Nunca te pedi nada

Mas também nunca te dei

Mas você me deixou seu vazio

Que agora carregarei para a sepultura

Então, deixe este coração ficar em paz

Mamãe, agora estou voltando para casa

Não sou tudo o que você quis que eu fosse

Mas o amor de uma mãe por seu filho

Impronunciável, me ajuda a ser eu mesmo

É, eu não valorizei o seu amor

E todas as coisas que você me disse

Preciso de seus braços para me receber de volta

Mas uma pedra fria é tudo o que vejo

Mama Said — Metallica

Menorca, Ilhas Baleares

19 de Novembro de 1818

Pietra estava parada na porta há vinte minutos. Ela tinha noção do quão ridículo aquilo podia parecer. Sabia que a qualquer momento a mulher que morava dentro daquela casa poderia perceber que haviam cinco ciganos parados do lado de fora, e decidir abrir a porta.

A caçadora suspirou. Viera tão longe, e não conseguia nem bater na porta da casa. Estava sentindo um frio estranho na barriga. E se ela não fosse sua mãe? Ou, e se ela fosse?

Céus…

— Etra? — A voz de Apolo a chamou, e ela sentiu o toque carinhoso dele em seus cabelos.

— Tudo bem. Tudo bem, eu vou bater.

— Nós podemos ir embora. Voltar depois… Ou não…

— Não. Não, eu vou… — ela pigarreou. — Eu consigo.

Pietra respirou fundo, ergueu a mão, e se forçou a bater três vezes na porta de madeira.

Ninguém atendeu a princípio. Pietra sequer sabia se devia estar feliz por isso ou não, se sentia muito confusa e completamente alienada ao que queria que acontecesse a seguir. Cada segundo que passava parada na frente daquela porta parecia uma eternidade. Mesmo que, no fim das contas, a dona da casa não tivesse demorado em responder, para Pietra a espera pareceu eterna.

Até que a porta se abriu. A mulher que abriu a porta tinha longos cabelos grisalhos, olhos tão escuros quanto os de Pietra e a feição tão parecida com a dela que não ficava dúvida: ela tinha conseguido. Tinha a encontrado.

Pietra não conseguiu reagir. Nenhum dos Flores conseguiu, em verdade. O clima começou a ficar tenso, aos poucos, e ela conseguia sentir a inquietude de Apolo ao seu lado. Mesmo ela começou a desejar que algo acontecesse. Que alguém falasse alguma coisa.

A quebra da tensão aconteceu quando a mulher estendeu a mão, tocando o pingente no pescoço de Pietra. Ela o analisou por alguns segundos, e a caçadora viu a expressão da mulher mudar de choque para algum tipo de ansiedade. E, enfim, o silêncio foi quebrado.

— Não.

Foi a única coisa que a mulher disse, fechando a porta em seguida.

Não? Como não? Não, ela não era sua mãe? Não, ela não a queria ali? O que era não?

Pietra olhou para Apolo e para os outros, sentindo um aperto forte no peito. Não conseguia acreditar que sua mãe estivesse a rejeitando. Isso não podia estar acontecendo, a procurara por tanto tempo… Ela sentiu os olhos começarem a lacrimejar, e Apolo passou a mão em seu rosto, enxugando suas lágrimas.

Ele não parecia feliz.

— Quem ela pensa que é? — ele resmungou, batendo na porta novamente.

— Apolo… Tudo bem, eu…

— Não. Não mesmo. Não saímos de Sevilla, viajamos até Valência, pegamos um barco pra uma ilha e tudo isso só para pararmos porque a senhora achou no direito de dar com a porta na sua cara.

Não importava o quanto ele batesse, não havia resposta. Enfim, Apolo se cansou, agarrou a maçaneta da porta e, usando a força possuía com as atividades do clã, a arrombou sem nem fazer esforço nenhum.

