Notas do Autor

Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.


Capítulo 2


No caminho de volta ao castelo, quando sentia os olhos de Severo pesar sobre mim, eu simplesmente me desprendia daquele espaço, me fixando na figura angelical de Allie que caminhava ao nosso lado durante o percurso. Mas fiquei com sua frase pipocando em minha cabeça e eu não podia contar algo dele para ele mesmo, seria no mínimo estranho e no máximo constrangedor. Então, eu pedi para vir embora, tentando fugir dele e aparentemente deu certo.

Enquanto ele caminhava tranquilamente pelo terreno do castelo, senti vontade de perguntar sobre sua família, mas pelo ocorrido anterior eu perdi a coragem de lhe encarar novamente e jurei que só falaria com ele quando estivesse em frente ao buraco do retrato da Mulher Gorda.

Olhei para o relógio no saguão de entrada, marcava oito e meia da noite. Ainda estava me perguntando por que Minerva não me enviou um Patrono, por um lado eu agradeci, mas, por outro, poderia ter evitado o constrangimento que Allie me proporcionou.

— Obrigada pela comida, professor Snape, e desculpe por ter feito o senhor perder o seu compromisso. — Allie agradeceu e se despediu assim que chegamos ao nosso quadro.

Compromisso? Ele não tinha me dito nada sobre um compromisso, mesmo assim, lhe dei o meu melhor sorriso possível e antes que pudesse entrar pelo retrato, ele me parou, com a voz suave.

— Espere, Srta. Granger.

— Desculpe senhor, não sabia que tinha perdido um compromisso.

— Era com a Bettany, a pessoa com quem sou comprometido.

Engoli em seco, eu estava nervosa demais com o fato dele ter deixado de passar o resto do dia com sua namorada, companheira, ou seja lá o que ela fosse, para ficar comigo e Allie.

— Nós compramos um apartamento e agora estamos pintando as paredes e fazendo essas coisas de mudança.

— Ah, sim... — Continuei parada, sentindo que tinha acabado de perder os meus sentidos perante a sua revelação. — Então vocês estão meio que juntando as escovas de dentes, é assim que se fala? — Perguntei, sorrindo modesta, tentando não demonstrar meu desconforto.

— Ela quer se casar.

Meu corpo permaneceu imóvel enquanto o assistia me fitar com uma sobrancelha erguida. Não esperava por isso, não mesmo e acabei deixando minha varinha cair com barulho no chão.

— Quer uma festa de noivado, na frente da família e dos amigos.

— É, eu sei como funcionam essas coisas... — Inclinei o corpo para frente, peguei minha varinha e me senti zonza na volta, como se meu coração tivesse sido arrancado de mim com um só golpe. — Estou feliz por vocês.

— Mentirosa.

Fechei os olhos ao escutá-lo dizer, tão descaradamente, que sabia sobre como eu me sentia em relação a isso. Eu simplesmente odiava o fato dele pensar que podia ter controle sobre isso.

— Meus pais se separaram quando eu tinha quatorze anos, Srta. Granger, e via como o casamento deles era infeliz. Minha mãe era infeliz, eu era infeliz e meu pai não passava de um bêbado bruto, então não tenho certeza se posso ser o marido que ela merece.

— Sei que o trauma da separação dos seus pais, pode ser motivo suficiente para que você se sinta incapaz de fazer diferente, mas vocês já estão praticamente com um pé lá, é só fazer a cerimônia. — Tentei soar natural, mas ao observar sua expressão, sabia que tinha falhado.

— Srta. Granger, você mente terrivelmente mal.

Por incrível que pareça, ouvir ele dizer isso não me irritou, porque me fez sentir que ele realmente estava à vontade conversando comigo. Sem toda aquela formalidade que precisava ter dentro de uma sala de aula, afinal.

— Eu não estou mentindo.

— Mas não está dizendo toda a verdade.

— Casamento é um passo muito grande, tudo bem que já tomaram a decisão de morar juntos, mas casamento? Eu sinceramente não sei. O senhor por acaso está me pedindo conselho? Porque acha que sei alguma coisa sobre isso?

— O casamento dos seus pais, Srta. Granger. — Ele fitou a minha expressão enfadonha. — Sei tudo sobre os alunos.

Eu pisquei, assim que notei que sua proximidade só me fazia ficar ainda mais nervosa. Não confiava nos meus instintos quando se tratava dele, ainda mais agora que eu me encontrava sensibilizada pela novidade que ele me contou. Agradeci mentalmente quando a Mulher Gorda soltou um muxoxo impaciente por ter sua moldura aberta por tanto tempo.

— Essa é a minha deixa. — Ele respondeu, mas continuou plantado do outro lado da parede, com os braços cruzados e inconscientemente usando do seu charme desprendido para fazer com que meus hormônios vulneráveis me deixassem em uma situação de desconforto.

Precisava me acostumar com aquela instabilidade emocional, antes que isso me fizesse vacilar, principalmente agora sabendo que o homem que eu tinha uma grande queda estava prestes a morar junto com a companheira que, segundo os boatos, era uma bruxa poderosa e incrivelmente adorável.

— Onde está o seu galeão? Aquele que usou ano passado para comunicação do grupinho rebelde e imprudente que ajudou a fundar.

Ele estendeu a mão para que eu o entregasse, analisei sua palma virada para cima enquanto puxei meu galeão do bolso interno das minhas vestes e o depositei em sua mão. Ele olhou para a moeda com a testa franzida, e com alguns acenos de varinha, ele a duplicou e murmurou uma série de feitiços que eu nunca ouvi antes. Esperei enquanto ele terminava de enfeitiçar os dois galeões, até que enfim, ele guardou a própria varinha no bolso de suas vestes.

— Feito.

— Feito o quê?

Ele sorriu ao entregar minha moeda de volta.

— Você acaba de ter o seu galeão associado ao meu, e nem precisou pedir. — Disse convencido e se despediu com um aceno de cabeça enquanto caminhava de volta em direção as escadas.


Por sorte, não topei com nenhum dos meus amigos no Salão Comunal e me arrastei até o meu quarto, caminhei até minha cama, mas só pensava no banheiro coletivo que dividia com as meninas da Grifinória, precisava tomar uma ducha quente e me livrar de toda a sensação esquisita de que meu professor, finalmente, estava me olhando com outros olhos, ou, como sempre, poderia ser uma coisa formulada pela minha mente.

Parte do meu cérebro trabalhava ao meu favor, sendo assim, quando a outra parte criava momentos e imagens que nunca existiram, elas eram distorcidas para o meu próprio bem estar emocional e psicológico. Não achava que isso fosse impossível, mas também não acreditava que era certo.

