Eu sei bem o que existe

Além do meu refúgio adormecido

O pesadelo que eu construí

Meu próprio mundo para escapar

No meu campo de flores de papel

E doces nuvens de canções de ninar

Eu repouso dentro de mim mesma por horas

E assisto meu céu púrpura voar sobre mim

Imaginary — Evanescence

Menorca, Ilhas Baleares

18 de Novembro de 1818

Se tinha uma coisa que fazia Charles perceber que tinha passado por uma noite movimentada era o fato de não saber onde estava quando acordou.

Ouviu um choro infantil em algum lugar, e uma voz feminina cantarolando alguma coisa, e sentiu seu estômago afundar. Por um breve segundo, teve um déjà-vu dele mesmo acordando ao som de Letitia cantando para uma Rosa recém-nascida, poucas semanas depois de Margarida ter morrido no parto.

Charles se sentou, suspirando e passando as mãos pelo rosto. Aquela não era Letitia, e o bebê não era Rosa. O nome da mulher era… Era… Marta? Não, não, isso não parecia certo… Ah, Maria! Isso. E ele a conhecera na noite anterior. A mulher era uma cortesã, e tinha acabado de ter um filho. Estava tentando trabalhar mais para cuidar da criança.

Ele respirou fundo, se certificando de que seus pensamentos estivessem em ordem. Não estava ali à toa, no fim das contas. Ciganos, trabalhadores manuais e cortesãs eram as pessoas que mais sabiam as coisas sobre o mundo. Passavam desapercebidos e ouviam coisas de muita gente. Principalmente cortesãs, como a que estava embalando o bebê na sala do pequeno apartamento.

Charles se vestiu e saiu do quarto. A mulher tinha colocado o bebê em um berço no canto da sala e estava servindo chá em duas xícaras para eles.

— Recebo tratamento especial? — ele perguntou, se sentando com seu clássico sorriso safado no rosto.

— Você não é um cliente. É um convidado. Eu não costumo ter convidados, mas…

Ela deu de ombros. Sim, Charles sabia que tinha talentos relativamente irresistíveis. O caçador bebeu um pouco de seu chá, se perguntando como chegar no assunto do qual tinha que tratar. Por sorte, estava acostumado a conseguir informações dessa forma, e o quanto era bom na cama, era também bom em relações pessoais.

— Eu mencionei ontem qual o propósito de minha visita a Menorca?

A forma como Maria se recostou de lado sobre a mesa para responder deixou claro para Charles que ela estava interessada em estender os acontecimentos da madrugada. Paradoxalmente, era ele quem não tinha essa vontade agora.

— Não exatamente. Disse que era cigano. Assumi que estava apenas viajando… Vocês ciganos viajam muito.

— Eu não sou só um cigano. Sou um Flores.

A atitude de Maria mudou no mesmo instante. Ela corrigiu a postura, pousando a xícara sobre a mesa, e pigarreou.

— Nós… Nós estamos com problemas em Menorca?

Charles se sentiu verdadeiramente triste com a reação de Maria. Flores costumavam ser mesmo os arautos de más notícias, e a sua passagem pelos lugares, embora fosse ocasionalmente celebrada, sempre levantava primeiro o medo de haverem lobisomens nas redondezas. E fazia sentido, com certeza. Ele abriu um sorriso e levou a mão ao rosto de Maria, passando uma mecha do cabelo para trás da orelha dela.

— Não se preocupe. É uma viagem de pesquisa. Estamos apenas procurando informações.

— Oh. Entendo.

E nessa resposta dela, Charles viu que realmente entendia. Entendia inclusive porque o caçador estava ali para falar com ela. Parte de si se perguntou se Maria estaria se sentindo usada, pois não era sua intenção. Não tinha a usado. Tinha dormido com ela porque quis, e estava perguntando porque precisava. Eram coisas completamente nada relacionadas.

— Eu não precisava ter vindo para a sua cama, Maria. Fiz isso porque me interessou em separado a qualquer outro assunto.

Ela apenas levantou uma sobrancelha, mas a resposta pareceu ser o suficiente. A mulher bebeu mais um gole de chá e devolveu a xícara à mesa.

