Notas do Autor

Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.


Capítulo 5


— Abra a porta, Hermione

Escutei sua respiração pesar do outro lado. Eu não era a única sentada contra a madeira, na verdade, a única coisa que nos separava era aquela porta. — Eu não sei o que te chateou exatamente, mas Aurora Sinistra e eu somos colegas de trabalho.

Dei risada mais pelo fato de que ele estava preocupado com seu tipo de relacionamento com a professora de Astronomia, do que com o que eu havia escutado. Ele realmente me considera uma criança estúpida.

— Quero ir embora. — Falei baixo, mas o suficiente para que ele escutasse.

Suas mãos espalmaram com força contra a porta.

— Abra a porta e me deixe falar com você. Estou ciente que você tem esses ataques de pânico, só quero ver se você está bem.

— Como você sabe sobre isso? — Sussurrei e me encolhi mais ainda, puxando minhas pernas para junto do tórax e afundando minha cabeça entre meus joelhos. Havia varrido da minha memória a cena na biblioteca.

— Eu vi na sua ficha da Ala Hospitalar. — Ele suspirou. — Não fiz de propósito, Papoula e eu estávamos tentando salvar sua vida, depois que foi atacada no Ministério.

Solucei, me sentia desesperada por ele saber exatamente o que se passava comigo. Era vergonhoso demais.

— Ministramos poções que não os desencadeassem, e enquanto nos concentramos em curá-la da maldição, também queríamos curá-la dos ataques de pânico, mas depois do episódio da biblioteca, fiquei ciente que eles ainda a torturam.

Meu corpo tremeu, minhas pernas tremeram. Ele sabia.

— Você não é a única a ter problemas.

Eu deveria dar essa liberdade a ele? Deveria deixar que ele fosse tão longe? Atravessasse o limite imposto por mim e por todos os meus medos? Decidi que não discutiria minha saúde mental com ele.

— Você esteve com outra garota enquanto estava com a Bettany? — Cogitei a ideia de perguntar e me senti forte o suficiente para aguentar a resposta.

— Com várias. — Respondeu depois de um longo suspiro e meu coração foi despedaçado de forma que eu sabia que só ele seria capaz de fazer. Afundei mais a cabeça entre minhas pernas. Eu não precisava ouvir mais nada, só queria ir para casa. — Eu também tenho problemas, garota! — Ele socou a porta com força, fazendo com que meu corpo se afastasse um pouco. — Abre isso!

Enxuguei as lágrimas com o dorso da mão, percebi que era inútil ficar sentada sobre o chão gelado do seu banheiro, Severo podia puxar a varinha e com um simples feitiço, abri-la e me arrancar de lá. Eu precisava me levantar e encará-lo de forma madura, o que estava longe de acontecer. O que ele quis dizer com "não vou agora" e "Hogwarts não vai ser mais a mesma coisa"? Foi isso que eu o escutei falar com o corvo.

Abri a porta e como se ele quisesse me impedir de me arrepender, a empurrou com força e tive de me afastar para não ser atingida. Ele procurou pelos meus olhos e estava ofegante, como se tivesse corrido. Estava mais pálido que o normal, mas ainda se mantinha em pé.

Meus olhos estavam com um contorno vermelho, denunciando realmente que eu havia chorado mais do que necessário. Senti vontade de me esconder atrás de alguma coisa, puxar a toalha de rosto e me esconder até que a imagem que ele estava tendo de mim agora sumisse para sempre. Mas eu parei de desejar isso no instante em que suas mãos me puxaram para si, me obrigando a ficar ali, tão perto de seu peito nu, sentindo o seu cheiro, absorvendo seu calor, experimentando a sensação de estar novamente protegida, mesmo que ele fosse o único caos existente na minha vida.

— Eu quero mesmo ir embora. — Arfei contra seu peito e ele suspirou assentindo. — E quero ir pela lareira, sozinha, do mesmo jeito que vim.

— Eu não quero que você me odeie. — Agarrou minha cabeça me forçando a afastar dele, até que estivesse longe o suficiente para que me olhasse nos olhos. — Agora você é minha e se você voltar a me odiar algum dia, eu é quem vou me odiar por isso.

A geleira em meu peito se desfez ao ouvi-lo dizer "minha". Contanto que eu fosse dele, não me importava com todo o resto.

— Não é tão difícil odiar você. — Eu enruguei o nariz fazendo uma careta e agora foi a vez dele de se afastar para me olhar melhor. — Se parece tanto com um bastardo que fica muito fácil.

Ele sorriu para mim.

— O acesso de Aurora ao meu escritório estava condicionado à poção que ela foi buscar, assim que ela saiu de lá com o frasco na mão, a autorização foi desfeita, isso é a verdade. Sobre a comunicação que ouviu, eu estava sendo avisado que serei convocado em breve, e quanto às garotas com quem fiquei estando com Bettany, sou um ser desprezível, mas você sempre soube disso. Então venha, vamos comer antes que vá embora.

O tom dele deu a conversa por encerrada e eu me senti intimidada o suficiente para não retrucar. O segui até a cozinha e me servi do suflê, mastiguei lentamente um pedaço pequeno e ele se sentou à minha frente analisando cada movimento que eu dava.

Não era de se espantar que ele estivesse em um cubículo coberto de preocupação, meus ataques de pânico causavam isso nas pessoas. Meus pais, por exemplo, passavam a maior parte do tempo se preocupando em me manter bem comigo mesma para que eu não sofresse, mas era inútil. Minhas desconfianças e o medo de ninguém nunca gostar de mim exatamente como eu sou só pioraram quando precisei me provar digna da magia.

E não tinha a ver com as pessoas que me rodeavam, mas sim comigo mesma. Eu sabia disso e sempre soube, mas nunca fui capaz de mostrar isso para aqueles que estavam de fora. Consigo usar bem a minha mente afiada em inteligência para mascarar meus medos e minhas crises.

O olhar dele, carregado de perguntas, me analisava de momento em momento, buscando uma compreensão coesa para tudo que havia acontecido. Meu prato já estava no fim, então seria questão de minutos até eu descer ao hall, embora, agora que já estava mais calma e conseguia pensar com mais clareza, cheguei à conclusão de que não queria partir, mesmo que precisasse.

— É irritante não conseguir saber o que você pensa.

Severo se inclinou um pouco sobre o balcão apoiando-se na lateral, soltei o ar que havia prendido nos pulmões e engoli finalmente o pedaço que mastigava.

— É simples, não quero que você sinta pena de mim. Tenho problemas, mas não quero que as pessoas sintam necessidade de medir as palavras ou suas atitudes só porque eu corro o risco de surtar e entrar em uma crise de choro.

— Eu não sinto pena de você, Hermione, quero protegê-la. — A sinceridade exalando pela sua voz rouca me deixou um pouco instável. — E para isso, preciso que me deixe ficar mais perto.

