Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Eu disse: Chega de contar dólares
Nós vamos contar estrelas
Sim, nós vamos contar estrelas
Counting Stars — OneRepublic
Menorca, Ilhas Baleares
17 de Novembro de 1818
Era sempre complicado para um Flores ficar longe de seus vurgons.
Letitia se perguntou se o pensamento era irônico. Logo eles, os nômades, sentiam mais falta de suas casas do que quase qualquer um. Talvez fosse justamente o fato de que viajavam em suas casas, de que não importava onde fossem sempre as teriam com eles. Estar viajando para algum lugar sem ter consigo os vurgons era como estar verdadeiramente longe de casa.
Ela suspirou, olhando para trás e vendo Pietra e Apolo sentados ao lado da fogueira que tinham acendido em seu acampamento. Os dois pareciam bem. Muito bem. Letitia não pode impedir um pequeno sorriso entristecido. Estava feliz por eles, claro que estava, mas ela sempre achara o universo enigmático nas decisões que tomava. Nunca ouvira nem Apolo nem Pietra falarem sobre o futuro em ares de relacionamentos fixos, ou filhos, e ali estavam eles. Ela, já passando dos trinta anos, sempre quisera ser mãe, mas recentemente aceitara que simplesmente não iria acontecer.
Letitia fungou. Não eram lágrimas de tristeza, ou emoção, era na verdade um resfriado que vinha a acometendo desde que tinham chegado do mar. Já faziam alguns bons dias do ocorrido, e ela esperava que a essa altura a irritação já teria passado. Não parecia estar acontecendo, porém.
Ouviu passos atrás de si, sobre a grama, e logo viu Rhuan se sentando ao seu lado. Ele trazia uma tigela de algo fumegante, que estendeu para ela.
— Tome. É sopa de peixe com legumes. Vai ser bom pro seu resfriado.
Letitia agradeceu com um sorriso ainda um pouco desanimado, mas aceitou o cozido. Rhuan tinha razão, afinal de contas. Comer algo quente deveria ajudar.
Ela experimentou uma colherada, e não se surpreendeu com o quão bom estava. Sempre tinha visto Rhuan como uma pessoa muito paternal. As pessoas costumavam dizer que ela era a mãe do clã, mas não achava que vissem com tanta frequência como Rhuan era o pai. O caçador sempre sabia quando você estava precisando de alguma coisa. Algo quente para a gripe? Ele já vai ter o caldo pronto. Talas para um ferimento? Rhuan provavelmente teria as talas separadas junto com algum composto de Charles para a dor.
Letitia o admirava muito por isso também. Não tinha sugerido que ele fosse seu sucessor à toa. E ainda achava que era o que deveria ser feito, mas não podia obrigá-lo. A questão era que não sabia se ia sobreviver ao que estavam passando, e temia que partisse sem que o clã tivesse um rumo certo sem ela.
A vida era mesmo complicada. Talvez as pessoas tivessem razão, afinal de contas, e Letitia estivesse se preocupando muito com coisas que não poderia comandar. O universo era uma força própria. Se ela se fosse, tinha que confiar que os Flores estariam bem uns com os outros. Que o clã prosperaria sem ela, e que a caçadora não tinha que tentar a todo custo cobrir todos os problemas da situação sem sequer saber o que aconteceria se morresse.
— Você parece ter muita coisa na cabeça — Rhuan comentou.
Letitia olhou para seu cozido e percebeu que tinha comido metade dele em silêncio.
— Estamos aqui há dias, Rhuan. E ainda nada. E se tivermos seguido alguma pista falsa? Era a única pista que temos… — Ela olhou para trás mais uma vez. Pietra tinha dormido no ombro de Apolo. — Ela está tão esperançosa…
— É. Eu entendo.
Mais uma vez, um breve silêncio. Letitia sabia que Rhuan sentia o mesmo aperto no peito quando pensava nisso. Ninguém queria dizer a Pietra que teriam que voltar para casa. Que as pistas que tinham encontrado não daria em nada. Fazia poucos dias que estavam ali, mas ainda assim, o tempo estava passando, e continuaria a passar. E não haviam novidades ainda.
Rhuan pigarreou. Letitia reconhecia o gesto como ele prestes a trocar de assunto, e decidiu abraçar a troca. Não queria pensar em Pietra agora. Estava preocupada demais.
— E Charles? Ainda está trabalhando as estratégias dele?