Os cinco entraram na casa, encontrando a mulher a meio caminho de começar a empacotar suas coisas. Ia fugir? Por quê? Ela não podia odiar tanto a filha a esse ponto, podia? Por quê…

— Vocês não podem fazer isso.

— Não ligo — Apolo respondeu, puxando uma cadeira e se sentando.

Pietra olhou em volta, ainda bastante afetada pelo que estava acontecendo. A casa da mulher era bem pequena, repleta de plantas para todos os lados. Ela tinha um caldeirão com algo borbulhando no fogo e uma estante com muitos livros. Pietra pensou que, se olhasse essas coisas, sentiria algum tipo de familiaridade, que algo a diria se aquela mulher era mesmo sua mãe ou não, mas não sentiu nada. Nem afirmativo, nem negativo. Nada.

Enfim, ela decidiu que só tinha uma forma de saber.

— Você é minha mãe?

A casa mergulhou em silêncio. A mulher parou de juntar as coisas e se virou para eles. Apolo não era o único que tinha assumido uma postura mais bruta. Charles cruzara os braços e Rhuan tinha uma postura que parecia tranquila mas que deixava claro que ele poderia começar a brigar a qualquer instante. Letitia fora bem menos sutil, e já estava com a mão na saia, levantando a barra caso precisasse se mexer.

Pietra não queria descobrir as coisas intimidando a mulher, mas percebeu que isso não fazia diferença, pois ela não se sentia intimidada. Eles não a assustavam. E, quando os Flores não assustavam alguém, Pietra sabia que era ou por serem subestimados, ou porque a pessoa tinha medo de algo muito pior do que eles.

E Pietra não achava que a mulher estivesse os subestimando.

Ela voltou até Pietra, pegando o pingente mais uma vez. Havia um olhar melancólico no rosto da mulher, algo próximo de saudade. Mas Pietra não achava que o olhar fosse direcionado para si.

— Esse pingente… — a mulher comentou. — Foi a única coisa que eu quis deixar com você. Mas não para que você me encontrasse. Era para ser só uma lembrança. Quanta tolice vir atrás de mim, garota…

Pietra não deixou que terminasse de falar. Ela era sua mãe. Tinha a encontrado. Depois de todo esse tempo, finalmente…

A abraçou, talvez com mais força que devesse. Pietra começou a chorar, nem sabia se de felicidade, alívio ou desespero. E chorou ainda mais quando sentiu sua mãe a abraçando de volta, mesmo que com algum receio no gesto.

Foi um abraço breve. A mãe de Pietra parecia um pouco desconfortável, e logo a soltou, mas a caçadora não ligou. Imaginou que a mulher estivesse atordoada, afinal de contas, ela mesma estava. E, ainda assim, sentia uma onda de euforia correndo por seu corpo que nem sabia explicar. Não conseguia determinar exatamente o que estava sentindo, mas era bom. Era forte.

— Eu… Meu nome é Pietra! Pietra Rose. E… — Ainda enxugando o rosto, ela indicou os quatro Flores que tinham vindo consigo. — Eles são minha família. Charles e Rhuan, são como irmãos… e Letitia também. E Apolo! Apolo e eu…

— Pietra, você e seus amigos precisam ir embora.

Ela franziu a testa.

— Não! Não, eu acabei de te encontrar, eu…

Pietra pode ver que sua mãe também parecia prestes a chorar. A mulher segurou o rosto de Pietra em suas mãos, e falava como se tentasse fazer a filha entender algo ao mesmo tempo muito simples, mas muito complicado de absorver.

— Eu tive motivos para fazer o que fiz, Pietra, para te deixar… Doeu como se eu estivesse perdendo um pedaço de mim, mas foi para o seu bem. Você e seus amigos não podem ficar aqui comigo, é perigoso. Por favor… Vá embora…

Perigoso? Pietra fechou a expressão. Não se importava. Aquilo estava soando como se fosse um monte de desculpas sem sentido.

