Notas do Autor
Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.
Capítulo 3
Por sorte eu não tive aulas com o professor Snape na manhã daquela sexta-feira. Estava exausta demais para aguentá-lo enquanto passeava pela sala exalando toda a sua aura sobre mim. Não queria dar a ele explicações do porquê tinha ignorado sua mensagem no meu galeão e nem porque tinha ido embora, mesmo que isso fosse óbvio.
Estava debruçada sobre a mesa de uma das cabines reservadas da biblioteca, a minha era a única ocupada. As cabines de estudo eram basicamente uma mesa entre duas prateleiras enormes de madeira, cheias de livros. O silêncio realmente nunca me incomodara, a não ser, é claro, que eu fizesse parte dele, mas o problema era que agora teríamos nosso horário de reforço e o professor Snape estava atrasado, o que não era comum para ele, que sempre foi muito pontual com todos os seus compromissos.
Eu estava ansiosa demais e acabei chegando à biblioteca antes do horário, ficando tempo demais à sua espera e cada vez mais impaciente quando olhava o relógio na parede da grande sala e ele indicava que meu professor estava mesmo atrasado. Não enviei nenhuma mensagem para o galeão dele, não quis mandar porque tive medo, nós não tínhamos conversado e eu o evitei. Sou o tipo de pessoa que fica com o pé atrás sempre que se trata de explicações que eu não sei dar, principalmente quando me expunha a uma situação tão delicada.
Lembrei da presença de Bettany junto dele e dos gritos quando discutiram, minha garganta imediatamente se fechou, meus olhos arderam e a vontade de chorar subiu rasgando por onde passava, meu peito, corpo e coração doeram em conjunto. Tudo em mim pareceu ter sido consumido dramaticamente pela angústia e percebi que não teria nem mesmo coragem de olhar para ele, era torturante demais. Levantei num ímpeto, eu precisava fugir dali antes que ele chegasse.
— Srta. Granger? — Abri os olhos rapidamente percebendo que eu os tinha fechado enquanto me torturava psicologicamente. — Desculpe o atraso, você está bem?
— Eu... — Sussurrei com a voz embargada já não conseguindo mais, não suportando mais guardar o choro para mim, precisava me libertar. — Eu...
Pisquei as lágrimas olhando para ele que parecia tão espantado e assustado quanto eu. Suas sobrancelhas estavam erguidas em questionamento.
— Eu odeio tudo isso…
Puxei a frente das minhas vestes com a mão direita indicando onde meu coração doído estava, como se fosse um órgão doente que bombeava veneno emocional estrategicamente pela minha corrente sanguínea, contaminando todos os outros órgãos.
— Não consigo respirar… — Avisei a ele, apoiando o peso do meu corpo na mesa com uma das mãos, fungava pelas lágrimas, mas realmente sentia minha laringe apertando o espaço da traquéia que levava o ar para meus pulmões fazendo tudo parecer pequeno, instantaneamente tudo ao meu redor começou a girar. — Professor, eu acho que vou desmaiar…
Solucei enquanto mais lágrimas caíram, inspirei o ar com força, mas parecia impossível conseguir respirar apesar disso, eu reconhecia aquela sensação como ninguém.
— Srta. Granger?
O senti agarrar meu braço, trazendo meu corpo para junto de si e continuei chorando. Agarrei suas vestes com força, o puxando contra mim, e me senti imediatamente protegida debaixo dos seus braços, com mais esse contato íntimo entre nós dois. Apertei sua cintura conforme o ar me escapava e as lágrimas me faziam sentir afogada atrás de todo aquele sentimento. Minha mente fazendo eu me odiar por ter fantasias com ele e pensar que ele nunca poderia saber daquilo.
— Controle-se.
Ele apoiou o nariz no topo de minha cabeça e permaneceu com ele ali, fazendo tudo em mim se arrepiar e aumentando a sensação de não conseguir respirar.
— Você está tendo um ataque de pânico, precisa muito se acalmar. — Falou agarrando meu rosto e me obrigando a olhá-lo nos olhos. — Olhe para mim, Srta. Granger, olhe nos meus olhos e se concentre na minha voz.
Engoli em seco, assentindo, olhando para dentro de seus olhos negros e intensos e me dei conta que eu os adorava. Eles carregavam sinceridade, mas também um peso sombrio e algo como uma culpa imensa através deles. Talvez eu não fosse a pessoa certa para dizer aquilo, mas percebi que Severo Snape carregava milhares de sentimentos confusos.
Respirei, ainda mantendo nossos olhos fixos um no outro e a sensação de pânico foi diminuindo e substituída imediatamente pela ideia de beijá-lo. Era isso que eu queria, não era? Era isso o que eu almejava sentir e minha chance perfeita estava ali.
— Seus olhos são lindos. — Eu disse com a voz rouca.
Um leve sorriso adornou sua face, enquanto gentilmente limpava as marcas em minha pele, por onde cada lágrima havia caminhado. O movimento de seus dedos sobre meu rosto era leve e eu o beijei um segundo depois dele afastar sua mão.
Percebi que seu corpo ficou tenso ao redor do meu, mas ele não se afastou, apesar de ter sentindo o seu choque. Era diferente de todas as fantasias que eu já tivera alguma vez, sua boca tinha um sabor diferente do que minha cabeça costumava imaginar e um calor ainda mais quente do que aqueles fantasmas, que me assombravam, transpassavam. Minha barriga doía, mas meu coração estava tranquilo e feliz por ter consciência do que era real.
E aquilo era real. Tão real que quando apertei sua cintura com a ponta dos dedos sua boca se entreabriu, deixando que a minha língua a invadisse e ele murmurasse. Subi minha mão direita até sua nuca, acariciando, e fui para seus fios lisos. O cheiro do seu cabelo invadiu minhas narinas e gemi entre o beijo, aquilo fez com que ele aproximasse mais o seu corpo do meu, que seus braços ao meu redor me apertassem mais e ele suspirou quando inverti a posição de minha cabeça. Sua língua estava em combate com a minha de uma forma divina, única, excepcional.
Nunca havia me sentido tão realizada quanto naquele momento por imaginar que eu não precisava mais esconder o que eu sentia por ele, já que agora estava explícito. Me afastei dele quando percebi que precisava respirar e seus olhos estavam me questionando de forma confusa. Eu quis sorrir, mas tudo que fiz foi respirar fundo como se tivesse me livrado de um fardo.
Guardar aquele sentimento estava destruindo toda a coerência que pudesse existir entre querer estar com ele, mas não poder e não dever estar com ele. Queria nunca ter nutrido nada por aquele homem, mas quisera eu poder comandar todas as escolhas que meu coração fazia. Se existia um caminho racional ou emocional, não fui eu quem o escolhi. O próprio destino foi quem escolheu por mim e eu não desistiria dessa escolha, porque sou forte o bastante para encará-la.
— Eu não vou me desculpar por isso. — Eu disse corajosamente.
— O que foi exatamente isso?
Comecei a mexer nos meus livros e pergaminhos, colocando tudo dentro da mochila e a joguei sobre o ombro, suspirando.
— Isso não foi nada perto de tudo que eu gostaria de fazer e lhe dizer.
Fechei os olhos para falar, mas os abri em seguida. Seu corpo estava praticamente sobre mim, com os olhos arregalados e seus braços fortes me impedindo de sair.
