As memórias implacáveis parecem não ter

Nenhuma intenção de me perdoar

Se eu fechar os olhos

Elas só irão crescer ao meu redor e

Manter a distância de você sorrindo

Será que a chuva já parou?

Por um tempo longo ela foi fria

Por que a chuva me escolheu?

Por que escolher a mim

Que não tenho para onde fugir?

Rain — Sid

Londres, Inglaterra

21 de Novembro de 1818

O mundo parou.

O que acontecia no salão da casa, lá embaixo, era um verdadeiro inferno. Ainda assim, Aaron não ouvira nada além do som dos tiros, ecoando como se o resto do mundo estivesse em silêncio. Por um instante, não conseguiu entender o que estava acontecendo. Ouvira os tiros, vira a arma na mão de Alban e depois Thomas caiu. Teria Alban acertado um monstro e desequilibrado Thomas no processo?

Então ele viu o sangue. E, contra toda a lógica que poderia pensar, ele teve que chegar à única conclusão possível: Alban tinha atirado em Thomas.

— Não — Aaron sussurrou.

Ele se debruçou sobre a sacada, olhando para o mar de monstros lá embaixo, no entanto, sequer conseguia ver o corpo de Thomas mais. Havia sido pisoteado pela multidão de criaturas. Aos poucos, o choque foi se dissolvendo, sendo substituído por sensações tão violentas que ele nem sabia dizer o que estava sentindo. Raiva. Tristeza. Confusão.

Dor.

O coração de Aaron doeu. No sentido mais literal possível. Ele levou a mão ao peito, tentando respirar fundo. Não estava conseguindo.

— Aaron?

O caçador ouviu a voz de Alban o chamar, e a fúria que sentia aumentou. Ele olhou para Alban, levando a mão ao bolso em busca de sua faca, mas seus dedos tremiam. Não conseguiu a encontrar. A visão de Aaron começou a escurecer, e ele perdeu os sentidos, caindo ao chão.

Ainda conseguia os ouvir. Ouvia Lily gritando com Alban, e ele de volta com ela, entretanto, as palavras não faziam sentido. Um toque suave de mãos pequenas em seu pescoço deixou claro que Lily estava o socorrendo, de alguma forma, e no fim das contas foi bom que Alban tivessse saído de perto. Aaron não achava que pudesse tolerá-lo por agora.

Os momentos seguintes foram ainda mais confusos. Botões de sua roupa se abrindo, as mãos de Lily em seu peito, a voz dela o chamando repetidamente… Mais gritos.

Talvez fosse melhor morrer. Não seria tão ruim, seria? Era como sempre foi suposto acontecer. Onde Thomas fosse, ele o seguiria. Não estavam planejando fugir juntos, afinal de contas? Que lhe importava que não pudesse respirar? Que lhe importava qualquer coisa naquele momento?

Nada. Não importava.

Aaron fechou os olhos, esperando, torcendo para que tudo acabasse. Para que se, de fato, existisse um deus ou alguma outra entidade no mundo, que o levasse junto a Thomas. Que o levasse agora. Por favor. Que o levasse…

No fim das contas, o universo não foi tão benevolente. Aaron abriu os olhos a tempo de ver Lily se afastando, sentindo um gosto incômodo de maquiagem na boca. Ele se sentou, aceitando o apoio dela como ajuda, entendendo aos poucos que ela tinha feito respiração boca-a-boca. Tivera uma parada respiratória? Era o procedimento base para essas emergências.

Ele olhou para os lados, atordoado. O barulho da guerra lá embaixo voltara a incomodar. Lily chorava e parecia muito ansiosa, ao seu lado, e de pé do outro lado do corredor estava Alban, também bastante inquieto.

Aaron não sabia o que fazer. Como reagir. Agora que o choque parecia ter passado, ele começou a chorar também, em silêncio e sem reação. Ele encarou o salão, lá embaixo, ou o pouco que conseguia ver dele considerando que estava sentado no chão, e aos poucos conseguiu recompor o suficiente de si mesmo para fazer uma única pergunta.

— Por quê? — ele olhou para Alban.

Naquele instante, Aaron percebeu que Alban chorava também. O líder apenas era melhor para esconder. Mesmo assim, ele foi traído pelo tremor na voz quando respondeu a Aaron.

— Porque eu prefiro atirar na cabeça do meu melhor amigo — ele parou, soluçando. — Do que deixá-lo ser comido vivo, vai-se saber por quanto tempo, até morrer.

Sim. Sim, fazia sentido. Os tremores no corpo de Aaron estavam começando a passar. Sua mente estava ficando mais clara. Não havia sido Alban quem matara Thomas. Havia sido ele, quando pedira aquela bendita garrafa de vinho. Fora ele, Aaron, quem matara Thomas.

