse.
Com isso, ela saiu da carruagem já usando as roupas apropriadas e ajeitando a última de suas várias facas nas correias de sua botinha. Embora geralmente lutasse só com facas, daquela vez podia acabar precisando de uma medida mais danosa dada a enorme quantidade de vampiros que iam enfrentar, e acabou pegando um florete e um escudo leve para complementar.
Ela percebeu logo que não fora a única. Vlad, que geralmente usava facas e estacas de madeira, complementara o estoque com um escudo pesado e uma lança comprida. Edgar, além de suas adagas de preferência, levava um martelo-machado tão grande que por um breve instante ela se perguntou se ele sequer conseguiria levantar a arma do chão. E Nico…
Engoliu em seco. A líder se vestira exatamente como Cissa, carregando seu chicote preso no cinto da calça e, nas costas, a foice de três lâminas de Octavian.
— Nico…
Seu olhar cruzou com o da líder, e ela não precisou nem dizer nada para que ela soubesse o que pensar.
— Eu prometi a ele, Cissa. Eu prometi que ele seria lembrado. Então estou o levando em batalha comigo. Essa vai ser a batalha mais gloriosa dos Van Helsing em todos os tempos, ele precisa estar lá. — a líder suspirou. — O próprio Castelo de Poenari… Talvez tenha sido uma ideia muito louca.
Cissa concordou. Era a maior loucura de suas vidas. Seria um milagre se os quatro saíssem vivos de lá. Mas um item importante como o diário de Mina Murray não podia ficar perdido nas mãos erradas. E era o trabalho deles garantir que não ficasse.
— Certo. — Nico respirou fundo. — Vamos fazer isso.
Os caçadores e os mercenários seguiram Nico até que ela estivesse de frente para eles. Uma breve reunião de batalha, e então iriam partir. Tinham tido o cuidado de parar a uma distância relativa do castelo, apagar as luzes das carruagens e se esconderem nas sombras da noite austro-húngara, mas os vampiros conseguiam farejar muito bem. Mesmo o escuro não era garantia de que teriam um elemento de surpresa.
— Nós temos um objetivo essa noite. — Nico anunciou, para o pequeno exército parado em sua frente. — Recuperar um artefato que foi roubado do clã. Um livro. Por conta disso, armas incendiárias estão fora de cogitação, ao menos até que o artefato esteja em segurança. Qualquer outro item de valor encontrado no local pode ser levado como bônus por quem achar.
Um burburinho de excitação percorreu os mercenários. Típico. Havia sido uma ótima ideia de Nico os estimular com dinheiro quando estavam caminhando para uma missão tão perigosa.
— Mais uma coisa. — a líder prosseguiu. — Acreditamos que esse ninho tenha um líder que atende pelo nome de Nosferatu. Eu tenho negócios inacabados com ele.
— É? — Edgar cortou, irônico. — Entra na fila.
Nico suspirou. Era exatamente aquela tensão que Cissa temia que fosse cegar os dois.
— De qualquer forma, ele é meu e de Edgar para matar. Hoje pode ser o dia em que não voltaremos para casa, mas esse livro precisa voltar de qualquer forma. Se morrerem, se levantem e continuem lutando.
Nico tirou a foice das costas. Cissa respirou fundo e empunhou a espada, vendo o castelo se erguer no alto da montanha em sua frente. Eles só tinham um caminho fácil para entrar, e teriam que fazer isso em muito silêncio e cuidado se não quisessem cair em uma armadilha mortal. De repente ficou claro para Cissa porque as tentativas anteriores de expurgar o ninho não tinham funcionado. O lugar era ainda mais à prova de invasões do que o castelo de Corvin, dos Van Helsing.
Então eles decidiram subir devagar. Não dava para ir em absoluto silêncio, alguma das armaduras dos mercenários eram de metal e tintilavam ao subir as escadas. Cissa conseguiu sentir a tensão de Nico, à sua frente. Tinham estudado as plantas do castelo, estudado as entradas e planejado muito bem a invasão, mas ainda assim…
Cissa respirou fundo. Alguns mercenários começaram a se espalhar, escalando as paredes do castelo e se posicionando embaixo de janelas. Enquanto eles entravam em posição, os quatro Van Helsing foram os únicos restantes na escada principal. Cissa sabia que os vampiros estariam os esperando lá dentro. Torcia para que não fossem inteligentes o bastante para planejar uma emboscada.
Os mercenários terminaram de se posicionar. Cissa apertou o punho da espada, levantando o escudo à sua frente, esperando o sinal.
Nico levantou a mão, indicando a eles que esperassem. Cissa viu a líder testar a fechadura devagar, e como esperado, a porta estava destrancada. Fechaduras eram complicadas demais para vampiros entenderem.
Ela chamou o restante do clã, e Vlad a ajudou com a porta da esquerda, enquanto Cissa e Edgar pegaram a da direita.
Só faltava um sinal.
Nico balançou a cabeça em confirmação, e era isso.
O clã abriu as portas do castelo.
Os quatro correram para dentro do que era um salão amplo, escuro e aparentemente vazio. Mas Cissa sabia bem como as caçadas aconteciam nesses lugares. Ela levantou o olhar para o teto distante do salão e viu vários vampiros encavalados, um sobre os outros, todos se segurando ao teto do local. Ela só teve tempo de erguer o escudo sobre a cabeça antes que o primeiro caísse de lá.