— Nós não podemos fazer isso. — Ele agarrou meu cotovelo com força, sussurrando abaixo da minha orelha e fechei novamente os olhos ao sentir o calor dos seus lábios. — Eu não posso fazer isso, você é só uma…
O vi morder o lábio, pois percebeu que se ele dissesse me machucaria ainda mais.
— Pode falar. — Puxei meu braço. — Diga o que você pensa sobre mim.
— Você é uma criança! — Ele sibilou, e eu respirei fundo. — Eu sou mais velho que você, sou seu professor e isso pode dar uma porrada de problemas para mim, Srta. Granger. Para nós dois! Você me beijou no meio da biblioteca da escola!
Ignorei sua sentença.
— Estou cansada de esconder o que eu sinto, cansada de agir como se o meu sentimento fosse uma coisa ruim, porque ele não é, Severo.
— Professor Snape! — Ele rugiu.
— Certo. — Agora eu estava furiosa. — Eu gosto mesmo de você, não das suas aulas ou do fato de você ser um ótimo professor. Eu gosto de você como homem e foi você mesmo que me disse que eu podia lhe chamar de Severo! — Esbravejei, pois estava enfurecida por ele me pedir para guardar tudo o que sinto. — E não se faça de desentendido quanto a isso, você agiu como se eu fosse importante e como se importasse comigo. Soube que eu gostava de você no momento em que Allie colocou a boca no trombone e tudo que fez foi continuar me dando esperanças.
— Que inferno! — Ele chutou a cadeira com força e foi a primeira vez que o vi verdadeiramente irritado, logo depois bagunçou os cabelos, olhando para mim. — Eu preciso ficar longe de você. Você é uma bandeja recheada de pecado e isso é tudo o que me atrai.
Meu coração estava partido em mil pedaços e a vontade de chorar voltou tão rápido quanto quando ela se foi.
— Arranje outra pessoa para te dar aulas de reforço, Srta. Granger. Ou então reaviva seu grupo rebelde, mas eu não vou ser uma peça no seu joguinho infame.
Ele esbarrou no meu ombro me deixando parada, completamente instável. Saiu pelo corredor das estantes e foi embora, me deixando em frangalhos com a sensação de que respirar estava mais difícil agora do que antes e completamente decepcionada.
Mas a decepção era o único caminho óbvio desta situação, não era? Afinal, todos sabemos que, independente da nossa escolha no amor, a decepção é a única coisa certa que vamos encontrar pelo caminho.
Não estava animada para a tal festa com Gina, mesmo sendo sexta feira e sabendo que amanhã não precisaria levantar tão cedo. Sempre que o professor Slughorn dava um de seus jantares, vários outros alunos se organizavam e escapavam para a Sala Precisa e usavam o jantar do professor de poções para justificar estar fora da cama.
Estava completamente dispersa do que acontecia ali, só olhava para a pista de dança improvisada, observava as pessoas dançando ao meu redor e as brincadeiras que aconteciam, mas não me importava. Sempre cabia uma brincadeira sem graça, mesmo que não fosse a brincadeira trouxa sobre verdade e desafio. Alguém tinha enfeitiçado maçãs e o nome que saísse na fruta, a garota ou o garoto deveria beijar a noite toda, ou algo parecido com isso. Como adolescentes são idiotas. Eu preferia mil vezes estar na minha Sala Comunal lendo, ou até perdendo meu tempo vendo televisão com meus pais na minha casa trouxa.
Meu corpo doía como se eu tivesse levado uma surra ou sofrido algum azaração no percurso para cá, mas a única e verdadeira dor ali era interna. Direto no meu coração. Nunca tinha chorado tanto e por isso eu tinha ainda mais certeza de que meu sentimento pelo professor Snape não era só uma fase como Gina julgava. Era bem mais do que isso, eu sou Hermione Granger e sempre fui uma garota forte, nunca chorei por ninguém, nem senti meu coração dolorido por uma pessoa.
Fiquei o resto do dia deitada me queixando para Lilá e Parvati que estava com uma cólica muito forte e quando eu disse que viria para o jantar do professor Slughorn, elas quase me impediram. Mas eu precisava de uma folga delas, passaram o dia inteiro me perguntando o que eu estava sentindo e eu odiava mentir, só que não podia confessar para as duas o que acontecia dentro de mim.
Eu ainda me lembro de quando o professor Snape entrou em meu campo de visão pela primeira vez, depois do ataque do Ministério. Ele visitou a Ala Hospitalar dezenas de vezes porque eu tomava mais de dez tipos de poções diferentes por dia. Depois de Sirius, a pessoa que saiu do Ministério em pior estado fui eu. Ele fez questão de monitorar pessoalmente, junto com Madame Pomfrey, os efeitos das suas poções sobre os danos do feitiço que me atingiu. Eu vi a preocupação em seu olhar todas as vezes que me examinou e já estava deslumbrada por ele antes mesmo de receber alta.
Passei o verão inteiro sem notícias dele e isso me afligiu o tempo inteiro, porque conseguia imaginar que ele estava em alguma missão espiã e suicida como Comensal da Morte. A tensão se esvaiu assim que pisei na primeira aula de Defesa Contra as Artes das Trevas do ano letivo e a voz dele reverberou pela sala e meus ouvidos e olhos foram completamente preenchidos pela visão do seu rosto concentrado e seu olhar sagaz.
Uma sensação de embrulhar o estômago me atingiu no momento em que seus olhos pousaram em mim, fazendo com que uma onda fria e congelante se apoderasse do meu corpo de forma divina. Não era amor à primeira vista porque eu já o tinha visto inúmeras vezes antes, sem contar que esse tipo de amor faz você se apaixonar primeiramente pelo que a pessoa tem no exterior. O que eu senti por ele, era diferente, foi algo que ele tocou interiormente.
No primeiro dia deste ano letivo eu ainda tinha dezesseis anos e não vivi experiências plausíveis para entender aquela situação, eu era virgem e nunca tive um homem ou sequer um garoto tocando meu corpo com intimidade maior que meros beijos. Eu não sabia o que dizer quando tivesse um primeiro encontro, não saberia o que fazer quando chegasse o momento de me entregar. Mas sabia que era ele quem eu queria.
Podia ter escolhido uma pessoa mais fácil para sentir aquelas emoções, mas estava certa que não, porque meu coração pulsava disparado pela pessoa errada. Pela pessoa que nunca, em hipótese alguma, me olharia de outra forma. Nunca me imaginei em uma situação tão catastrófica como aquela.
Se meu pai soubesse que eu beijei meu professor, se notasse qualquer diferença nos meus interesses para com ele, a única coisa certa sobre aquilo era que ele me arrancaria de Hogwarts mesmo sem terminar meus estudos e depois mataria Severo Snape. E eu tenho certeza que a raiva de um pai o faria ser mais poderoso que um bruxo.
— Vai curtir a festa daí?
Olhei para o lado vendo Terêncio Boot mexer seu cabelo em tom castanho claro com a mão, eu sorri em resposta. Eu o achava mesmo uma gracinha.
— Acho que sim. — Dei de ombros. — Não sou muito fã dessa barulheira.
— Ah, eu posso te ajudar com isso. — Ele segurou meu mindinho e olhei para os seus dedos que tentavam entrelaçar nos meus. — Vem!