— E em que tipo de informação eu posso ajudar?

Por um breve instante, Charles ponderou o quanto da história deveria dividir com Maria. Não que houvesse algum segredo envolvido, ele simplesmente não gostava de falar muito sobre particularidades dos outros com terceiros. E havia muito da intimidade de Pietra na situação.

Talvez, se fosse sucinto, não teria tanto problema.

— Uma amiga do clã está buscando uma familiar… A mãe dela. Ela nunca a conheceu. Temos motivos para acreditar que ela possa estar em Menorca. Também pode estar relacionado a algo chamado "Guarda Perséfone".

A expressão que se formou instantaneamente no rosto de Maria deixou claro que ela já ouvira falar naquilo antes. Charles sentiu o coração dar um pequeno salto. Depois de tantos dias, finalmente iam conseguir algo?

— Essa sua amiga… Quantos anos ela tem?

— Vinte e quatro, acredito eu. Nada muito distante disso.

Maria suspirou. A mulher encarou a xícara de chá por algum tempo. Charles se perguntou de repente se ela seria irmã de Pietra, ou algo do tipo, apesar de não se parecerem muito. Logo em seguida, entendeu que a relutância de Maria com o assunto nada tinha a ver com alguma ligação pessoal ao caso, mas sim com alguma outra coisa.

— O que foi, Maria?

— Alguém alertou essa sua amiga que ele pode não gostar do que encontrar?

Charles franziu a testa. Sim, tinham alertado Pietra repetidamente que seguir a história poderia ser pior do que nunca saber, mas ela estava decidida. Não conseguia entender porque Maria ligava para isso.

— Alertamos. Ela está decidida.

A mulher ainda ponderou mais um pouco em silêncio. Mesmo Charles, que não era muito ansioso, começou a se sentir levemente aflito até que ela voltasse a falar.

— Aquele bebê… Eu não dei um nome a ele. Eu não posso dar uma vida decente a ele, não trabalhando como trabalho. São muitas as crianças que adoecem ou até morrem, filhos de mulheres como eu que nunca podem estar em casa para cuidar delas. E eu tentei… Deus sabe que eu tentei encontrar outra saída, mas tive que aceitar que o melhor futuro que posso dar a meu filho é o entregando para que uma família mais abastada o crie. Uma família que possa o dar tanto o amor quanto um prato de comida e uma cama quente no fim do dia. Ele vai poder estudar, até. Imagine só… Ele nunca teria isso comigo. Talvez ele nem sobrevivesse. — Ela pausou um pouco, desviando o olhar do berço, como se olhar o bebê a ferisse. — E se, um dia, ele descobrir que a mulher para quem vou entregá-lo não é sua mãe de verdade e vier atrás de mim. O que acha que ele vai pensar? O que acha que ele vai sentir ao descobrir que uma cortesã o teve de uma noite um pouco mais descuidada, e depois o abandonou?

Charles abriu a boca para responder, pois se ele fosse essa criança, entenderia. Entenderia e agradeceria a ela por ter pensado em seu futuro. Por ter aberto mão de algo que amava apenas para que ele pudesse ter mais chances de ser feliz.

No segundo seguinte, pensou em todas as pessoas da Espanha que torciam o nariz para si por ser um cigano, e entendeu o que Maria queria dizer.

— Você acha que Pietra pode se decepcionar com o que vai encontrar?

Mais uma pausa. Então, ela prosseguiu.

— Há uma casa longe da cidade. Seguindo ao norte, através da praça principal, as casas começam a ficar mais esparsas, até acabarem por um longo trecho de terra. Continuando em frente, e mais em frente, e mais, acabarão encontrando um casebre de madeira. É bem difícil de o perder. Ele é a única casa na região onde está, e é bem chamativo. Muitas plantas e decorações exotéricas. Lá, mora uma senhora de idade avançada o suficiente para ser mãe de uma jovem de vinte e quatro anos. Ela é uma curandeira que procuramos quando temos algum problema e não podemos pagar um doutor. O preço dela é bem barato. Ela aceita quase qualquer coisa como pagamento, incluindo uma noite com uma cortesã.