Verifiquei minha moeda de comunicação e o feitiço mostrou a associação com um galeão novo. Fui rápida para salvar seu nome como Professor Snape e o joguei sobre a cama, apanhei meus itens de higiene e fui em direção ao banheiro. Queria me libertar de toda aquela sensação de estar fazendo uma coisa muito errada, mesmo sabendo que até o momento nós não tínhamos feito nada que pudesse nos prejudicar. Abri o chuveiro colocando meu corpo debaixo da água, deixando que ela corresse e limpasse tudo, tirando todas as impurezas e também os pensamentos fúteis que eu tive no decorrer da tarde. Não esperava por um dia tão cheio e agitado daquela maneira, estava desprevenida quando cheguei à sala de Minerva e de novo quando ele associou seu galeão ao meu sem que eu pedisse.

Sorri para mim mesma com a lembrança tão supérflua, mas que naquele caso me fazia sentir uma maria mole com pernas. Ter uma paixão platônica por um professor poderia me causar vários problemas, inclusive pessoais, como o meu humor e a inconstante balança que se encontrava minhas emoções.

Desliguei o chuveiro, passando a toalha ao redor do meu corpo e torci o cabelo fazendo com que o excesso de água caísse nos meus pés, os enxuguei quando já estava fora da área de banho. Parei de frente para o espelho penteando meus cabelos com as pontas dos dedos, dando batidas no comprimento para que não escorresse água quando fosse para o quarto.

Vesti o short curto do meu pijama de verão e minha blusa comprida em tonalidades cinza, que meu pai me dera antes de vir para escola, depois de uma discussão sobre como eu me sentia mais confortável dentro de uma blusa maior do que em camisolas cor de rosa. Tirei minha mochila da cama me aprontando para dormir e agarrei meu galeão nas mãos. A coloração laranja nele me mostrava que tinha uma nova mensagem.

Começaremos amanhã.

Respirei fundo, me enfiando debaixo das cobertas.

Certo.

Respondi em seguida e tentei até ignorar a moeda enquanto aguardava pela próxima mensagem, isso se tivesse outra após aquela. Cinco minutos depois ela mudou de coloração novamente.

Podemos adiar?

Assim que eu recebi a mensagem, o imaginei jogado no sofá de seus aposentos, usando apenas uma calça, deixando seu abdômen à mostra para as paredes de pedra do castelo.

Ué? Quanta bipolaridade...

A próxima mensagem pareceu uma eternidade, imaginei várias coisas que poderia estar acontecendo com ele e em menos de um minuto o galeão me tranquilizou com a coloração de outra nova mensagem.

Tenho assuntos para resolver fora de Hogwarts, sobre o apartamento novo, a tarefa ficou inteira para mim.

Achei uma resposta sincera para os padrões dele.

Que pena, é óbvio que eu estava ansiosa em passar a tarde com meu professor "favorito", mas tudo bem.

Enviei.

Favorito? Certo, Srta. Granger, ainda pode passar a tarde com o seu professor favorito e me ajudar com os meus assuntos de reformas.

Sorri para a moeda antes de respondê-lo.

Professor Snape, estou horrorizada que o senhor está me incentivando a matar a aula de reforço.

Coloquei meu galeão sob o travesseiro e descansei minha cabeça. Sabia que naquela noite não iria dormir tão facilmente, meu coração bobo, palpitando a mil, não me permitiria ter uma noite tranquila. Fechei os olhos esperando que o sono me aconchegasse, esperava ter bons sonhos com o homem que até agora só tinha me proporcionado sentimentos de confusão, mas que ainda assim, eu adorava.

Meus planos de tentar dormir tranquilamente pelas próximas horas se foram por água abaixo quando um pigarro suave saiu de debaixo do meu travesseiro e eu notei que vinha da minha moeda de comunicação.

— Olá? — Sussurei, ajeitando meu corpo para ficar ereta.

— Srta. Granger?

— Sim.

— Não conte a ninguém sobre isso, certo? Pode nos causar problemas, você é só minha aluna e as pessoas podem compreender essa nossa aproximação de um jeito diferente.

— Não vou dizer nada, não se preocupe.

— Espero que seja mais discreta que Potter e saiba guardar um segredo.

— Sim senhor, sei manter um.

— Pegue sua varinha e murmure Finite. — Disse autoritário.

— Certo.

Encerrei a chamada, ou o que quer que fosse aquilo, e me afundei no colchão. Ele podia ter ignorado a parte de me pedir para não contar nada, eu não diria nada de qualquer modo, pois nem eu mesma conseguia acreditar nos efeitos colaterais que Severo Snape causava em mim.

Mal podia respirar perto dele, como saberia se voltaria de sua nova moradia intacta? Era tudo tão incerto que não sabia se existia qualquer privilégio em nossas atitudes. O galeão vibrou debaixo do meu travesseiro mais uma vez e tive que puxar uma quantidade de ar excessiva para meus pulmões antes de lê-la.

Boa noite.

Ignorei sua mensagem sem nenhum arrependimento, estava decidida a não deixá-lo estragar o resto da minha noite.


Acordei antes da hora e foi estranho, não por ter realmente acordado cedo, mas porque meu coração se sentia feliz, mesmo depois de ter ido dormir com suas palavras em minha cabeça. Fiquei sentada na cama enquanto observava no relógio antigo da minha mesa de cabeceira, contando quanto tempo eu teria até o momento em que o despertador finalmente me fizesse despertar mais daquela inconstante saliência no meu peito, do que para acordar meu corpo fisicamente, para mais um dia de aula.

Esperava que o professor Snape tivesse me mandado alguma mensagem em resposta ao fato de eu o tê-lo ignorado, no período em que mantive meu galeão à distância. Pensando bem, eu precisava me concentrar em não passar tanto tempo do meu dia e da minha vida fantasiando reações de alguém que me via como uma patética aluna. Mas, por pouco que fechasse os olhos, fosse o tempo em que os mantivesse fechados e concentrados para pensar em outra coisa, conseguia enxergar os olhos negros dele me transmitindo uma única e inata intensidade daquilo que ele era. Era surreal não conhecer tanto uma pessoa, mas saber dela o suficiente para te deixar delirando, e no meu caso, verificando meu galeão repetidas vezes.

Não consigo dormir.

Escrevi e fiquei observando a frase decidindo se devia ou não mandar. Aquilo era tão errôneo e contraditório; queria ser sua amiga, ou até que ficássemos juntos, mas sabia que isso era completamente errado, e ele nem ao menos imaginava que essa confusão abrupta se habitava em mim. Observei a janela do meu quarto, por detrás das cortinas, um céu entristecido, mostrava que o sol não tinha a mínima chance de aparecer naquele dia.

Respirei fundo e enviei, antes de me deitar novamente e fechei os olhos, decidida de que aquilo era idiotice. Eu sou aluna dele. E alunas não mandam mensagens para seus professores para dizer que estão sem sono. Cobri a cabeça com as cobertas numa forma de amenizar o arrependimento por ter mandado uma mensagem para ele em um momento de fraqueza, foi uma grande estupidez.

