Salvem a vocês mesmos, A lua está cheia

Debaixo do poder dela, puxão gravitacional

Lábios vermelho sangue, agitam-se como folhas

Você é a natureza humana, mas o que está embaixo?

Não desligue as luzes

Dê boa-noite a si mesmo porque há um assassino

E ele está vindo atrás de você

Killer — The Hoosiers

Menorca, Ilhas Baleares

19 de Novembro de 1818

Apolo não era cientista. Não era botânico, não era físico… Não tinha nenhuma habilidade específica que o permitisse entender a fundo as coisas escritas naquele livro. Mas ele lia bastante. Estava acostumado a ler coisas fora de sua especialidade. Mesmo que não soubesse o que eram vários dos termos escritos ali, estava entendendo de forma geral os objetivos e os resultados. E era tudo… Assustador.

De um jeito bom. Murray tinha ideias incríveis e, embora não tivesse conseguido concluir muitas delas, tinha caminhado bastante antes de ter suas pesquisas interrompidas pela igreja. Se ela tivesse chegado ao fim daquelas descobertas, era provável que o povo largasse o deus católico para segui-la, o que faria a igreja perder muitos fiéis. O sistema inteiro da igreja iria quebrar, e isso não seria só ruim para a eles, mas também para lugares que dependiam dela financeiramente. No século XVI, esses lugares eram muitos.

Apolo suspirou, fechando o livro. Mina tentara ajudar o mundo rápido demais. Embora as intenções fossem boas, ele não estava tão certo de que o resultado seria tão positivo. E agora entendia as medidas drásticas da igreja, mesmo que não concordasse com elas.

O caçador se espreguiçou, olhando para a vela acesa ao lado da mesa que quase tinha acabado de queimar. Estava lendo o livro desde que a mãe de Pietra chegara na festa. Tinha decidido dar um tempo para as duas e aproveitar esse tempo para ver o que conseguia descobrir.

Agora, estava confuso. Mina tinha tentado melhorar o mundo, sim. Contudo, mudanças muito drásticas e repentinas, mesmo que para melhor, podem ter resultados catastróficos.

Ela não tinha percebido isso.

Apolo assistiu a vela terminar de queimar lentamente, preso em pensamentos e teorias, quando ouviu os gritos começarem do lado de fora.

O primeiro instinto dele foi sair da barraca para olhar, mas a meio caminho, algo clicou em sua mente. Não podia sair da barraca e deixar aquele livro em qualquer lugar no meio de uma confusão, de forma que qualquer um pudesse pegar. Resmungando, arrancou um dos cobertores de sua cama, enrolou o livro nele e começou a cavar um buraco debaixo de seu colchão com as mãos.

Foi um trabalho demorado. Os gritos do lado de fora estavam crescendo, e Apolo começou a ouvir uivos misturados a isso, o que deixou claro que o problema era sério. Para alguém que era muito mais adepto de atividades intelectuais do que físicas, cavar no chão daquele jeito se provou rapidamente muito chato e cansativo. Mas, eventualmente, cheio de terra debaixo das unhas, o caçador conseguiu um buraco grande o bastante. Apolo jogou o livro ali de qualquer jeito, espalhando terra por cima e cobrindo com o colchão. Então, saiu.

A primeira coisa que ele viu do lado de fora foi um lobisomem. Um lobo enorme, carregando uma mulher visivelmente morta na boca. E ele não era o único.

Haviam mais dois lobos correndo pelo lugar, pessoas fugindo para todos os lados e várias pessoas mortas no chão. Misturados aos lobos, Apolo viu o que ele muito vagamente identificou como um vampiro, apenas pelo que tinha lido em livros, e outras coisas que só podiam ser fantasmas e zumbis.

Letitia. Onde estava Letitia?

Apolo correu o olho pela destruição, vendo a líder com o que parecia um grande porrete de madeira na mão, acertando vampiros e zumbis nas cabeças. Charles a acompanhava fazendo a mesma coisa, e Santiago estava… rezando? Ah, eliminando fantasmas. Ou ao menos tentando. Ele não parecia saber o que estava fazendo e…

Oh céus.

Um lobo passou correndo em sua frente no acampamento a tempo de Apolo ver Pietra montada no lombo do animal, o abraçando pelo pescoço e tentando o acalmar.

Apolo não gostava de violência. Nenhum Flores gostava, era parte de quem eles eram. Naquele momento, no entanto, o caçador se perguntou se não deveriam bater primeiro e tentar acalmar depois.

Assim que sentiu uma pancada forte no estômago o atirar vários metros para longe, decidiu que sim.