Ela riu. As "estratégias" de Charles estavam o levando para a cama de várias pessoas em várias horas diferentes do dia. Ele parecia feliz em trabalhar dessa forma, mas às vezes Letitia sentia algum tipo de vazio por baixo disso tudo que não sabia se o próprio Charles tinha conhecimento. No fundo, algo não estava o deixando feliz. Completo. E ela se preocupava com isso também.
— Ele está. Pode ser que dê certo, eu não sei. — Ela suspirou.
Vinha suspirando muito. Estava cansada e frustrada com várias coisas, e não sabia como agir a respeito. Não queria que o restante do clã visse como ela se sentia sobre tudo isso. Devia ser o centro moral do clã. Devia ser a pessoa a acalmá-los e fazê-los se sentirem a salvo e confortáveis com o que vinham enfrentando. Como iria fazer isso se ela mesma estava tão em seu limite?
Letitia espirrou. E ainda tinha o resfriado.
— O que tem acontecido entre vocês, Rhuan?
O caçador franziu o cenho.
— O que quer dizer?
— Não tenho visto vocês juntos com a mesma frequência que via antes. Em uma parte de minha vida cheguei a jurar que terminariam juntos…
Rhuan se reclinou para trás, olhando para o céu por um instante. Era um hábito de todos os Flores, em diferentes níveis. Pietra, que era astróloga, e Rhuan, que aprendera a se mover no mar usando as estrelas junto aos mapas, eram os que mais costumavam fazer isso. Letitia acompanhou o olhar. Ela sentia um certo fascínio pelas estrelas, mas sempre fora mais próxima da terra e do vento. Gostava de sentir seus pés no chão e o vento em seu rosto. Pensar muito no céu a fazia pensar em estar em lugares altos e, por isso, longe da terra.
Não era dos pensamentos mais agradáveis, mas ela, como qualquer Flores, reconhecia como as estrelas eram bonitas. Como a natureza era.
— Charles e eu… — Rhuan começou uma resposta, depois de algum tempo. Ele ainda parecia estar pensando, mas ainda assim, continuou a falar. — Nós nos damos muito bem, não é? Fisicamente qualquer um se dá bem com Charles, ele realmente tem um talento nato para o amor. Mas… Sim, eu entendo o que quer dizer. Eu não sei se ele sabe, mas eu acho reconfortante estar perto dele às vezes. Ele está sempre tão alegre… É difícil não ficar feliz perto dele. No fim das contas, a companhia dele é um bom remédio para dias mais apáticos. E eu desconfio de que ele goste da minha tranquilidade por motivos similares.
Letitia conseguia sentir um "mas" a caminho. Ela tinha terminado o cozido, e colocou a tigela de lado, abraçando os joelhos. Estava bem frio ali fora.
— Mas — ele continuou — não acho que um relacionamento deva ser assim, e acho que ele também não. Nos damos bem na cama. Quando estamos juntos conseguimos balancear as dores e os anseios um do outro. Mas Charles consegue isso com todo mundo. Eu tenho a impressão às vezes de que ele está procurando algo sem saber o que é, e eu mesmo acho que sinto a mesma coisa. Às vezes encontramos um pouco disso um no outro, mas não tudo. E é isso que torna tudo complicado demais.
A resposta de Rhuan era complexa, mas a interpretação não. Não para ela. Charles e Rhuan simplesmente não se amavam. Não daquele jeito romântico, daquele jeito como Apolo e Pietra claramente tinham descoberto que se amavam. Apenas como bons amigos. E ambos queriam mais que isso.
Ela tossiu um pouco, amaldiçoando seu resfriado, e se deitou na grama. Conseguia entender essa sensação. Era o mesmo que sentia por ficar esperando que se tornasse mãe, e temendo o tempo todo que nunca fosse acontecer. Como se força o amor a aparecer?
— Olhe! — Rhuan comentou, atraindo o olhar de Letitia para o céu. — Há algumas estrelas a mais aqui.
Letitia não olhava para o céu o bastante para reparar isso, mas pelo sorriso de Rhuan soube que era verdade, e que isso realmente o deixava feliz.
— Você vai ser um grande líder um dia, Rhuan. Se quiser.
Ele não respondeu, mas o fato da frase não ter apagado o sorriso do rosto dele e substituído por preocupação já significava muito.
Naquele momento, Letitia decidiu apenas se dedicar a olhar as estrelas.