— Eu sou uma Flores, mãe. Eu vejo perigo todos os dias.

Ela não pode deixar de identificar a forma como a mãe a olhou com um misto de pena e impressão de ingenuidade. Pietra não era ingênua! Sabia do que estava falando! Lutava contra lobisomens, tinha sobrevivido a uma tempestade em alto-mar!

— Não esse tipo de perigo.

E Pietra estava pronta para insistir de novo, mas foi Letitia quem se pronunciou, dessa vez.

— De que tipo de perigo estamos falando?

— Mulher, eu…

— Eu respondo como líder do clã Flores. Se você tem informação sensível sobre assuntos relacionados ao clã, devo insistir para que divida conosco. Por favor.

Algo na forma como Letitia falou, colocando o clã como prioridade em vez das vontades de Pietra, pareceu fazer a mulher reconsiderar alguma coisa. Dizia muito sobre a situação que a mãe de Pietra não quisesse falar nada por considerar tudo um capricho da filha, mas considerasse fazê-lo ao ser solicitada em nome de um clã de caçadores. Contudo, ainda parecia relutante.

— Ok, minha vez — Charles disse de repente, atraindo olhares assustados de todos os colegas de clã.

— Não!

— Meu Deus, Charles, até aqui…

— Alguém segura ele!

— Gente, calma! — ele resmungou, se desvencilhando de Letitia. — Sinceramente, o que vocês esperam de mim?

Talvez fosse uma coisa boa que ninguém respondeu a pergunta.

De qualquer forma, Charles enfiou a mão no bolso e tirou um saquinho de pano, o oferencendo para a mulher.

— Reparei que você gosta de plantas. Eu tenho aqui madeira de cipreste de Yunnan, desidratada. Direto da China. O cheiro é único. Você não encontra isso em qualquer lugar, especialmente não aqui, em Menorca. É sua… Se começar a falar.

É claro. De sexo para suborno até que era uma evolução, Pietra pensou. E poderia ser efetivo.

A mulher olhou de Charles para Letitia, e de volta para Charles, e ainda não parecia saber o que fazer. Eventualmente, porém, ela pegou o saquinho da mão de Charles, e Pietra abriu um sorriso.

— Ainda vou me arrepender disso — resmungou. — Sentem-se. Vou aumentar a sopa. Depois que jantarmos, podemos conversar. A propósito, me chamo Madalena.

E assim, esperaram. Madalena era uma excelente cozinheira. Naquele momento, quando estavam todos sentados comendo o cozido de pato com cenouras, Pietra quase se esqueceu de toda a tensão de mais cedo. Distraiu-se com o fato de que estava, quem diria, comendo algo que sua mãe cozinhara para ela. Parecia um sonho se tornando realidade.

Eventualmente, porém, o jantar acabou, e embora Madalena colocasse chá e biscoitos na mesa para acompanhar a conversa, o clima já não era mais o mesmo. Ela parecia bem aflita, e por vários minutos ficou murmurando para si mesma enquanto servia chá para os visitantes, provavelmente pensando por onde começar.

Ela decidiu, aparentemente, começar da forma mais direta possível. Madalena sumiu para dentro da casa, e voltou instantes depois trazendo um livro grosso, pesado e de capa muito ornamentada. A mulher o colocou sobre a mesa, e Pietra viu que o título estava escrito em outra língua, uma que se assemelhava muito ao escrito em seu colar.

— Isso é esloveno, também? — Pietra questionou. — O que quer dizer?

— Sim… Quer dizer "Grimório das Estações". Esse livro é uma coleção secular de conhecimentos e estudos de um coven de bruxas sobre uma série de coisas diferentes. O clã se chamava Guarda Perséfone, quando ainda existia, e é o que está escrito em seu colar.

Apolo foi o primeiro a pegar o livro. Não foi surpresa para Pietra. Ele podia parecer muito infantil e relaxado, mas ela sabia o quão estudioso ele era.