E havia sido outra pessoa também. Aquele homem doentio, que condenara o casamento à desgraça.

— Onde está minha faca? — ele perguntou, limpando as lágrimas e se colocando de pé com alguma dificuldade.

Seu corpo tremia um pouco. Se forçou a parar de chorar, naquele instante, porque lágrimas iriam lhe nublar a visão e ele queria ver o que estava prestes a fazer.

— Comigo — Alban respondeu, embora não parecesse inclinado a devolvê-la.

Aaron viu a sutileza do olhar trocado entre o líder e sua esposa, e o que quer que ela sinalizasse, foi algo positivo, pois Alban devolveu a arma a ele.

Houve um breve instante de tensão enquanto Aaron guardava a lâmina no casaco. Ele se perguntou se Alban achava que usaria a lâmina contra ele. Não o culpava por isso. Há alguns segundos atrás, talvez, tivesse usado.

— Qual é o plano? — Aaron perguntou, coçando a garganta.

Resolver aquele problema de monstros não era o que queria fazer agora, contudo, precisava. Thomas não deixaria isso assim. Ele sempre fora muito perfeccionista com seus trabalhos. Sempre tinha dito que manter um bom nome era uma das coisas mais importantes a se fazer, e que isso incluía resolver os problemas até o fim.

— Eu tenho parte de um — Alban comentou. — A festa estava cheia de uísque, as garrafas todas se quebraram. O chão e os monstros devem estar cobertos de álcool. Se conseguirmos um bom catalisador podemos atear fogo ao salão. Desculpe, Lily.

A caçadora balançou a cabeça. Não parecia se preocupar muito com o estado de sua casa agora.

— É um bom plano — Aaron respondeu. — Mas como vamos sair daqui, se o primeiro andar estiver em chamas?

— Possivelmente, não vamos. Essa é a parte que falta.

Oh, não. Aaron não podia morrer. Não ainda. Não sem amarrar as últimas pontas daquela situação.

— Não é uma opção. Lily?

— Hm — ela fez uma pausa. — Eu posso ter uma ideia para sairmos. Acredito que funcione.

Aaron esperava que sim. Porque ia sair dessa casa… E ia resolver seus assuntos inacabados.

— Onde podemos conseguir mais produtos inflamáveis? — Aaron perguntou.

— No escritório do meu tio, Alban sabe onde é. Eu vou preparar nossa rota de fuga.

Lily deu as costas, correndo na direção oposta ao corredor.

Naquele instante, Aaron entrou em modo automático. Sabia que se pensasse demais não ia conseguir fazer o que precisava ser feito, e isso não era uma opção. Ele seguiu Alban até o escritório, e o líder começou a abrir os cabinetes.

— O que estamos procurando? — Aaron perguntou, fazendo o mesmo.

— Garrafas de bebida, algum material incendiável como papel ou tecido, e uma pederneira.

— Eu tenho uma pederneira.

Thomas o dera uma. Um item de luxo, guardado em uma caixinha decorada. Ele continuou abrindo as gavetas até dar de cara com uma blusa branca um pouco amassada. Parecia ser bom o suficiente.

— Encontrei uma blusa.

— Tenho garrafas.

Alban encontrara quatro garrafas de uísque e vinho, duas delas pela metade. Aaron observou enquanto o físico rasgava tiras da blusa e enfiava nas garrafas, usando a rolha para prender de maneira um pouco desajeitada e deixando uma boa parte da tira de pano para fora.

— O que é isso? — Aaron questionou, analisando a gambiarra do líder.

— Improvisação. Pegue duas.

Aaron obedeceu, e os dois deixaram a sala a tempo de ver Lily voltar correndo pelo corredor.

— Tudo certo do seu lado? — Alban perguntou.

Ela concordou.

— E vocês? O que é isso?

— Alban batizou de "improvisação".

Lily deu de ombros. Era o que dava para fazer no momento. Só restava torcer para que funcionasse.

Aaron passou a pederneira para Lily, e Aaron e o líder seguraram as garrafas juntas, deixando os quatro pavios no mesmo lugar. Lily acendeu os pavios e Aaron trocou um breve olhar com Alban antes de jogar as garrafas lá embaixo.

O efeito foi imediato. Aaron percebeu que nem Alban imaginou que o fogo fosse se alastrar tão rápido, e em questão de segundos o salão já fora engolido pelas chamas. Ele olhou para o líder, preocupado. Daria tempo de fugirem, certo?

— Lily, aquela rota de fuga? — O líder solicitou.

— Por aqui!