Puxou minha mão e automaticamente meus pés começaram a lhe seguir em direção à pista de dança, seu sorriso era inocente fazendo junção a sua pele clara. Uma música tocava fazendo com que os jovens bruxos ao nosso redor se esbarrassem uns aos outros. Meu coração bateu forte quando Terêncio ficou de frente para mim, sorrindo. Ele colocou suas mãos, cada uma a um lado da minha cintura, e se aproximou respirando fortemente contra meu rosto. Suas mãos guiavam minha cintura de um lado para o outro. Lembrei de quando eu e Vitor dançamos no Baile de Inverno assim que ele moveu seu corpo contra o meu, em um ritmo viciante e, por incrível que pudesse parecer, eu estava gostando da maneira como suas mãos manipulavam minha cintura.
— Você parece deprimida com alguma coisa. — Sussurrou no meu ouvido. — Esqueça isso e apenas relaxe.
Seu hálito cheirava a álcool e cereja, inspirei fundo e seu perfume masculino se fez presente em nossa bolha atmosférica. Ele puxou minha cintura fazendo com que meu peito batesse contra o seu, estávamos colados um ao outro de forma que nossos corpos se encaixassem, e tive a impressão de que Terêncio havia planejado isso a noite toda. Senti um arrepio passar pela minha espinha quando seu lábio úmido tocou meu lóbulo.
Respirei fundo me lembrando do professor Snape, tudo que eu fazia e todas as minhas escolhas pareciam levar o meu pensamento até ele. Sentia que estar ali, abraçada com Terêncio, era errado, me senti suja e usada, porque a cena do beijo na biblioteca mais cedo ainda estava viva em minha mente, tão célebre no meu cérebro que meu corpo respondia negativamente às sensações marcantes, me martirizando se eu ousasse beijar outro agora. Precisava tirá-lo da cabeça. Suspirei tentando afastar Terêncio de mim, mas a tentativa foi em vão quando ele segurou meus dois braços firmemente, impedindo que eu fizesse uma nova tentativa.
— Hermione, relaxe. — Me incentivou na beira do ouvido e voltei a suspirar, mas dessa vez meu corpo estava dolorido por estar tensa. — Quer beber alguma coisa? Posso te oferecer hidromel de cereja se você quiser. — Ele sorriu. — Mas não sei se você quer ingerir álcool.
— Eu quero. — Falei apertando sua cintura por cima de suas vestes. — Só que eu nunca bebi nada com álcool. — Franzi o nariz, observei o redor e ninguém se dava conta de que eu e Terêncio estávamos mais próximos do que já estivemos antes.
— Ah, certo. Você comeu alguma coisa antes de vir para cá?
Neguei com a cabeça.
— Tudo bem, eu acho que os elfos deram alguma coisa para os lufanos que vieram. Vem comigo.
Ele me puxou pela ponta do dedo e o segui até outro compartimento dentro da Sala Precisa. Hoje ela se parecia com uma casa antiga, nessa área não havia muitos estudantes e eu agradeci por ter saído do ambiente sufocado por vapor e música. Observei enquanto Terêncio pegava alguns cortes de frango e esperei me sentando em um banco alto, onde pude apoiar meus cotovelos na bancada de pedra e tijolos que se estendia junto de nós e fazia o ambiente lembrar uma cozinha.
Enquanto via seus ombros se movendo, lembrei também da primeira vez em que o vi em Hogwarts. Era um garoto magro, sem músculos definidos, mas mesmo assim eu o achei bonito. A princípio ninguém o notava, era só um corvinal que tirava nota notas excelentes em diversas matérias e ignorava o quadribol, com seus óculos de armação cinza e que se escondia no fundo da sala.
Então ele entrou para a Armada de Dumbledore e chamou minha atenção de imediato quando me olhou admirado por eu ter feito o Feitiço de Proteu nas nossas moedas de comunicação. Eu vi o olhar assombrado dele quando elogiou minha inteligência por ter executado um feitiço nível N.I.E.M. sem nem ter prestado os N.O.M.s ainda e isso massageou o meu ego, passei a enxergá-lo com outros olhos a partir dali, só nunca imaginei que agora estaríamos aqui, um olhando para o outro e que sentia uma vontade crescente de dizer a ele que adorava seu cabelo. Ele tinha cabelos castanho claros e era branco, quase pálido, queixo fino e sobrancelhas grossas que lhe davam um deslumbre de mistério.
— Aqui. — Ele colocou uma tigela de vidro na minha frente com cinco pedaços de frango e um molho levemente picante para acompanhar. — Se você não quer ficar bêbada é melhor encher a barriga, é sério, amanhã você não vai nem mesmo conseguir levantar da cama.
Ele sorriu e eu molhei o primeiro pedaço. Comecei a comer e só me levantei depois de não sobrar mais nenhum na tigela. Sorri em agradecimento quando lambi o indicador.
— Obrigada, acho que agora estou segura.
Sorri segurando sua mão de novo e ele me guiou de volta para o ambiente da festa. Vi Gina se aproximar de mim aos pulos.
— Hermione!
Ela me abraçou pelo pescoço e sorria demais. Respirei fundo, Gina cheirava a álcool e ela não tinha idade para encher a cara e depois voltar para a Sala Comunal como se fosse adulta e sábia. Droga, estou pensando igual a senhora Weasley.
— Você já beijou o Terêncio? — Ela gargalhou e eu não o olhei, pois sabia que estava completamente ruborizada de vergonha. — Ainda não? Minha nossa, Hermione, solte as suas feras! Mas não transe, transar tem que ser com alguém especial, porque você é virgem!
Gina falou mais alto que a música e cobri o rosto com as duas mãos quando escutei Terêncio rir. Quis arrastá-la para o dormitório na mesma hora.
— Eu não sou especial? — Terêncio soltou a frase de repente, apertei sua mão com a força que podia, até ouvir ele reclamar.
— Não é isso, é que ela não é apaixonada por você. — Gina ergueu as sobrancelhas. — Ela só te acha bonitinho. Na verdade, ela gosta mesmo é do professor Snape.
— GINA! — Gritei chamando sua atenção.
Como ela podia dizer aquilo para o Terêncio tão tranquilamente e achar normal que eu fosse apaixonada pelo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas? Agora a culpa por tê-lo beijado contra sua vontade na biblioteca tomou posse de mim.
— Você bebeu demais hoje, acho melhor irmos embora. — Falei segurando seu braço com força.
— Eu estou bem, Hermione.
Ela olhou por cima dos ombros dando um tchau para um garoto da Corvinal, se soltou do meu braço e voltou para a pista de dança que estava mais cheia que antes. Terêncio ficou em completo silêncio quando Gina já havia sumido do nosso campo de visão, mas podia sentir seu par de olhos sobre mim, fazendo questionamentos e buscando uma explicação para o que ela tinha dito.
Gina conseguiu criar um clima horrível entre nós, sua promessa de supercontrole havia se desfeito mesmo antes de termos chegado, isso eu sabia, mas falar a respeito de Snape era demais. Embora quisesse me explicar, não sabia como justificar para Téo que o sentimento que eu nutria pelo professor estava ali, vivo e em chamas.
Mas depois da cena mais cedo na biblioteca, tudo que eu mais queria era conseguir arrancá-lo de mim com as próprias mãos. O sentimento estava apertado e sendo esmagado pelas paredes do meu corpo e o sangue que corria por baixo da pele estava queimando como brasa de forma que me fez desejar tomar um banho gelado.
