(Instrumental)

Dracula's Castle — Castlevania: Symphony of the Night

Hunedoara, Império Austríaco

09 de Novembro de 1818

Respire…

Nicoleta fechou os olhos, com a mão firme no cabo da foice de Tavvy.

Estava errada. Tudo o que tinha acontecido ultimamente eram erros atrás de erros. A morte de seu irmão, o diário perdido, a busca por um vampiro que no fim das contas se provou ser um ninho inteiro…

Como as coisas tinham chegado a esse ponto? Era seu dever cuidar do clã. Era a líder! E estava acumulando um fracasso em cima do outro, tudo resultado de sua própria futilidade, e da futilidade de sua família.

Parte dela quis desistir naquele momento. Ir embora, deixar os vampiros ali. Se aposentar do cargo. Não aguentava mais isso… Quanto mais pensava no assunto, mais percebia que nada daquilo era o que desejava de verdade para sua vida. Tudo que perdia sendo líder do clã… A começar por Vlad e Cissa, pois não poderia manter a situação com os dois por muito tempo se tivesse que seguir com a liderança do clã.

Estava custando demais.

Mais um caso, então. Exterminar o ninho, encontrar o diário, e então iria sair do posto de liderança. Não ligava o que sua mãe ia tentar fazer para que ela mudasse de ideia, não iria funcionar. Nico percebeu pela forma como Edgar encarava o machado dele que ele estava pensando a mesma coisa que ela, e abriu um sorriso pequeno. As coisas iriam mudar muito em breve. Seria difícil… Mas necessário.

— Vamos nos certificar de que nenhum vampiro nunca mais coloque os pés nesse ninho, ok? — ela comentou, tentando passar um pouco de confiança a Edgar, e querendo pegar um pouco dele também.

Ele sorriu em resposta, um pouco triste, mas ainda assim, sorriu. E isso bastava para ela.

Nicoleta manteve a foice em mãos enquanto eles subiam as escadas, correndo. Aos poucos os sons da batalha foram se tornando mais altos, mais enérgicos, e a adrenalina do combate começou a voltar para ela.

Era nisso que sempre tinha sido excepcional. No campo. Em batalha. Em estratégias. Não sabia até hoje se era o suficiente para ter sido eleita líder do clã, mas não ia negar que era algo a se contar vigorosamente em seu favor.

Quando ela e Edgar voltaram à balaustrada, viram que as coisas tinham mudado bastante na batalha. A primeira coisa que ela reparou, agradecida, foi que Narcissa e Vlad ainda estavam de pé, mas logo reparou que a maioria dos mercenários não estava, e que os vampiros continuavam vindo.

Teria cometido um erro dessa vez? Deviam recuar?

Não… Não podiam recuar. Octavian merecia a vingança. Clarissa merecia a vingança. Não podiam recuar…

Mas se continuassem ali poderiam morrer. Havia uma chance muito palpável que isso acontecesse.

— Temos que ir embora. — ela admitiu, enfim. — Ficar aqui vai nos matar. A coisa esperta a se fazer é ir embora.

— Eu cansei de ser esperto.

E, para o absoluto choque de Nicoleta, Edgar ergueu o machado, subiu na cerca da balaustrada e saltou para a batalha lá embaixo.

— EDGAR! EDGAR VOCÊ PERDEU O JUÍZO?

Sim, ele tinha perdido. Para chegar ao ponto no qual Nico estava o repreendendo por algo? Certamente tinha perdido. E olhando para tudo o que acontecia lá embaixo, o pior era saber que ele tomaria a mesma decisão de novo, e de novo. Ele tinha a vingança de Clarissa, ou não tinha nada, e preferia morrer tentando alcançar isso do que fugir de sua chance.

Estúpido orgulho Van Helsing. Todos eles, orgulhosos demais. Poderia ser tarde demais quando o restante do clã percebesse o quão despropósito esse orgulho deles era. O quão fraco era se dispor a morrer dessa forma, apenas por não fugirem da batalha.

E o que ela poderia fazer? Fugir e deixar os três ali? Ela os conhecia o suficiente para saber que eles não iriam abandonar a batalha, porque, pouco tempo atrás, ela também abandonaria. Porque Octavian não abandonaria, e isso tinha o matado.