— Você tem um dicionário? — ele perguntou.

Madalena confirmou, indicando a estante ao fundo da casa, e Apolo foi para lá procurar o dicionário para si. Ele não demorou a voltar, e logo estava folheando o livro com dicionário em mãos. A escrita e os desenhos estavam todos feitos à mão, e as folhas do livro pareciam já bem frágeis e antigas.

— O que esse clã tem a ver com você ter abandonado Pietra em uma floresta? — Apolo perguntou, não conseguindo impedir um pouco de sua acidez mordaz de escapar na fala.

Madalena pareceu realmente ofendida.

— Eu não a abandonei. Eu a deixei ao pé de uma árvore segura e observei até que um cigano a encontrasse. Ela ficou dez minutos deitada ali antes que fosse levada embora. Eu não seria capaz de simplesmente largá-la ali e ir embora.

Pietra olhou para a mãe, surpresa. Ela estivera a observando? A observara até ser levada com segurança por alguém? Nunca tinha pensado nessa possibilidade, e de repente a imagem mental que tinha de seu pai pegando um bebê aos pés de um carvalho alto ganhou todo um novo significado, imaginando a mulher parada ao longe atrás de outra árvore enquanto observava a filha ser levada embora.

Madalena continuou sua narrativa.

— Há vários séculos atrás, existiu uma mulher chamada Mina Murray. Ela era muito espirituosa. Inteligente. Estava estudando os efeitos do clima, tentando descobrir como tudo mudava e se seria possível controlar. Se seria possível reduzir a neve no inverno, para plantar mais comida durante o ano. Se seria possível trazer mais chuvas em épocas secas para molhar as plantações. Mina foi uma grande visionária de sua época, uma mulher de conhecimentos profundos e intenções bondosas, tentando usar suas habilidades para boas causas… O noivo dela não ficou feliz de vê-la tão envolvida com essas coisas. Ele não achava que mulheres devessem ter esse tipo de conhecimento. Então, quando ela conheceu e se apaixonou pelo rei de Valáquia da época, não teve dúvidas quanto a deixar Jonathan e se casar com Vladmir.

Pietra franziu a testa. Nunca ouvira falar de nenhum dos envolvidos, e pela expressões entretidas dos outros Flores, eles também não.

— Vladmir?

— Vladmir Tepes. Cavaleiro Cristão. O tipo de homem que você jamais ia esperar que fosse progressista em qualquer forma. Mas era. Ele não só amava Mina, da forma mais profunda e apaixonada que poderia amar, como apoiava e participava de todas as descobertas dela. Eles eram o casal mais feliz que se poderia imaginar, especialmente quando casamentos por amor eram ainda mais raros do que são hoje.

Pietra não deixou de reparar na forma como sua mãe dissera "eram". Não achava que ela estivesse falando isso porque os dois tinham morrido de velhisse. Ela teria dito "foram", então. Nessa situação… Algo tinha acontecido. Quando eles ainda eram vivos.

— Algo deu errado, não foi? — Letitia perguntou.

Madalena suspirou. Ela parecia muito afetada pelo assunto.

— A igreja descobriu. E eles não gostaram de saber que seu melhor cavaleiro estava casado com uma bruxa. Mina e Vladmir receberam uma série de cartas da igreja ordenando que os dois ou parassem com seus afazeres, ou se apresentassem à catedral de Valáquia para ter o casamento desfeito. Eles não obedeceram, e o teor das cartas começou a… mudar.

Madalena esticou a mão para o livro, passando as páginas até uma em específico. Dentro dessas páginas havia uma série de papéis, todos dobrados juntos. As cartas da igreja para Mina.