Aquela sensação era a consequência de um ato intolerável. O meu gostar estava além do que a ciência humana poderia explicar e estava também além do que o meu coração queria. Eu gostava de Severo Snape, mas não chegava a ser amor, eu acho, e isso me dava uma chance de experimentar coisas novas, com uma pessoa que não tivesse quase vinte anos a mais e que não fosse meu professor.
— Você gosta do professor Snape?
Ele me despertou dos pensamentos e bufei.
— Ela está bêbada, Téo, posso te chamar assim? — Ele confirmou. — Gostar do professor Snape seria como me jogar numa jaula com Explosivins. — Revirei os olhos soltando uma lufada de ar. — Esse tipo de relacionamento é proibido, não só pelas normas da nossa escola, mas também pela ética do Ministério da Magia e do mundo trouxa. Mesmo que eu realmente gostasse dele, é um tipo de relacionamento que nunca daria certo. — Esbravejei tentando convencer a mim mesma disso.
— Isso foi um sim, um não ou um talvez? — Téo estava com a sobrancelha erguida e os olhos levemente arregalados.
— Você pode, por favor, me dar uma bebida? — Acariciei seu rosto levemente, sentindo sua pele macia confortar a minha mão.
— Claro.
Ele sorriu enquanto me guiava entre as pessoas que atrapalhavam nossa passagem. Chegamos a um barril grande e preto que continha uma bebida avermelhada. Uma taça logo estava na minha mão, cheia daquele mesmo líquido e fiquei olhando para as ondinhas da superfície. Se eu bebesse agora seria minha primeira vez ingerindo algo que não fosse suco natural, água ou cerveja amanteigada. Virei o líquido rapidamente e, diferente do que as pessoas costumavam dizer, eu não o senti queimar minha garganta, mas o baque foi maior quando chegou ao meu estômago e um arroto involuntário subiu por ela.
Cobri a boca quando Téo começou a rir de mim e eu ri por ele estar rindo. Sentia sim queimar, mas era algo mais profundo do que só quando passava pela garganta e eu gostei daquela bebida esquisita fazendo esse efeito positivo. Acho que aquilo era exatamente o que eu precisava.
— Então? — Téo perguntou com expectativa nos olhos.
— Pode pôr mais? — Estiquei a taça sentindo minhas bochechas arderem.
Ele assentiu colocando mais um pouco da bebida, mas que, apesar de conter álcool, não tinha me deixado zonza. Quatro taças depois, o puxei por vontade própria para a pista de dança e comecei a mexer meu corpo com suas mãos em minha cintura para me guiar. Não me importava que ele estivesse tão colado em mim, até porque, apesar de saber que estava ali, eu não o sentia completamente. Era como se meu corpo físico estivesse dançando com Téo sem precedentes, mas meu espírito e a minha consciência tivesse adormecido. Eu bebi mais um pouco até que finalmente tudo ao meu redor girou como um peão.
Minhas pernas estavam doloridas pela quantidade de músicas que dancei e a vontade aguda e repentina de beijar Téo me deixou ainda mais à vontade de estar perto dele. A nuvem nublando minha mente me deixou com vontade de saber qual era o gosto que a sua boca poderia transmitir para a minha.
— Eu quero beijar você. — Sussurrei com a cabeça em seu ombro.
Seu peito tremeu com a risada que ele liberou.
— Você pode me beijar se quiser. — Falou segurando minha cabeça com as duas mãos, a mantendo ereta e me obrigando a encará-lo. — Você quer isso?
— Quero. — Respondi com convicção.
Aquele beijo a princípio parecia gelado, não era nada do que eu esperava, mas não deixava de ter a sua essência. O contato entre nossas bocas foi frio. A falta de sentimento ali talvez fosse o resultado disso. Coloquei as mãos sobre seu ombro, abraçando seu pescoço e seus braços me envolveram, me puxando para mais perto e fazendo com que nossos corpos se chocassem tendo um contato instável. O beijo foi lento, demorado, língua a língua, entre uma carícia e outra na região do meu tronco. Eu o acariciava na nuca com a ponta de meus dedos. A falta de ar me fez querer afastar nossos corpos, mas ele me prendeu junto a si, porém, depois de mais uma tentativa, afastou seu lábio para que eu finalmente conseguisse respirar.
Respirávamos fundo e pesado, fechei meus olhos sentindo meu estômago embrulhar por tê-lo beijado, não porque o beijo foi ruim, mas porque me dei conta que ele não era quem eu gostaria que fosse. Minha garganta fechou e senti a proximidade das lágrimas de desilusão se aproximando de mim como uma corrente elétrica, reacendendo toda a chama da minha realidade dramática que eu havia escondido no momento em que coloquei o primeiro gole de álcool dentro da boca. Uma voz irritante no meu cérebro me disse que não adiantava eu beijar outro, eu gostava mesmo era do meu professor.
Parei para pensar e quando dei por mim, estava em outro ambiente da Sala Precisa. E apesar da constatação anterior, não parei de beijar Téo, mesmo tendo certeza que o seu gosto não tinha nada que poderia, afinal, saciar minha vontade com Severo. Com ele era diferente, pelo sentimento e necessidade. Ele, eu o queria por completo, só não tinha noção disso.
Embora estivesse em uma situação complicada, aceitei o que Téo tinha para me oferecer e naquela noite era uma cesta recheada de lembranças na qual, amanhã, eu odiaria ter. Suas mãos ávidas passeavam por meu corpo, procuravam por algo, só não tinha me dado conta do que. Ele era jovem e homem, talvez fosse óbvio demais, mas não para mim, que estava sendo vítima de minhas próprias escolhas.
Mesmo assim, o Téo que eu conhecia e de que me lembrava, era gentil, doce e jamais me faria ter apenas uma escolha: me entregar ou ser machucada. O sofá velho da sala arranhava minha pele ferozmente, minha boca estava seca de tanto receber a sua e minha cabeça latejava, pendendo para trás, abrindo espaço para que ele beijasse meu pescoço. Não que eu não estivesse totalmente de acordo com isso, mas era bem possível que meu corpo não estivesse totalmente no controle. Sentia como se, de alguma forma, tivesse sido drogada. Por mais absurdo que parecesse, a sensação que tinha agora era de pura invalidez. Movia meus braços tentando afastá-lo, mas a força parecia estar esgotada sem eu ter feito qualquer esforço abrupto, meus joelhos levemente dobrados tinham a mesma sensação de impotência. E para piorar, eu não fazia ideia de onde minha varinha estava.
— Téo... — Segurei seu ombro com o máximo de força que consegui reunir, enterrando minhas unhas em sua pele por cima da camisa. Sua resposta, entretanto, foi um murmúrio baixo contra meu pescoço. — Eu quero ir para o meu dormitório, não estou me sentindo muito bem.
Abri os olhos rapidamente, tendo vislumbre do teto e meus olhos rodopiaram tentando acompanhar o ritmo da minha cabeça. Estava completamente fora de órbita.
— Preciso de ar, por favor, não estou me sentindo bem. — Vinquei minha testa em resposta, quando ele não se afastou e senti repulsa imediatamente. — Téo sai de cima, é sério.
Minha voz saiu firme, apesar de todos os copos que bebi com total imprudência.
— Achei que você me quisesse. — Ele respirou fundo na base do meu pescoço, com a voz rouca e uma decepção perceptível em seu tom. — Pensei que nós estivéssemos nos entendendo agora.