Ele se levantou, tentando recuperar o ar. O que o acertara fora a cauda do lobo em que Pietra estava montada, e Apolo começou a temer verdadeiramente que ela fosse se machucar em sua tentativa de ajudar o portador da transformação em vez de salvar as vidas das pessoas que o lobo poderia ferir. Não conseguia entender. Pietra podia até não gostar de matar, mas quando era necessário ela fazia. E fazia bem.

Foi nesse instante que ele reparou que a fuligem no rosto dela estava marcado por um rastro de lágrimas. E então entendeu que o lobo era Madalena.

— Essa não…

Apolo se levantou. Pietra não podia ficar ali, o emocional dela estaria muito abalado para lidar com a situação. Ele pegou um pedaço largo de madeira do chão, o acendeu na fogueira mais próxima e começou a correr. Sabia que vampiros não gostavam de fogo, mas era o máximo que chegava a saber. O fato de que as chamas também pareceram afastar fantasmas, lobos e zumbis fora uma verdadeira surpresa para o caçador.

Precisava avisar isso ao restante do clã. Ao seu redor, embora a maioria dos civis tivesse conseguido fugir, alguns estavam presos sob árvores caídas ou desacordados sem poder escapar. O restante do clã lutava. Se não se livrassem de todos aqueles monstros, a chacina seria forte, e se espalharia do acampamento para o resto da cidade.

Talvez Apolo não devesse se preocupar com Pietra agora, mas sim com eliminar a maior quantidade de monstros possíveis. Ou talvez devesse, porque precisariam da ajuda dela e a caçadora não ia ajudar muito se continuasse com aquela estratégia.

Não conseguia se decidir e, enquanto pensava, continuou correndo. Ateou fogo a um vampiro ou dois, se protegeu de fantasmas brandindo a tocha. Saltou sobre uma fogueira para evitar um zumbi.

Estava quase lá. O lobo era rápido e, o pior de tudo, parecia saber onde estava indo. Lobos costumavam correr desgovernadamente, não em linha reta, daquela forma.

Não exatamente na direção da cabana de Apolo.

De repente, o coração dele saltou. Era exatamente onde tinha escondido o livro.

— PIETRA! — Apolo gritou, esperando atrair a atenção da caçadora. — NÃO A DEIXE CHEGAR NA MINHA BARRACA!

Mas ela não parecia ouvir. Ele tinha que ser mais rápido. Mais esperto. Mais rápido…

Apolo conseguiu pegar a loba pelo rabo.

Madalena uivou. Pietra ainda murmurava no ouvido da mãe, tentando desesperadamente trazê-la de volta, mas Apolo reparou que isso não estava fazendo nem um mínimo de diferença. Absolutamente nada.

Precisava de um plano. Precisava pensar em algo. Não podia pegar o livro e fugir, a loba certamente o alcançaria. Apenas conseguira alcançar Madalena agora pois Pietra estava tendo algum sucesso em atrasá-la com o forte abraço no pescoço dela. Sozinha, a loba o alcançaria em uma corrida sem fazer esforço nenhum.

O que ia fazer? Como ia…

Ele pensou demais. Pietra pareceu percebê-lo ali, e afrouxou um pouco o aperto. O bastante para Madalena recobrar forças, virar a cabeça para trás, morder a filha no intestino e atirá-la a metros de distância.

Apolo não soube explicar o que aconteceu depois.

Ele simplesmente não teve controle. Se não soubesse como fantasmas funcionavam, diria estar possuído. Ele subiu nas costas da loba sem pensar duas vezes, abraçando o pescoço dela com toda a força que tinha, a força que Pietra estava relutando em usar.

Aquela era a mãe dela. A mãe que Pietra buscara por toda a vida. Não queria ter que matá-la, não queria…

— Por favor, Madalena. Por favor, não me faça fazer isso, por favor…

Porque Pietra jamais o perdoaria. Nunca. Não depois de ter passado tanto tempo de sua vida buscando por isso. Ela nunca seria capaz de olhá-lo da mesma forma se Apolo lhe tirasse isso.

— Madalena, aquela no chão é sua filha! — ele disse, puxando o pescoço da loba para que ela ficasse de frente para Pietra, caída a alguns metros dali. — Eu não quero tirar você dela, por favor!

A loba uivou e se contorceu, tentando fazer com Apolo a mesma manobra que fizera com Pietra.

— Por favor…

Mas mesmo ali, ele sabia que não teria jeito. Apolo mordeu o lábio, tentando se impedir de chorar em um misto de fúria pelo que não queria ter que fazer, e tristeza pelo que perderia fazendo. Mas ainda assim, ele colocou os braços ao redor da cabeça de Madalena. No que foi a pior morte que fez até ali em toda sua vida, quebrou o pescoço do animal.

O estalo não foi mais alto do que qualquer outro que já tivesse causado, mas ressoou em seu ouvido como um tiro de canhão. Ele tinha acabado de matar a mãe dela. Ele tinha matado a mãe dela.

