Cada pequeno movimento é fixo

Como um jogo de xadrez

O sangue em suas mãos é grosso

E você está fazendo apostas

não pode se esconder na cova dos leões

Você não pode mover-se com seus pés amarrados

Não há descanso quando você dorme nas sombras

Não há lugar para correr

Quando tudo está vindo desfeito

Você pode tentar, você pode tentar

Mas você não pode se esconder de as grandes armas

Big Guns — Ruelle

Hunedoara, Império Austríaco

09 de Novembro de 1818

A mão de Edgar chegava a tremer. Ele conseguia sentir… Estava ali. Bem ali. O responsável por tudo que tinha acontecido, o que tinha matado sua filha e destruído seu casamento, sua família… Tão próximo… Vira o vulto correr pela balaustrada do segundo andar e sumir atrás de uma porta no fundo do corredor, e era tudo o que conseguia ver agora. Aquela porta no fundo. Todo o resto de sua visão estava ficando vermelho.

— Edgar!

Ele se virou para trás, de uma vez, levantando seu martelo com uma mão. Logo suspirou, o abaixando. Era só Nico.

— O que?

— Você tem certeza de que está bem pra isso? Quer dizer…

O homem apenas bufou. Não, agora não ia mudar seu foco desse jeito. Tinha um objetivo ali. É claro que estava bem para isso. Estava fervendo.

Edgar chutou a porta ao fim do corredor, de martelo em mãos, e qual não foi sua decepção ao ver que a porta dava para uma longa escada descendente. Bem longa.

— Você tem uma tocha? — ele perguntou, se virando para Nico.

Ela tinha um ar levemente debochado no rosto, algo que claramente queria dizer algo como "agora você quer falar comigo, é?", mas tirou uma tocha assim mesmo, acendeu e entregou para ele.

— Nós não sabemos o que tem no fim dessa escadaria, Edgar. Pode estar infestado de vampiros lá embaixo, e não devemos usar incendiárias, ok? Não podemos arriscar…

— ...o diário, sim, sim, eu sei.

Ele respirou fundo, erguendo a tocha e começando a descer as escadas. Nico falava demais. Era um trabalho simples. O vampiro fugira sozinho, era só encontrá-lo e o matar. O que ele ia fazer? Montar uma armadilha? Com o cérebro de um animal desgovernado?

Não. Eles eram todos os mesmos monstros famintos e irracionais. O trabalho seria simples.

As escadas eram longas, e pela flutuação no som da batalha no salão principal, Edgar conseguiu perceber que tinham descido ainda mais para baixo do que o andar térreo do castelo, em direção ao subsolo dele. Cozinha? Masmorras? Tanto fazia. Se fosse na cozinha era até melhor, poderia jogar a criatura na lareira e assistir enquanto…

— EDGAR!

Infernos, ela estava falando de novo?

— O QUE É?

Nico suspirou e desceu mais alguns degraus, se colocando à frente dele.

— Você precisa respirar um pouco. Vai acabar cometendo algum erro e se matando, desse jeito!

Agora definitivamente não era a hora para alguém dizer a Edgar o que fazer. Ele bateu o cabo do martelo no chão, e naquele momento, sua paciência acabou de vez.

— Por que você está aqui? Eu esperei dez anos… Dez anos inteiros, e você acha que vai simplesmente tirar isso de mim? Eu não me importo se você é lider de alguma coisa, eu…

— Céus, Edgar, se controle um pouco! — ela suspirou, frustrada. — Eu jamais ousaria tirar isso de você. Acredite ou não, até eu tenho bom senso às vezes.

Não ia? Ele soltou a respiração que nem percebera que tinha prendido, e o aperto no martelo se afrouxou um pouco. Só agora notara o receio que vinha sentindo de que ela tentasse roubar o ataque dele. E isso não ia acontecer.

— Por que está aqui? — ele perguntou, novamente, agora com mais calma.

Se ela não o seguira para tentar sua chance de matar Nosferatu, então… Por quê?

— Para vê-lo morrer, e ter certeza de que ele fique no chão. Para não deixar você perder a cabeça de mais e fazer alguma besteira que te custe a vida. E… — Nico levou a mão às costas, tirando a foice de Octavian que prendera lá. — Para te pedir que, por favor… Lute com isso.

Ah.

Edgar pegou a foice. Sim, isso ele podia fazer. Podia matar Nosferatu com a foice. Parecia justo.

— Fique com isso, então. — ele disse, passando o machado para ela.

