Porque éramos apenas crianças quando nos apaixonamos
Não sabíamos o que era
Eu não vou desistir de você dessa vez
Mas, querida, apenas me beije devagar
Seu coração é tudo o que eu tenho
E, em seus olhos, você está segurando os meus
Amor, eu estou dançando no escuro
Com você entre meus braços
Descalços na grama
Ouvindo nossa música favorita
Quando você disse que estava feia
Eu sussurrei bem baixinho
Mas você ouviu
Querida, você está perfeita essa noite
Perfect — Ed Sheeran
Londres, Inglaterra
21 de Novembro de 1818
Lily suspirou, apertando casualmente o tecido da saia do vestido. Tudo estava mudando rápido demais. Tinham passado as últimas semanas lendo caixas e caixas de cartas da garota Da Vinci, e tudo para não ganharem absolutamente nenhuma informação que os ajudasse com os fantasmas. O único conhecimento adquirido fora a certeza de que Alban tinha zero noção da dimensão emocional alheia. A tal Francesca estava claramente apaixonada e ele nunca tivera o tato de nem encorajar e nem desencorajar os sentimentos dela nas cartas, simplesmente por não ter percebido. Para piorar, foram dias sentindo uma dor forte e esmagadora, sabendo que aquilo, aqueles momentos dos quatro passados juntos, ia acabar. Sabia que era melhor para Thomas e Aaron irem embora, mas ainda assim, quando eles fossem...
— Eu vou sentir sua falta… — ela murmurou, tentando conter o choro.
Lily não sabia exatamente de onde a vontade de chorar estava vindo. Talvez só estivesse se sentindo sensível demais naquele momento, considerando toda a situação.
— Ei. — Aaron se inclinou um pouco para a frente, esticando a mão e segurando a dela, com um sorriso no rosto. — Eu já disse que vamos visitar. Você não vai conseguir escapar de nos ver tão fácil assim.
Ela sorriu também. Mesmo que ele e Thomas viessem para Londres com frequência, seria muito estranho pensar na Torre apenas com ela e Alban por lá. Parecia muito… Vazio.
— E também — Aaron continuou —, não é como se eu estivesse indo agora. Você está agindo como se eu estivesse de partida.
Lily bufou. Estava sensível. Que direito ele tinha de tirar sarro dela naquele momento?
— Bem. Em breve poderá estar. Então, sim, estou emotiva.
— Não. Você está enrolando. O que não é muito justo, sabe? Vai fazer o pobre do Alban ter um ataque do coração. Você sabe como ele tem os nervos atacados.
Ela suspirou, abrindo a boca para discutir, mas não conseguiu. Era verdade. Estava com um frio enorme na barriga, um nervosismo forte que não a dera coragem para sair da carruagem ainda.
— Dúvidas de último instante? — Aaron questionou.
Ele parecia preocupado. É claro. Imagine a dor de cabeça se Lily desistisse assim, em cima da hora. Mas não, ela não tinha nem um pingo de dúvida no corpo. Nada. Estava mais certa do disso do que já estivera de várias outras coisas em sua vida. Era só… Sua vida estava prestes a mudar muito. Era normal estar nervosa, certo?
Ela riu, baixinho. Aaron tinha razão.
— Não… É só… É demais. Acho que meus nervos estão atacando também.
Aaron passou a mão debaixo de um dos olhos dela e Lily percebeu assim que tinha lacrimejado.
— Thomas te mata se borrar a maquiagem que ele fez. Respire fundo, Lily. Se tem alguma certeza que eu tenho na minha vida é que isso é certo. Vocês dois… Céus, isso já devia ter acontecido há anos, se quer saber o que eu penso.
Ela riu, mais uma vez. Se Aaron queria ajudá-la a colocar as emoções no lugar, tinha conseguido.
Lily respirou fundo, colocando suas emoções sob controle. Então, ajeitou a saia verde pastel, pegou o buquê de lírios e saiu da carruagem.
Seu coração travou um pouco ao ver os portões abertos da igreja. Felizmente, o para-ventos da igreja não deixava ninguém lá dentro ver o lado de fora imediatamente, porque se tivesse cruzado o olhar com Alban naquele momento, era provável que fosse desmaiar.
— Ah! Aí está minha garotinha!
Lily sorriu, um pouco sem graça, ao ver o tio, caminhando até ela. Dono de um sorriso largo, uma barriga proeminente e um bigode pomposo, o homem fora um pai para ela desde que seu pai de sangue morrera. Significava muito para a caçadora que ele tivesse aceitado cumprir esse papel naquele momento também.
— Eu vou esperar no meu lugar — Aaron se despediu, entrando na igreja.
E, como todos sabiam que ela estava indo com Aaron, ela soube que a entrada do caçador na igreja seria um sinal imediato de sua chegada.