Tranquilizei minha respiração e aos poucos deixei que as pequenas gotículas da chuva que começaram a cair, inundassem meus ouvidos, de forma que elas me acalmassem e, finalmente, me deixassem afundar no sono que Severo Snape havia roubado de mim. Esperava que fosse por tempo limitado e com um último suspiro, me rendi ao cansaço e às minhas pálpebras pesadas.


Senti uma respiração quente roçando a ponta do meu nariz. Incomodada, acabei me levantando abruptamente e vi Allie sorrindo, deitada ao meu lado só de pijama e acariciando minha cabeça com suas mãos pequenas, cheia de delicadeza e maciez. Rapidamente saltei da cama, verificando a hora no meu relógio da mesa de cabeceira, passava das nove, ou seja, dormi mais do que deveria.

Que droga!

— Eu não vou contar para a Minerva que você perdeu a aula — Sentia o tom irônico dela ao falar, enquanto eu me arrastava pelo quarto em direção ao meu armário. — Mas ela vai descobrir com certeza. Eu a ouvi conversando ontem com o diretor, dizendo o quanto suas notas em Defesa Contra as Artes das Trevas vão mal.

Eu sorri compreensiva.

— Por que você não está na aula? Ah, hoje você tem a manhã livre... — Disse enquanto me livrava das roupas de dormir e me olhava no espelho, respirei fundo para a imagem acabada que vi. — Você devia usar esse tempo para fazer leituras complementares na biblioteca ao invés de ficar aqui, sabia?

— E você devia procurar a professora McGonagall.

Olhei por cima dos meus ombros enquanto colocava minhas vestes escolares.

— Vou falar com ela. — Terminei de me vestir e peguei minha mochila.

— Vai levar a mochila? Não faz nenhum sentido, você já perdeu os dois primeiros tempos... — Ela escondeu o rosto debaixo dos lençóis, abafando sua frase em seguida. — Ah! Sua próxima aula é com o seu bonitão?

— Ele não é o meu bonitão, Allie. — Andei até ela, me sentando na lateral da cama e afastei uma mecha do seu cabelo. — É só o nosso professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

— E você gosta muito dele. — Ela disse sorrindo. — Só que ele é muito velho pra você, as pessoas vão comentar.

— Eu sei, mas ninguém vai comentar nada, Allie. O professor Snape tem mesmo uma namorada, não são só boatos. E eles vão se casar em breve, já estão até morando juntos.

— Bruxos aprovam morar junto antes do casamento?

Apoiei o peso do corpo com uma das mãos sobre a cama e sorri para ela.

— Eles acham errado, mas o professor Snape é um excelente bruxo e uma boa pessoa, devemos ficar felizes por ele, mesmo que eu tenha que enfrentar esse sentimento todos os dias. — Pressionei os lábios quando me dei conta de que, indiretamente, assumi o que sentia. — Vai descendo, já vou indo.

Coloquei Allie para fora da cama enquanto ajeitava um cacho do meu próprio cabelo atrás da orelha e encarava um ponto fixo de meu quarto. Precisava me decidir sobre aqueles sentimentos, eles eram ruins, muito ruins.

Fui até o banheiro e comecei a inventar coisas para minha diretora de Casa em minha cabeça, formulando desculpas coerentes por não ter conseguido acordar. Ela culparia novamente as minhas leituras, que tomavam boa parte do meu tempo. Se Snape não a tivesse visitado ontem, mentir hoje seria mais fácil. Diria que estava com cólicas ou dor de cabeça, mas como não fui a Ala Hospitalar isso não seria suficiente, provavelmente implicaria em um discurso repreensivo de Minerva.

Decidi ignorar, por ora, a desculpa que usaria se ela descobrisse que faltei as duas primeiras aulas de hoje. Voltei para o quarto e me sentei à beira da cama, lembrando que meu galeão estava guardado no bolso das minhas vestes. O verifiquei, mas não tinha nenhuma mensagem. Será que eu devia desmarcar com ele?

— Hermione, é o professor Snape. — Allie entrou correndo no meu quarto com um sorriso e os olhos brilhando em admiração, franzi a testa olhando para sua face corada. — Ele acabou de entrar na Sala Comunal e acho que veio ver você.

— O quê? — Segurei a mão pequena dela e saí do dormitório. — O professor Snape deve estar em aula neste momento, Allie, você não deveria mentir assim. — Eu a adverti sem ser rude, mas percebi que ela estreitou seus olhos, ofendida.

Segundos depois, pisamos na Sala Comunal e retrocedi dois passos para o corredor dos dormitórios ao ter um vislumbre da figura do professor Snape. Olhei para Allie que estava com uma expressão que dizia "eu te disse". Meu coração parecia dançar uma música aleatória, minhas pernas perderam completamente a razão e fiquei intacta no lugar.

Por que diabos ele estava aqui? Tentei dar um passo em direção à Sala Comunal, mas parei, voltando a ficar imóvel enquanto encarava Allie. Cerrei os olhos tentando encontrar um motivo plausível para minha ignorância e questionamento em ir até ele. Tive de umedecer os lábios para tentar voltar ao meu raciocínio normal.

Allie não esperou que eu me recuperasse daquela transação pela qual estava passando, apenas revirou os olhos e me puxou até a Sala Comunal. Eu fiquei estática quando o fitei, com o cabelo impecavelmente dividido como sempre, sua expressão habitual de impassividade no rosto.

— Bom dia, professor Snape. — Falei assim que ele parou em minha frente.

— Bom dia, Srta. Granger, perdeu a hora?

— Sim...

— Percebi. — Com sua mão desocupada, ele ergueu o galeão de comunicação dele e eu voltei a ficar corada, pois sabia que se referia à minha mensagem.

— Eu tive que acordar ela hoje, professor Snape. Se a Minerva souber que ela matou aula porque dormiu demais vai ficar furiosa. — Allie falou, cruzando os braços. — Mas, não serei eu a contar.

— Nem eu. — Snape completou. — Porém, dei um teste surpresa hoje.

— Ai meu Merlin, você está muito encrencada. — Murmurou Allie enquanto marchava ao corredor dos dormitórios e nos deixava a sós.

— Isso é um desastre. — Falei levemente desesperada. — Minhas notas nunca vão melhorar.

— Você estava cansada, Srta. Granger, essas coisas acontecem e eu recebi sua mensagem, então, vou entender como uma necessidade de ser forçada a ficar na cama.

— Você está sendo flexível. — Afirmei, o encarando.

— Estou sendo compreensivo.

— Por que veio até aqui?

Ele se aproximou mais fazendo com que o ar fosse pouco.

— Porque você disse que tudo bem em me ajudar com as questões da reforma, achei que a proposta ainda estivesse de pé, mas se não está se sentindo bem, Srta. Granger, não tem problema.