— Você acha que existe um futuro para isso? Para nós?

Vi quando sua mandíbula contraiu, nem mesmo ele sabia exatamente o que nós estávamos fazendo. Mas eu podia colocar a culpa da adolescência sobre a minha ânsia de saber do futuro, era uma necessidade saber a todo o momento o que me esperava lá na frente, mesmo tendo a convicção de que nada era certo.

— O futuro é incerto. — Sorriu debochado. — Você não pode me pedir para prever isso.

— Não estou pedindo isso. — Fechei os olhos buscando pacientemente as palavras certas. Severo era um homem inteligente, sabia muito bem ao que eu me referia, mesmo assim abusava do poder da provocação e da minha grande fraqueza por ele. — Só fiquei pensando que, talvez, eu esteja querendo saber se você pretende se apaixonar por mim.

Levei o copo de vidro até à boca, sentindo a água gelada descer pela minha garganta, exatamente no momento em que vi as sobrancelhas dele arquearem.

— Eu pretendo várias coisas com você.

Ele saiu de seu lugar, atravessando e cortando a ilha que nos separava, pousando uma de suas mãos sobre a minha bochecha e respirando contra a minha pele. Inclinando-se em minha direção, encostou a ponta do seu nariz adunco na ponta do meu e sorriu gradativamente logo depois.

— Quero beijar você. — Sussurrou enquanto beijava o canto da minha boca e um gemido baixo de resmungo me escapou quando ele desviou, traçando beijos pela minha mandíbula, chegando a minha orelha rapidamente, mordiscando o lóbulo e fazendo com que minhas pernas se sentissem inúteis.

— Quero fazer carinho em você e nessa sua pele sedosa. — Acariciou com seu polegar a minha bochecha corada.

— Quero experimentar seu corpo. — Sua voz rouca repercutiu pelo meu ouvido e, mais uma vez, estava ardente como brasa quando ele abandonou as carícias no meu rosto para descer até a minha cintura, seguida pela coxa e alisou aquela região que havia se tornado um tanto quanto íntima dele.

— Quero sentir cada parte sua. Inclusive, eu quero que você seja inteiramente minha por um tempo sem data de validade prevista.

— Severo... — Arfei apoiando minhas mãos no seu ombro e o afastando o suficiente para olhar seu rosto, onde sua boca ainda tremia da excitação evidente. — Meu corpo está tremendo tanto que acho que vou desmaiar. — Eu disse em um tom baixo de súplica, implorando que se isso me acontecesse ele não me abandonasse ali.

Sua atitude foi diferente do que eu esperava, enroscou seus braços em volta da minha cintura e apoiou sua cabeça na curvatura do meu ombro direito. A respiração lenta e fulminante estava ocupando seu espaço contra minha pele, sentia ele me apertando com mais força a cada vez que meu peito soltava algumas batidas frenéticas de intensidade sem igual. Fui invadida por uma vontade de conhecê-lo melhor, de saber quem ele era e por onde andou. Podia ver em seus olhos quantos segredos escondia.

— Eu desejei tanto que minhas fantasias se tornassem reais, que você também me desejasse e agora parece não passar de um sonho que venho vivendo acordada. Tenho medo de você me esnobar depois, sair com outra garota e perceber que eu sou só uma adolescente chata de dezessete anos.

Ele respirou pesado contra a minha pele, não via seu rosto, mas podia jurar que a sua expressão era de impaciência.

— Não tem a mínima chance disso acontecer, Hermione. Você literalmente já pôs fogo em mim uma vez, como isso poderia ser chato? E não vou te deixar escapar agora assim tão fácil.

— De onde você é?

Desviei o assunto de mim. A pergunta saiu de surpresa, mas não estava arrependida por fazê-la, minha curiosidade e ansiedade queriam e precisavam daquela resposta. Ele se afastou até que conseguisse me encarar, sua expressão não era uma das melhores, mas ainda assim melhor do que eu esperava.

— Isso é algo que eu deixei para trás. Hogwarts e a minha vida aqui são tudo que me importa.

Ele deu aquela conversa por encerrada e entendi que era hora de ir para casa. Senti sua mão espalmada pela minha cintura enquanto eu juntava as mãos na frente do corpo de maneira tímida, isso o fez soltar um riso pretensioso como se dissesse vivamente que gostava da forma como a minha timidez o atingia. Seus olhos sempre observavam avidamente minhas atitudes. O fitei quando paramos à porta, era aquele momento que eu precisava dizer "até logo, nos vemos na aula da segunda".

— O que? — Perguntou.

Observei sua testa levemente franzida e sorri com a sua expressão preocupante. Alisei sua testa com o indicador antes de me explicar.

— Não vou vê-lo amanhã. — Disse mais baixo do que costumeiramente diria.

— Quem disse? — Arqueou uma sobrancelha enquanto me analisava com os olhos bem abertos.

Toda a encrenca composta por seus atos me atraía. A força divina da sua mão imposta em minhas costas jogou-me sorrateiramente contra a porta de um jeito que meu peito ardeu e exigiu de mim mais do que eu realmente poderia dar. Eu o queria cem por cento do meu tempo e na maioria das vezes, aquilo me assustava, mas em outra eu gritava: "essa sensação é tudo que eu preciso", então não perdi tempo e correspondi o seu beijo imediatamente e suguei seus lábios de forma selvagem, mas crucial para o meu sangue que fervia. Queria sentir seu gosto e cessar temporariamente a alucinação de que acordaria amanhã e perceberia que aquilo não passara de mais uma fantasia que eu estava vivendo acordada.

Suas mãos deslizaram impetuosas pelo meu tronco, descendo ao meu traseiro e me impulsionando para cima até que minhas pernas estivessem enroladas na altura do seu quadril, onde eu me senti confortável. Queria permanecer ali e passar menos tempo pensando que a qualquer momento minha ilusão adolescente acabaria me frustrando.

Buscava definições incógnitas para tudo que estava sentindo, para as borboletas inquietas no meu estômago e a forma brusca como meus pensamentos dominavam cada parte instável de mim. Meu corpo foi jogado contra o sofá, mas ele não me abandonou em nenhum momento, estava sobre mim, distribuindo beijos quentes e molhados pela extensão do meu pescoço, mordiscando levemente.

Aquela atitude fazia cada pelo existente em meu corpo eriçar, e pensamentos impuros dominarem meus atos, fazendo-me contraditória. Eu o queria mais do que qualquer coisa. Ele sabia como despertar meus hormônios recém aflorados, sabia exatamente onde tocar, inclusive, eu gemi alto sentindo seus dedos subindo pela minha coxa, me fazendo amolecer em questão de segundos.