Não podia deixar um deles morrer. Se importava com Edgar. Se sentia culpada por terem o abandonado emocionalmente depois do que acontecera. E Vlad e Cissa… Os amava. Desconfiava de que eles não soubessem disso, mas os amava. Se perdesse um deles, tão pouco tempo depois de perder Tavvy… Não aguentaria. Não podia…

Se não poderia tirar os três da batalha, só havia uma outra coisa a se fazer: garantir que eles vivessem até o fim.

Nico puxou seu chicote, o desenrolando e estalando no lustre. A ponta se prendeu ali, e assim, como Edgar, ela saltou para a batalha.

De foice em mãos, Nico desceu na guerra já cortando a cabeça de um dos vampiros que se aproximava de Vlad por trás. Ela puxou o chicote, o soltando do lustre e caindo de pé logo atrás dele, que sequer percebera o quão perto estivera de um ataque surpresa.

Ainda tinham três mercenários em campo, mais os quatro caçadores, contra cerca de vinte vampiros. Isso era um pouco mais de dois para cada, se ninguém morresse e se nenhum outro vampiro chegasse, o que eram duas coisas que não podiam ser garantidas. Ainda assim, era como ela precisaria pensar agora.

Narcissa e Vlad se mantinham no centro da batalha, e embora isso a preocupasse, considerando as armas de alcance médio que os dois usavam, era onde deveriam estar. Edgar tinha se afastado um pouco do centro, e parecia estar se focando em desgarrados. Era o tipo de estratégia comum dele quando lutando com as machadinhas, mas ali com o machado grande ele seria mais útil com o restante dos caçadores, no centro.

— Edgar, aqui! — ela gritou, puxando com o chicote um dos vampiros que estava na frente dele, para chamar a atenção.

Ela conseguiu, e Edgar correu até lá.

Dos mercenários restantes, tinham um com uma besta, outro com uma clava e um escudo e um terceiro com uma espada de duas mãos. Era um péssimo arranjo. Não tinham soldados o suficiente com armas de distância ou de curto alcance.

Ela mordeu o lábio e olhou para Edgar, Cissa e Vlad. Ia ter que reformular algumas coisas.

— Cissa, do outro lado do campo. Use suas facas. Edgar, você também, machadinhas. Vlad fica aqui comigo.

Rapidamente, os caçadores obedeceram. Podiam questionar Nico fora de campo, mas dentro dele, mesmo que ela nem sempre tomasse as melhores decisões, tinha voz o suficiente para ser obedecida.

Depois de espalhar seus soldados, ela apertou o punho do chicote em uma mão, e o da foice em outra. Dois para cada. Tinha que pensar agora em matar seus dois vampiros, e confiar que o time teria a força necessária para que cuidassem dos seus.

Então, ela começou.

O primeiro escolhido foi um vampiro fêmea que avançava em sua direção. Ela estalou o chicote, o prendendo no tornozelo da criatura e a puxando. A criatura caiu ao chão, e Nico brandiu a foice, mirando no peito do vampiro.

Mas ele girou, rolando para o lado e a foice errou seu alvo miseravelmente. E não bastasse isso, o vampiro pulou nas costas de Nico, a fazendo grunhir em desaprovação.

Ela não tinha armas boas o bastante para esse tipo de situação, precisava de algo de curto alcance. Como iria tirar a criatura de suas costas? A caçadora começou a xingar quando o vampiro grunhiu em dor e caiu.

Nico olhou para trás. Edgar tinha atirado uma machadinha nele.

Ela agradeceu com um aceno de cabeça, decidindo que se preocuparia depois com o olhar vermelho de fúria que vira no rosto do homem. A caçadora se virou, estalando o chicote de novo e o enrolando no pescoço de um dos vampiros. Esse grunhiu, mas ela não deu a ele tempo de se mexer, puxando a bainha do chicote e quebrando o pescoço dele.

Assim que o estalo do pescoço se partindo tomou o ar, Nico sentiu uma pancada nas costas e foi jogada vários metros para o outro lado da sala. Ela gemeu ao sentir o rosto bater no chão. Tinha com certeza quebrado o nariz, e o sangue começou a escorrer pelo rosto. Em segundos o vampiro que a jogara estava em suas costas. Ela xingou, ainda se arrependendo de não ter uma arma pequena, mas não ia esperar Edgar salvar sua pele dessa vez.

Nico agarrou as costas do colete puído do vampiro, o puxando até que rolassem e estivesse deitada em cima dele. Então levantou a cabeça, dando uma cabeçada no rosto dele.

O vampiro tinha bem menos resistência que ela a ter o nariz quebrado, pois Nico conseguiu se levantar na hora, e usando a foice, arrancou a cabeça da criatura.

