Era uma vez, nós queimávamos brilhantemente

Agora tudo que parecemos fazer, é brigar, de novo e de novo

E de novo e de novo

Era uma vez, do mesmo lado

No mesmo jogo

E por que você teve que ir?

Teve que ir e jogar água na minha chama?

Eu poderia ser a princesa, e você poderia ser o rei

Poderíamos ter tido um castelo, usar um anel, mas não

Você me deixou ir

Você roubou a minha estrela

Princess of China — Coldplay feat. Rihanna

Hunedoara, Império Austríaco

16 de Novembro de 1818

O Castelo de Corvin tinha corredores frios.

Vlad não sabia como tinha noção daquilo naquele momento. Passara os últimos dias completamente perdido entre a consciência e a inconsciência, entre fortes dores de cabeça e lapsos de memória assustadores. Chegara a se esquecer de Nico e Narcissa em algum momento, e agora que a memória parecia estar voltando ao lugar, ele apertava um anel em seu dedo com força, um anel que elas tinham dado para ele, implorando ao universo para que, por favor, não se esquecesse delas.

Foi uma longa viagem. Balançar em uma carruagem não devia estar ajudando em nada no seu caso, mas não tinha como ele saber, e também não chegava a se importar. Tudo que conseguia sentir era dor em sua cabeça. E mais dor. E mais dor.

Quando enfim chegaram em Corvin estava inconsciente, e seu próximo momento de consciência se deu quando já estava deitado em uma cama. Esse momento também veio e se foi, e foi depois de um outro longo período de sono que Vlad acordou de vez.

A primeira coisa que ele notou ao abrir os olhos foi que estava em seu quarto. A segunda foi que reconheceu o quarto, o que queria dizer que suas memórias estavam no lugar, certo?

Ele começou a virar o rosto para olhar em volta, mas um toque suave segurou sua cabeça no lugar.

— Não faça isso rápido assim!

Aquele tom bruto acompanhado de um toque tão delicado fez Vlad respirar aliviado com a familiaridade do que era lidar com Narcissa.

— Desculpe… — ele respondeu, engolindo em seco. Ainda estava atordoado. — O que aconteceu?

— Bateram sua cabeça em uma das pilastras do salão do castelo. Eu pensei que fosse te perder…

Vlad fechou os olhos, a luz das velas do quarto estavam o matando. Então respirou fundo. Ah, sim, se lembrava disso. Acertara um vampiro no peito com uma escada bem a tempo de um outro o segurar pelos cabelos e o bater em uma pilastra várias vezes. Não se lembrava de muita coisa além disso. Eram tudo flashes de memória, até aquele momento.

— Nós… Ganhamos?

Ele percebeu que não conseguia ouvir a voz de Nico, mas tinha uma vaga lembrança de um toque mais bruto durante a viagem que tinha certeza que era dela, então ela estava viva. Mas por que não estava ali?

— Sim. Mas não conseguimos encontrar o diário.

Céus… Não… Tinham uma missão. Uma missão simples. E fora tudo para nada.

— Eu vou buscar a Nico. — Cissa anunciou, e Vlad ouviu um farfalhar suave de tecido que indicou que ela tinha se levantado. — E o médico.

Ele apenas concordou. Não conseguia pensar em discutir com nada agora. Sua cabeça doía muito, e ele se sentia exausto, apesar de estar dormindo em pequenos intervalos já a dias.

— Você pode apagar as velas, por favor? — ele pediu, a voz saindo mais baixa e tímida do que era normal para ele. — A luz está doendo meus olhos.

Ele não viu qual foi a reação de Cissa, pois ainda não se atrevera a abrir os olhos, mas segundos depois a luminosidade do quarto começou a baixar até que estivesse imerso em escuridão. Melhor assim. Até a dor na cabeça pareceu diminuir.

Vlad continuou deitado de olhos fechados no quarto escuro por alguns minutos até ouvir a porta se abrir de novo. Haviam vários passos. Três pessoas, ele contou.

— Boa noite, senhor Van Helsing. Como está se sentindo?

O médico. As outras duas deveriam ser Nico e Cissa, então.

— Minha cabeça dói. — ele respondeu. — Meus olhos também, com a luz. E me sinto um pouco enjoado.

E cansado. E assustado. Estava com medo. A experiência de se esquecer de Nico e Cissa, mesmo que apenas por um breve instante, fora muito assustadora. Não tinha se dado conta até aquele momento do quanto se sentia ligado a elas. Pensar que poderia, talvez, ter perdido a memória do que elas significavam para ele era assustador demais.

O médico se aproximou, e o quarto mergulhou em silêncio enquanto o homem examinava Vlad, tal situação sendo rompida apenas por pedidos e perguntas do médico, e uma ou outra resposta do caçador.

— Sua dor na cabeça é interna ou externa?

— Ambos.

— Onde dói com as luzes?

— Na ponte do nariz.

— Teve perda de memória? Algum branco em sua cabeça? Algum momento que não consegue recuperar?

Vlad engoliu em seco.

— Tive… Mas acho que já passou. Acho que está tudo claro agora.

Sim, tudo estava claro. Vlad decidiu fazer um retrospecto do que se lembrava, começando pela pancada na cabeça. Antes disso estavam lutando, e ele estava até indo bem, considerando que continuava se virando para Cissa o tempo todo para…

Oh oh.

Ele tentou se sentar. No mesmo instante sentiu as mãos de Nico e Cissa o ajudando com o movimento, e logo conseguiu o que queria, se escorando na cabeceira da cama e abrindo os olhos.

O médico estava anotando algumas coisas em uma folha de papel, e a entregou para Nico, tirando um frasco de remédio da mala em seguida.

