Algumas informações:
Essa fic já existia, mas eu apaguei e resolvi reescrever porque, apesar de ter gostado do rumo que ela estava tomando, eu acho que havia deixado muita coisa no ar e que merecia mais destaque.
Eu usei exclusivamente como base os 7 livros de Harry Potter como base, e modifiquei poucos fatos canônicos, tentei manter o mais fiel possível e aproveitei as brechas que os livros deixaram para encaixar a Petunia.
Não tenho beta, mas tanto ao máximo revisar pra que não tenha nenhum erro.
Espero muito que vocês gostem, sei que não é um ship muito comum (mas eu shippo o Sirius com absolutamente todo mundo porque ele é perfeito hahaha). Deixem reviews!
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Proteção
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1994
Petunia bateu na porta de Harry pela terceira vez aquela manhã. Já era quase meio-dia, a mulher já havia arrumado a casa e inclusive feito o almoço, e nada de os meninos se levantarem da cama. Estava ficando nervosa, pois chegara o dia da visita de sua cunhada, com quem mantinha uma relação um tanto quanto complicada, baseada em diálogos passivo-agressivos, uma vez que nenhuma realmente gostava da outra. Sabia que tudo deveria estar em perfeito estado quando Guida chegasse, do contrário a noite seria recheada de reclamações e palpites sobre como Petunia deveria melhorar a administração da casa e educar o filho e o afilhado.
Cruzou com Dudley pelo corredor, que bufava em direção ao banheiro, reclamando que era fim de semana e não deveria ter que acordar cedo. O menino era difícil de lidar, era parecido demais com o pai. Tinham os mesmos olhos grandes, lábios finos, temperamento e, principalmente, a mesma completa falta de respeito por ela. Ainda sem sinal de Harry, Petunia abriu a porta do quarto e encontrou o menino profundamente adormecido na cama. Um pouco irritada, aproximou-se, sentando-se na beirada da cama e tirando os cabelos revoltos do moreno de seus olhos. Queria a ajuda do afilhado com as compras da tarde, fariam um grande assado para Guida e o preparo era demorado. Sabia que não podia contar com Dudley, que gastaria a tarde na pracinha com os amigos e depois voltaria para casa carimbando de terra o piso que Petunia acabara de lavar, como já era de costume.
- Harry, querido, acorde.
- Hmmm - o menino resmungou esfregando os olhos.
- Guida estará aqui no fim da tarde, Vernon a buscará depois do trabalho. Sabe como ela é, então pode me ajudar com as compras do dia? Já estamos na hora do almoço e a mesa está posta para vocês.
- Claro, tia P - respondeu o menino bocejando e colocando os óculos de armação redonda que se encontravam na cabeceira da cama. Petunia constantemente segurava as lágrimas de saudade quando via o afilhado abrir os olhos pela manhã. Se a mulher olhasse diretamente nos orbes verdes, podia jurar, por alguns segundos, que estava em frente à irmã. Como ela sentia falta de Lily! Como as coisas teriam sido diferentes se ela estivesse viva! Engoliu em seco, deu um leve beijo na testa do menino e saiu do quarto.
Os três habitantes da casa fizeram a refeição como normalmente faziam. Dudley socava a comida inteira de uma vez na boca, sujando o rosto e a toalha de mesa recém lavada. Em uma realidade alternativa, Petunia acharia a cena engraçada e inclusive bonitinha. Mas ela sabia que a criança se comportava de maneira selvagem na mesa para provocá-la. Petunia já havia desistido há tempos de chamar a atenção do garoto para o uso correto dos talheres, visto que, quanto mais o ensinava, mais ele fazia o contrário. Dudley comeu tudo muito rápido, limpou a boca na toalha de mesa e saiu correndo pela porta dos fundos, chamando o filho do vizinho com um grito para que fossem jogar bola no parque.