— Eu estou bem. — Afirmei ajeitando minhas vestes. Cruzei os braços para desviar a atenção. — Só não consegui dormir bem e isso me deixou exausta.

— E por que você não dormiu bem?

— Isso implica muitas coisas. — Olhei para o lado desviando dele, porque estava próximo demais, ultrapassando os meus limites próprios de segurança, e eu mal podia respirar com ele tão perto e se propondo a ficar no meu caminho.

— Que coisas? — Ele ergueu a sobrancelha quando estava a centímetros de mim e parecia não se importar nem se sentir incomodado com aquela proximidade, mas eu sim, e acho que estava quase tendo um ataque de pânico para fazer parte da coleção.

— Não gosto dessa proximidade. — Deixei o ar me escapar pela boca semiaberta.

Senti seus dedos tocarem minha orelha vagarosamente, o calor deles passando pelas curvas da mesma, chegando até o lóbulo e o massageando com o indicador e o polegar em movimentos circulares.

— Você é estranha, Srta. Granger. — Finalmente senti sua mão se afastar e, apesar de não querer aquilo, meu corpo sentiu falta do seu toque. — Sinto muito, sua orelha estava vermelha e precisei examiná-la de perto. Então, você vem comigo ou não?

Senti um calafrio em meu corpo.

— Acho que sim. — Respirei dificilmente depois de o ver atravessar a Sala Comunal e finalmente pude fechar os olhos para me martirizar sozinha por todos estes sentimentos estúpidos.

Eu não o odiava, entretanto, odiava a sensação que ele era capaz de me causar e como aquilo, de certa forma, afetava minha vida e toda sua estrutura elementar. Do nada eu me tornei uma figura visível e importante no seu dia a dia. O fato de ele ser mais velho e meu professor... fazia dele um criminoso. Ele é um criminoso, é um comensal da morte, meu inconsciente me lembrou.

Afastei o pensamento e preferi admitir ao meu inconsciente que gostava de admirá-lo enquanto caminhava, era incomum o modo como suas vestes flutuavam ao seu redor e imaginei que, por observá-lo tanto tempo, achá-lo atraente enquanto caminhava era apenas um resultado comum. Quando ele olhou para mim, me dei conta de que Severo Snape era o tipo de homem que se tornava parte daquilo que fazia; fosse caminhando ou dando aula, por isso minha admiração só aumentava. Não tinha nada que ele fizesse que eu não achasse estranhamente perigoso ou atraente.

Depois do que aconteceu na Sala Comunal, demorou um tempo para que eu conseguisse voltar a respirar normalmente, sem ofegar ou balbuciar. E na verdade, até aquele momento ainda tentava assimilar o que havia acontecido sem muita cerimônia, o que não foi possível. Ser exagerada e dramática era uma parte especial a meu respeito e que, eu admitia, pois seria hipocrisia demais negar uma coisa que eu via claramente como errada, mas eu queria que fosse certa. O quanto eu queria é que não foi realmente definido ainda.

Algumas vezes me perguntava se estaria disposta a abrir mão de algumas coisas para tê-lo mais próximo; ainda não tinha chegado a uma resposta. Bufei mostrando impaciência quanto a meus pensamentos.

— Não é tão longe assim, Srta Granger, tem alguma coisa lhe incomodando? Gostaria de me falar sobre isso?

Cruzei os braços virando a cabeça para o lado, numa atitude dramática para fugir da resposta.

— Não é nada, é só que... — Praguejei, e inutilmente, não consegui fugir de sua pergunta nem disfarçar minha resposta. — Eu não sei, sou esquisita, professor.

— Você não é esquisita, só é diferente, o que está acontecendo? — Sua mão deslizou em minha direção, agarrando meu dedo indicador e o apertando com força. A sensação inebriante que se apossou de minhas vértebras foi arrogante, entretanto, abaixei os olhos para ver seu dedo entrelaçado ao meu sem culpa. — Eu não sou o diretor de Casa, mas posso te ajudar, se algo estiver acontecendo com você ou com a sua família.

Quando me dei conta da nossa proximidade criminosa, afastei minha mão. Não precisava dele com suas atitudes eloquentes somando à minha consciência para me lembrar disso o tempo todo.

— Você é meu professor, não é tipo um… um psicólogo trouxa.

— Desculpe. — Sua voz saiu mais baixa do que geralmente seria e ele parecia levemente chateado. — Só estou tentando ajudar.

Olhei para ele, observando como sua expressão agora era de irritação e a minha também ficou carregada de arrependimento.

— Tem a ver com a pessoa que Allie mencionou. — Desviei o olhar, mas sabia que ele mantinha os seus olhos negros completamente atentos sobre mim. — Ele está bagunçando minha cabeça.

— Você gosta dele?

— Não sei, quer dizer, eu sei. Só que eu e ele... somos complicados. Vai muito além de mim ou dele, fico tentando esconder o que eu sinto, porque sei que se ele souber não vai mudar muita coisa.

Precisava colocar aquilo para fora e expor o que eu sentia mesmo que indiretamente.

— E o sobrenome dele é Snape? — O vi arquear as sobrancelhas e minhas bochechas ficaram púrpuras rapidamente, sentindo meu sangue bombear apressadamente até meu coração. Foi uma péssima ideia. — Nós somos amigos, Srta. Granger, lembra? Você pode confiar em mim se sentir vontade de falar sobre isso, eu vou lhe escutar.

— Podemos mudar de assunto? — Pedi, fugindo dos seus olhos.

Snape estava certo, eu tinha o péssimo costume de fugir dele. Não necessariamente só em forma física, mas qualquer uma que me colocasse em risco ou me expusesse a uma vergonha fatal em um futuro muito breve, se não me controlasse melhor. Se aquela amizade era um desafio eu tinha aceitado de muito bom grado no outro dia e agora só conseguia me perguntar: por que?

Enfim chegamos ao vilarejo e ele parou à frente de um prédio de quatro andares. O apartamento deles era no último andar, era simples e não muito grande, mas sofisticado e muito agradável para um casal jovem. A sala estava vaga com apenas um sofá preto desgastado, o assoalho coberto por lona preta, aliás, metade do apartamento estava desta forma. Havia respingos da tinta de cor palha sobre algumas partes do assoalho descoberto, que deveria ser limpo mais tarde, quando toda a reforma fosse feita. Uma ilha feita de granito preto separava a sala da cozinha, onde pude perceber que existia alguns eletrodomésticos trouxas: geladeira e fogão.

O material para continuar a pintura já estava posto: pincéis dentro de um balde e a lata de tinta pronta para uso.

— Você já começou. — Sorri enquanto me jogava no sofá velho e o escutei fazer um zumbido engraçado quando me acomodei. — Parece que não vamos ter muito trabalho aqui.