— Repouso absoluto por no mínimo mais uma semana, e umas duas longe de qualquer treinamento e combate. Sei que na linha de trabalho de vocês isso é complicado, mas se essa recomendação for ignorada o senhor Van Helsing pode ter complicações sérias. Se a dor de cabeça ficar muito ruim, tome uma dose do remédio que deixei com a senhorita Van Helsing. Qualquer agravamento no estado dele, e mande me chamar.

Duas semanas? Não podia! Tinha tanto acontecendo! Já tinham negligenciado tanto suas responsabilidades, e iam simplesmente deixar tudo de lado por duas semanas inteiras?

Nico acompanhou o médico até a porta, e depois que o homem saiu, Vlad suspirou, cansado. Não ia ficar sentado vendo o mundo acabar por duas semanas.

— Duas semanas… Até parece. — ele resmungou, já procurando um jeito de se levantar.

Não tinham encontrado do diário. Não era o tipo de coisa que podia ficar perdida por aí. Precisavam começar a pensar no tipo de estratégia dali pra frente.

— O que está fazendo? — Nico perguntou.

— Como assim "o que estou fazendo"? Estou me levantando. Temos que pensar em uma forma de encontrar esse diário maldito, não temos?

— Deite nessa cama, Vlad! — dessa vez foi Cissa, e tanto ela quanto Nico se aproximaram para o puxar de volta para o colchão.

Inacreditável. Cissa. De todas as pessoas, Cissa ia dizer a ele para se deitar e ficar quieto?

Só podia ser brincadeira.

— Narcissa, me solte. Temos trabalho a fazer.

— Você ouviu o médico. Não é para…

— Por que é que eu não posso te dizer quando deixar uma luta de fora, mas você vai começar a fazer isso por mim?

Ele teria gritado, mas sua cabeça doía demais para isso.

E foi só no instante seguinte que ele percebeu o que tinha feito.

— O que quer dizer? — Nico perguntou.

Se Vlad pudesse retirar o que tinha dito, retiraria, no mesmo instante, pois a mágoa na forma como Cissa o olhou em seguida doía muito mais do que qualquer pancada na cabeça poderia doer.

Ele se perguntou se Cissa tentaria mentir, ou enrolar. Ela era boa nisso. Mas por outro lado Nico também era, e Cissa já tinha dito que, por mais que fosse esconder algo de Nico, não iria mentir. Ele viu Cissa se sentar na cama, com as costas retas e a postura digna de uma rainha.

— Eu estou grávida. — ela disse, simples, direta.

Vlad abaixou a cabeça. Não achava que poderia olhar para Nico agora. Imaginou se seria necessário complementar que a criança era dele, mas pela forma como sua visão periférica captou Nico se afastando da cama, percebeu que ela já deduzira isso sozinha.

— Nico… — ele murmurou, pensando no que poderia dizer.

Mas não disse nada. Ia fazer o quê? Pedir desculpas? Sorrir e chamá-la para amadrinhar a criança? Não tinha solução. Ela ia ficar magoada, é claro que ia. Mesmo que fosse um acidente.

— Quando? — foi a única pergunta.

— Quando Vlad voltou de viagem. — ela respondeu.

Vlad admirou a forma como ela conseguiu manter a pose enquanto falava sobre aquilo. Ele mesmo queria se encolher em uma bolinha e sumir, mas talvez isso fosse efeito da dor de cabeça. Não sabia.

— Ah. Você quer dizer naquele dia em que ele chegou de viagem e se enfiou com você em um armário de vassouras antes mesmo de me procurar para me dizer que tinha retornado a salvo? Esse dia?

— Sim. Esse.

Ele teve que levantar o rosto dessa vez. Havia mágoa no rosto de Nico também, e ele sentiu a dor de cabeça piorar, se perguntando como tinha conseguido magoar as duas pessoas com quem mais se importava no mundo em um espaço de minutos.

Nunca pretendera deixar Nico de fora naquele dia. Mas tinha chegado cansado e… carente. Achara várias vezes durante a viagem que ia morrer. Quando encontrou Cissa no corredor simplesmente não pensou em nada, sentia tanta falta das duas que ver uma delas ali foi simplesmente… Imediato.

Era sua culpa. Tinha estragado tudo. Como sempre, quebrava tudo em que colocava a mão.

— Ok. Acho que é isso, então. — Nico respondeu.

— O que quer dizer? — Vlad perguntou.

Mas não precisava de resposta. Ele viu nos olhos dela. Ela estava os deixando.

Ela não podia fazer isso. Eles tinham prometido uns aos outros que não iam deixar que nada os separasse. Ela não podia simplesmente… Não...

— Nico…

— Fique na droga da cama. — Cissa ordenou, se levantando em seguida.

Vlad queria fazer a mesma coisa, mas não tinha condições ainda. Seu equilíbrio estava levemente afetado. Ia precisar de tempo.

Depois disso, ele ouviu a porta se abrindo. Nico saiu. Cissa saiu. A porta se fechou. Ele finalmente conseguiu ficar de pé, mas talvez realmente não devesse ter feito isso, pois estava zonzo para dizer o mínimo, e a dor de cabeça estava ficando mais e mais agressiva.

Ele se guiou quase às cegas até a cômoda onde o remédio estava, colocando uma dose para si e a tomando, esperando que isso desse um jeito nas coisas. E depois continuou, até a porta, se apoiando na maçaneta, e até o corredor, embora tivesse, enfim, parado escorado à parede.

Estava tonto demais. Ele usou o apoio na parede para se sentar, e acabou ali, entre um archote e uma armadura, sentado no chão do corredor e apoiado contra a parede.

Os corredores do Castelo de Corvin eram mesmo frios. Naquela noite, porém, eles pareciam estar mais frios ainda.