Harry, por outro lado, sempre realizava as refeições com calma quando Vernon não estava em casa. O marido odiava o afilhado, Petunia tinha plena consciência disso, e sentia-se impotente e miserável por dentro por ser tão fraca a ponto de não conseguir proporcionar uma infância decente ao menino. A infância que Lily conseguiria proporcionar a ele. Harry era tão parecido com Lily que chegava a doer. Ele era, é claro, a cópia física de James. Se os olhos do menino fossem castanhos ele poderia facilmente se passar pelo rapaz que costumava aparecer em sua casa em Cokeworth para chamar a atenção de Lily nas férias de verão. No entanto, seu jeito doce, sensível, prestativo e extremamente observador eram inegavelmente qualidades herdadas da mãe.
- Eu estava pensando – Petunia disse, recolhendo os pratos da mesa. Harry passou a enrolar a toalha para colocá-la no tanque de lavar roupas – você não quer ficar e brincar durante a tarde? Está fazendo um sol bonito. Eu posso fazer as compras sozinha.
- Eu prefiro ir com você, Tia P – o menino respondeu – não é como se eu tivesse amigos aqui.
A loira cedeu um sorriso tímido ao afilhado e terminou de lavar a louça. Os dois saíram caminhando pelo bairro e Harry parou quando chegaram ao destino, mas estranhou Petunia seguir caminhando.
- Tia P? – menino chamou – não vamos no Morrison's?
- Decidi buscar a carne no Sample's hoje – a loira respondeu, gesticulando para que Harry se apressasse e a acompanhasse. O menino deu uma corridinha rápida e alcançou a tia, passando a caminhar ao lado dela.
- Vernon sempre pede a carne no Morrison's – o menino pontuou, hesitante.
- Bom, Vernon é grande o suficiente para lidar com o fato de que nem sempre temos o que queremos – ela disse com a voz firme, e Harry não conseguiu refrear o sorriso. O menino adorava esses poucos momentos de rebeldia da tia. Normalmente, ela era tão submissa a Vernon que enojava. Mas, em alguns momentos como aquele, a mulher fazia o que queria.
O contraste entre Petunia e Vernon era gritante. Harry pensava que ele deveria ser muito diferente na juventude para sua tia ter se interessado por ele. Hoje, os dois não tinham nada a ver um com o outro. Vernon era gordo e corpulento, sempre usando roupas sem graça em tons mais sem graça ainda. Tinha um grosso bigode e tentava a todo custo pentear os fios castanhos para o lado a fim de esconder a calvície que já começava a aparecer. Petunia, por outro lado, parecia ser, no mínimo, dez anos mais nova que o marido. Não era demasiadamente magra, mas era um pouco mais alta que o resto das mulheres da vizinhança, e isso a deixava elegante. Tinha um pescoço comprido e bem delineado, olhos azuis levemente esverdeados e cabelos loiros e lisos. Usava-os constantemente presos num coque, já que dificilmente ia em algum salão de beleza para arrumá-los, como as outras mulheres faziam. Harry tinha a leve impressão de que Vernon gostava de exibir Petunia, que era uma mulher bonita, mas ao mesmo tempo tinha raiva da beleza dela e não a deixava sair de casa desacompanhada.
Por vezes, parecia que o tio queria deixá-la feia de propósito, o que era impossível. Ele a presenteava com vestidos floridos numa combinação de cores estranha, parecidos com os vestidos da Sra Figg, a vizinha. A tia nunca tinha as unhas pintadas, no entanto, suas cutículas estavam sempre impecáveis. Tinha dedos longos e ele sabia que ela era ótima no piano, apesar de nunca mais ter tocado em um desde que Vernon, num acesso de raiva, quebrou o instrumento. Nunca usava maquiagem, mas também não precisava. A pele alva pintada com pequenas sardas na região do nariz era aveludada, e nem mesmo as olheiras de cansaço da tia a deixavam menos bonita. No entanto, apesar de apreciar momentos de vivacidade e rebeldia da tia como aquele, Harry se preocupava com o fato de que a tia, na realidade, não gostava de Vernon. E, quando parava para pensar no assunto, simplesmente não conseguia entender a razão de ela seguir se submetendo àquele casamento.
Os dois compraram a carne e Petunia levou Harry até uma sorveteria. Ele não deixou de perceber que a mulher usou o troco da carne comprada, que era mais barata do que a que deveriam comprar, para pagar os sorvetes. A loira estendeu a casquinha ao afilhado e os dois sentaram lado a lado num banquinho.
