Notas do Autor
Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.
Capítulo 6
— Hermione Granger!
A professora Babbling chama meu nome, enquanto ela peneira através de uma pilha de pergaminhos em sua mesa e sorri para mim quando estende o meu e me entrega.
— Você escreve sobre Runas Antigas com tanta paixão. Apropriado, realmente, como o seu nome.
Eu lhe ofereço um sorriso franco, acho mesmo Runas Antigas fascinante, caminho até tomar meu assento ao lado de, infelizmente, Draco Malfoy. Pelo menos, neste ano letivo, ele finalmente me deixou em paz. Eu e Harry até tivemos uma discussão sobre isso, em outra noite, quando expressei o quanto Malfoy estava diferente. Pra mim, ele finalmente amadureceu, para Harry, ele foi iniciado como um Comensal da Morte.
Malfoy agora escapa da interação, nunca olhando para cima de seus livros ou pergaminhos. Mais de um mês que cursamos Runas Antigas juntos e nenhuma vez, ele olhou para mim. Ocasionalmente encostei minha perna com a sua, quando passei para sentar no meu lugar, vendo se provocava qualquer reação dele, mas não funcionou. Ele continuou como estava desde o início das aulas, absorto em tudo o que escrevia, como se o resto do mundo não existisse. A minha curiosidade para saber o que ele escreve, quando está naquele mundo só seu, me fez inclinar para ele em mais de uma ocasião para roubar um vislumbre do que ele faz, nem assim, recebi alguma reação.
Hoje, no entanto, pouco me importei em tentar interagir com ele, meus pensamentos estavam focados na saudade que sentia de Severo. Não nos vimos, exceto em aula e nas raras refeições que ele comparecia, há mais de uma semana. Minha carga de deveres e obrigações de monitoria preenchia cada momento do meu dia e ele parecia estar ciente disso. Me mandou uma mensagem de que não me incomodaria enquanto estivesse atolada de trabalho, tentei discutir em resposta, mas ele me disse apenas que não tinha tempo para intimidações e não me escreveu mais.
Um suspiro me escapa, fazendo-me consciente do fato de que estou em classe e não em meu dormitório sozinha. Arrisco uma nova olhada para Malfoy, que, felizmente, se mantém fiel ao personagem, me ignorando, seus olhos parecem quase fechados, como se estivesse cochilando.
Deslizo meu pergaminho dentro da minha bolsa sem verificar a nota e tiro meu tinteiro e pena. Rapidamente verifico meus apontamentos sobre o assunto de hoje, enquanto espero a classe encher, largo a pena assim que a professora Babbling bate com a varinha na lousa, o que silencia toda a classe.
— Houve alguns excelentes trabalhos entregues para a sua primeira redação.
Ela olha para mim e Malfoy com um sorriso suave e uma inclinação de cabeça, me fazendo corar quando todos os olhos seguem o seu.
— E também houve alguns que me fez pensar que só escolheram esta disciplina porque não tinham outras opções.
Ela franze a testa, olhando para alguns outros alunos, dando um tom mais a sério para a turma.
— Para seu próximo trabalho, quero que façam com um parceiro.
Malfoy gemeu e bocejou; isso foi o mais vocal que ouvi dele até agora. Um pequeno sorriso levantou dos meus lábios com seu desagrado óbvio de interagir com algo diferente de sua pena.
— Eu quero que vocês escolham uma das Runas que são realmente apaixonados, discutam em detalhe e, em seguida, escrevam sobre isso. Eu quero ver o quão diferente são as perspectivas, tanto da pessoa que é apaixonada sobre a runa e o parceiro que é indiferente a ela. Assim, cada um vai escrever sobre as duas runas, a sua em adoração e a do seu parceiro com indiferença.
Eu vejo quando Comárco McLaggen olha ao longo das fileiras de assentos, seus olhos pousam em mim e ele caminha em minha direção, seu olhar nunca deixando o meu rosto. Oh, Merlin, de jeito nenhum vou me unir com ele. Eu cutuco Malfoy mais forte do que pretendia, fazendo sua pena deslizar e desenhar uma linha através do pergaminho. Faço uma careta quando seus olhos se voltam para mim, eles estão frios, como um dia nublado.