Tão bruscamente quanto começou, ele parou, e o vi se levantar, ajeitando o cabelo e sorrindo como se me dissesse "por hoje eu não vou mais te beijar" e o amaldiçoei em alto e bom tom, uma pena que minha varinha estava no fundo da minha bolsa. Desci minha saia e me pus de pé, peguei a mochila com raiva, jogando-a sobre os ombros e saí pisando firme porta afora.

Alguns minutos depois eu fazia o caminho de volta a minha Sala Comunal e todos que cruzavam comigo em vestes informais, me lançavam olhares como se questionassem porque a monitora da Grifinória estava fardada em um sábado a noite. Cruzei com a professora Minerva no Salão Principal, e ela me pareceu querer respostas, quando me olhou e, provavelmente, notou meus lábios inchados e os cabelos bagunçados denunciando minha negligência. Observei enquanto seu olhar me acompanhou subir para a torre da Grifinória.

Cruzei o buraco do retrato, respirando fundo, detestando-me por estar fazendo algo tão escondido dos meus amigos e dos meus pais. Eu os amava e a dor de decepcioná-los era bem grande, mas tinha minhas dúvidas se todo aquele medo de alguma forma valeria a pena. Meus pais me amavam, eu tinha certeza disso, os olhos deles brilhavam quando me contemplavam de uma forma única e divina, que eu provavelmente só entenderia quando também fosse mãe.

Olhei pros meus amigos largados em suas poltronas favoritas, mas subi rapidamente ao meu dormitório antes que algum deles percebesse que eu já tinha voltado. Precisava dormir e descansar minha cabeça daquela noite turbulenta, cheia de informações e, definitivamente, maravilhosamente excitante. Precisava dar um pouco de ar e espaço para o meu coração que antes estava confuso com todos os sentimentos e que agora pulsava com uma felicidade que eu mal conseguia explicar.


— Você tem mesmo uma reunião com os outros monitores no domingo de manhã? — Allie me perguntou pela terceira vez.

— Tenho. — Respondi suspirando.

— E os professores também?

— Sim.

— Então o professor Snape vai estar lá? — Vi que ela havia se deitado ao meu lado, com aquele sorrisinho de quem iria soltar alguma pérola.

— Acho que sim, ele é um dos diretores de Casa. — Tentei dar de ombros, mas, por estar deitada, tudo que consegui fazer foi franzir o cenho e cobrir os olhos com o antebraço, escondendo meu rosto.

— Ouvi a professora Sinistra conversando com a professora Minerva que iam mudar a dinâmica do almoço aos domingos. Os professores vão começar a almoçar com os alunos, nas mesas das Casas. — Ela rolou, ficando com a ponta do seu queixo na minha barriga e observei seu olhar intenso. — A professora Sinistra disse que queria se sentar do lado do professor Snape. Não quero que ela namore o professor Snape, ele é legal e você também.

Ela fez uma careta e seu bico foi tão fofo que eu fiquei decepcionada por não dizer nada a ela, ao invés disso, preferi deixar que pensasse que a professora Sinistra fosse ficar com ele porque não queria quebrar a promessa que fiz a ele no outro dia. Não podia dizer nada a ninguém e contar pra Allie era um risco enorme, ela é espontânea demais e poderia soltar a informação sem querer.

— A professora Minerva disse que ele era um bom partido, mas que era comprometido e a professora Sinistra bateu o pé dizendo que eles tinham terminado. Aí elas foram embora e não consegui ouvir mais nada.

Eu sabia sobre a ideia dos professores em se misturar aos alunos nos almoços dos domingos. Foi uma sugestão do próprio diretor, que disse que os almoços de Natal tinham sido a inspiração para a ideia. Mas meu estômago embrulhou ao imaginar Aurora Sinistra e Severo juntos na mesa de uma das Casas, e como ela sabia do fim do relacionamento?

Uma vontade enorme e talvez um sentimento possessivo foi a minha deixa para me levantar dali e vasculhar minha mesinha de cabeceira, procurando pelo meu galeão desesperadamente. Ouvi Allie balbuciar alguma coisa enquanto o procurava. Bufei, parando, puxando pela memória, até Allie parar na porta com um sorriso sapeca, balançando o galeão na mão. Semicerrei os olhos quando ela o balançou em movimentos circulares enquanto eu a analisava mentalmente.

— Ficou bem interessada em encontrar a moeda e eu percebi que foi logo depois que contei sobre o que a professora Sinistra disse. — Allie Sorriu estridente. — Vai escrever para ele?

Seus olhos brilharam com esperança e eu apenas assenti enquanto ela pousava a moeda na palma de minha mão. Apanhei minha varinha e analisei meu galeão, tentando descobrir qual o feitiço que Severo tinha colocado nele para que fosse usado como uma chamada. Eu queria falar com ele, não só escrever. Procurei pelos feitiços que ele tinha incluído na minha moeda, mas eles eram tão complexos e alguns eu nunca tinha visto na vida, desconfio que sejam até ilegais. Frustrada, fiz uma nota mental de que, no meu tempo livre da terça feira, iria até a Seção Restrita da biblioteca para pesquisá-los.

Enviei uma mensagem para ele e o nervosismo ficou evidente nas minhas atitudes nos momentos seguintes, andando de um lado para o outro. Pensei por um momento que o tão sonhado buraco — que eu sempre desejei quando estava com Severo — logo se abriria abaixo dos meus pés, no meu dormitório, enquanto roía o cantinho da minha unha. Cinco longos minutos de ansiedade haviam se passado quando meu galeão vibrou sobre a minha mão e soltou um som estridente que quase me fez saltar de susto.

— Oi. — Tentei soar o mais fria possível. — Hum… você está no castelo?

Apressei em dizer, antes que ele perguntasse o porquê de meu tom seco e tão mergulhado em raiva.

— Bom dia. — Fechei os olhos depois de ouvir seu tom rouco, mas terminantemente suave. — E sim, estou. Estou no meu escritório, quando você me escreveu estava pensando em falar com você.

Ouvir o tom monótono dele me fez rir. Por Merlin, como eu iria conseguir ser dura se aquele homem tinha um dom natural de me encurralar?

— Você falou com a professora Sinistra ontem? Vocês tiveram algum contato depois que eu saí do apartamento?

Fechei os olhos tendo dúvidas reais se essas eram as perguntas que eu realmente queria ter feito, mas quando ele suspirou, tive a certeza de que a maioria das respostas para elas foi sim e obriguei meus olhos a permanecerem fechados, pois se os abrisse tomaria consciência do efeito delas.

— Por que não me disse nada?

— Não achei que fosse necessário.

Severo foi direto e não era exatamente o que eu esperava, pensava que talvez ele fosse arrumar desculpas ou simplesmente se defender, mas ele foi especificamente sincero, e me deixou espantada, surpresa e enlouquecida com tudo aquilo. Que tipo de homem não arruma sequer uma desculpa esfarrapada? Do tipo "eu esqueci" ou "ah, achei que não tivesse problema sendo que somos colegas de trabalho". Que tipo de homem era Severo Snape?