O sangue que escorrera pelo nariz da caçadora chegou em sua boca, e ela cuspiu, irritada, olhando em volta para o que ainda existia da batalha.

O mercenário da balestra estava semi-morto. Os outros seguiam de pé, e Edgar, Cissa e Vlad ainda lutavam, embora Vlad parecesse exausto, e a própria Cissa tivesse revertido puramente ao modo atiradora de facas.

Os vampiros… Estavam quase. Poderiam ganhar. Ela girou a foice, dando as costas ao clã e respirando fundo.

Mais um pouco. Só mais um pouco.

Nicoleta ouviu um grito de Cissa a dizendo para se abaixar e obedeceu bem a tempo de ver uma faca da caçadora voar por cima de sua cabeça, acertando o vampiro à sua frente no olho.

Ela não perdeu tempo. Avançou, brandindo a foice e arrancando a cabeça do vampiro. Nico viu um outro se aproximar e se abaixou bem a tempo, deslizando por baixo dos braços dele até a cabeça caída do vampiro anterior. Ela tirou a faca do olho da cabeça e saltou nas costas do vampiro, fincando a faca na garganta dele e rasgando seu pescoço.

E, enfim, só sobrou um.

Nico ouviu o suspiro exasperado de Edgar atrás dela. Ouviu os passos. Ele queria pegar o último a qualquer custo.

A líder sorriu. Ela estalou o chicote, pegando o vampiro pela cintura e o puxando para perto, e se abaixou. Nico sentiu no instante seguinte os pés de Edgar em suas costas, e com o impulso ele saltou, pegando a foice de Tavvy da mão dela, arrancando a cabeça do vampiro.

Assim acabou. Nico levou a mão ao rosto, respirando pela boca e vendo o sangue escorrer até o peitoral que usava. Edgar que chegou ao seu lado tinha se ferido no ombro, e o sangue escorria por todo o braço dele, pingando no chão.

Ela olhou em volta. Muitos corpos, como esperado. Dois mercenários vivos, o da balestra acabara por falecer. Narcissa estava abaixada ao lado de Vlad, que estava…

Nico engoliu em seco.

Desmaiado. Ele estava desmaiado. Só isso. Não podia ser a outra coisa, não podia…

— Vlad! — ela correu até os dois, se sentando ao outro lado.

O primeiro alívio dela foi ver o peito dele subindo e descendo, devagar. E o segundo foi não encontrar sangue. Mas então…

— O que aconteceu?

— Ele bateu a cabeça… Acho que não foi tão forte, vai ficar tudo bem.

Edgar chegou até os três, seguido dos dois mercenários ainda vivos.

Certo. Precisavam sair dali.

— Temos que ir embora. — ela declarou. — Paramos em uma igreja próxima e passamos o trabalho de limpeza para eles, mas precisamos ir embora. Agora.

O silêncio que se seguiu era de clara concordância. Nico sequer conseguiu sentir a glória de ter limpado o ninho, não naquele momento. Podia ter sido só um impacto na cabeça, mas naquele momento tudo o que ela conseguia pensar era em Tavvy, e como de repente o perdera, e como não poderia perder ninguém de novo… Não podia…

Ela passou o braço de Vlad pelos ombros, e Cissa fez o mesmo com o outro braço. Não conseguiriam levar os corpos mortos, eram muitos, teriam que deixar isso para a igreja. Mas Vlad ainda estava vivo. Ele podiam salvar.

— Eu vou preparar as carruagens. — Edgar anunciou. — Vocês dois, me ajudem.

Os mercenários pareciam aterrorizados. Nico não os culpava, aquele não era o tipo de trabalho que se fazia normalmente, e eles provavelmente nunca tinham passado por uma chacina como aquela. Vários daqueles corpos no chão poderiam ser de amigos, de amantes, de irmãos.

Nico engoliu em seco.

— Ei! Ouviram? Ajudem com a carruagem. A igreja vai recolher seus colegas depois.

Ainda atordoados, pareceu ser o bastante ao menos para que eles começassem a sair com Edgar. Era o bastante.

Vlad gemeu. Ele parecia estar acordando agora que estava de pé.

— Aguenta firme, Vlad. Você vai ficar bem, ok? — Nico murmurou, deixando um beijo carinhoso no rosto dele.

A resposta foi outro gemido. Ela trocou um breve olhar com Cissa, e soube que estavam na mesma página.

Não iriam deixar Vlad morrer. A qualquer custo.