Os três começaram a correr. Lily os guiou pelo corredor, passando por várias e várias portas até chegar em uma que Aaron reconheceu como o quarto dela. Visitara a casa uma vez. Naquela ocasião, Lily tinha comentado sobre como costumava fugir de noite pela sacada, uma vez que seu quarto era um dos únicos da casa que não ficava sobre uma janela do primeiro andar e, portanto, não seria vista se saísse.

Nesse instante, ele entendeu o que ela tinha feito. Os três seguiram até a sacada, onde Lily amarrara uma longa corda de lençóis levando até do chão até embaixo.

Aaron não perdeu um instante que fosse.

— Controlem a situação com o fogo! Eu vou encontrar o responsável por isso.

Antes que pudesse ouvir resposta, ele agarrou os lençois e começou a escorregar para baixo.

A descida foi rápida. Chegando ao chão, Aaron rolou para amortecer o impacto, se levantou e começou a correr em direção ao aglomerado de pessoas que observava o incêndio da casa.

Jekyll. Precisava encontrar Jekyll. O desgraçado, maldito, assassino Jekyll! O quão sádico ele era? Estaria ali, no meio da multidão, observando o incêndio? Esperando para saber quantos tinha matado? Estaria se sentindo irritado por ter falhado? Pelos Frankestein terem salvado todos os civis?

Ele atravessou a multidão, gritando por Jekyll, perguntando a todos em seu caminho onde ele estava. Ninguém parecia saber sequer quem o homem era. Aaron puxou o distintivo do bolso, o que facilitou sua passagem, mas não estava o ajudando a conseguir respostas. Ele gritava cada vez mais alto, mais furioso, e foi quando terminou de atravessar o mar de pessoas que viu o que era, inegavelmente, as costas da cabeça de Jekyll, dentro de uma carruagem que acabara de partir.

Ele não ia fugir. Não mesmo.

Começou a chover. Alguma bondade do universo, ajudando a apagar o incêndio? Não importava. Aaron correu até a carruagem mais próxima, brandindo o distintivo na direção do cocheiro e começando a desatrelar um cavalo.

— Preciso disso emprestado.

O cocheiro não discutiu. Um Frankestein era autoridade da lei, afinal de contas. Aaron puxou o cavalo pelas rédeas e usou a carruagem de apoio para montar nele, uma vez que o animal não estava selado. Então o instigou a correr.

Ainda conseguia ver a carruagem de Jekyll à distância. Ele chutou os lados do cavalo, o fazendo ir o mais depressa possível. Estava chegando perto. A carruagem não conseguiria correr mais rápido que isso. A meia perseguição, ele viu como Jekyll percebera que havia alguém em seu encalço, e que pretendia pegar um cavalo e fugir.

Aaron não iria deixar.

Ele sacou a faca, segurando as rédeas com a outra mão e subindo com os pés no lombo do cavalo. Poderia cair na menor curva do cavalo, mas iria arriscar. Ele respirou fundo, esperando o cavalo chegar mais perto e quando estava ao alcance da carruagem, saltou.

Aaron caiu de bruços no topo da carruagem. Ele fincou a faca no teto do veículo, a usando para ajudar a se segurar. Jekyll ainda estava lá dentro, e agora querendo sair pela porta.

O caçador franziu os lábios. Não ia deixar.

No que foi a sua segunda maior loucura do dia. Aaron soltou a faca do teto da carruagem, se segurando em um dos adornos laterais, virando o corpo bem a tempo de dar um chute com duas pernas no vidro da porta.

O vidro estilhaçou. Aaron enfiou a mão pelo buraco, alcançou a gola da camisa de Jekyll e o puxou para fora, arrebentando a porta da carruagem no processo.

Os dois rolaram pelo chão molhado de Londres. A chuva estava pesada, no entanto, Aaron não se importou. Ele tinha Jekyll em suas mãos agora, e iria matá-lo. Nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.

Vários lugares nas pernas de Aaron sangravam, e seu corpo parecia destruído. Gemendo de dor, ele se colocou de pé, segurando a faca na mão, bem a tempo de ver Jekyll se levantar também. O corpo do cientista tremia e se mexia de forma estranha, e Aaron percebeu, mesmo sob a luz fraca de um dos lampiões da rua, que ele estava crescendo.

Aquilo não parecia bom. Mas ele não se importou.

Aaron avançou contra Jekyll, o socando no rosto. A cabeça de Jekyll se virou com o impacto, mas o resto do corpo não se mexeu. E foi quando a mão do cientista se fechou com tanta força sobre seu pescoço que Aaron percebeu que não estava lutando contra um homem. Estava lutando contra um monstro.