— Ela me chamou para um drink e respondi que tinha acabado de sair de um relacionamento e precisava de um tempo sozinho.

— Ela está interessada em você.

— Eu sei.

— Você sabe?

— Sim, eu sei. — Ele bufou.

— E como você soube?

— Pelo jeito como ela me olha. — Ele fez uma pausa para respirar, mas depois prosseguiu. — Você me olha quase da mesma forma.

— Quase?

— Quase. Porque eu não olho para ela da forma como eu olho para você, então o resultado do olhar dela, é diferente.

— Isso é estranho.

Mordi meu lábio inferior, tentando não soar tão espantada com a sinceridade dele.

— O que é estranho, Hermione?

— Você não ter arranjado nenhuma desculpa para se safar.

Ele suspirou e notei sua impaciência.

— Se eu estivesse aqui como um colegial com dezessete anos e provavelmente só quisesse te levar para cama, arrumaria uma desculpa, aliás, uma bela desculpa, mas não é isso que eu sou e não é só isso que eu quero. Quero você, achei que isso já tivesse claro.

Esperei, pois o barulho que fez indicou que falaria algo a mais.

— Não sou o tipo de homem que inventa desculpas para fugir da verdade.

Passei a mão pelo cabelo úmido fechando os olhos com força, não assumiria, mas adorei escutar as palavras que saíram de sua boca.

— Preciso me arrumar para ir à reunião de monitores e para o almoço e você está me distraindo.

— Que roupa vai usar? — Sua voz soou mais alto do que realmente ela seria.

Éramos dispensados dos fardamentos, pois a reunião foi marcada em um domingo e era nosso dia de folga. Severo sabe disso, ele é diretor de uma das Casas. Apenas ri com a pergunta inusitada, tentando entender onde ele gostaria de chegar com essa pergunta.

— Vestido, provavelmente.

— Acima ou abaixo dos joelhos?

— Acima. — Usei meu tom de voz mais provocante que poderia conseguir.

— Resposta errada, Srta. Granger.


Eu estava estupidamente arrumada, não era do meu feitio me vestir bem em Hogwarts, mas tinha a leve impressão de que Severo iria aparecer na reunião de monitores. Desci as escadas com Rony e fomos para a sala de aula onde aconteciam as reuniões quinzenais do diretor com os monitores.

Meu andar era tímido e tive uma súbita vontade de cobrir minhas pernas, talvez pelo fato de Severo ter ressaltado "suas pernas são bonitas, mas não para serem mostradas a qualquer um". Seu tom possessivo com certeza me deixou desconcertada, mas, principalmente, surpresa. Se eu tivesse em meu juízo perfeito, eu diria que era um comentário machista, mas, como eu estava encantada com Severo Snape, agi como uma idiota e apenas sorri. Ainda bem que parte do meu cérebro ainda funcionava, assim, aqui estava eu com meu vestido acima dos joelhos, rodado da cintura para baixo e justo para cima.

A professora McGonagall nos esperava na saída de nossa torre, infelizmente, estava acompanhada da professora de Astronomia. Ela surgia em todo lugar agora, e parecia muito próxima de Minerva, mais do que antes, ou talvez, eu nunca tenha reparado nas duas juntas. E agora eu tinha algo mais para eu admitir: dividir Minerva McGonagall também era horrível. Ela era a minha figura de mãe em Hogwarts, embora tenha seu jeito severo e duro, ela sempre me tratou de madeira dócil, hospitaleira e receptiva. Era um exemplo de mulher independente para mim, e me irritava saber que outras pessoas podiam ser tão próximas dela quanto eu era.

Meu ciúme possessivo estava se tornando, gradativamente, uma desqualificação pessoal. A professora Sinistra estava aumentando sua lista de motivos para odiá-la e piorava quando, com sua voz estridente, me dava a leve impressão de ter meus tímpanos estourados. Cobri meus ombros com minha jaqueta jeans e continuei a segui-las com Rony ao meu lado.

Pousei os olhos sobre as duas figuras femininas que caminhavam em passos lentos, e comecei a imaginar que tipo de mulher a professora Sinistra era. Provavelmente a fácil de levar para a cama. Rapidamente me repreendi pelo meu pensamento desrespeitoso e misógino. Me controlei em busca de conceder tranquilidade ao meu consciente ou ele me envergonharia por ser uma mulher que pensava tão baixo de outra.

Minha vergonha de ter sido tão indelicada com os pensamentos, fez minha mente viajar de volta a meus pais. Quando eu os envergonhava com alguma afirmação distópica, mamãe ficava triste e se calava por mais que uma semana, papai se tornava um homem impulsivo, e insuportável. Tinha sorte de só ter passado por isso apenas duas vezes. Na maior parte do tempo, eu era realmente uma garota que eles se orgulhavam.

Fui arrancada de minhas lembranças com meus pais quando a voz esganiçada da professora Sinistra me atingiu mais uma vez, dessa fora pior que a outra, já que a vi praticamente se atirar sobre Severo. Fiquei imóvel e apertei o braço de Rony com tanta força que ele teve que o puxar para distante de mim.

— Desculpe. — Sibilei.

Fiquei enciumada de uma forma tão louca que podia perder as estribeiras se continuasse a olhar para eles tão fixamente. Severo a cumprimentou com um sorriso, coisa que ele não dava a ninguém além de mim, e meu olhar se tornou intenso a partir dali. Fui me aproximando vagarosamente deles, o olhar que ele pousou sobre mim fez minhas bochechas coraram o bastante por uma semana. Foi a vez de Minerva cumprimentá-lo.

— Que bom que veio, Severo, estávamos falando de você agora há pouco, eu e Aurora.

Ela sorriu para ele e continuou a seguir pelo corredor das salas de aula, percebi que era a minha vez de cumprimentá-lo ou, pelo menos seria, se Rony não tivesse passado a nossa frente e seguido a professora Minerva murmurando um "bom dia senhor" quando passou por Severo.

— Bom dia, Srta. Granger. — Ele disse para mim, analisando minhas pernas e subindo até o meu rosto. Senti que minhas pernas bambearam e não respondi, ele sorriu ironicamente em minha direção. — Belas pernas. — Sussurrou, antes de se afastar.

A professora Sinistra o esperava na porta da sala e me perguntei se ele sabia como eu me sentia em relação àquilo? Acho que não, pois quando ela se inclinou para segurar o seu braço ele lhe deu de muito bom grado. Respirei fundo e decidi que fingiria descaradamente que aquele casalzinho não me afetava em absolutamente nada e passei por eles na porta da sala exalando uma confiança inabalável.