E em um acordo mudo, Nicoleta foi na frente, até porque ela poderia o acalmar se ele surtasse demais antes que algo de muito extremo acontecesse. Chegando ao fim da escada, Edgar sentiu que a temperatura tinha caído bastante. Seu corpo tinha se arrepiado mesmo por baixo do casaco que usava.

— Isso não parece normal. — Nico murmurou, apertando o cabo do machado. — É melhor ficarmos atentos.

Edgar concordou, em silêncio. Até onde a luz da tocha permitia ver, estavam em algum tipo de salão subterrâneo, mas ele não conseguia ver nada além de colunas de pedra.

— O diário de Mina deve estar aqui em algum lugar.

Edgar concordou. Devia. Mas não era isso que ele estava procurando.

— Procure por ele. Eu vou encontrar Nosferatu.

Ele não ligou se Nico concordava ou não. Àquela altura, apenas deu as costas a ela e começou a explorar o local com a tocha.

Vampiros tendiam a se afastar da chama. Caminhando com a tocha acesa era possível que conseguisse vê-lo tentando fugir pela visão periférica. Para aquele vampiro estar se movendo tão rápido devia ter se alimentado a pouquíssimo tempo, e de repente isso fez muito sentido. Ele devia ter matado algum dos mercenários na batalha, se alimentado e, não precisando mais brigar pela comida, fugido por instinto de sobrevivência.

É claro que o assassino de sua filha seria um bicho covarde.

Edgar já tinha caminhado quase para o fundo do salão quando viu o movimento pelo canto do olho.

Agiu o mais rápido que pode. Edgar agarrou a base da foice e girou, sentindo a lâmina da ponta roçar em algo. Ele ouviu um chiado animalesco, e viu que havia sangue na ponta da foice.

Tinha acertado o braço do vampiro. Excelente.

Vampiros alimentados eram mais difíceis de combater, mas não importava. Era para isso que estava ali. Para matá-lo. E era o que ia fazer.

Edgar girou a foice, errando o vampiro por milímetros quando ele tentou escapar. Mas já estava mais esperto que isso. Assim que a lâmina errou, estendeu o pé, acertando o vampiro no peito.

E era isso. Os próximos instantes aconteceram em câmera lenta. Era o momento. Depois de dez anos… Dez anos inteiros…

A foice não era a arma ideal para Edgar, mas ele não se importava agora. Se não tivesse arma nenhuma, teria feito o trabalho com as próprias mãos. E ele entendia o que Nico tinha pedido a ele. Edgar brandiu a foice, prendendo o pescoço do vampiro entre a primeira e a segunda lâminas.

Ele viu a criatura se contorcer, e sorriu. É claro que sorriu. Não teria como não sentir prazer pessoal naquele momento. Algum tipo de crueldade nata, de prazer malicioso em ter a vingança de sua vida na ponta dos dedos. Sempre soubera que o difícil era encontrar o vampiro, mas que depois que o encontrasse…

Não havia vampiro que pudesse escapar dele. Tinha treinado dolorosamente nos últimos anos e ficara forte o bastante para dizimar uma caverna inteira que um colega morrera tentando destruir. Sim, era quase indestrutível… E se orgulhava disso.

— Naaaah… Aaaargh… Nos… Nosfe… Ratu…

O quê?

Edgar franziu a testa. Porque o vampiro estava chamando a ele mesmo? Ele apertou o cabo da foice, furioso. Não, tinha chegado ao fim. Era isso. Nada nem ninguém ia tirar isso dele. Esse era o fim…

Era o fim!

Edgar colocou o pé no peito do vampiro, o usando como apoio, e puxou a foice. A lâmina passou pelo pescoço do vampiro, e com a força, cortou o pescoço dele, arrancando sua cabeça.

O caçador assistiu a cabeça do vampiro cair para um lado, e o corpo para o outro.

E pronto.

Ele olhou quieto para a cena. Uma adrenalina extremamente forte correu por seu corpo por um tempo, mas depois ela passou. Edgar não soube quantos minutos ficou parado vendo o sangue se espalhar no chão, mas eventualmente começou a se sentir estranho.

Devia estar feliz, certo? Exultante. Realizado.

Mas…

— Ah céus… Edgar!

O caçador se virou na direção de Nicoleta, e começou a caminhar, ainda olhando um pouco para o corpo caído. Não fazia sentido, mas…

Não… Ele tinha matado. Por que não se sentia mais eufórico? Por que não estava extasiado?