— Desculpe…
Digo para ele, meu nariz enrugando e meus olhos se arregalando quando o idiota do McLaggen se aproxima. Malfoy repara nele se aproximando e finalmente fala.
— Ela está em parceria comigo, vá encontrar uma presa diferente.
McLaggen abre e fecha a boca por um minuto antes de grunhir sua resposta.
— Por que ela iria querer escrever sobre a sua paixão? Você é deprimente, provavelmente atenta contra si mesmo.
Os cabelos sobem na parte de trás do meu pescoço e meu estômago cai. Quanta pobreza de espírito, uma coisa muito infantil a dizer, embora soe exatamente como Malfoy soava, até o ano passado, embora ele esteja diferente hoje em dia, mais tranquilo e sem vontade de ser tão desagradável. Ele me lembra um pouco a mim mesma, antes de ser atacada pelo Trasgo, quando não tinha amigo nenhum e é exatamente por isso que a vontade de me aproximar dele vem crescendo em mim dia após dia. Senti uma necessidade estranha de me manter ao lado de Malfoy desde os primeiros dias de aula, quando o vi sentado sozinho com o rosto em seu pergaminho.
Realmente enlouqueci, estou envolvida com um professor e Comensal da Morte e agora estou simpática à ideia de ser amiga de Malfoy.
— E com base em que você supõe isso, McLaggen? — Malfoy pergunta com um sorriso irônico em seu rosto, batendo sua pena sobre a mesa.
McLaggen aponta para ele.
— Olhe para você, não fala ou olha para ninguém. Você grita 'suicida' com estas ações. — Ele sorri, obviamente orgulhoso de sua observação.
— Ah sim, sua avaliação deve ser escrita em um livro de psicologia bruxa, parece que você tem tudo planejado. Ou, você pode ser apenas um estúpido cuja mentalidade ainda está presa no primeiro ano. — Malfoy desloca em seu assento, inclinando-se em direção a ele, seu tom carregado em desprezo. — Eu não olho para as pessoas muitas vezes porque quando faço vadias pensam que quero transar com elas e os caras pensam que quero duelar contra eles. E não falo com as pessoas porque, ultimamente, é raro encontrar alguém que vale a pena se envolver em uma conversa.
Meus olhos queimam um buraco no lado do rosto de Malfoy e não consigo sequer desviar o olhar. Ele sempre parecia reservado e aqui está ele, confiante e direto.
— Tudo bem por aqui?
A professora Babbling pergunta, caminhando atrás de Comárco cujos punhos cerrados estão agora tão apertados que os nós dos dedos empalideceram e seus olhos estão queimando contra Draco.
— Tudo bem, professora Babbling, mas tenho que sair mais cedo hoje se estiver tudo bem? — Eu educadamente pedi, chamando a sua atenção para mim.
— Está tudo bem, Srta. Granger. Envio uma coruja mais tarde para você com as anotações que perder hoje.
Ela se vira e caminha de volta para frente da classe, seguida rapidamente por McLaggen. Eu desvio os olhos para encontrar o olhar intenso de Malfoy em mim, lhe dou um sorriso, e seus olhos examinam o meu rosto.
— Granger.
Ele diz em sua voz arrastada.
— Então… eu valho a pena envolver em uma conversa?
Um lado da boca dele levanta em um meio sorriso.
— Bem, não acho que nós podemos fazer esta tarefa sem conversar, então estou lhe dando uma chance de ter algo importante a dizer. Estou muito interessado em saber pelo que uma san… você é apaixonada.
Uma raiva ameaça subir em meu peito quando entendo do que ele ia me chamar, mas respiro fundo.
— Eu estou livre no domingo se isso estiver bom para você.
Digo a ele, embalando meu tinteiro e pena na minha mochila e arrasto meus olhos dos dele, ficando de pé. Ele pega um galeão e entrega para mim.
— Associe o seu.
Me pergunto como ele tem uma moeda dessas se não era da Armada de Dumbledore, e faço uma nota mental para consultar Severo se foi ele quem duplicou uma daquelas para Draco. Ele pode ter roubado também. Me repreendo pelo pensamento e opto por não julgá-lo, antes de deslizar a varinha sobre a moeda e entregá-la de volta para ele.
Faço meu caminho longe da sala de aula sem olhar para trás, as frescas brisas do outono em cima de mim acariciam minha pele quando desço ao exterior do castelo. O cheiro das ervas das estufas dispara em meus sentidos e memórias dos anos passados em Hogwarts me assaltam.