Nunca em sua vida o caçador reagiu tão rápido. Ele fincou a faca no pulso de Jekyll, e o aperto se afrouxou minimamente, mas o bastante para ele poder girar a arma e cortar os tendões do pulso dele.

A mão se soltou de seu pescoço, e Aaron rolou para longe, se levantando a tempo de ver o corte que fizera se regenerar em segundos.

Seu queixo caiu. Aquilo não era bom.

— Fuja, caçador! Fuja… Você não pode vencer Hyde!

— Hyde?

O que era Jekyll, e se intitulava como Hyde agora, correu na direção de Aaron. Ele respirou fundo. Era como lutar com um zumbi, certo? Articulações, pronto, fim de jogo.

Aaron abaixou, a tempo das mãos de Hyde se fecharem onde antes estava seu pescoço. Ele agiu o mais rápido que pôde, rolando por baixo das pernas do homem e cortando atrás dos joelhos dele. Esperava que isso fosse o derrubar de vez, mas os cortes se regeneraram tão rápido que Hyde sequer chegou a cair.

O caçador respirou fundo.

— Que se dane.

Ele guardou a faca e levantou os punhos. Não podia cortá-lo, mas talvez pudesse bater nele até pensar em algo diferente. Enquanto não tinha nenhuma ideia, precisava durar em combate, afinal, já estava claro que Hyde não pretendia brincar em combate.

A vantagem que Aaron tinha era que Hyde era lento. Por outro lado, um soco doeria bem mais do que o normal. O caçador se moveu rápido, acertando quatro socos no rosto de Hyde. A criatura mal se desequilibrou, mas tombou um pouco para o lado direito. Aaron se abaixou, passando uma rasteira nas pernas de Hyde e o jogando no chão.

A queda foi grande. Aaron pegou a faca de volta, decidindo que talvez acertar os olhos fosse uma boa ideia, mas antes que pudesse fazer isso um forte impacto no estômago o fez voar vários metros para trás.

Tinha razão. Aquele não era um chute comum. Hyde não era um inimigo comum. Ele precisou de alguns instantes no chão para recuperar o ar, e esses breves instantes foram o bastante para Hyde o pegar pelos cabelos e tentar bater sua cabeça na janela próxima.

Aaron escapou na força, sentindo o couro cabeludo gritar de dor depois. Todavia, isso foi pouco. Tinha uma briga para ganhar.

Ele escapou pelo lado, se colocando atrás de Hyde e o segurando pelos cabelos em vingança. Em seguida, bateu a cabeça dele com força na janela. Sabia que o dano não seria tanto, mas já lutara por tempo o suficiente, a essa altura do campeonato, para saber o que fazer.

Aproveitou os poucos instantes nos quais Hyde ficou atordoado, tentando se recuperar, e o puxou pelo pulso, o jogando no chão. Aaron se sentou sobre o abdômen da criatura, tirando a faca do casaco. Tinha certeza que mesmo ele não se recuperaria sem um coração.

Hyde pareceu pressentir o perigo, pois agarrou a mão de Aaron e virou a situação, se colocando por cima dele agora e forçando a faca para baixo. Naquele momento, o caçador encontrou alguma outra força em si. Não iria morrer pela própria lâmina. Não agora. Não pelas mãos de quem causara a morte de Thomas.

Ele ergueu o joelho, acertando Hyde no meio das pernas, e a distração foi o bastante para que ele ganhasse novamente o controle da situação. Aaron se sentou sobre o abdômen dele, e passou a faca para a mão esquerda, a usando para cortar os tendões da mão de Hyde que segurava seu pulso direito mais uma vez.

A criatura o soltou, gritando de dor.

— Você vai morrer, caçador!

Aaron riu, com sarcasmo. Entendeu agora porque demorara tanto para compreender sarcasmo em sua vida. Sarcasmo vinha de dor. Vinha de um desprezo pelo próprio sofrimento, ou pelo dos outros. De uma reação de rir ou fazer piada com coisas que matavam alguém por dentro.

— Eu já morri. Quer saber como foi? — Aaron desceu a faca, a fincando no peito de Hyde, exatamente onde o coração estaria. — Foi assim.

Hyde gritou. O corpo dele começou a tremer e se contorcer, e o que quer que tivesse o transformado em uma criatura parecia estar perdendo o efeito. Hyde, aos poucos, voltou a ser Jekyll, o cientista franzino e fascinado que os Frankestein conheceram a tanto tempo atrás.

Mesmo depois que os olhos de Jekyll se vidraram para o outro lado da rua, quando ele parou de se mover e de respirar, Aaron não saiu dali. Não tinha exagerado, se sentia verdadeiramente morto por dentro.

Ele suspirou, olhando para cima e sentindo as gotas de chuva caírem do céu.