Fitei seu rosto quando ele deu abertura, abrindo um espaço de centímetros entre nossos rostos, retirei sua mão que estava sob a minha blusa, completamente envergonhada e fechei os olhos para tentar amenizar o que senti e me afastei dele.
— Não quero, sinto muito mesmo.
Puxei os joelhos dobrados contra meu peito, apoiei meu queixo no topo deles e suspirei para encará-lo outra vez.
Atentei para seu braço que subiu para o encosto do sofá. Sua mão se fechou, agarrando com força o couro e observei os nós de seus dedos ficarem brancos enquanto o tensionava.
— Eu fui simpático e passei a noite toda com você, então não entendo o que está errado. O que está acontecendo?
Eu senti uma tontura vindo com mais força e rapidez do que as outras vezes e o que vi me pareceu abstrato, talvez Téo não estivesse com a intenção de me tocar outra vez, mas sua mão livre foi para meu queixo, me apertando com força e, de repente, senti minha boca sendo fisgada pela sua mais uma vez.
— Eu quero você, Hermione, sempre quis, desde o dia que conversamos no Cabeça de Javali.
— Eu não quero. — Empurrei seu corpo para longe, colocando minha mão espalmada em seu peito. — Fique longe, por favor. — Algo pulsou no meu peito, uma ardência subindo pela garganta. — Acho que vou vomitar.
— Ah, não, isso é sério? — Téo se arrastou para mais perto e me encolhi. — Você me quer também, consigo sentir a tensão em seu corpo quando me aproximo.
— Isso quer dizer que eu preciso que você fique longe. — Me levantei apressadamente para fugir de sua mão, que se estendeu, agarrando meu pulso, impedindo que eu desse mais um passo. — Solta!
Meu galeão que estava em meu bolso começou a soar um barulho estridente, e fiquei extremamente aliviada ao escutar o barulho. Era uma chamada e soltei uma lufada de ar pela boca demonstrando alívio por ser interrompida daquela situação constrangedora.
— Eu realmente não estou me sentindo bem.
Arrumei meus cabelos, que cobria parte da minha visão e respirei pesado. Eu iria vomitar se não respirasse o ar puro. Téo continuava me segurando com força.
— Silencia essa porcaria logo! — Ele esbravejou, soltando finalmente o meu pulso e com isso percebi que a única coisa que me sustentava de pé era sua mão. Cambaleei para trás, caindo sentada no chão e a dificuldade para me levantar veio à tona. Meu galeão apitou mais alto. Téo passou por mim, me olhando com desprezo e me deixou lá, sentada e sem forças para levantar, não sem antes atirar a minha varinha aos meus pés. O conhecia bem o bastante para saber que aquele não era o Terêncio Boot do qual me lembrava.
Puxei o meu galeão do bolso, tendo um desejo singular de que não fosse Minerva ou nenhum dos meus amigos, minha visão estava bagunçada mas pude ver claramente o nome na moeda. Achei que poderia ser uma imagem criada pelo meu cérebro para me machucar ou tentar me torturar por agir como uma cretina nesta noite, porém, quando o galeão se apagou e reacende com um silvo mais alto que antes, o nome dele ficou ainda mais nítido e eu, como uma idiota que eu sabia que era, não resisti a ele e toquei minha varinha no galeão.
— O que você quer?
Apoiei o cotovelo no assento do sofá, atrás de mim. Respirei fundo, estava enjoada e só piorava.
— Onde é que você está nessa porcaria de lugar?
Olhei ao meu redor, ainda tentando entender e assimilar sua pergunta.
— Como é?
— Estou na Sala Precisa, em que lugar dela você está?
Para ser bem sincera, não lembrava direito de como cheguei até ali, só que tínhamos entrado em um espaço pequeno, algo parecido como uma pequena sala de jogos. Olhei ao redor, observando cada detalhe que poderia ser importante, mas decidi que não tinha interesse em ser legal com o professor Snape.
— E por que é que você está aqui?
Fiz um esforço metódico para erguer meu corpo. Bufei quando não tive sucesso, minhas pernas estavam trêmulas se rendendo gradativamente ao cansaço extremo.
— Para acabar com essa comemoração estúpida e distribuir detenções. Agora, sem joguinhos, Srta. Granger, onde você está? — Ele bufou sem paciência e parecia mesmo interessado em me encontrar. — A garota Weasley ficou preocupada porque não encontrava você e não sei por que diabos ela achou que eu poderia ser útil.
— Ela está errada, você é completamente inútil.
Bati na minha moeda novamente com a ponta da varinha e encerrei o contato com um sorriso orgulhoso no rosto e meu ego preenchendo as lacunas que ele havia aberto mais cedo. Um minuto depois o som estridente do meu galeão soou de novo, joguei a cabeça para trás, revirei os olhos e bati a varinha nele sem muita cerimônia.
— Eu não vim até aqui à toa! — Ele rosnou.
— Eu não lhe pedi para vir até aqui, professor.
— Sei que você está com raiva. — Severo respirou pesado, claramente impaciente com minhas palavras. — Mas torne essa coisa mais fácil para nós dois.
— Você não é o meu diretor de casa, então, de novo, por que está aqui?
A porta da sala abriu e escutei os passos, vagarosos e altamente calculados. Ergui o pescoço para tentar enxergar, a voz na minha moeda havia ficado muda sem eu saber o porquê, até colocar meus olhos nele. Severo tinha uma expressão de rejeição estampada no rosto. Olhei para ele, e imaginei que provavelmente passou parte do dia planejando coisas para me dizer em repressão pela minha ação mais cedo, ele era mestre em fazer isso. Cerrei os olhos para ter certeza de que não estava tendo uma visão produzida pela minha imprudência.
Ele respirou fundo como se estivesse restaurando suas forças, seu galeão estava apertado em sua mão e ele o segurava com força para deixar seus dedos brancos em estresse.
— Eu vim para buscar você, óbvio.
Escutei sua voz através da minha própria moeda. Abri a boca para questionar, e enquanto pensava em uma boa resposta, Severo tocou sua moeda com a varinha e finalizou a ligação com o meu galeão. Ele segurou minha cintura, passando seus braços pela dobra de meus joelhos e me ergueu. Envolvi meu braço em torno de seu pescoço e descansei minha cabeça em seu ombro.
— Sei o que você está pensando. — Começou, enquanto me carregava para fora. — E não diga uma mísera palavra antes que eu me arrependa.
Não acho que alguém tenha nos visto enquanto saíamos, mas amaldiçoei Gina e toda a bebida que havia ingerido. Meu corpo por si só não aguentava andar sozinho, estava disputando meu orgulho com a necessidade de ser carregada. Snape não disse uma palavra e nem mesmo me direcionou um olhar durante o caminho. Carreguei o arrependimento por todo o percurso e a vontade de vomitar continuava a subir pela garganta a cada passada dele. Fechei os olhos para controlar a respiração e me esforcei para não implorar a ele que não contasse a Minerva que eu tinha me embebedado, mesmo que ele tivesse motivos suficientes para fazer o contrário.
— Não me leve para minha Sala Comunal, nem para Ala Hospitalar, por favor.
Minha cabeça estava recostada no peito dele, o que era uma coisa boa, faria com que a vergonha fosse menor mais tarde.