Depois disso, tudo aconteceu de uma vez. Os vampiros se soltaram do teto, voando em direção ao que eram os quatro caçadores sozinhos no meio do salão, mas os Van Helsing tinham se preparado para isso. Nesse instante, dezenas de mercenários começaram a entrar pelas janelas, em um forte grito de guerra, cercando os vampiros e brandindo armas em sua direção.
Cissa viu Edgar acertar o machado em dois de uma vez, e Nico brandir a foice ao seu redor. E então não viu mais nada, pois teve que lutar por si.
Um vampiro avançou em sua direção, com as mãos esticadas, grunhido. Cissa brandiu o florete, acertando precisamente na garganta da criatura, e depois o perfurando no peito. O vampiro começou a sangrar e caiu.
Próximo.
Um tentou a cercar por trás. Cissa se virou de uma vez, o empurrando com o escudo. A pancada na cabeça desnorteou a criatura por tempo o bastante para que Cissa empunhasse o florete, perfurando o olho do vampiro. O sangue escorreu pela lâmina até tocar a luva de couro de Cissa, e ela puxou a espada de volta. O vampiro caiu ajoelhado, e ela o chutou para o chão.
Próximo.
Um outro a mordeu na canela. Cissa grunhiu, sem muita paciência para isso, e chutou a cara do vampiro, quebrando o maxilar e o pescoço dele. Bem feito.
Próximo.
Um a abraçou por trás e fincou os dentes em seu pescoço. Ela franziu a cara, reclamando por dentro da nojeira que isso representava. Não conseguia se soltar, e mais um veio à sua frente. Ela enfiou a mão na bota, tirando uma das facas e a jogando certeiramente na garganta do vampiro. Ele continuou se aproximando, e Cissa usou o vampiro que a segurava como apoio, se impulsionando e chutando o segundo no peito. Depois disso, ela ouviu uma pancada surda, e o vampiro que a mordia caiu no chão. Cissa se virou a tempo de ver Vlad espetar o vampiro com a lança e a girar como um bastão, acertando outro no peito.
Hm. Exibido.
— Eu tenho tudo sob controle!
Vlad deu de ombros. Cissa fez o melhor possível para não suspirar, no que viu Vlad avançar com a lança em direção ao vampiro ao lado.
Tudo bem. Próximo.
Esse vampiro foi dos mais ousados. Ele se jogou contra Cissa, a atirando no chão e tentando desesperadamente mordê-la. A caçadora pegou uma outra faca no cinto, a fincando no pescoço do vampiro uma vez, e de novo, e de novo, e todo o sangue da criatura foi caindo em cima dela, e ela fez o melhor que podia para evitar que caísse sangue em sua boca, pois nojeira tinha limite.
Não conseguiu. Xingou, cuspindo sangue no chão, e jogou o corpo do vampiro morto ao lado.
Próximo.
Ela viu um vampiro rasgar a garganta de um mercenário ao seu lado. O homem caiu ao chão, com a mão sobre o corte, mas não havia o que se fazer. Ela rangeu os dentes brevemente, e investiu contra o vampiro com o escudo, até pressioná-lo contra a parede atrás deles. Lá, bateu com o escudo no queixo do vampiro, deslocando o maxilar dele, e depois perfurou seu peito com o florete.
Morto.
Próximo. Próximo. Próximo…
Cissa em algum momento parou de pensar. Brandia o florete pelo banho de sangue, vendo um corpo cair atrás do outro, a maioria de vampiros, mas alguns de mercenários. Ela corria os olhos pela batalha de tempos em tempos, ansiando por ver Vlad, Nico e Edgar de pé, e a cada vez que os encontrava se sentia mais aliviada.
A batalha estava sob controle, mas ainda não dava sinais de acabar. Mas precisava. Ainda tinham que vasculhar o castelo atrás do diário, e lidar com Nosferatu, pois sabia que Edgar e Nico não deixariam a chance escapar. E foi pensando nisso que Cissa olhou para a balaustrada do segundo andar e viu uma figura de terno passando rápido demais para longe da batalha, para dentro do castelo.
Por um breve instante pensou que fosse Edgar, mas a figura era careca. Todos os mercenários estavam de armadura. Os caçadores estavam todos ali embaixo. Então…
Oh. Oh, infernos…
Cissa olhou rapidamente para Nico, e viu a líder e Edgar com o olhar fixo no andar superior. Eles tinham visto também. E sabiam quem era.
Ela soube naquele instante que eles precisavam ir. Precisavam. Era o direito de vingança deles, e não seria muito útil manter os dois ali embaixo com a cabeça longe demais. Além de tudo, a batalha estava sob controle. Podiam liberar os dois.
Podiam. Certo?
Cissa trocou um breve olhar com Vlad, que deu uma pancada em um dos vampiros com o bastão de madeira em sua mão. Aparentemente a lança perdera a ponta.
Ela suspirou. Teriam que controlar a situação.
— Vocês precisam ir! — Cissa gritou, rasgando o peito de um vampiro com o florete. — Vão! Nós temos tudo sob controle! E lembrem-se de encontrar o livro!
A hesitação foi breve, mas Cissa sabia que eles não iriam negar. Os dois acenaram para ela com a cabeça, e com uma energia movida a ódio que Cissa nunca vira nos dois, avançaram pela escada em direção ao segundo andar.