Maria enfiou a mão no bolso do vestido, tirando um pedaço de papel pardo e, pegou pena e tinta de uma gaveta do móvel do aposento. Ela escreveu as orientações que tinha acabado de narrar, entregando para Charles, para que o caçador não acabasse se esquecendo.

— Então — Maria continuou —, depois de pagá-la pelo parto de meu filho, ela acabou dormindo e eu fui curiosa o bastante para passear pela casa. Eu não leio e escrevo muito bem, mas sei me virar. Já fui de família com recursos antes de ser expulsa de casa. Eu acabei lendo "Guarda Perséfone" escrito em algum papel da casa, mas não me lembro direito o que era, e não li o restante. Estava exausta.

E nem precisava ter lido mais. Aquilo já era bem mais que o suficiente, e Charles mal conseguia acreditar que tinha conseguido. Tinha encontrado algo.

— Obrigado… Obrigado, Maria.

— É uma boa senhora. Ninguém sabe o nome dela, a tratamos como La Milagrosa, porque ela realmente opera milagres, à sua própria forma. Talvez sua amiga não se decepcione com quem a mãe é… Mas não sabemos porque ela a deixou. E, se La Milagrosa for mesmo a mãe de sua amiga, eu adianto: ela é uma mulher com muitos mistérios. E eu não sou ingênua de pensar que alguns deles podem não ser macabros de se descobrir. De qualquer forma… Boa sorte a vocês.

Charles olhou meio triste para o bebê no berço. Nunca tivera nem que considerar esse tipo de coisa quando Margarida morrera. Sempre tivera uma família inteira, todo um clã para criar Rosa com ele, e só de pensar em não ter a filha por perto sentia como se perdesse uma parte de seu corpo. O que Maria decidira fazer era muito, muito corajoso.

— Para você também.

Eles se despediram, e Charles deixou a casa em seguida. Ele ainda tinha a cabeça dando voltas e voltas ao redor de várias informações. Sabia o quanto Letitia queria ser mãe, e até pensara em sugerir isso a Maria, mas percebera que os planos da mulher para o filho incluíam um futuro mais promissor do que o de um cigano. Entre Maria, Letitia, Margarida e La Milagrosa, haviam quatro mulheres ligadas à maternidade envolvidas em uma viagem que tinham começado em Sevilla, e Charles não se esquecera nem por um segundo do sonho que Letitia tivera. Das leituras das cartas. Da mãe loba morta no sonho dela.

Quando Charles pisou no acampamento, já não sabia mais se devia falar alguma coisa. Estava com um pressentimento ruim, um aperto no peito, e com temores demais para conseguir pensar bem no que fazer. Mas viu o olhar esperançoso de Pietra para ele quando entrou no acampamento e sabia que não ia conseguir esconder dela o que tinha encontrado. Não seria justo.

— Como foi? — Letitia perguntou, e Charles se acanhou um pouco ao ver os quatro caçadores se aproximando.

Ele tirou o papel do bolso.

— Eu posso ter encontrado algo. Uma casa onde uma velha senhora vive… Eu realmente preciso descansar agora, mas posso dar todos os detalhes depois. E amanhã, se for do desejo de Pietra, podemos ir até lá.

— O quê? — Apolo questionou, surpreso. — Como você…

— Depois. Por favor.

Charles entregou o papel para Pietra, que estava completamente sem palavras, e achou melhor sair de lá antes que ela resolvesse o agradecer, ou algo do tipo. Não achava que fosse aguentar ouvir isso sem colocar todos seus desesperos para fora, e não queria decepcioná-la, ou a desanimar.

Precisava de um tempo. E de seu narguilé.

Ele voltou para sua barraca, deixando Letitia, Apolo e Pietra às voltas com o papel, e não se surpreendeu ao reparar que Santiago tinha o seguido. Era o que o conhecia melhor. Se alguém fosse reparar que estava com algo na cabeça, seria ele.

— Quer conversar? — Santiago perguntou.

— Não.

Charles apenas acendeu seu narguilé, em silêncio, se sentando na cama e dando a primeira tragada. E a segunda. Na terceira, ele percebeu que Santiago não sairia dali sem alguma explicação.