- Acho que consigo aproveitar a estadia de Guida para convencer o seu tio a deixá-lo ir para a casa de seus amigos – ela comentou, comendo o sorvete graciosamente usando uma colherinha de plástico – se você quiser e se a mãe do seu amigo quiser lhe receber, é claro.
- Não vou mentir, tia, eu realmente gostaria muito de conseguir me livrar de conviver com Guida – ele respondeu.
- Somos dois – ela respondeu, e os dois riram.
- Quando eu fizer dezessete anos vou sair de casa – o menino disse firmemente – e vou levar você comigo, tia.
A mulher sorriu de canto e bagunçou os cabelos já espetados do afilhado e beijou-lhe na testa, murmurando um "okay" e chamando-o para voltarem para casa.
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A mesa já estava posta e a comida na mesa quando Vernon e Guida entraram pela porta, já fim da tarde. A mulher passou os olhos atentamente por toda a casa, como se estivesse procurando alguma falha a ser apontada, e então seus olhos recaíram sobre Dudley, já de banho tomado e devidamente trajado, e abriu um sorriso com seus grandes e tortos dentes amarelos.
- Meu Duda! Como cresceu! Está cada vez mais forte e bonito, e parecido com o pai! Graças aos céus herdou as características dos Dursleys!
Petunia resolveu ignorar a tentativa velada de insulto, respondendo mentalmente que não havia chances de Dudley se parecer com um Evans, e se dirigiu educadamente a cunhada e a cumprimentou, convidando a todos para a refeição. Harry estava terminando de colocar as taças e talheres na mesa quando todos adentraram a sala de jantar.
- Ainda está aqui? - a mulher perguntou ao chegar perto da cozinha carregando seu cachorro, que mais parecia um porco, debaixo do braço, ao avistar Harry terminando de colocar o último garfo à mesa.
- Sim, é claro que Harry continua aqui. É meu sobrinho e parte da família, onde esperava que ele estivesse? - Petunia respondeu claramente sem paciência à mulher, que revirou os olhos e se sentou à mesa. Harry abafou um risinho e Petunia lhe deu uma piscadela, bagunçando seus cabelos.
Vernon sentou-se à mesa, ao lado da irmã, e ligou a televisão nova, com a esperança de que a visita elogiasse sua nova aquisição. Para os Dursley, ter uma televisão cara era sinônimo de status, visto que nem todas as famílias podiam pagar por uma. E isso irritava Petunia profundamente. Há anos Harry vestia as roupas velhas de Dudley, que a tia cuidadosamente tentava tingir e reduzir o tamanho, porque Vernon não cansava de repetir que não tinham dinheiro para gastar com o menino. Não foram poucas as vezes em que Petunia quis sacar suas economias escondidas para dar um pouco mais de conforto ao sobrinho, mas nunca o fazia. Mantinha em mente que aquele dinheiro seria muito bem usado quando Harry completasse 17 anos e os dois finalmente pudessem deixar Vernon e seu filho para trás.
- Nem precisa dizer quem ele é - riu-se Vernon, lançando um olhar de esguelha, maldoso, para Harry - Olhem só o estado dele, a imundície do desleixado! Olhem o cabelo dele!
- De quem estão falando? - perguntou Petunia, trazendo a travessa de batatas assadas.
A voz do repórter ecoou pela sala cada vez mais alto, a medida em que Vernon aumentava o volume clicando incessantemente no botão ao lado do aparelho: "...alertamos os nossos telespectadores de que Black está armado e é extremamente perigoso. Se alguém o avistar deverá ligar para o número do plantão de emergência imediatamente."
Petunia arregalou os olhos e deixou a travessa e as batatas se espalharem aos pedaços pelo chão da cozinha.
- Por Deus, mulher, não sabe carregar uma travessa? - reclamou Guida.
Vernon lançou um olhar cortante à esposa, Dudley estava muito ocupado roubando pedaços de carne assada para perceber qualquer coisa, e Harry foi correndo ao encontro da tia.
- Tia P., você está bem? Se machucou? – o menino perguntou preocupado, agachando-se para ajudar a recolher os cacos de vidro e pedaços de batata do chão.