Me joguei contra o encosto da carteira sentindo vontade de vomitar a cada vez que os olhava. Um bom observador notaria que algo estava me incomodando. Rony se sentou ao meu lado esquerdo e Sinistra e Severo do lado direito de nós, nas cadeiras destinadas aos professores. Todos nós olhávamos fixamente para frente, esperando que a reunião finalmente começasse.

— Por que você está tão nervosa? — Rony disse enquanto ria de mim como se a minha inquietude fosse motivo para piadas. — Ele nem gosta dela.

— Isso não dá a ele o direito de se sentar de braços dados com dela.

— Eu sabia! — Ele riu e percebi como chamou a atenção dos que estavam mais próximos. — Vocês estão envolvidos.

— Não! — Respondi rispidamente.

— Ouvi ele elogiar suas pernas.

— Ah, meu Merlin, não acredito nisso.

Soltei um suspiro e coloquei as mãos sobre o rosto. Me prontifiquei a ignorar Rony durante toda a reunião e depois providenciaria uma distância segura durante o almoço. Severo sorriu de alguma coisa que Sinistra falou e meu estômago embrulhou só de imaginar que eles poderiam passar o dia todo assim, e essa constatação me atingiu com força, porque esse era um dos maiores problemas entre nós: nunca seríamos assim. Nós não poderíamos ser vistos sem que fôssemos julgados impiedosamente pela sociedade, pelos meus pais e pela escola. Nós nunca poderíamos andar de mãos dadas ou mostrar afetividade em público, sempre seríamos um segredo. Pensar nisto fez como se meu coração tivesse acabado de ser atingido por um trem, precisei coçar os olhos para afastar as lágrimas que ameaçavam denunciar meu choro silencioso.

— Ei! — Rony me cutucou. Crispei os lábios e mantive a pose forte e dura, mal movi os ombros. — Por que está chorando? — Perguntou.

Notei que Severo se inclinou um pouco para frente e tive certeza de que só assim que ele desvencilhou das garras de Sinistra, o que me deixou ainda mais irritada.

— Hermione. — Rony tentou, inutilmente, segurar minha mão, mas eu a afastei rapidamente.

— Srta. Granger...

Sua voz corroeu meu peito, mas não daria o braço a torcer. Ele precisava desse gelo. O escutei bufar, mas permaneci imóvel.

— Hermione.

Reconheci a voz que me chamava na fileira de carteira após a minha, tive certeza de que Téo estava esperando me encontrar aqui na reunião para me perturbar. Virei lentamente a cabeça observando seus olhos de súplica, mas ele os pousou sobre nosso professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, depois engoliu em seco e pareceu que iria fugir, porém eu já o olhava esperando por respostas. O que ele queria, afinal? Me humilhar na nossa conversa anterior não fora suficiente?

— Será que eu posso falar com você? Vai levar só alguns minutos, eu prometo.

Olhei para Severo propositalmente e vi seu olhar de questionamento, como se dissesse "você vai mesmo sair com esse cara?". Pensando em alguma forma infantil o suficiente para fazê-lo se sentir como eu estava me sentindo, confirmei com a cabeça para Téo e podia jurar que escutei os dentes de Severo trincar quando nós dois saímos da sala. Um sorriso vitorioso adornou meus lábios.

Experimente do seu próprio veneno, professor Snape.

Fiquei encarando Téo na sala de aula vazia que entramos, satisfeita com minha atitude anterior. Gostei de me sentir um pouco superior à Severo, nós tínhamos que ser discretos e enquanto isso ele podia se engraçar para cima de outra? Especialmente com Sinistra? Ela sempre seria mais próxima dele do que eu na escola, pois eram colegas de profissão, e isso não facilitava as coisas para mim nem para o meu coração, que parecia uma bomba relógio, e impacientemente, escutava todas as desculpas de Téo, fingindo uma tranquilidade que não existia.

Estava mais nervosa agora por conta de Severo, do que estava antes quando estava na sala da reunião. Meu coração acelerou ao sentir Téo segurar a minha mão, percebi o quanto ele poderia ser insistente, mas não tanto àquela altura do campeonato.

— Eu sinto muito. — Ele disse pela milésima vez e eu percebi que não tinha paciência para aquela conversa, estava nervosa demais com outros assuntos. — Aquilo que eu disse sobre a sua virgindade... — Foi aí que ele conseguiu minha atenção para a conversa. — Estava mentindo, não foi nada daquilo.

Minha mão realmente queria reagir ao que sentia, mas preferi ignorar meu ato e deixá-lo incólume.

— Se são as minhas desculpas que você quer, — Puxei minha mão — eu te desculpo.

Mas ele agarrou minha mão outra vez e me puxou, me beijando sem o meu consentimento, Téo nunca me dava tempo para desvencilhar; ele pensava e fazia. O beijo não durou tempo suficiente para se tornar intenso, pois logo que o afastei, ele pareceu confuso. Eu estava certa de que estar furiosa era pouco.

— Qual é o seu problema? — Puxei minha varinha. — Você me beija sem perguntar se eu quero isso! Se você quer ser meu amigo, ótimo! Eu quero isso, mas se não for isso que você quer trate de me esquecer ou vou azará-lo.

Não queria lançar nenhum feitiço nele, mas era como se Téo se negasse a aceitar a verdade, mas agora ele estava tão cabisbaixo que fiquei repleta de culpa.

— Desculpe, não queria ameaçá-lo com minha varinha, estou nervosa.

— Nós podemos sair qualquer dia, como amigos.

Seu convite me fez parar novamente, Téo era mesmo insistente.

— Eu não sei.

Pressionei os lábios enquanto analisava sua expressão ansiosa por uma resposta positiva.

— Pense nisso, só... pense.

Assenti.

— Vem, vamos voltar para a reunião.

Saímos da sala vazia e, para o meu espanto, Severo estava parado de frente para a porta da sala, do outro lado do corredor, com os braços cruzados. Comecei a me perguntar se ele tinha visto algo para me odiar dali em diante, mesmo que soubesse que Téo poderia ser persuasivo e até mesmo controlador quando se tratava de domínio, imaginei que ele estivesse se questionando sobre esse interesse insistente de Téo por mim.

Quando Severo percebeu que estávamos voltando para a sala de reunião, desfez a tensão nos braços e também retomou seu caminho para dentro dela, fazendo meu corpo vibrar inexplicavelmente. Talvez ele não tivesse visto nada, mas sim o suficiente para querer atingir Téo de alguma forma, eu sabia que ele poderia se realmente quisesse. Sua posição dentro de Hogwarts poderia ser um grande incentivo para a primeira detenção de Téo, mas se fosse o caso, trataria disso com ele mais tarde.