— Me desculpe… — Apolo murmurou, sentindo o corpo da loba começar a diminuir.

Madalena voltava a sua forma normal.

— Me desculpe… Me perdoe Pietra, por favor…

Ao seu redor, a bagunça começara a entrar sob controle. O que quer que Santiago fizera contra os fantasmas surtira efeito. Letitia e Charles colecionavam corpos e cabeças decapitadas ao seu redor. Apolo sequer sabia que os dois poderiam fazer isso. Achava que nem mesmo eles sabiam que pudessem.

O que tinha acabado de acontecer? Fora tudo tão rápido… Num instante estava lendo o livro, e no outro… Como era possível que Madalena soubesse onde ir? Desde quando lobos transformados tinham objetivos? Vontades? Estratégias?

— Murray… — ele murmurou.

Sim… Tinha lido algo sobre névoa, algo sobre transformações… Mas muito era inconclusivo, e o que não era Apolo não tinha conseguido entender…

O caçador se levantou. Um fantasma passou voando ao seu lado, e Apolo saltou, bem a tempo de ver Santiago socá-lo com a mão enrolada em um rosário.

— Você está bem? — o marinheiro perguntou.

Apolo não sabia. Sua cabeça estava dando muitas voltas… Ele olhou para os corpos caídos no chão, de vítimas e de monstros. E então para o de Madalena, que ele tinha matado.

E então para Pietra.

Ele só percebeu naquele instante que ela não estava se mexendo.

— Oh não… Não, não, não…

Apolo deixou Santiago parado no lugar e correu até a garota. Ele virou a amante, devagar, a puxando para deitar a cabeça em suas pernas. Foi só ao fazer isso que ele viu a enorme quantidade de sangue que escapava do local onde Madalena a tinha mordido.

Ela estava respirando. Debilmente, mas estava. Tinha que fazer alguma coisa…

Apolo tirou a blusa que vestia, a embolando e colocando sobre o ferimento, pressionando. Lera em algum lugar que era aquilo que se devia fazer… E em algum outro, não se lembrava, lera sobre plantas cicatrizantes…

— CHARLES! CHARLES!

Pietra murmurou alguma coisa, mas ele não conseguiu identificar o que. Letitia ainda lutava contra dois vampiros e um zumbi, mas Charles pareceu perceber a urgência e a deixou sozinha, passando seu porrete para Santiago, que foi ajudá-la em seu lugar.

— O que aconteceu?

— Ela está muito ferida… Você é botânico, tem que ter alguma coisa que…

— Entendi.

Charles foi correndo de volta para a barraca, e Apolo decidiu fingir não ter notado o olhar de pânico que o caçador tinha no rosto ao olhar para Pietra. Porque se levasse aquilo à sério, poderia ter que admitir a possibilidade de que Charles não poderia fazer nada por ela. E, obviamente, ele podia fazer. É claro que podia.

Ele tinha que poder.

— ...polo?

O caçador engoliu em seco, segurando uma das mãos dela.

— Ei… Só aguente aí, ok? Não diga nada, não faça esforço. Charles foi buscar algo para você.

A voz dele tremeu. Ele sentiu que a mão tremia também. Pietra estava respirando com muita dificuldade e, sob um pouco da fuligem, Apolo percebeu que ela estava bem pálida.

— Minha… Mãe…

Apolo engoliu em seco. Não a podia deixar ver o corpo da mãe agora. Não agora.

— Descanse, Pietra… Charles foi buscar algo, você vai ficar bem, ok?

O aperto dela em sua mão afrouxou. Apolo ergueu o olhar, desesperado, vendo Charles voltar da barraca carregando uma série de plantas. Santiago e Letitia tinham dado cabo do último vampiro com muito mais violência e menos classe do que Apolo imaginava que um Van Helsing fosse fazer, mas isso não importava agora. Em meio a todos os mortos, tinham vencido a batalha.

Agora Pietra só tinha que vencer a dela também.

— Preciso ver o ferimento — Charles comentou.

Apolo ajudou o outro a rasgar o vestido da caçadora na altura do estômago, e ele estremeceu ao ver quanto sangue ainda saía de lá. Charles, que estava abrindo um saquinho de plantas, parou e franziu a testa.

— O que está fazendo? — Apolo perguntou. — O que está fazendo, Charles, ande logo com isso!

O botânico levou dois dedos ao pescoço dela. Apolo sentiu o estômago afundar. Sabia o que ele estava fazendo.

— Apolo…

— Não.

Não. Não. Não, não assim. Não desse jeito. Não por culpa dele. Sim, dele. Ele tinha buscado o livro da casa de Madalena. Ele tinha o levado até lá. Ele tinha aberto a porta da casa de Madalena. Ele a forçara a contar a história. Ele tinha movido todas as peças que tinham os levado até ali.