— Não foram todas salvas, mas salvou-se o suficiente. Elas começam até bem polidas, mas depois… Todo tipo de ameaça recaiu sobre os dois. De retirar a ordem cristã de Vladimir, o que eles fizeram, até ameaças à vida deles. Começaram a enviar emissários com ordem para matar, ao castelo, e um após o outro, Vladimir e Mina os eliminaram, unindo as habilidades dele com as descobertas dela, na ciência. Mina estava estudando os efeitos de uma energia… Uma névoa presente no mundo que não tinha poderes apenas sobre o clima, como ela pensara antes, mas sobre uma série de coisas. Até mesmo sobre a vida e a morte.

Os Flores olharam surpresos para Madalena.

— Ela… — Charles murmurou. — Ela conseguia usar magia para matar os enviados da igreja?

Madalena concordou, e ela parecia muito mais séria agora.

— Acredito que depende um pouco do que você entende por magia, mas, de certa forma, sim. E à medida que eles venciam as batalhas, Vladmir decidiu empalar os corpos na porta do castelo, esperando que isso fosse um aviso para a igreja para que os deixassem em paz. Eventualmente, os dois foram vítimas de seu próprio medo. A quantidade de magia que Mina estava usando, já que você escolheu chamar assim, começou a afetar o lugar em que eles viviam. E o medo e a paranoia são capazes de deixar qualquer homem louco. A loucura de Vlad se juntou a várias noites sem dormir e à magia que ficou no ar… e ele se tornou o primeiro dos que hoje chamamos de vampiros.

Houve um período de silêncio. Apolo estava lendo algumas cartas, e Pietra o conhecia o suficiente para reconhecer o olhar no rosto dele como nojo.

— Do que você chamaria o que Mina usou contra os assassinos enviados? — Santiago questionou.

— Ciência. É o que era, no fim das contas. Não quer dizer que não seja magia também. Talvez magia seja apenas a ciência que não se consegue compreender. A igreja enviou um caçador para eliminar Vladmir, alegando que ele se tornara um perigo, e ignorando o que Mina dizia sobre ser capaz de corrigir o que acontecera com ele. E, depois disso, aproveitaram para capturá-la também, queimá-la em público na Itália e usá-la de exemplo para a Europa: qualquer um que fosse contra seus dogmas seria eliminado.

Apolo largou as cartas enfim, e fechou o livro. Pietra estendeu a mão, segurando a dele. O caçador não parecia querer ler muito mais coisa no momento.

— E o livro? — ele perguntou.

Madalena abriu um pequeno sorriso.

— Mina sabia que a história poderia não acabar bem para eles. Ela escondeu muito de suas coisas em outro castelo, como um diário pessoal e alguns utensílios que usava em suas pesquisas, esperando que a igreja encontrasse o mínimo possível disso tudo. Mas esse livro era muito importante para ser arriscado dessa forma. Ele contém todo o estudo que ela estava fazendo com o coven e várias coisas que fez sozinha depois. É o tipo de coisa que pode revolucionar o mundo… Mina o entregou para uma colega de coven, e a pediu para fugir com o livro. Esperava que as coisas que ficassem no castelo fossem o bastante para satisfazer a fome da igreja, que eles não iam procurar por mais nada depois… Foi muita ingenuidade da parte dela.

Pietra conseguia imaginar que sim. Não conseguia ver a igreja parando de procurar por qualquer traço dela, não depois de tantas ameaças feitas.

— A igreja fez o possível para levar a reputação dos dois ao fundo do poço quando os matou. Inventaram as histórias mais loucas. Disseram que os corpos empalados na frente da casa eram cristãos inocentes, disseram que Vlad bebia o sangue deles no jantar… O povo, por medo ou ingenuidade, acreditou. E depois de tudo isso, a mulher que fugira com o grimório veio parar na Espanha. Ela se misturou a alguns ciganos para se esconder, e começou um grupo de ciganos dela mesma. Iliana Kozlov mudou seu nome para Eliana Flores, e foi a primeira caçadora do clã a existir. Ela sabia o que os lobos eram e como a magia de Mina tinha se espalhado pelo ar. Ela ensinou todo seu grupo de ciganos a salvar os homens e mulheres transformados em lobisomens, e quando chegou a hora, passou o grimório para sua filha. E sua filha para a filha dela, e para a filha dela… Até a igreja finalmente descobrir que o livro existia, e que poderia estar em algum lugar. Susanita Flores tinha o livro na época, e ela decidiu fugir. Desde Susanita, temos vivido aqui, longe do clã. Isso já fazem várias gerações… Mas ainda não é seguro ter esse grimório… E foi por isso que eu pretendia que a linhagem acabasse comigo. A igreja tem rastreado esse livro por muito tempo, e eles não vão me pedir com educação se me encontrarem. Eu também não planejo entregar de boa vontade.