— Estamos entrando em águas perigosas, Santiago.

— Que senhora é essa de que você estava falando?

— Uma curandeira que vive isolada da cidade. Minha fonte disse que ela tem muitos mistérios. Talvez até mistérios demais.

Charles sentiu a cama afundar um pouco quando Santiago se sentou ao seu lado. Sabia que Santiago era provavelmente a única pessoa com quem podia dividir esse tipo de informação agora. Apolo, Pietra e Letitia iriam se assustar e entrar em pânico, mas não Santiago. Santiago talvez soubesse o que fazer.

— Acha que Pietra pode não gostar do que vai encontrar?

— Estou com medo de que ela encontre algo perigoso. E então vamos todos estar em perigo.

Charles fez uma pausa. Era um assunto delicado… Mas precisava que Santiago o ajudasse a decidir o que fazer.

— Letitia não foi a única a ter sonhos proféticos, Santiago. Desde a leitura de cartas de Apolo, eu tenho acendido alguns incensos para mim mesmo. E então eu tive o mesmo sonho… Três vezes.

— O que você viu?

Charles engoliu em seco e deu mais uma tragada. Certo. Aquilo. Já tinha guardado isso por tempo demais.

— Um campo de flores. Todos os tipos de flores, misturadas... e cobertas de sangue.

Ele conseguiu ouvir Santiago engolir em seco. Como temera, talvez nem mesmo Santiago soubesse o que fazer.

— Você pediu uma leitura para Apolo?

— Eu não preciso de Apolo para saber o que flores ensanguentadas significam para um clã de nome "Flores", Santiago. — Ele suspirou. Todo o assunto estava o exaurindo demais. — Desde que decidimos seguir essa história eu tenho me perguntado se estamos fazendo a coisa certa. Quase morremos naquele barco. E agora… Eu não sei, Santiago, acho que não vamos voltar todos dessa viagem. Isso se algum de nós voltar.

A resposta foi silêncio. Charles ofereceu o narguilé para Santiago, que recusou com um aceno de cabeça, e então tragou novamente. Nem mesmo isso estava o acalmando, porém.

— Letitia me pediu para assumir o clã no lugar dela — Santiago anunciou, subitamente.

Charles queria ter se surpreendido, mas não estava nem um pouco surpreso. Sempre soubera que a melhor escolha no lugar de Letitia seria Santiago. O que o preocupava era que Letitia tivesse mencionado isso agora.

— Por que agora? — ele perguntou.

Santiago não respondeu. Não precisava. Os dois sabiam que isso significava que Letitia temia que não fosse durar até o fim da viagem. Que ela estava tentando deixar as coisas em ordem caso algo acontecesse com ela.

— Nós não temos que ir, sabe? — Charles continuou. — Podemos juntar o acampamento, pegar um barco e voltar para casa. Podemos fazer isso e eu vou estar de volta com Rosa, e fingimos que nada aconteceu.

Mas mesmo que tivesse dito isso, Charles não acreditava em suas palavras. Não podiam porque, se fizessem isso, Pietra decidiria seguir as pistas sozinha. E, então, certamente acabaria ferida. Um Flores nunca abandonava sua família, e ela era família. Não podiam deixá-la sozinha, e Charles nunca conseguiria esconder dela que tinha encontrado algo.

Além disso… Havia algo mais. Algo dizendo a Charles, no fundo, que estavam entrando em algo bem maior do que apenas uma busca familiar.

Ele suspirou e apagou o narguilé.

— Isso não está funcionando. Posso tatuar você?

Santiago gostava de se tatuar, e uma vez Charles se oferecera para fazer um desenho no amigo. Fora extremamente relaxante, e agora, em casos extremos, pedia para repetir o processo. Ele sabia que, sempre que pedia isso, Santiago tinha uma noção do quão perto Charles estava de surtar, mas não ligava. Não naquele momento.

— Você está entorpecido?

— Nem de longe.

— Certo. Ok.

Charles se levantou, e os dois seguiram para a barraca de Santiago. Talvez o marinheiro pudesse o ajudar a dormir depois que terminassem.