— Nervosa? — seu tio perguntou, oferecendo o braço para ela.
— Não. De forma nenhuma.
A mentira estava estampada em sua cara, mas ela ficou feliz que seu tio tivesse tato o bastante para não a corrigir. E então, agradeceu que ele começasse a andar, a conduzindo para dentro da igreja, porque tinha certeza de que suas pernas tremiam e que não conseguiria fazer isso sozinha.
A igreja estava cheia. Ela tinha a família relativamente grande, mas a de Alban até que era bem pequena. Mas um casamento como o dos dois exigia convites para várias outras famílias aristocratas, nomes da ciência e, muito a contragosto mas a puro título de respeito científico, Doutor Jekyll, que Lily logo percebeu, realmente acabara indo. Embora ele tivesse atacado Alban, o fato ainda era secreto, e não chamá-lo para a cerimônia levantaria questões muito complicadas. Talvez pudessem abordá-lo na recepção. Quem sabe não fossem conseguir assim a informação que precisavam?
Pensando nisso, ela direcionou o olhar ao altar. E podia jurar que seu coração tinha parado.
Via Alban todos os dias, praticamente, e era uma visão sempre muito abençoada. Lily não imaginava que de alguma forma fosse conseguir se sentir mais atraída por ele em algum momento da vida, mas toda essa sua teoria caiu por terra naquele instante.
Ela já sabia que ele ficava bem de terno preto, mas a gravata e o kilt verde xadrez que compunham o resto da roupa dele eram tão perfeitos para Alban usar que ela sentiu o coração saltar para a boca. Tinha certeza de que era obra de Thomas também. Alban estava… perfeito. Incrivelmente perfeito.
Lily viu um sorriso enorme se espalhar no rosto de Alban, e reparou que ele estava um bocado pálido. O conhecia o suficiente para saber exatamente o quão nervoso ele estava, se chegara a esse ponto. Seu próprio nervosismo pareceu desaparecer um pouco naquele momento e, enquanto caminhava com o tio para o altar, teve quase que um pouco de vontade de correr só para o abraçar antes que ele acabasse tendo um ataque do coração.
Enfim, o longo caminho do altar se terminou. Seu tio segurou a mão dela, a entregando para Alban.
— Cuide bem dela, entendeu? Ou eu vou atrás de você nem que eu tenha que ir para a Escócia.
De repente, o mundo parou para Lily.
Nem que eu tenha que ir para a Escócia
Escócia. Onde Alban tinha uma casa, de herança de família. Escócia, há apenas dez dias de viagem dali. Um lugar com várias casas campestres. Um lugar onde Thomas e Aaron poderiam morar, longe da cidade… E há poucas horas de viagem da casa que Alban tinha lá.
— Céus… — ela murmurou, chocada.
Como poderia ter deixado isso passar? Eles podiam morar todos perto um do outro, e há uma distância tão pequena de Londres… O clã não era a Torre, o clã eram eles, e se eles quisessem se mudar um pouco para o norte, então… Então…
— Lily?
A caçadora levantou o rosto, surpresa. Seu tio fora se sentar, e Alban estava segurando a mão dela. Lily percebeu que tinha congelado na frente do altar que que Alban parecia muito nervoso. Talvez achasse que ela estivesse desistindo.
Teria que falar com ele sobre isso. Depois. Tinham tido uma longa discussão sobre onde morar, e escolhido uma das propriedades dos Blythe na conversa. Nem por um instante tinham considerado que o clã poderia sair de Londres.
Lily riu. Só mesmo ela para, no meio de seu nervosismo de casamento, ficar pensando em trabalho.
— Você está com aquela expressão. — Alban murmurou, entrelaçando os dedos nos dela. — Que ideia maravilhosa acabou de ter?
— Depois, certo?
Ele sorriu. Sim, era óbvio que aquele não era o momento.
— Você está linda. — Ele beijou a mão dela em seguida. — Maravilhosa.
— Você também. Thomas escolheu o kilt?
Para a surpresa de Lily, Alban negou.
— Era do meu avó. Eu…
Nesse instante, o padre pigarreou, e os dois perceberam que tinham desviado do mundo como costumavam fazer.
Todo o nervosismo de Lily tinha passado. Enquanto a cerimônia se seguia, em vez de mais nervosa, ela foi se sentindo mais e mais leve. A caçadora sentiu um calor agradável no peito. Desde o princípio, sentia seu coração saltar, e o sentiu outra vez quando se ajoelhou na frente do altar. E quando disse sim. E quando colocou a aliança no dedo de Alban. E quando eles se beijaram no fim da cerimônia.
Alban e Lily deixaram a igreja a caminho da recepção e ela tinha um sorriso enorme e leve no rosto. Aaron tinha razão, afinal de contas. Algumas coisas simplesmente estavam fadadas a acontecer.