Aliás, Severo também precisava ouvir algumas coisas, principalmente quando estava relacionado a professora Sinistra. Quando entrei na sala e vi seus braços sobre os ombros dela foi como se tivesse me lançado um Feitiço Estoporante direto no peito. Quis voltar imediatamente para o meu dormitório, não suportaria aquilo. Aproximei-me de Minerva, evitando olhar para onde eles estavam.

— Professora McGonagall, será que poderia me liberar? Acho que não estou me sentindo bem. — Menti.

— Qual o problema Srta. Granger? É grave o suficiente para que precise ir até a Ala Hospitalar? — Ela me analisou por detrás de seus óculos.

— Não, é só uma enxaqueca muito forte, comum nessa fase do meu ciclo, mas está me incomodando bastante.

Ela me analisou ainda mais.

— Certo. Sr. Boot, acompanhe a Srta. Granger até a Torre da Grifinória, ela deve descansar. No entanto, não está dispensada do almoço fraternal. Srta. Granger, tome uma poção e descanse, mas compareça dentro de duas horas ao Salão Principal para o almoço.

Ela nos dispensou com um aceno de mãos e pelo breve segundo antes de me virar para o corredor, meu olhar encontrou o de Severo. Desviei o meu e segui Téo pela saída.

Rumei para o banheiro assim que cheguei à minha Torre, não queria ter tempo para pensar em Severo nem nos nossos métodos furtivos. De alguma forma eu não saí ilesa de suas mãos, a forma como ele agia me fez perceber que eu era imatura demais para um homem como ele, mais velho e, provavelmente, mais preparado que eu para qualquer coisa; inclusive para um relacionamento. Ele precisava estar com alguém que não fosse tão frágil e proibida quanto eu sou. Em algum momento eu não seria capaz de satisfazê-lo. Eu sou uma adolescente de dezessete anos com medos e virgem, e pouco atenderia às suas necessidades, principalmente como homem.

Entrei no banheiro, decidida que a nossa conversa seria definitiva, em poucos dias havia me tornado ciumenta e possessiva, a professora Sinistra o tocava e ele parecia gostar. E ainda havia o fato de saber que ele saiu com várias mulheres no período em que esteve com Bettany, isso fazia eu me perguntar se ele não faria comigo, afinal, eu sou infantil e sem graça e, até agora, nada parecia certo. Estava cada vez mais confusa e insegura.

Apesar de minha pele pálida se parecer com um boneco de neve, não tive a intenção de colocar algo no rosto para esconder a palidez. Vesti um moletom, pelo frio que, de repente, pareceu vir à tona e prendi os cabelos no alto da cabeça quando saí do banho. Apanhei meu galeão na fútil esperança de ter recebido uma mensagem dele e para o meu descontentamento, não havia nada. Pensei na probabilidade dele não querer falar comigo, não tirava sua razão, é claro, mas também não tiraria sua culpa.

Passei a hora seguinte tentando esvaziar minha mente de qualquer pensamento, me concentrado no calor confortável das minhas cobertas, mas não sendo possível me esconder mais, desço as escadas e encontro Allie na Sala Comunal, deduzo que o restante dos meus amigos já tinha seguido para o almoço e me junto à ela na descida até o Salão Principal.

Não fiquei surpresa em ver Sinistra ao lado dele na mesa da Sonserina, e para variar, os braços dela estavam enganchados nos seus. Desta vez, eu fiz questão de encará-lo para que ele soubesse que aquilo estava me chateando. A professora lhe mostrava alguma coisa no Profeta Diário e gargalhava basicamente sozinha, já que os olhos de Severo estavam completamente fixos em mim.

— Olá Srta. Granger perdeu nossa agradável reunião. — O diretor Dumbledore disse gentilmente. — Melhorou?

— Sim, obrigada professor, foi apenas uma pequena indisposição.

Continuei a me arrastar em direção a mesa da minha Casa, mas a professora Sinistra notou minha presença e me parou, sorrindo para mim, como se fôssemos cúmplices. Apenas crispei a testa, ignorando-a completamente.

— Vi o Sr. Boot, ele me disse que foi quem lhe levou até sua Torre. — Ela sorriu. — Eu acho que ele combina com você, Srta. Granger.

Severo se remexeu na cadeira desconfortável e eu acabei sorrindo.

— Ele é bem legal mesmo, também acho que combinamos.

Encarei Severo em seguida para vislumbrar sua expressão descontente. Se ele gostava de jogar esse jogo, eu poderia fazer isso.

— Ele é negligente. — Severo falou e os olhos do professor Dumbledore se voltaram para ele por ter entrado na conversa tão repentinamente. — Estou com uma detenção praticamente pronta para ele, só aguardando que cometa mais uma falha e vou puni-lo por, no mínimo, uma semana.

Ele sabia que aquela conversa soava como uma ameaça. Que bastardo!

— Sério, professor Snape? — Respondi, encarando-o mais uma vez. — Não me lembro de Téo fazer o tipo negligente. — Dei ênfase à palavra que há pouco ele tinha usado. — Muito pelo contrário, todos os alunos da Corvinal são inteligentes e dedicados em tudo que fazem, diferente de muitas pessoas que conheço aqui na escola.

Meu tom de voz rudimentar e pesado pareceu fazê-lo voltar a si, mas, ao contrário do que imaginei que ele fizesse, como, por exemplo, colocar uma carranca no rosto, ele apenas sorriu provocativo.

— Eu acho que a minha dor de cabeça voltou, professor Dumbledore, posso ser dispensada do almoço? Preciso me deitar de novo.

— Acredito que é preciso estar bem consigo mesma antes de confraternizar com outras pessoas, Srta. Granger. — Disse Dumbledore em uma voz serena. — Dito isto, tem minha autorização para subir ao seu dormitório.

— Eu a acompanho até a Torre da Grifinória. — A voz do professor Snape soou.

Os olhos de Dumbledore cintilaram em sua direção, antes de responder com um aceno de cabeça positivo. Agradeci e saí andando vagarosamente em direção às escadas, sem olhar para trás. Subimos em silêncio, eu na frente e ele atrás e torcia mentalmente para que ele não fosse para me encurralar. Queria conversar, é claro, mas não ali, correndo risco de alguém nos ver. E acho que até tivesse medo da nossa conversa se tornar um pouco mais aflita do que aparentemente poderia ser, ou talvez eu simplesmente tivesse medo de nos reconciliar e acabarmos sendo pegos aos beijos em um canto qualquer do castelo. Eram vários planos e medos, todos colidindo em um só. Coloquei meu pé no primeiro degrau da escada do segundo andar sem dizer uma palavra, mas a voz dele me alcançou.

— Na sala de aula de Feitiços. — Gesticulou com a ponta do queixo — Agora.

Quase ri do seu tom autoritário, mas ele não parecia estar para brincadeiras. E eu também continuava tão furiosa quanto antes.