Tirei o meu manto escolar e desviei os olhos para Severo, o peguei me olhando, e pela primeira vez vi que era uma observação singular.

— O que foi? — Joguei meu manto no sofá.

— Nada. — Ele disse, e foi a sua vez de retirar o manto pesado e jogá-lo para o lado, fiquei surpresa em vê-lo com vestes trouxas por baixo: uma blusa preta de pano fino e uma calça também preta. Fiquei observando a forma do seu físico e quando ele puxou a varinha, os seus braços pareceram levemente torneados, o que me deixou embasbacada e com a garganta seca.

Aquele espaço era o mais íntimo que nós poderíamos chegar e fiquei me perguntando o que se passava em sua cabeça quando se tratava de mim. Sentia necessidade de perguntar, minhas mãos coçavam com vontade de tocar aqueles músculos do seu braço, mas eu sabia que se o tocasse não iria mais querer tocar outra pessoa. Era algum tipo de hipnose, eu o idealizava.

— Você já aprendeu feitiços domésticos, Srta. Granger?

— Nunca li nem a teoria, desculpe. Mas até o último verão eu ainda era menor de idade e não podia usar magia fora da escola, então não me esforcei em aprender sobre eles.

Mesmo assim, agarrei a minha varinha e me coloquei na frente da parede, observei a tinta, a parede e o pincel e percebi que este era um desafio inusitado ao lado do professor Snape: pintar uma parede sem parecer uma idiota.

— Tudo bem, será nossa lição.

— Não vai ser muito útil para me defender contra as artes das trevas, vai?

— Nem um pouco.

Quando o escutei falar isso senti sua barba roçar em meu pescoço, sua mão direita segurou a minha por cima da minha varinha e ele posicionou a esquerda em um ângulo perfeito pela minha cintura. Seu tronco estava encaixado ao meu, de forma que nossos corpos ficassem colados.

Soltei o ar com calma pela boca e gentilmente me afastei um pouco, porque estava bem mais além do que querer ficar com ele, gostava mesmo dele e meu coração afobado me lembrava desse fato sempre que ele estava por perto. Seu cheiro almiscarado estava tão próximo que me deixava anestesiada. Era a primeira vez que ele me tocava com tanta liberdade, depois de ter acariciado o lóbulo da minha orelha, claro.

Aquilo era impróprio perante toda a sociedade, uma ultrapassagem de limites, existiam políticas não razoáveis sobre aquilo, embora que, para o mundo bruxo eu já fosse maior de idade, tinha certeza que algumas pessoas ainda o considerariam um criminoso por estar agindo com tanta intimidade e tão perto de uma adolescente de dezessete anos e que também era sua aluna.

Severo recitou o feitiço e manipulou minha varinha, o pincel voou contra a parede, fazendo um risco amplo e extenso por toda sua extensão e continuou fazendo movimentos ritmados na horizontal e na vertical. Sentia o coração dele batendo em minhas costas, mas não estava tão acelerado quanto o meu, tampouco sua respiração parecia tão dispersa quanto a minha. Havia perdido metade dos meus sentidos éticos e morais. Sua cintura fazia movimentos acompanhando a minha, os pelos de minha nuca estavam arrepiados pela sua respiração que se chocava contra meu pescoço.

— Você está indo bem. — Ele disse e se afastou pegando sua própria varinha e eu parei para assistir ele sorrir levemente para mim.

— Acho que tenho um ótimo professor.

— Eu gosto de saber que você está me dando espaço para alcançá-la, Srta. Granger.

Não respondi nada, pois percebi que na parte superior do seu peito, que dava para ver entre os botões abertos da camisa, existia linhas de uma tatuagem e eu senti vontade de tocá-la, mas me controlei a tempo e voltei a olhar para a parede mantendo os movimentos constantes de antes. Não sem antes notar que ele percebeu meu olhar e mordi o lábio, envergonhada, mas ficamos apenas ali nos olhando, inclusive, ele parecia se questionar sobre algo e o silêncio seguinte foi de dar arrepios.

Muito tempo depois, estava com minha atenção totalmente voltada para a parede, quando senti uma coisa molhada e gelada passear pelo meu rosto. Olhei para o lado espantada e o vi rindo de mim, talvez pelo meu rosto sujo de tinta, mas principalmente da minha expressão indignada, que corrompeu a seriedade do momento anterior. Antes que eu pudesse pensar em enfeitiçar o pincel contra ele, Severo lançou um feitiço paralisante neles e só me restou a opção trouxa, de pegar o objeto e atirá-lo na direção dele.

— Isso é trapaça, Srta. Granger.

Assim que ele disse isso, peguei o segundo pincel e o ataquei, ele não esperava pelo impulso que coloquei meu corpo e tropeçou na lona que protegia o piso dos respingos de tinta, de forma que nós dois caímos no chão sobre ela.

Eu não consegui parar de rir enquanto tentava entender todas as coisas que ocorreram ontem e hoje, uma grande reviravolta, onde você nunca se sabe se vai estar por cima ou por baixo. Naquele ato, literalmente falando, eu estava por cima dele e Severo segurava minha cintura com força, sem tentar afastar nossos corpos. Ele estava dando apoio para que meu corpo não tivesse um grande impacto com o chão sólido. Sua mão suja de tinta ajeitou cachos rebeldes do meu cabelo atrás de minha orelha e sorrimos mais uma vez, e embora eu estivesse desconfortável e envergonhada, não queria me afastar.

Já deveria ter desmaiado ou ter tido um ataque de pânico, essa seria a reação coerente e normal, mas de alguma forma meu coração estava tranquilo quanto a isso. Nada parecia errado agora, nem mesmo incerto. Eu estava ali com ele, e o fato dele ser meu professor e termos uma grande diferença de idade não parecia interferir em nada, pelo menos não para mim, não naqueles segundos que se estenderam em minutos.

— Você conseguiu me pegar desprevenido. — Ele sussurrou e eu abaixei mais a cabeça para evitar olhá-lo. — Posso lhe preparar um chá?

— Nem começamos aqui. — Falei olhando em volta, mas não diretamente para ele. — Você nunca vai conseguir terminar seu apartamento desse jeito, mesmo com ajuda da magia.

Tentei me levantar, mas ele agarrou meus pulsos me mantendo presa.

— Eu vou terminar de qualquer jeito. — Sorriu convicto. — Às vezes, eu me esqueço de que sou seu professor e preciso agir como tal.

— Não estamos na escola agora. — Franzi a testa, encarei seus olhos pela primeira vez depois de termos caído.

— Não estamos. — Ele concordou e envolveu minha cintura com seus braços.

— Você queria estar?

— Não, e você, Srta. Granger?

— Acho que não também.

Soltei uma lufada de ar cheia de nervosismo, meu coração estava agitado dentro do peito e sabia, tinha certeza, que ele tinha consciência disso. Afinal, o que ele queria de mim?