Volto meus olhos para o meu galeão, enviando um texto rápido para Gina, quando colido com um pilar de aço, me jogando para trás no chão. Minha mochila cai de meu ombro e minha moeda voa na direção dos arbustos. Levanto o olhar para encontrar o olhar penetrante do pilar de aço, que acontece de ser Severo. Eu realmente não posso vê-lo completamente, com o sol atrás dele, mas sua testa vincou quando ele olhou pra mim, me dizendo que colidir com ele o incomodou de alguma forma. Ele dá um passo em volta de mim resmungando e não de forma sutil.
Eu não sei o que me possuiu, mas rapidamente fico em pé, levantando e balançando minha mochila quando faço. Eu jogo diretamente para ele, fazendo seu corpo recuar com um baque. Ele se vira rapidamente, pegando a mochila e puxando-a para frente comigo ainda presa ao punho. Eu voo em direção a ele, batendo com força total em seu peito e voltando em ruína para o chão novamente.
— Qual é o seu problema seu... seu… — Meu cérebro me abandona enquanto eu gaguejo, soando como se não tivesse QI suficiente. — Bastardo! — Faço uma careta em minha total ausência de maturidade, perspicácia e linguagem.
— Meu problema é que você correu para mim, então me atacou com sua mochila, Srta. Granger, e ela pesa uma tonelada. Em seguida, atirou-se para mim e caiu aos meus pés me chamando de bastardo.
Eu exalo o ar que suguei com sua descrição do que aconteceu enquanto alguns segundanistas sonserinos começam a sair da estufa três e nos lançam olhares curiosos.
— Você deve estar com um mau funcionamento do cérebro, porque claramente está delirante. Ah, e não se ofereça para me ajudar a levantar nem nada. — Eu resmungo, ficando de pé.
— Eu não ia, você é desajeitada e fraca, precisa fortalecer seu corpo e olhar para onde está indo.
Eu recuo diante de seu desgosto claro por mim e meu queixo cai aberto, sem conseguir acreditar que ele disse isso. Severo não me dá tempo para formular uma frase e simplesmente vai embora, deixando-me fervendo de ódio. Ele é um idiota total.
Com toda a balbúrdia do meu dia, esqueci completamente que era a Grifinória quem estava na escala dos monitores que faziam a ronda noturna do castelo, o que significava que precisava dormir nos quartos destinados para nós, no corredor do quinto andar. Rony me arrancou da Torre da Grifinória logo após o jantar e seguimos juntos e desanimados para cumprir nossas obrigações de monitores.
Gemi quando cruzamos com a professora Sinistra que seguia em direção à Torre de Astronomia. Me espantava que ela ainda não tivesse trocado nenhum olhar comigo, acho que entendeu o recado indiscreto que Severo havia mandado tão descaradamente no outro dia. Não me orgulhava do meu ciúme possessivo nem da urgência e necessidade a qual me encontrava, mas entendi que, se ele tomou aquela atitude, foi porque também não estava confortável com tudo aquilo. Ele, propositalmente, fez com que ela escutasse cada palavra que trocamos na sala de aula de Feitiços.
— Você segue para a direita e eu para a esquerda. Damos a volta e nos encontramos aqui de novo, em frente às portas principais.
A voz do meu melhor amigo me arrancou dos meus pensamentos e concordei com um aceno de cabeça. Eu mal tinha virado ao final do corredor da direita, quando Severo passou como um furacão de vestes negras por mim, sem ao menos me lançar um olhar e desapareceu nas sombras, em direção ao Saguão de Entrada. Fiquei olhando assombrada para onde ele passou segundos antes e imaginando o que teria acontecido para ele estar tão apressado e transtornado, e lembrei que hoje mais cedo ele já tinha sido um bastardo estúpido comigo. Ódio fervilhou dentro de mim quando me virei para retomar a minha ronda e ele só cresceu, quando notei a professora Sinistra me observando.
— Eu diria que, se vocês tinham alguns planos, eles foram frustrados. — Ela diz de repente.
Controlei minha respiração o suficiente apenas para respondê-la.
— Desculpe, mas aconteceu alguma coisa?
— Com Severo, alguma coisa sempre está acontecendo. — Ela respondeu.