— Ele a beijou, eu vi. Então, por que é que você está agindo com tanta infantilidade?

Enquanto falava entre um farfalhar e outro, fechou a porta suavemente.

— Não lhe incomoda? — Cruzei os braços, parada a uma distância segura do seu corpo, exatamente onde ele não poderia me afetar. — O fato de ele me beijar? — Franzi a testa aguardando sua resposta.

— Incomoda bastante.

— Então estamos quites, agora pode sair. — Indiquei a porta com o dedo.

— Está me mandando embora?

Engoli em seco com a sua pergunta, mas temia que a minha resposta o fizesse ir embora de verdade.

— Não gosto da forma como a professora Sinistra se joga para cima de você e odeio como você aceita.

Quando soltei isso, seu sorriso foi notório, mas ele ainda estava com raiva. Talvez fosse por causa do beijo, mas poderia ser por eu ter argumentado com ele sobre Téo na frente do diretor. Era tudo tão incerto quando se tratava dele, certeza era uma das coisas que nós nunca teríamos.

— Você me deixa insegura quando faz isso, diz que quer só a mim, mas abraça outra na minha frente. Eu sei que nós nunca vamos poder andar de mãos dadas, pelo menos enquanto você for meu professor, e sei que se formos vistos juntos pode nos causar problemas. Mas é ainda pior saber que você pode fazer isso com outra pessoa, enquanto eu gostaria muito que você fizesse comigo. Você passou a maior parte do tempo ao lado dela. Como acha que eu me sinto sobre isso? Claro, Téo me beijou, mas você deve ter visto que eu não retribuí e eu o afastei tão depressa que duvido que aquilo possa ser considerado um beijo de verdade. E — Respirei fundo me concentrando nos seus olhos — penso que isso entre nós não pode dar certo nem em um milhão de anos.

O susto foi grande para ele, acho que por um lado ele não esperava que depois de todo o meu discurso eu fosse tão direto ao ponto.

— Você está terminando algo que nós mal começamos?

O fato dele estreitar os olhos me deixou ainda mais desesperada, de forma oca, mas admito que colocar aquilo pra fora, fez o meu alívio se tornar crescente. Ele se moveu dois ou três passos em minha direção, talvez quatro, eu não sei exatamente, pois meu corpo estava ligado na defensiva.

— Quer que eu diga a você o que eu penso?

Encurralada entre seu corpo comprido e a parede da sala, meu plano de fuga número um se tornou vago. Permaneci intacta, imóvel no meu lugar, esperando que ele rugisse suas perspectivas sobre mim de forma rigorosa.

— Você está fugindo de mim, mais uma vez. Mas agora é diferente e você sabe disso. Não tente usar essas desculpas tolas para esconder sua insegurança, porque eu sei, eu a vejo nos seus olhos, exatamente como a vejo agora. Se sente insegura quase o tempo todo em relação a mim, tem medo de qualquer mulher que se aproxime. Porém o seu ciúme, diferente do meu, não é que eu encontre outra, mas que a cada dia você se torne menos suficiente. E por fim, acredite, isso não acaba aqui.

Sua mão escorregou pela lateral do meu corpo e de uma forma displicente ele me agarrou, abraçando meu corpo com força.

— Eu odeio você.

— Não odeia não. Odeia a si mesma porque não consegue me odiar. E Resumindo tudo, às vezes, a sua insegurança faz você se esquecer do que você realmente quer e acredite quando digo que você não quer terminar isso. Na mesma intensidade que eu também não quero que termine.

— Me manda acreditar em você, mas você não é muito confiável. — Soltei, preenchida por uma coragem impetuosa que surgiu dentro de mim.

A coragem Grifinória sempre se acentuava em momentos cruciais, como esse, em que me lembrei da demanda de um cafajeste e descobri que Severo agia como um: sair com várias mulheres mesmo tendo um compromisso, se colocar em posição de livramento tendo um pequeno caso com aluna, nesse caso eu mesma, e ainda assim, ter fôlego suficiente para flertar com a professora de Astronomia, era típico de um homem que é incapaz de ser feliz com uma única mulher.

— Para alguém como você, que precisa de várias mulheres porque não consegue se contentar com uma apenas, é realmente um caso bem complicado se criar uma confiança sustentável. Diga-me, professor Snape, já que gosta tanto de ler, posso afirmar que se tratando de literatura, por exemplo, as que prefere são os contos eróticos e abusivos, daqueles que expõe a mulher de uma forma desvalorizada? Aqueles onde homens agem como babacas machistas? Porque isso é o previsível para homens como você.

— Gosto de conversar com você, Srta. Granger. Apesar de ser uma criança, você tem um bom argumento. — Sua mão já estava sob a maçaneta. — Vamos fazer isso de novo a qualquer hora, pode acreditar. — E abriu a porta.

Mesmo que meu corpo estivesse ainda sob sua proteção, já que ele preferia manter nossas peles em contato, não acreditava na posição em que me encontrava ao receber o olhar da professora de Astronomia, que mantinha os braços cruzados enquanto nos assistia, do lado de fora do corredor. Pela expressão repugnante, nos questionava estranhamente sobre toda aquela proximidade.

Aquela altura eu não precisava ser uma expert em Adivinhação ou ser uma excelente Legilimens para desvendar as emoções de alguém, pela expressão dela, estava nítido que ela suspeitava do possível acontecimento entre mim e Severo, quando estávamos com a porta fechada. Segundos depois de receber seu olhar, o frio que me subiu pela espinha passou para ele, pois apesar de manter sua respiração tranquila, senti o quanto seu corpo ficou tenso em cima do meu.

Em questões de segundos me vi afastada a uma distância segura, olhando para a professora Sinistra e dando explicações inimagináveis, tentando em uma briga interna, inutilmente, esquecer o fato de que Severo havia me chamado de criança mais uma vez. Essa descrição sobre mim estava ficando um tanto quanto batida e eu já pensava em argumentos que pudessem o fazer mudar de ideia, no entanto, minha preocupação maior até então era Aurora Sinistra, que mesmo com o que acabara de ver — e provavelmente ouvir — mantinha seu corpo estável, apoiando-se na parede de pedra do corredor.

— Sua diretora de Casa me pediu para ver como você estava. — Ela me olhava com uma dúvida desenfreada, mas desviou seu olhar para Severo. — Porque a tradição de um almoço de confraternização diz que os diretores das Casas devem estar presentes.

Ele voltou seu olhar para ela.

— Serei breve, já desço.

Minha perspectiva era que se Sinistra tivesse ouvido algo que pudesse nos incriminar, deveríamos resolver mais tarde. Queria acreditar que ela não ousaria colocar a boca no trombone antes de ter certeza daquilo que dizia. Como se afirmasse isso, ela olhou de Severo pra mim e depois para ele de novo, e com uma postura rígida, tomou sua direção de volta ao Salão Principal.