— Vou comprar as ervas. — Severo me afastou fazendo com que eu ficasse de joelhos na sua frente e também permaneceu ajoelhado. — Você conseguiu me deixar tenso ao me surpreender.

— Desculpe, professor. — Levantei junto com ele.

— Não precisa se desculpar, não disse que era uma coisa ruim.

— Também não disse que era boa.

— É boa. — Sorriu enquanto colocava seu manto. — Em um ambiente neutro e amistoso, você pode me chamar de Severo. E não vá embora antes que eu volte, Srta. Granger.

— Hermione, você pode me chamar de Hermione. E não vou a lugar algum.

Garanti a ele assim que fechou a porta, duvidava até que tivesse escutado, mas reforcei assim mesmo. Eu não iria mesmo a nenhum lugar que ele não estivesse.


Estava deitada no sofá velho, já fazia mais de vinte minutos que Severo havia saído à procura das ervas para o chá e eu olhava para o relógio de segundo em segundo sabendo que a tarde não demoraria a cair e teria que pegar Allie de novo na casa de visitas trouxas. Os pais dela eram inseguros quanto a novidade de terem uma bruxa na família e exigiram ver a garota todos os dias. Comecei a ficar irritada pelo "sumiço" dele, pois odiava esperar, não era nenhum segredo que eu era uma pessoa completamente impaciente.

Quando a porta da frente se abriu me assustei dando um sobressalto, ainda não tinha me deparado com a pessoa que atravessara a porta até estar completamente de pé. Ela tinha cabelos loiros levemente bagunçados como uma marca pessoal, olhos azuis com cílios grossos e longos, exatamente como havia escutado nos boatos que corriam a seu respeito. Sua pele era naturalmente bronzeada e levou apenas alguns segundos para que eu finalmente percebesse que seria complicado achar algum defeito nela. Meus olhos estavam severamente arregalados por ela ter chegado assim, tão de repente. Nunca a tinha visto antes e me senti minúscula perto dela. Sua túnica bruxa era curta, dois palmos acima do joelho, cinza e estava quase escondida debaixo de um pesado manto branco, e ela exalava uma classe que eu tinha visto em poucas pessoas antes. Para piorar, quando sorriu, seus dentes eram brancos e perfeitamente alinhados. Sério que ela não tinha um defeitinho? O que ela era, uma Veela? Quando ela tirou o casaco e o colocou sobre a ilha, consegui sentir seu perfume, infectando cada canto da nossa atmosfera complicada.

— Olá. — Falou retirando os sapatos. — Você deve ser Hermione Granger, eu sou a Bettany.

Sua mão foi em minha direção, estendida educadamente para que eu a apertasse. Se ela soubesse sobre meus sentimentos por Severo, essa situação seria diferente? Para uma mulher como ela, tinha minhas suspeitas, sua cabeça esteve erguida parte do tempo, o peito estufado demonstrando elegância e civilização; uma mulher verdadeiramente confiante de si.

— Sim, desculpe, eu estava toda relaxada aqui no sofá.

Tentei desviar os meus olhos dos dela, mas pareceu impossível, ainda mais quando nossas mãos se tocaram, ela tinha um aperto de mãos bem forte.

— Ah, não se preocupe. — Gesticulou com as mãos franzindo o nariz. — Severo disse que você estaria aqui, não estou espantada por você estar cansada. Era meu dever ajudar com a pintura do nosso apartamento, mas você sabe como os pais são, me intimaram a pegar uma Chave de Portal até a França. — Sorriu gentilmente. — Então, ele me fala muito sobre você. — Fala? É mesmo? — Me disse que você era a bruxa mais inteligente da sua geração, mas que suas notas caíram. Sinto muito por isso, sei que Severo assumiu aquela disciplina problemática de Hogwarts e isso pode ter te desestabilizado, mas espero que ele consiga te ajudar.

Ela podia ser menos educada e amorosa? Seria mais fácil odiá-la se não fosse tão estupidamente simpática.

— Sim, mas acho que é mais pelo cansaço do que pela troca de professores, dizem que o cargo é amaldiçoado, então essa troca de professor já é esperada por nós todos os anos.

Sentei novamente esperando que ela me acompanhasse, mas ao contrário disso, ela deu a volta no balcão indo até a geladeira e verificou os armários, completamente íntima.

— Vocês já estão... Sabe, morando juntos?

— Aqui? — A vi encher um copo com água e bebericar antes de me olhar. — Não, não, mas vamos fazer isso no final do mês, por isso escolhemos tão perto da escola, Severo não pode se afastar tanto já que é o diretor da Sonserina. Quero dar uma festinha para os amigos para comemorar o grande passo, você pode vir se quiser.

— Fico feliz por vocês, e eu adoraria. — Menti com o meu melhor sorriso.

— Vai ser bem particular, Severo é estritamente reservado, mas é um grande passo para nós.

Ela colocou o copo na pia enquanto sorria delicadamente para mim.

— Ah, claro.

Nesse momento Severo abriu a porta, atravessando rapidamente o hall com os cabelos e o manto molhados, na mão direita ele segurava uma caixa, provavelmente cheia de ervas dentro. Observei a janela e notei que caía uma chuva torrencial. Fiquei tão obcecada em encontrar um defeito na mulher parada do outro lado que nem percebi o vendaval que acontecia lá fora.

— Bettany? — Ele a olhou com uma expressão de surpresa, depois olhou para mim e dei de ombros como se não fizesse nem ideia.

— Oi, meu bem. — Ela se aproximou dele enlaçando seu pescoço com os braços e virei o rosto para não ser obrigada a ver, mas a ouvi quando lhe deu um beijo. — Acabei de convidar a Hermione para a nossa festa de grande passo.

Por que sentia a necessidade dele ter me contado mais a fundo sobre os dois? Ele me olhava também com um ar de confusão, um questionamento que eu certamente não estava pronta para receber.

— Talvez até antecipemos isso, não é? — Ela beijou a mandíbula contraída dele.

— Vocês podem me avisar depois. — Eu disse pegando meu manto da escola e vestindo. — Tenho que buscar Allie na casa de visitas trouxas.

Eu sabia que ainda tinha um tempo antes de dar minha hora, mas eu realmente não me sentia bem no mesmo ambiente que os dois, estava mais sufocada com eles ali do que quando eu só estava com Severo. Uma duplicidade de sensações esmagava o meu coração, e já estava cheia delas o suficiente para apenas uma noite.

— Melhor eu ir andando.

— Está chovendo. — Ele disse e o vi franzir a testa.

Olhei pela janela amaldiçoando o clima.

— Tenho uma ideia. — Bettany ergueu o indicador interrompendo aquele momento de guerra interna entre mim e meu consciente. — Severo pode aparatar até a casa de visitas enquanto eu chamo a sua diretora de casa pela lareira e falo que nós vamos jantar aqui, e depois nos responsabilizamos de deixar vocês duas no castelo, sãs e salvas. Tudo bem?