- Estou bem, querido. Sente-se à mesa, já arrumo essa bagunça - Petunia respondeu, sem tirar os olhos do marido. Vernon tinha um olhar de ódio estampado no rosto, e a loira sabia o motivo. A mulher se agachou recolhendo nervosamente a bagunça do chão e acabou com pequenos cortes nos dedos dos cacos de vidro. Ela tremia e juntava tudo segurando as lágrimas, sentindo um enorme nó na garganta.
O resto do jantar, no entanto, correu relativamente bem depois do pequeno incidente com a travessa de batatas. Guida e Vernon conversavam sobre o novo colégio de Dudley, e elogiavam o garoto, seguidamente fazendo comparações entre o menino e Harry, sempre enaltecendo o comportamento do filho de Vernon e falando de Harry como se ele fosse um fardo para a família. Harry notou que Petunia estava com os nós dos dedos brancos em volta dos talheres e trancando a respiração, os dedos enfaixados com pequenos bandaids. O menino duvidava que a tia estivesse respirando, já que via através da pele dele os movimentos de sobe e desce da garganta dela, como se ela estivesse trancando a respiração e engolindo em seco. As bochecas da tia estavam vermelhas e Harry temia que a qualquer momento a tia explodisse.
Sabia que ela queria tomar partido a seu favor, mas também sabia que ir contra Guida e o porco velho do marido dela não adiantaria em nada, só causaria uma briga de longa duração. E Harry também secretamente temia que Vernon pudesse bater na tia em casos de briga como aquela. Já havia presenciado, uma única vez, uma discussão entre os dois que resultou em uma janela quebrada e sua tia chorando no banheiro. Quando os dois irmãos voltaram ao assunto do tal prisioneiro fugitivo, Harry notou que a tia ficou nervosa e que uma única lágrima escorreu por sua bochecha corada. Aquilo chamou a atenção do menino. Será que a tia conhecia o tal foragido? O assunto, então, voltou ao comportamento de Harry.
- Você não deve se culpar pelo que os meninos são hoje, Vernon - comentou ela - se existe alguma coisa podre por dentro, não há nada que ninguém possa fazer.
Harry tentou se concentrar na comida, mas suas mãos tremiam e seu rosto começou a arder de raiva. Petunia segurou a mão do afilhado, lançando-lhe um olhar de súplica para tentar ignorar os comentários. Ela mesma tentava com todas as forças não responder malcriadamente à cunhada.
- Isso é uma das regras básicas da criação - continuou Guida, com ar arrogante - a gente vê isso o tempo todo com os cachorros. Se tem alguma coisa errada com uma cadela, vai ter alguma coisa errada com o filhote...
- Chega! - Petunia exclamou em alto e bom tom, com as sobrancelhas franzidas de ódio, enquanto a taça que Guida segurava explodia em sua mão, respingando o líquido para todos os lados. Vernon correu até a cozinha para buscar um pano, perguntando se a irmã estava bem, e lançou um olhar mortífero à esposa e a Harry. Murmurou algo que o menino não entendeu, mas Petunia empalideceu.
- Não se preocupe - resmungou Guida, enxugando o rosto com o guardanapo - devo ter segurado com muita força. Fiz a mesma coisa na casa do coronel Fubster no outro dia. Não precisa se preocupar, tenho a mão pesada...
Vernon sentou-se à mesa novamente e ajeitou o guardanapo no colo. Serviu uma nova taça à irmã.
- Voltando ao assunto, Vern, a coisa toda está ligada ao sangue. O sangue ruim acaba aflorando. Mas, não estou dizendo nada contra a sua família Petunia... - Guida continuou e a loira fuzilou a mulher com os olhos - mas sua irmã não era flor que se cheirasse. Isso acontece nas melhores famílias. Depois, fugiu com aquele imprestável e aí está o resultado bem diante dos nossos olhos.
- CALE A BOCA, CALE A BOCA! - Harry gritou derrubando seu prato no chão, fazendo com que o objeto quebrasse em dezenas de pedaços. Petunia e Vernon se levantaram ao mesmo tempo, o homem encarando Harry como se o fosse estrangular, e Petunia se colocando a frente do afilhado, encarando a cunhada. Guida tentou dizer algo, mas quando abriu a boca e apontou o dedo indicador para Harry, a mão inteira dela começou a inchar. E mais rapidamente do que as batatas se foram ao chão, o corpo inteiro da mulher inchou até que ela virasse um balão e saísse voando pela porta da varanda.