— Eu não faço ideia de para onde te levar se não for para esses dois lugares, Srta. Granger. — Pude sentir a raiva borbulhando em sua voz. — O que você estava pensando se embebedando daquele jeito? Você está completamente insana!
Levantei a cabeça para encará-lo, ignorando meu orgulho, minha consciência e até mesmo a vergonha. E embora a raiva fosse palpável em sua voz, ele não deixava nada de extraordinário transparecer em seu rosto, estava impassível como sempre.
— Só estava experimentando algo diferente, eu já sou maior de idade. — Respondi, tentando não parecer tão imatura e negligente.
— Quando for experimentar coisas diferentes, tente fazer devagar e tome uma coisa de cada vez.
— Eu estava muito bem, aliás, Gina exagerou pedindo para você ir até lá.
Eu estava péssima sem ele, mas não iria admitir. E ele também não aceitaria minha ingratidão, estancou de repente, e meu estômago revirou em contrapartida. Fechei os olhos para inalar a maior quantidade de ar que fosse capaz.
— É impressionante o seu jeito de resolver os problemas, Srta. Granger. — Sua voz estava carregada de ira e eu mal sabia o motivo. — Completamente estúpido e não combina em nada com sua inteligência, se quer um conselho...
— Ah, por favor, me deixe em paz!
Me contorci forte e pulei de seus braços, me apoiei na parede de pedra quando ele me soltou, mas meu estômago deu uma revirada mais forte ainda e me inclinei de imediato para vomitar tudo que havia bebido naquela noite.
— Ah, maldição!
Ouvi ele praguejar antes de agarrar meus cabelos os prendendo em um rabo de cavalo para que não os sujasse. Minha garganta se fechou, meu peito estava subindo e descendo em uma respiração descompassada. Estava totalmente fraca, ainda sem saber se era porque não conseguia parar de vomitar ou se havia algo mais do que álcool naquela bebida. Envolvi minha cintura com meus braços, pressionando contra minha barriga. Respirei fundo, limpando a boca com a manga da minhas blusa. Quando ergui a cabeça fiquei zonza demais para conseguir segurar meu corpo. Senti sua mão apoiar a base da minha coluna e apoiei com minha mão direita na parede.
O encarei de verdade pela primeira vez desde que saímos da Sala Precisa. Sua expressão havia mudado um pouco, de impassível para um leve nível de preocupação. Ele ofegava tanto quanto eu e algo em seus olhos tinha mudado; se foi a nossa discussão ou o fato de eu o tê-lo beijado mais cedo, eu não soube dizer. A única coisa que eu sabia era que agora ele estava consciente de que cada parte de mim é louca por cada parte dele.
— Não quero seus conselhos. — O alertei, já com a respiração mais normalizada.
— Você é uma grifinória insuportável e que acha que sabe tudo. — Percebi que sua voz tinha perdido todo o tom de raiva e sua mão ainda estava em minhas costas, mas não falei nada. — Mas sendo sincero, Srta. Granger, não me escute, pois já estou arrependido da minha próxima decisão.
Enruguei a testa para questioná-lo.
— Você pode ser menos subjetivo?
Ele me olhou.
— Vou deixar que você passe essa noite comigo. — Severo suspirou. — Como uma prova de que sou seu amigo.
Encostei a cabeça no peito dele, quando ele me colocou nos braços de novo.
— Isso é uma péssima ideia. Você sabe sobre o que eu sinto, nunca vamos conseguir ter uma amizade.
— Eu ainda estou tentando entender o que estou sentindo agora e não posso dizer com certeza se é algo bom, Srta. Granger.
— Se for o mesmo que eu, não é mesmo nada bom.
Ele grunhiu em resposta, mas eu não ouvi direito, minhas pálpebras pesaram e eu não vi o restante do caminho pois adormeci em seu peito. Agradeci por isso, pois nem vi quando chegamos ou como fui levada para seus aposentos, e antes de apagar completamente, eu soube que algo entre nós havia mudado e isso mexeu no sentimento que eu tentei soterrar com álcool.
Minha cabeça latejou quando tentei erguer o corpo da cama, estava coberta com um edredom cinza escuro até o pescoço, o sol atravessava uma janela já aberta e incomodava meus olhos. Era um sol de sábado por volta das dez e meia. Coloquei as duas mãos na cabeça respirando pesado, tentando puxar pela memória a noite passada e me dei conta de que aquele não era meu quarto, muito menos o de Gina. Onde eu estava?
Meneei a cabeça novamente, sentindo a dor aguda me fazer voltar a deitar, que fracasso tentar me levantar agora. Olhei debaixo do edredom e eu usava um moletom preto sem nenhum detalhe, mas agora parecia inútil já que sentia calor. A cadeira ao lado da cama estava com minhas roupas, todas elas dobradas e em perfeito estado. Chutei os cobertores até que eles caíssem ao chão, tirei o moletom ficando com as roupas íntimas e dei a volta pegando as minhas. Vesti apressadamente, curiosa para saber onde estava e como tinha ido parar ali. Se alguma das minhas companheiras de quarto desse com a língua nos dentes, Minerva ia me matar. Calcei meus sapatos e respirei fundo, prendi o cabelo na altura da cabeça e saí do quarto, ainda cambaleando, bêbada de sono.
Encontrei um pequeno corredor com mais dois cômodos, um de cada lado, mas ambos estavam com as portas fechadas. Olhei mais à frente encontrando uma pequena sala, integrada a uma cozinha. Caminhei até a sala onde escutava o barulho de algo fervendo. Apesar desta manhã estar quente, o frio das paredes de pedras lisas do castelo não deixava o ambiente abafado. Esfreguei os olhos com as mãos, respirei fundo e senti o cheiro de pão junto com o cheiro delicioso do café forte, exalando pelos cômodos.
Eu quase caí quando vi Severo Snape de costas para mim, usando apenas uma camisa preta puída e uma calça preta e seus bíceps estavam contraídos por estar mexendo atentamente uma poção que fumegava num caldeirão que estava em cima da bancada. Ao meu lado direito observei uma mesa pequena de ferro, mais quatro cadeiras, e estava farta com comida, suco e café, tudo tinha uma cara ótima e eu me senti bem recebida.
Porém, o que eu fazia ali exatamente? Como fui parar nos aposentos de Severo?
Como se o calor do meu corpo o atraísse, ele olhou por cima dos ombros, mas não emanou nenhum sorriso, apenas manteve o maxilar travado. Recitou um feitiço com a varinha e parou a mexida da poção, antes de se virar completamente para mim. Merlin, ele vestido tão informalmente só me colocava em uma situação ainda pior.
— Bom dia. — Falei olhando para fora da janela, vislumbrando um trecho da floresta proibida ao longe.
Ele não respondeu, mas quando olhei para frente ele me estendeu um copo de água e dois frascos de poções. Encarei os vidros e depois olhei para seu rosto, e sua expressão era a mesma impassível de sempre.
— Para dor de cabeça e mal estar.
— Certo.
Tomei as duas poções sem questionar novamente. Queria perguntar a ele por que estava ali, tentei puxar pela memória a noite passada mais uma vez, mas tudo que eu conseguia lembrar era do beijo que dei em Téo. Severo me analisava enquanto eu tomava a água, intercalei meu olhar entre ele e a sala, depois estiquei o copo em sua direção e agradeci num silvo baixo.
— Melhor você comer, se não quiser desmaiar.