Isso foi realmente muito estranho e eu esperava que Severo tomasse alguma posição sobre aquilo, mas vi que suas sobrancelhas estavam arqueadas em minha direção e me dei conta que ele não tomaria nenhuma atitude contraditória a dela ou a minha.

— Ok. — Sentei no sofá e bufei.

— Ótimo. — Ela finalmente se afastou dele e meus ombros relaxaram. — O que você trouxe, Severo?

— Apenas ervas para chá. Vou buscar a Srta. Allie enquanto vocês duas conversam sobre o que mulheres costumam conversar quando se encontram.

Seu comentário foi carregado de sarcasmo e eu precisei de bem mais do que uma respiração controlada para disfarçar o que meu coração estava deixando estampado em meu rosto. Ele saiu batendo a porta e foi como se meus ombros pulassem ao barulho.

Fiquei inquieta e a ausência de distrações naquele apartamento, um livro por exemplo, me deixava um tanto quanto desconfortável, principalmente com a presença de Bettany. Ela estava sentada ao meu lado, mas não tentou conversar, acho que depois da minha troca de olhares com Severo ela não conseguiu mais ficar tão à vontade comigo quanto no momento em que chegou e notei que estava criando pretextos para me manter distante e evitava criar qualquer conversa comigo. Passou parte do tempo concentrada com um diário e uma pena na mão escrevendo, soltando risadinhas e até mesmo fazendo comentários em voz alta, mas não parecia se incomodar comigo quanto a isso.

Escutei a risada de Allie vindo no corredor e finalmente sua voz fina e estridente ecoando, a porta foi aberta mostrando sua pequena figura na minha frente e ela abriu o seu melhor sorriso ao me ver, correu para o meu lado e me abraçou. Olhei por cima dos ombros dela e vi que Severo carregava sua mochila, então a colocou no canto da sala, em seguida retirando seu manto e se aproximando de nós.

— Como foi a visita com seus pais hoje? — Perguntei verdadeiramente interessada.

— Foi normal. — Ela sorriu. — O professor Snape disse que vamos tomar chá, fora da escola, vocês são mais do que amigos agora?

Minha primeira reação foi olhar para Bettany que mantinha a sobrancelha erguida, com um grande questionamento em direção ao bruxo do outro lado da sala que me pareceu espantado.

— Já falei para você que ele é apenas meu professor, aliás, nosso professor.

A afastei, me levantando para pegar um pouco de ar, quando Allie intercalou o olhar entre mim e Severo.

— Ele foi me buscar na visita ontem com você, foi lhe buscar na Sala Comunal da Grifinória hoje e você nem dormiu direito por causa dele. É meio óbvio.

Eu queria lançar uma maldição imperdoável em Allie agora.

— Severo, nós podemos conversar? Lá no quarto?

Olhei enquanto Bettany se levantava do sofá, indo em direção a ele, que parecia tão estupidamente espantado quanto eu.

— Ah, você deve ser Allie, meu nome é Bettany e sou a noiva do Severo.

Não queria culpar Allie por sua língua afiada, muito menos por sua inocência ao acreditar que eu e Severo poderíamos ter algum tipo de relacionamento e acho que se não estivesse ocupada demais ficando envergonhada teria pedido para Bettany que não falasse daquela forma com uma garota de onze anos de idade.

Mas eu estava tentando olhar por dois ângulos diferentes, embora Allie fosse uma criança, muitas vezes abusava de sua posição como tal. Ela não era tão madura quanto eu era na idade dela e ainda estava aprendendo a lidar com este tipo de coisa. Sabia que estava orgulhosa por seu sorrisinho irônico de ponto a ponto no rosto e também por sempre fantasiar que o professor Snape era a figura que ela associava, do jeito distorcido dela, a um príncipe encantado: misterioso, obscuro e proibido. E nessa mesma visão metafórica da imaginação fértil dela, Bettany acabou de surgir como uma bruxa das trevas, ou seja, aquela que não rendia a felicidade para a mocinha, eu, no caso.

Observei enquanto os dois iam para o cômodo no final do corredor. Para Allie compreender a gravidade do problema foi preciso que Bettany batesse a porta com força, e em reação, minha pupila ergueu os ombros assustada quando o barulho repercutiu por toda a sala. Meus olhos se fecharam automaticamente com o tom ríspido que a voz de Bettany se tornou até chegar aos nossos ouvidos. Eu me sentia mal por ele e principalmente culpada.

— Nossa, ela está bem nervosa. Desculpe, Hermione, eu só quis perguntar se fora da escola você podia ficar com ele, dá para ver que gosta muito dele.

— Eu odeio esse sentimento. — Admiti. — Vamos sair daqui, certo? — Disse gesticulando com o queixo para a mochila que estava do outro lado.

— Mas eu realmente queria tomar esse chá. — Ela suspirou e eu sorri enquanto escutava os murmúrios de Bettany, atingindo meu coração.

Senti pena de Severo por ter que tolerar este tipo de comportamento. Tanto da parte de Allie quanto da de sua companheira.

— Por favor, Allie, não complique mais as coisas, vamos voltar pro castelo.

— Ok.

Allie puxou sua mochila enquanto abria a porta, sua expressão era conflituosa, o arrependimento tomava lugar em seu rosto inocente, demonstrando chateação e eu não confiava em meu sentimento o suficiente para conseguir ficar calada enquanto a companheira dele gritava com ele no último quarto. Fiquei em pé na porta, parada, instável, apenas escutando enquanto a discussão acontecia a poucos centímetros de nós. Eu tinha conhecimento pessoal de que me meter em uma briga de casal não era correto. Inclusive meus pais diversas vezes me impediram de cometer esse erro quando eles brigavam, no entanto, a sensação que tinha quando isso acontecia era a obrigação de interferir. Eu gostava de Severo o bastante para que aquela briga desnecessária com Bettany me fizesse sentir mal.

Não existia uma explicação coerente para aquilo, não dava para explicar o turbilhão de sensações que vieram junto com ele. Não havia nenhum garoto que eu gostasse em Hogwarts, mas Severo havia feito toda a diferença quando enviou a Ordem da Fênix para salvar a minha vida e dos meus amigos no Ministério ano passado. Foi aí que vi que ele tinha um que a mais. Não era beleza, nem a boca ou os olhos, muito menos o sorriso, visto que eram raros, mas foi a forma como ele lidou com algumas situações complicadas.

— Eu não tenho nada com ela! — O grito de Severo foi tão forte que Allie apertou minha mão e eu acariciei seus cabelos sem nem desviar os olhos. A porta estava fechada e o silêncio se instalou rapidamente, fazendo com que eu escutasse apenas nossas respirações ofegantes de ansiedade. Eu precisava fugir daquela fantasia. Precisava fugir agora.