Eu finalmente pude tentar recuperar o fôlego e pensar nas últimas palavras que saíram da boca de Severo. Nunca o imaginei como um homem que fosse possessivo e que gostasse de manter as coisas do seu jeito singular, aliás, este tipo de egocentrismo ficava exposto no rosto do indivíduo que ousasse ser assim. E Severo Snape, definitivamente, não estampava isso em suas feições. Ele era a impassividade e frieza em pessoa.

Então, mais uma vez, fui surpreendida por sua personalidade contraditória. Nunca tinha pensado nele como um mocinho, isso é fato, ele era "sinistro" o suficiente, e embora isso fosse um fato a temer, por incrível que pareça, minha tormenta sobre aquilo não se alastrou, pelo contrário, para um relacionamento amoroso, achei divertido.

— Você sabia que ela estava aqui ouvindo tudo, não sabia?

Fui eu quem o encurralei contra a parede dessa vez, mas por algum motivo, ele sequer questionou minha atitude impetuosa.

— E se eu disser que sim?

Ele manteve os ombros erguidos e o lábio com um irônico sorriso, mantendo uma expressão de vilão descoberto e não deixou que eu continuasse tão longe como estava há pouco. Ousou diminuir o espaço seguro que eu tinha deixado entre nós, seguindo em direção aos meus lábios onde minha língua os contornava na súbita e justa causa de mantê-los molhados, afastando o ressecamento. Desisti de me afastar mais ao sentir sua mão segurar minha cintura, me puxando com força para seu corpo, onde, por mais que tentasse, o ímã mortal chamado Severo Snape me puxaria de volta, quisesse eu ou não.

Selando nossos lábios em um curto tempo, impedindo que eu o renegasse mesmo que tentasse, roubando o ar enquanto me imprensava contra a parede da sala de aula. Notei que ele não se importava que estivéssemos num dos corredores mais movimentados do castelo e que a porta da sala se mantinha aberta, o que não me fez parar, diga-se de passagem.

O gosto que a boca dele transmitia a minha era algo parecido com uma fórmula de hipnose e tive absoluta certeza que o motivo era que tudo que fosse proibido e escondido me causava excitação. Meus dedos dos pés formigavam e tampouco sentia vontade de abrir os olhos para encarar nossa realidade grotesca, onde eu continuaria sendo sua aluna e ele meu professor. Isso durou pouco mais de vinte segundos até finalmente escutarmos um pigarro e uma risadinha tão baixa que nem mesmo um bom ouvinte conseguiria escutar, mas embora envolvidos naquele beijo ardente, estávamos cientes do ambiente ao nosso redor.

Allie estava parada no exato lugar onde a professora Sinistra esteve minutos antes, e nem sequer tentou se esconder dos nossos olhos que procuravam espantosamente pela pessoa que nos havia flagrado. Bom, na verdade, eu esperava que fosse essa a reação que os olhos dele esboçavam, mas muito pelo contrário do que eu esperava, Severo sorria tranquilamente para ela e a mesma respondia com uma piscadela rápida, de uma pequena cúmplice.

— Espera. — Ergui as mãos em direção à minha pupila que encolheu os ombros assim que decidi caminhar até ela. — Você contou a ela? — Falei baixo olhando de Allie para ele.

— Não, mas também não disse que não tínhamos nada.

— Eu sabia! — Allie deu um salto em comemoração e precisei agarrá-la pela cintura para que parasse de se mover tão alegremente. — Vocês estão namorando!

— Não — Avisei.

— Sim — Disse ele taxativo e puxando Allie pela mão, seguiu na direção das escadas.

O quê?!

— Não seja estúpido. — Murmurei, sentindo meu coração em uma batida rápida, num tremendo descompasso. Podia jurar que cairia se não fosse o corrimão e o batente a segurança da escada, precisei me apoiar e respirar por um segundo antes de encará-lo mais uma vez. Agora sim eu estava achando que estava rápido demais o desenvolvimento desse "caso".

— Não liga para ela, está com ciúmes. — Allie disse alegremente, confirmando para ele que eu era, de fato, uma pessoa ciumenta.

— Você não é grandinha demais para andar de mãos dadas com um adulto?

Allie não respondeu, e eu agradeci por ela ser tão inteligente, pois percebeu pelo meu olhar que, eu e Severo, precisávamos de mais um pouco de privacidade. A assisti descer vagamente pela escada, quando ela mudou seu curso no terceiro andar, não sem antes trocarmos um olhar cúmplice, onde eu pedia silenciosamente que ela mentisse por mim e me acobertasse.

— Você não pode mentir assim. — Sibilei para ele.

— Você tem mentido para ela o tempo todo.

— Eu só fiz o que você me pediu e não disse a ninguém o nosso segredo. — Respirei fundo. — Eu não vou deixar você ficar brincando assim comigo, pode dizer o que quiser para ela, mas não vou deixar você agir como se meu sentimento fosse vago. O que eu sinto é real e você acabou de romper com a Bettany, como pode dizer que temos algo sério? Como ousa brincar comigo assim? Eu apenas não acho que seja justo você brincar com os sentimentos de alguém! O que eu sou para você? Algum projeto? Algo que você tem estudado e anotado os fatos, tentando descobrir como são os primeiros sentimentos de uma adolescente de dezessete anos? Seja o que for, não brinque comigo! Já é estranho demais você parar de sair com uma garota e já começar a sair com outra. Você está tentando suprir alguma coisa, é isso?

— Você age e fala comigo como se me conhecesse, Srta. Granger.

Ele partiu em minha direção e me fez pensar que cobraria de mim outro beijo, mas, pelo contrário, esbarrou em meu ombro e parou pouco antes de começar a descer as escadas.

— Você não me conhece, e é por isso que tenho me aproximado, para que você me conheça de verdade e não a penumbra de um homem que anda pelos corredores sendo odiado pela maioria dos alunos. É esse homem que você vê. Saber como dou minhas aulas ou a forma como eu mordo os lábios enquanto leio não faz disso um presságio do homem que eu realmente sou. Eu tenho um passado bem amargo, estou vivendo um presente de pecados e esperando por um futuro que é ridiculamente incerto. Ninguém permanece o mesmo quando o mal o visita, e é por isso que não dou minha simpatia com facilidade, esse é um tipo de sentimento que não costumo cultivar. Espero que entenda isso daqui pra frente, antes de duvidar do meu apreço por você.

Ele não me deu um milésimo de segundo para reagir à suas palavras, virou-se e acompanhei com o olhar quando desceu os últimos degraus e desapareceu no corredor do segundo andar, me deixando plantada no meio das escadas, até elas mudarem de curso novamente e me levarem ao corredor de acesso à minha torre.


Notas Finais

Beijos e até o próximo!