Olhei para a mesa posta e me perguntei se ele tomaria café comigo.
— Você vai me dizer por que eu estou aqui? — Sussurrei enquanto andava até ela, mas não obtive nenhuma resposta e também não esperava que ele fosse ser razoável quanto a isso.
— Você não se lembra? — Ele falou um pouco mais alto para que eu o escutasse.
Arqueei a sobrancelha tentando me recordar. O silvo do meu galeão. Eu passando mal. Severo me carregando. Fiquei observando todas as comidas postas à minha frente, até começar a lembrar relativamente de quase tudo. Eram pequenos vislumbres de uma coisa que eu sabia que precisava esquecer, de qualquer forma. Sentei à mesa e me servi de uma xícara de chá bem forte, não que eu fosse fã, mas sabia que ajudava quando se ingeria muito álcool. Esquadrinhei o espaço e vi que Severo terminava de organizar a bancada, voltei meu olhar para a mesa quando o percebi se aproximar de onde eu estava e foquei na minha xícara.
Inspirei fundo enchendo meus pulmões com ar suficiente para que eu conseguisse respirar enquanto ele estivesse por perto. Desde que o beijei ontem na biblioteca fiquei imaginando como seria o nosso reencontro. Estava tudo tão formal e tinha aquele clima estranho entre duas pessoas quando brigam que ficam sem se falar durante um tempo e depois tentam retomar, como se nada tivesse acontecido. Ele não me olhava diretamente, já eu tentava roubar seus poucos passos com os olhos, minuciosamente. O observei servir seu copo com suco, depois levar até a boca o pão sem proferir uma palavra sequer para mim, e fiquei ali esperando que ele me contasse o que tinha acontecido.
— Vai me observar o tempo inteiro? — Perguntou depois de tomar outro gole do suco e eu me ajeitei na cadeira, me sentindo desconfortável.
— Eu não me lembro de muita coisa. — Fui direta.
— Eu eu prefiro não pensar nas coisas que poderiam ter acontecido se eu não tivesse chegado. Colocaram alguma coisa na sua bebida. — Ele encarava atentamente o relógio. — Tenho algumas redações para corrigir e preciso preparar poções básicas para a enfermaria. Você pode terminar de tomar o seu café, vou acionar a Minerva via Flu para vir buscá-la.
Ah, não!
— Eu vou sozinha.
Ele me fuzilou com o olhar e senti meu corpo se arrepiar.
— Se a Minerva souber que eu estive em uma festa e que foi o diretor da Sonserina quem foi me buscar ele vai ficar irritada. Sem contar que ela não deve estar no castelo, hoje é sábado e é dia de visita a Hogsmeade.
O vi fechar os olhos e respirar fundo.
— Eu levo você então, só me espere terminar minhas obrigações.
— Não precisa. Eu vou sozinha. — Terminei de tomar o café e comecei a me levantar da mesa, mas ele agarrou minha mão com força impedindo que eu saísse.
— Você é tão irritantemente teimosa, Srta. Granger. — Olhou para mim com firmeza. — Eu falo para você ficar longe de mim e você não fica, eu digo para você confiar em mim e você não confia, eu digo a você que me importo e você não acredita.
— Você tem algum problema? — Puxei minha mão com força para longe dele. — Em um momento você é essa pessoa, essa que está aqui sentada na minha frente. Um homem de respeito e que eu admiro, e que por burrice minha eu estou nutrindo sentimentos que não são saudáveis. Depois você diz que precisa ficar longe de mim e agora está dizendo que eu sou teimosa? Sem contar que você me tirou daquele lugar ontem. — Esfreguei os olhos com força. — Você diz que se importa, mas eu não sinto isso. Em um momento você age como se também estivesse interessado e no outro simplesmente diz o contrário. O que é que você quer afinal?
— Desde o dia em que eu entrei na sala, no primeiro dia deste ano letivo, eu soube que você mexeria com a minha cabeça porque você mudou algo no seu jeito de me olhar desde que cuidei de você por ter quase morrido no ataque do Ministério! — Ele bradou enquanto me olhava fixamente como se tentasse me desvendar. — Você é inocente, inteligente e frágil e eu estou tentando ficar longe, mas parece um que você é um imã amaldiçoado e me puxa de volta! — Puxou seus fios negros para cima como se tentasse tirar a ideia da cabeça — É um pecado infernal e eu odeio isso tanto quanto você e, maldição, garota, eu sou seu professor, estou noivo e agora é oficial
Como?
— Eu sinto uma necessidade imbecil de te proteger de tudo e de todos e quando você me beijou ontem fiquei transtornado. Perdi a cabeça, e quase te tirei dali comigo, fugiria com você para qualquer lugar só para poder tentar entender o que uma adolescente como você viu em um homem como eu: velho, obscuro, sarcástico e Comensal da Morte!
— Você noivou?
Ignorei quase tudo o que ele disse, exceto a parte de sentir uma necessidade grande de me proteger, porque talvez a minha inocência fosse aquilo que o atraía. Mas não consegui ouvir quase nenhuma palavra depois que ele disse a palavra "oficial". Não ligaria se ele soubesse o quanto aquilo tinha me ferido. Ele ficou em silêncio, não respondeu logo, ficou pensativo até que desviou os olhos de mim.
— Sim. — Respondeu baixo e aquilo fez meu coração palpitar. — Depois que você me beijou, achei que fosse perder o controle. Saí de lá, fui à uma joalheria e comprei um anel para Bettany.
Fechou os olhos como se lembrasse de cada passo que deu e eu fiz o mesmo, só que meu coração estava decepcionado.
— Fui direto para a casa dos pais dela, onde nós jantaríamos e fiz o pedido.
A cena disso fez meu coração bater forte no peito, o frio na barriga indo e vindo como ondas frenéticas do mar. Não conseguia pensar em nada.
— Então Gina Weasley bateu à minha porta ontem à noite e eu esqueci completamente o meu lado racional, aquele que jurou que manteria as coisas com você de forma estritamente profissional. Não me importei de entrar na Sala Precisa ou se ainda havia algum aluno para me ver sair com você nos braços. — Ele crispou os lábios, mostrando o quanto estava irritado. — Não pensei em absolutamente nada, só quis tirar você dali porque sabia que estava indefesa e se sentia mal, culpada e arrependida por sua atitude impensada na biblioteca. — Ele se levantou ficando de frente para mim. — Eu sou frio e calculista e me orgulho de ser coerente o suficiente para tomar minhas próprias decisões e agora estou me sentindo um verme inútil, perdido entre a razão e o desejo. O que sugere que eu faça, Srta. Granger?
Desviei os olhos para meus pés que se contorciam e meu coração batia alucinado em meu peito com o efeito que a confissão dele me causou. Eu o deixava confuso e completamente irracional e isso só podia significar uma coisa: ele também sentia algo por mim.
— Você pode me beijar. — Eu disse baixo o suficiente e ergui o queixo, encarando-o.
A íris dele balançava de um lado para o outro enquanto se decidia entre o certo ou errado, entre se me beijaria ou não. Eu queria isso, mesmo que fosse o segundo e provavelmente o último beijo entre nós. Severo acariciou meu rosto, minha pele estava quente e meus pés se ergueram automaticamente ao sentir ele aproximar seu rosto de mim de forma minuciosa. Ergui a mão tirando um fio de cabelo que caía sobre sua testa. O mundo ao meu redor pareceu congelar, seus lábios tocaram os meus com tanta perversidade que os senti me machucar, mas não me importei.