Fomos embora no mesmo instante e o fato de Allie estar segurando a minha mão e fazendo carinho no dorso da mesma, me ajudou a não desmoronar. Mesmo assim, continuava com um aperto no peito, na esperança de que eu não tivesse estragado tudo entre eles.

— Eu sei que você está triste. — Ela falou enquanto entrávamos no castelo.

O ambiente silencioso me pareceu mais confortável e soltei a mão de Allie quando entramos na Sala Comunal, observei o espaço tentando encontrar um vestígio dos meus amigos ali, pensei mais um pouco antes de responder a ela.

— Estou um pouco chateada por ter feito o nosso professor brigar com a namorada, mas tudo bem, agora vai tomar banho.

Ela assentiu partindo na frente. Olhei para o meu grupo de amigos e fui até lá controlando a respiração, sentindo as batidas frenéticas no meu peito dominando meus atos. A primeira coisa que notei foi Rony e Lilá Brown sorrindo de mãos dadas sentados no sofá e ergui as sobrancelhas tentando desvendar o que acontecia entre os dois.

— Ah, Hermione, você chegou. — Rony se levantou caminhando até mim. — Nós estávamos esperando por você.

Ele e Lilá trocaram olhares de cumplicidade e ela suspirou tentando não demonstrar as emoções salientes que saltavam de suas maçãs gentilmente coradas e, depois do que me pareceu uma eternidade, ele disse:

— Nós somos um casal agora.

Olhei para seus pés que saíram do chão, dando pulinhos de alegria e minha cara de paisagem não foi a melhor resposta para ele.

— O que foi?

— Vocês? Um casal? — Me juntei a eles sentando na outra ponta do sofá.

— Sim, nós dois. — Lilá respondeu por ele enquanto continuava batendo os pés de empolgação.

— Que bom para vocês então, felicidades.

Harry chegou nesse momento e me abraçou por trás beijando minha bochecha.

— O que houve com você hoje? Não apareceu nas aulas e Gina disse que você ficaria na biblioteca a tarde toda.

Fitei a ponta de meus pés imóveis, sem contestar e mordi minha língua delicadamente para coibir a tensão.

— Ah, sim, não acordei muito bem e passei na Ala Hospitalar, Madame Pomfrey me liberou das aulas e fui para a biblioteca. — Respondi.

— Espero que esteja melhor.

— Estou bem melhor que pela manhã, mas me sinto cansada, vou subir. Boa noite, Harry.

Eu realmente precisava de um banho e de uma boa noite de sono para concluir aquela semana recheada de informações. Acenei para Rony e Lilá.

— Está tudo bem mesmo com você? — Rony me lançou com um sorriso acolhedor.

— Tudo, só estou mesmo muito cansada. Boa noite, Ron.

Passei no quarto das garotas do quinto ano antes de seguir para o meu, queria agradecer Gina por ter me acobertado, não que estivéssemos certas em mentir, mas os meninos não precisavam saber de tudo, eles eram garotos afinal. Ela me deu um sorriso deslumbrante quando me viu e eu me joguei na cama dela, murmurando um Abbafiato nas cortinas.

— Você é a pior melhor amiga do mundo! — Ela sussurou. — Eu menti por você, está me devendo! Aonde você se enfiou? Eu e Luna ficamos loucas atrás de você, não estava em lugar nenhum.

— Desculpe. — Falei suspirando. — Foi um dia longo, do momento em que acordei até agora, eu preciso muito esquecer esse professor, dói, Gina.

— Você estava com ele e fez besteira, não é? Nós podemos denunciar ele para o diretor, você sabe, Hermione.

— O quê? Por Merlin, Gina, ele nunca faria nada comigo. — Revirei os olhos. — Mas a namorada dele apareceu e... Allie estava lá.

Contei tudo para ela em detalhes, mesmo que Severo tivesse me pedido para não fazer, e no final de tudo Gina só conseguia gargalhar de mim.

— Qual a graça?

— Bom, a graça é que Allie é a melhor pupila.

— Você não vale nada. — Sorri.

— Eu sei de uma coisa que pode te animar, uma festa.

— Ah não, Gina. Eu não vou nessas festas ridículas do professor Slughorn, não inventa. É uma total perda de tempo. Odeio esses jantares.

— Você é tão careta. — Ela sorriu. — Prometo não desgrudar de você como da última vez e nem vamos brincar de nenhuma brincadeira ridícula. Vamos, por favor, você me deve uma, lembra?

— E você me deve várias. Não vejo graça em festas onde adolescentes que não podem beber se reúnem e fazem coisas que só deveriam ser feitas quando se tem mais de dezessete. Definitivamente, não. Sem contar que se a Minerva descobre, ela me mataria, ainda mais com essa nota lixo que eu tirei em Defesa Contra as Artes das Trevas.

— Você pode beber agora, já é maior de idade, esqueceu? Terêncio Boot vai estar lá e eu sei que você já gostou desse garoto.

— Eu nunca tive essa paixão de escola, Vítor não conta, ele não era aluno de Hogwarts. E eu só disse que achava o Teêncio bonitinho.

— É suficiente. Até quando você vai ficar bancando a boa menina? O professor Snape deve estar fazendo as pazes agora mesmo com a namorada e futura noiva dele, e por fazendo as pazes quero dizer fazendo sexo, então desencana, ou pelo menos, tenta.

— Outro dia você me disse para investir e agora me diz para sair dessa. Eu realmente não compreendo o seu raciocínio.

Rolei na cama para ficar deitada com as costas para baixo.

— Eu disse para você tentar e não colocar seu burro na sombra. Eu amo você e sei do que você precisa. E você precisa relaxar, Hermione.

— Certo. — Mordi o lábio olhando para o dossel da cama.

— Certo?

— Sim... Eu vou. Mas não me obrigue a encher a cara só porque sou maior de idade, nem a ficar sem roupa ou coisa do tipo. Você sabe que não gosto disso, sem contar que se meus pais descobrem esse tipo de coisa, ficariam loucos comigo.

— Aposto que se o professor Snape souber da festa ele vai te implorar para que você não vá. Ou se ele for algum tipo de comensal da morte romântico, ele vai entrar lá e te arrancar da festa dizendo o quanto gosta de você.

Nós duas rimos da forma cafona como ela narrou essa fantasia maluca que realmente não aconteceria e assim que nossas risadas cessaram senti a vibração do meu galeão, avisando que havia uma mensagem, olhei para minha moeda e meu corpo todo tremeu ao ler quem tinha enviado. Me despedi de Gina e fui para o meu próprio quarto enquanto pensava bem e decidi que seria melhor se eu não falasse com ele hoje, precisava me recuperar da minha exaustão daquele dia. Descartei o galeão na minha mesa de cabeceira e fui para o meu banho tão almejado.


Notas Finais

Opiniões.