E Pietra entendeu ali porque Madalena tinha a abandonado. Para que ela se livrasse daquela linhagem perigosa. Para que não tivesse que carregar um alvo nas costas.

— Todos esses anos… Parece que você tem se escondido muito bem — Apolo comentou.

— Não tão bem. Eu planejava morrer quieta aqui em Menorca e deixar o livro escondido aqui. Ele não pode ser simplesmente destruído. Seria uma perda colossal se o conhecimento nele fosse eliminado sem nunca ser colocado a bom uso. Eu imagino que daqui a cem ou duzentos anos o mundo estará pronto para receber esse conhecimento, mas não agora…

— Sim. Nós entendemos — Letitia disse, simplesmente.

E realmente entendiam. A cabana mergulhou em silêncio mais uma vez. Ninguém tocara no chá ou nos biscoitos, absortos que ficaram em toda a história de sangue que permeava seu clã. Tudo que os anos tinham perdido na tentativa de mantê-los a salvo, mas que eventualmente, voltara à tona.

Apolo se levantou.

— Muito bem. Estamos apreendendo este livro, senhora.

— O quê? Não! Você não pode…

— Apolo tem razão — Santiago comentou. — Nós podemos mantê-lo a salvo, juntos, muito melhor do que você poderia sozinha.

Ela crispou os lábios. Não parecia feliz com a insinuação.

— Podem morrer juntos muito mais facilmente também, eu imagino.

A isso, Apolo apenas deu de ombros.

Pietra não sabia o que dizer. Seu amante se levantou com o livro em mãos, e o restante do clã começou a se levantar também. Ela mesma se levantou, sentindo o toque de Apolo em sua mão. Entendia o medo de sua mãe, mas também acreditava que com eles o livro estaria melhor.

— Pietra… Por favor…

— Não, mãe. Eu sinto que isso é a coisa certa a fazer.

— Vamos dar uma festa no nosso acampamento hoje — Letitia comentou, pegando um dos biscoitos para ela. — Você é bem-vinda lá. O livro fica conosco, e você não pode tê-lo de volta. Mas talvez possa recuperar um pouco do tempo perdido com Pietra. Vamos andando.

Madalena brigou. Reclamava que não podia deixar que fizessem isso, que seria perigoso, que não entendiam… Mas era ela quem não entendia. Era ela quem não entendia que o clã era muito mais bem equipado para manter qualquer coisa a salvo da igreja. Porque, afinal de contas, viviam se escondendo deles. Eram ciganos. Estavam acostumados a isso. Treinados para isso. E por mais louvável que fosse o esforço dela para tentar manter a filha e os amigos à salvo, não era a decisão mais esperta a se fazer.

Ou ao menos, Pietra acreditava que não. Esperava fortemente que Apolo e os outros tivessem razão, porque ela mesma não sabia direito se estavam fazendo a coisa certa, por mais que parecesse que sim.

Ela seguiu a velha família para fora da casa, deixando para trás a nova família que acabara de reencontrar. Ainda voltaria para ver Madalena, é claro que sim. Tinham tanto para falar… Mas por agora, a mulher precisava de tempo para pensar, e Pietra também. Ao menos por enquanto, era melhor que fosse assim.