Vernon avançou para Harry, segurando-o pelo pescoço.
- TRAGA GUIDA DE VOLTA? O QUE VOCÊ FEZ, SUA ABERRAÇÃO? - Vernon gritava, e Harry ficou com dificuldade de respirar com as mãos do tio em volta do seu pescoço.
- Vernon, solte-o! - Petunia gritava com lágrimas nos olhos, puxando o braço do marido. O homem jogou o cotovelo para trás, acertando-a em cheio no ombro, fazendo com que ela caísse sentada e batesse a cabeça em uma cadeira. Por algum motivo que só entenderam muito mais tarde, todos os cachorros da vizinhança começaram a latir, e Vernon se distraiu quando o Rotweiller de seu vizinho se lançou contra a porta da varanda, derrubando alguns vasos de flores que Petunia havia plantado. O animal rosnou para Vernon e essa distração fora o suficiente para Harry se desvencilhar dos braços do tio e levantar a tia do chão, correndo logo em seguida para seu quarto. Ouvia, enquanto jogava suas coisas dentro do malão, os tios discutindo e Vernon gritando para o vizinho recolher o cachorro. Escutou a voz do vizinho chamando o animal. Os tios voltaram a discutir, e Harry temeu por sua tia.
Assim que desceu as escadas e abriu a porta, Petunia foi correndo ao seu encontro na entrada da casa, o rosto inchado por lágrimas.
- Estou indo embora - o menino informou, firme.
- Como assim vai embora? Vai para onde? Você não pode ir embora, não é seguro! - Petunia exclamou, desesperada.
- Não fico aqui nesta casa por nem mais um minuto, tia P! E a senhora deveria fazer o mesmo - respondeu Harry, saindo pela porta em direção ao meio da rua. A tia correu para alcançá-lo.
- Harry, por favor, podemos arrumar as coisas, podemos dar um jeito! Por favor, você nem tem para onde ir! Não é seguro para você fora de casa! Não é seguro! - ela insistia.
- Não é seguro para nenhum de nós dentro desta casa! Por que você faz isso consigo mesma, tia P? - o menino perguntou, com lágrimas nos olhos - A senhora tem sido minha mãe por todos esses anos, e é a pessoa que mais amo no mundo, não entendo como pode estar casada com esse porco, que maltrata você, que não respeita você. Eu não consigo mais conviver com isso.
Petunia chorava, passando as mãos nervosamente pelos cabelos, o que acabou por bagunçar completamente o coque dela, deixando alguns fios loiros soltos. Sabia que o sobrinho tinha razão. Seus maiores esforços não conseguiam compensar o fato de que a vida inteira do menino fora um inferno com Vernon sob o mesmo teto. Mas ela também sabia que os dois precisavam ficar dentro daquela casa. Dumbledore havia sido bem claro a respeito disso.
- Harry, por favor, fique - ela suplicou, baixinho.
- Não posso, tia P, e a senhora devia vir comigo. A senhora merece mais, muito mais do que isso.
Petunia desatou a chorar. Harry era tudo o que ela tinha desde que sua irmã e James foram mortos. Olhar nos olhos do sobrinho lhe trazia o conforto de sentir que tinha Lily ao seu lado novamente. Não sabia o que faria sozinha em uma casa com Vernon. E assim, sem reação, Petunia viu o sobrinho virar as costas e sair andando pela rua carregando seu malão. Ainda em choque e com a cabeça dolorida pela pancada na cadeira, demorou um pouco a tomar a atitude de sair pela vizinhança procurando o sobrinho, mas não havia nem sinal do menino.
Petunia não soube ao certo quantos minutos ou horas procurou o menino quando, derrotada, retornou à sua casa, sentindo o rosto quente e inchado das lágrimas, e encontrou Vernon ainda roxo de raiva parado no pátio, pisando propositalmente nos lírios que a esposa cuidava com tanto afinco.