Meu corpo deu um solavanco na sua direção quando ele agarrou minha cintura puxando meu corpo para mais junto de si. O atrito ávido entre nossas bocas me fez gemer entre o beijo, sentindo meu coração bater forte e algo fora do normal se aqueceu de forma rápida, substituindo o gelo. Sua língua atravessou a minha boca me fazendo sentir o gosto adocicado do suco de abóbora que ele tinha tomado antes. Sua boca pressionava a minha, suas mãos seguravam minha nuca e sua respiração estava ofegante, quase parando, nossos corações batendo em um ritmo perfeito, onde a nossa sincronia parecia inigualável. Aquilo que nós tínhamos era inato.
Mesmo que eu gostasse dele e o seu sentimento ainda estivesse confuso, não me importava, afinal. A verdade era que eu estava feliz por senti-lo na minha boca de novo, dessa vez totalmente entregue ao beijo e com suas mãos me tocando e me deixando segura. Toda aquela sensação era diferente quando se tratava dele.
Assim que se afastou, ele colou sua testa na minha e permaneceu de olhos fechados até que seus lábios pousaram nas minhas bochechas, depois no centro da minha testa, e eu respirei fundo.
— Eu preciso saber que essa não é mais uma fantasia. — Sussurrei agarrando a lateral do seu corpo, tocando sua pele quente por baixo da camisa dele.
— Não é. — Ele sussurrou de volta, ainda com os lábios na minha testa. — É real, estou aqui com você. — Me afastou delicadamente para me olhar e eu sorri quando ele alisou meu rosto. — Você ficou com Terêncio Boot?
Achei a pergunta estranha, não me lembro de ter mencionado Téo em qualquer momento.
— Bom... — Desviei os olhos, o porquê dessa pergunta agora era inútil. — Nos beijamos algumas vezes.
— Tudo bem.
Ele se afastou em direção ao corredor e eu fiquei ali parada o assistindo, escutei uma porta abrir e depois se fechar com força, fazendo com que meus ombros encolhessem. O que foi isso? Estava feliz demais por ter sido beijada por ele e confusa demais por esse último ato. Eu deveria ir atrás dele? Falar alguma coisa? O questionar? Ou simplesmente me sentar no sofá e esperar até que ele saísse? Optei pela última opção.
Não tinha certeza do que estava acontecendo ali, mas estava feliz. Muito feliz. Eu agradeceria a Gina mais tarde por isso, depois de xingá-la. Fiquei no sofá pelos próximos vinte minutos. Ninguém ainda não tinha me acionado pelo galeão, mas sabia que isso seria só uma questão de tempo até minha moeda vibrar com o nome de algum dos meus amigos nela. Enviei uma mensagem a Gina pedindo que se Minerva perguntasse porque faltei a visita do povoado ela confirmasse que eu estava no dormitório estudando.
Respirei fundo decidindo que não podia mais ficar sentada no sofá esperando ele voltar, juntei todas as coisas da mesa, as guardei onde achei que deveria, limpei as xícaras e pratos sujos que usamos, organizei a cozinha e resolvi que era hora de procurá-lo.
Abri a porta do quarto, estava vazio. Abri a porta do banheiro, também vazio. Ao abrir a terceira e última porta no corredor o vi concentrado sobre vários pergaminhos que estavam espalhados sobre a mesa. Na sua frente estava sua varinha e com uma pena ele escrevia algo em seu diário de apontamentos. É óbvio que ele sabia que eu tinha entrado, mas não desviou sua atenção para mim. Os dois primeiros botões da sua camisa estavam abertos e as mangas dela arregaçadas até o cotovelo, expondo sua Marca Negra e eu estremeci com a visão dela.
Estava muito concentrado no que fazia e me lembrei dele ter falado algo sobre corrigir algumas redações. Era seu escritório particular, pelo que percebi, havia prateleiras com livros, uma mesa e um sofá pequeno. Pela organização acirrada notei que era um lugar que ele costumava ficar por muito tempo.
— Se você estiver muito ocupado eu posso realmente ir sozinha, são só alguns andares até a Torre da Grifinória. — Apontei com o polegar sobre os ombros para a porta e sua atenção foi voltada para mim.
— Já terminei aqui. — Disse sério.
Fechou o diário de anotações e se levantou. Deu a volta na mesa e se sentou na lateral à minha frente cruzando os braços, deixando seus bíceps contraídos.
— Quer conversar?
— Eu não sei. — Olhei para os meus pés. — Você quer?
— Acho que é necessário.
Ele esticou seu braço agarrando meu indicador e me puxou para mais perto. Meu corpo todo gelou, tive a certeza de que essa sensação nunca iria passar. Ajeitou alguns cachos de cabelo atrás da minha orelha.
— Desculpe por ontem, fui rígido com você.
— Você só estava reagindo como qualquer outra pessoa no seu lugar. Eu teria me assustado também. — Suspirei.
— O que foi? — Franziu o cenho.
— Eu realmente gosto de você. — Fechei os olhos me concentrando em sua respiração densa.
— Abra os olhos. — Assim que o fiz, eu vi que ele me encarava com uma expressão que não conseguia decifrar, ele sempre parecia impenetrável. — Eu não quero machucar você.
— E eu não quero que você me machuque, mas eu não sei o que tudo isso significa.
Deitei a cabeça em seu ombro e ele alisou minhas costas com uma de suas mãos enquanto respirava no meu pescoço.
— Eu também me senti atraído por você assim que cheguei para o ano letivo e percebi que seria minha ruína no momento em que eu te vi na sala com aquele olhar de admiração. Tem alguma coisa em você que me deixa preso.
— Você a ama?
Ele soube a quem me referia quando me afastou, para poder me olhar.
— É complicado. — A linha tênue de seus lábios foi pressionada. — Eu a pedi em casamento ontem porque eu não queria me aproximar de você e sabia que estando preso a ela, isso ficaria um pouco mais difícil. Então você simplesmente me procura e me acha.
Afastei o olhando nos olhos.
— Não quebre meu coração.
Eu estava pedindo, mas não tinha certeza se ele conseguiria cumprir aquilo, ele me acariciou, olhando em adoração para minha cintura e depois voltou à procura dos meus olhos.
— É bem provável que eu, como um ser completamente desprezível e imperfeito, venha a te machucar. E somando a isso o fato de que nós dois somos a definição do errado e do proibido, é bem provável que o tombo seja maior.
Gostar dele era complicado e podia citar em tópicos todos os motivos, até porque o pacote de problemas era imenso e a lista de motivos pelo qual aquilo nunca daria certo, extensa. Mas mesmo assim eu e meu coração queríamos experimentar o gosto da sensação do que o proibido tinha para oferecer. Estava pronta, afinal, para me tornar algo além de uma aluna ou sua amiga. Minhas ações me provavam que eu estava seguindo uma linha perigosa, mas tampouco despertou em mim a intenção de me afastar.
— Aceito correr o risco, se estiver mesmo disposta.
No entanto, eu não sabia o efeito que Severo poderia me causar no final. E isso foi prejudicial.
Notas Finais:
Terêncio Boot realmente fez as observações sobre a inteligência da Hermione em Ordem da Fênix, então eu usei sua admiração para despertar um possível interesse amoroso de ambos. Beijos e até o próximo!