— O que aconteceu?

Ele olhou para Nico, que estava abaixada sobre um grande bloco de pedra.

Não… não era um boco. Era um caixão. Estavam em uma cripta.

Ele franziu a testa, vendo um escrito em relevo na tampa do sarcófago de pedra.

"Aqui jaz Vlad Tepes, terceiro de seu nome, eterno rei de Wallachia, o Dracul, o Empalador e líder estimado da Guarda Nosferatu da santíssima Igreja Católica. Seus feitos jamais serão esquecidos."

Foi como se seu estômago afundasse até o chão.

Nosferatu. Aquele nome, Nosferatu, a única coisa que os vampiros repetiam quando os interrogava, a única pista que ele tinha… Não era o assassino de sua filha. Era um clã. Nada menos que um clã de vampiros no qual qualquer um poderia ser o culpado. Ele poderia exterminar o clã inteiro, matar todos os vampiros que lutavam lá em cima, e ainda assim nunca saberia com certeza se sua vingança tinha sido concluída ou não.

— Não…

Ele assistiu, atordoado, Nico empurrar a tampa da cripta. Além de teias e poeira não havia mais nada lá dentro. Edgar conhecia a história… Abraham Van Helsing mantivera o corpo em Corvin para estudar os vampiros por muito, muito tempo, deixando que a igreja queimasse a mulher de Vlad como exemplo em vez do próprio vampiro para que pudesse ficar com o corpo. Várias gerações depois, Vlad tinha sido enterrado na mesma cripta que havia sido criada para ele em vida, caso ele voltasse morto de uma batalha.

E o corpo não estava ali.

Mais de duzentos anos eram o bastante para corroer o corpo, isso era certo, mas Edgar não sabia se vampiros se decompunham na mesma velocidade. Os restos dele poderiam estar ali, ou não. Não tinha como saber.

Não tinha como saber nada.

— Eu… Eu o matei…

— Edgar… — Nico se levantou, e ele viu ela segurar seus ombros, mas não conseguia sentir o toque.

Não conseguia sentir nada.

— Eu…

— Edgar, é o ninho. O ninho, lá em cima. É ele. Temos que voltar e ajudar a vencer a batalha. E então o espírito dela vai poder descansar. E o de Tavvy também.

Ele respirou fundo. Sim… Sim, ela tinha razão. Mesmo que não soubesse ao certo qual dos vampiros era responsável, era um bando de animais. E um bando de animais que, ao ser exterminado, teria cumprido seu propósito.

Era o que podia fazer. Procurara Nosferatu por tempo demais. Nosferatu era um ninho. Tinha que destruir o ninho, e era isso. Fim da história.

Fim da história.

Ele respirou fundo, a mão tremendo menos a cada respirada. Edgar devolveu a foice a Nico, aceitando seu martelo de volta, e foi tentando acalmar os pensamentos.

Exterminar o bando.

Exterminar o bando.

Exterminar…

— Eu preciso de uma coisa depois que vencermos essa batalha. — ele pediu. — Preciso que um padre venha aqui e unja o castelo, para que esse ninho nunca mais volte a se formar.

Nico concordou. Sim, ele sabia que ela concordaria com ele.

— E o diário? — ele perguntou.

— Nem sinal. Mas o castelo é enorme, temos muitos lugares para procurar.

Edgar já não tinha certeza. Não lhe fazia sentido que o diário estivesse com todos esses vampiros naquele castelo, mas não diria nada a respeito agora.

Agora ele tinha que lutar. E lutar. E lutar. E ao fim da noite, iria deixar o clã e voltar para casa. Tinha voltado ao clã apenas para vingar sua filha, e era esse o momento. Poderia ir embora depois. Poderia colocar sua vida no lugar. Poderia dizer a Pandora que tinha conseguido, que tinha eliminado o assassino de sua filha…

Poderia tê-la de volta. Sua Pandora… A mulher mais incrível que já tivera a sorte de conhecer. Bela, forte, inteligente… Era perdidamente apaixonado por ela, e sonhava que ainda poderia consertar as coisas entre eles. Era só vingar sua filha, e tudo iria entrar nos eixos. Tinha certeza disso. Tinha que ter certeza. Era sua única esperança. Sua única chance de consertar alguma coisa em sua vida, de fazer ao menos parte do que tanto amara e que tinha perdido entrar novamente nos eixos.

Ele respirou fundo e caminhou para fora da cripta.