Não por culpa dele. Por favor, não desse jeito.

Apolo virou o rosto de Pietra. Ela não respirava mais.

— Apolo...

— Saia. — O caçador engoliu em seco. — Saiam, os três.

Eles obedeceram.

O cartomante não soube por quanto tempo ficou sentado ali, abraçado ao corpo de Pietra. Em algum momento, as fogueiras se apagaram. O sol nasceu. Letitia, Charles e Santiago prestaram ajuda aos feridos e ajudaram a cuidar dos mortos, mas Apolo não fez nada disso. Não conseguia. Se levantasse dali, teria que deixar o corpo de Pietra no chão. E ela não ia se levantar.

Foi quando o sol estava alto no céu que os outros caçadores voltaram até ele.

— Apolo… — Letitia chamou.

A voz dela quebrou. Apolo reconheceu a nota de choro, mas não conseguiu se importar. Tinha certeza de que os três tinham passado a madrugada chorando. Falando sobre Pietra e falando sobre tudo… E eles não faziam ideia…

Madalena tinha os alertado. Ela tinha os alertado vividamente, e eles, em sua arrogância, tinham pensado que seriam mais capazes de fazerem o que ela já vinha fazendo sozinha por anos. Aquele maldito livro… Onde ele estivesse, a morte iria seguir. E já tinha começado seu rastro de destruição.

— Apolo, Charles precisa preparar o corpo…

Sim, sim… Da Vincis, Van Helsings e até os Frankestein recorriam à igreja para cuidar dos corpos no enterro. Os Flores nunca tiveram acesso a esse luxo. Cabia apenas a eles cuidar de seus mortos de forma a garantir que não voltassem como fantasmas ou zumbis.

O pensamento de Pietra levantando do túmulo pareceu retirar Apolo de seu estado de letargia.

— Sim…

Ele se levantou, devagar, com a caçadora nos braços. Ainda trêmulo, a passou para Charles e, ao fazer isso, seu olhar cruzou com sua barraca.

A quele maldito livro…

Apolo olhou para Pietra, morta nos braços de Charles. E novamente pensou no livro. E em tudo que vinha acontecendo. E em tudo que poderia acontecer…

Na próxima vez, poderia ser ele nos braços de Charles.

Apolo soluçou. Agarrando Letitia pelo colarinho do vestido, a puxou para perto. Sendo consideravelmente mais alto que ela, era o bastante para ser ao menos um pouco intimidante. E ele não estava a fim de discussões agora. Letitia não tinha o que era necessário para liderar. Charles era uma pilha de irresponsabilidades. Santiago sempre iria querer estar em outro lugar.

Alguém tinha que colocar as coisas no lugar.

— Nós vamos para Hunedoara.

— A-Apolo… — Ela se debateu um pouco.

— Você deixou isso acontecer, Letitia. Você sonhou com uma carnificina de uma loba com seus filhotes, e olhe bem, OLHE BEM! — Ele a empurrou um pouco para a frente, a colocando frente a frente com o corpo de Pietra.

— Ei. — Santiago avançou para interferir, mas Apolo levantou a mão para ele.

O marinheiro parecia bem nervoso. Apolo o conhecia bem o suficiente para conhecer seus os impulsos protetores. E admirava isso. Mas agora, aquilo era necessário. Letitia precisava ver.

— Nós vamos para Hunedoara. Está vendo isso aqui? Pietra está morta. Morta, Letitia, por causa daquele livro infernal. E eu me recuso a aceitar isso sem ir quão fundo eu puder. Sem descobrir exatamente o que a levou, e o porquê. E eu preciso de informações sobre Murray.

Ele a soltou. Estava tremendo, nem sabia se de fúria, tristeza ou pura energia. Não sabia e não se importava.

— Tudo bem… Podemos discutir isso, eu acho… — Letitia comentou.

— Não. Acho que você não entendeu. Santiago, ajude Letitia a levantar acampamento. Charles, eu vou te ajudar com o… — Ele engoliu em seco. — ...funeral. E depois nós vamos voltar a Valência, pegar os nossos vurgons, e partir.

— Não — Charles retrucou. — Eu preciso ficar um tempo com Rosa… Eu…

Ele indicou para Charles o caminho em direção à barraca do botânico. Letitia ainda chorava, silenciosa, evitando olhar o corpo de Pietra. Santiago parecia uma rocha, mas Apolo sabia a bagunça que ele estava por dentro. E sabia também que Charles ia se drogar assim que pudesse para passar por cima disso tudo.

Eles precisavam de um plano. Precisavam agir. E se nenhum dos quatro queria a responsabilidade, ele ia pegar. Apolo ia perseguir justiça, ou morrer tentando.

— Não me interessa, Charles. Eu estou ditando as cartas agora.