- Onde está aquele moleque? - gritou Vernon, se aproximando da esposa - É bom que vá embora mesmo, e de preferência que não volte mais! Não gastarei mais um centavo com esse ingrato! Com essa aberração!
Petunia sentiu o peito encher de ódio, dirigindo-lhe um olhar mortal. Poucas vezes na vida a mulher se sentiu grande em relação ao marido como naquele momento. Já não se importava mais em apaziguar os ânimos. Já não se importava mais em poupar os meninos do comportamento nocivo de Vernon. Já não se importava em precisar ir embora, afinal, já havia perdido Harry.
- Você... - ela começou, com a voz firme, as bochechas vermelhas e os olhos marejados de raiva - quem é você para falar de ingratidão? Eu estive com você nos últimos treze anos! Estive com você, aguentando seu comportamento esnobe e infantil, assumindo o filho que você teve com uma puta qualquer!
Vernon ficou púrpura e olhava para os lados, vendo que alguns vizinhos corriam às janelas e fechavam as cortinas, puxavam os parentes para dentro. Petunia riu como uma louca pensando que Vernon deveria estar envergonhado de ter sua esposa fazendo uma cena na rua. Aquilo lhe leu a coragem necessária para seguir dizendo tudo o que estava engasgado em sua garganta há anos.
- A única razão de eu ter aguentado esse seu traseiro gordo todos esses anos foi aquele menino que acabou de sumir! - ela continuou, aumentando cada vez seu tom de voz - eu não tenho mais nenhum motivo para seguir com você! Você me dá nojo! Harry tem razão, eu deveria ter tirado nós dois daqui há anos!
- E com que dinheiro você acha que vai embora? - Vernon riu zombeteiramente, ainda com os olhos vidrados na mulher à sua frente, fazendo pouco caso das palavras dela - sem mim você não tem onde cair morta! Vai voltar para aquele traste que não te quis? – ele riu de forma debochada - Vai é dormir ao relento em uma vala qualquer, ou na cama de algum bêbado que lhe oferecer uns trocados, como a puta que você é!
Petunia cruzou a distância que os separavam e olhou no fundo dos olhos do homem, o dedo em riste quase encostando no nariz do homem.
- Eu prefiro ser a puta de um bêbado do que ser sua esposa – ela cuspiu as palavras
Isso fora demais para Vernon. O homem agarrou o braço da mulher, que tentava se desvencilhar para entrar na casa, e a jogou no chão. Petunia bateu com as costas e a cabeça contra a caixinha de correio, e teria prestado maior atenção à sua cabeça, que latejava, se não fosse o enorme cão negro que saltou de um arbusto alto e que agora se postava à sua frente. O animal rosnava como um lobo selvagem para Vernon e ficou posicionado protetoramente se colocando entre o homem e Petunia. Vernon ficou apavorado. Não era o cachorro qualquer de algum vizinho. Aquela monstruosidade era muito maior do que um cachorro comum, era quase um lobo gigante. Um lobo negro gigante que espumava pela boca, tinha os dentes arreganhados, o pelo completamente sujo e a qualquer momento atacaria Vernon em um golpe fatal.
Como era de se esperar, Vernon correu para dentro da casa e trancou a porta, amedrontado. Petunia conhecia o grande cão negro à sua frente, e estava em tamanho estado catatônico que se limitava a respirar com imensa dificuldade, não movendo um único músculo. O cão se virou para a mulher, e ela pôde ver o animal esconder os dentes e sair da posição de ataque. Ele tinha grandes olhos cinzentos e olhava Petunia no fundo dos olhos dela. O cão aproximou o focinho dela e quase tocou o nariz da mulher, que tinha lágrimas teimosas escorrendo pelo rosto e respirava com dificuldade, apavorada. Ela tentou gritar, mas não encontrou voz para tal. Lentamente levou a mão atrás da cabeça e tocou onde doía, sentindo algo espesso e quente em seus dedos. Sua visão começou a anuviar e ela ficou tonta. Quando encarou sua mão, viu-a coberta de sangue e, antes de conseguir reagir à aproximação brusca do animal, que pareceu inquieto ao sentir cheiro de sangue, desmaiou.