Eu ainda tentava desvendar sua incógnita atrás daquela resposta, quando notei que ela caminhava até minha direção e cobriu meus ombros com seus braços magros.
— Tudo bem, Srta. Granger, eu já percebi o que há entre vocês e não precisamos que essa conversa seja desagradável.
Engoli a bola de saliva suntuosa que havia se formado na minha garganta, preparando nervosamente meus sentidos para a conversa a seguir.
— Eu sei o que você vai dizer professora.
— Quando pretende contar aos seus pais?
Estava errada, eu não imaginei que ela fosse ser tão direta ao ponto.
— Meus pais? Eles não…
— Eles são responsáveis por você.
— Sou maior de idade.
— Não é no mundo deles. — Ela amenizou sua voz. — Escute, Hermione, se eu soubesse que vocês estavam... Você sabe, eu nunca teria tentado nada. Por que não me disseram diretamente?
— O que íamos dizer? Que estamos namorando? Eu nem sei o que nós somos ainda. — Encostei-me à parede de pedra do corredor, parecendo levemente desesperada, a raiva anterior completamente extinta de mim. — Ele é tão contraditório, tão diferente... — Sussurrei fechando os olhos e tendo a chance de uma lembrança digna de sua boca.
— Você está apaixonada por ele.
— Eu, definitivamente não sei. — Mordi o canto da boca. — Gosto dele, isso é verdade, sei que percebeu.
— Na verdade, ele dava muitos sinais de que tinha um interesse incomum em você. — Ela sorriu, recostando-se ao meu lado. — A maioria dos nossos assuntos era voltado para você, e sempre que eu tentava avançar o sinal, me desculpe por isso, ele dava um jeito de se esquivar.
No final das contas, Severo não mentiu e fiquei aliviada.
— Eu só estava na dúvida se ele estava jogando comigo ou se estava muito interessado em você, enfim descobri que a segunda opção se encaixava mais. Na reunião de monitoria, quando você saiu da sala com Téo Boot, eu notei que ele ficou inquieto e sempre olhando em direção a vocês e, por um momento, fiquei assustada temendo que Minerva também percebesse a mudança repentina de humor dele. Depois do que ouvi após o almoço, passei o dia tentando extrair uma confirmação direta dele, mas ele também se esquivou. Não sei se ele estava te protegendo de uma bronca ou se protegendo de ser descoberto, mas ele deve se importar o suficiente, por estar se arriscando tanto em se envolver com uma aluna. Em todo caso, acho que você precisa de ajuda e de conselhos de uma pessoa mais experiente, e que esteja por dentro das situações presentes. Não conheço ninguém melhor do que eu para isso.
Ela piscou para mim quando se empertigou para seguir seu caminho e eu acabei sorrindo. No final das contas, minha maior preocupação se tornou meu álibi.
— Boa noite, Hermione.
Me cumprimentou e saiu, me deixando perdidamente presa em pensamentos inquietos. Por que ele estava agindo tão estranho? E onde ele estava, afinal? O que poderia ser tão urgente para ele não ter sequer me enxergado no corredor?
Tateei irritada buscando alcançar meu despertador, pois odiava ser acordada, ainda mais tão cedo quanto naquele instante. Demorei a abrir totalmente meus olhos, mas quando finalmente aconteceu notei que não era ele tocando e nem era ainda a hora de levantar. Meu galeão soava estridente em bom e alto som, o suficiente para acordar o castelo inteiro.
Apanhei minha varinha e mesmo contra minha vontade aceitei a ligação, a respiração densa, cansada e maçante de Severo soou do outro lado e naquele momento, foi como se meu corpo finalmente conseguisse despertar. Saltei da cama, me amaldiçoando por não ter trazido meus chinelos do meu dormitório coletivo.
— Sei que é a sua noite de ronda e está no quinto andar, estou subindo.
O quê? Passava da uma hora da manhã e o certo seria eu estar furiosa com ele por ter me destratado e depois ignorado. Respirei fundo, atônita com sua afirmação.
— Onde você está? — Perguntei, conseguindo transfigurar dois pedaços de pergaminho em um par de pantufas fofas.
Ajeitei meu cabelo e passei a mão no rosto tentando tirar minha cara amassada, tentativa inútil, é claro.
— Estarei em um minuto do lado de fora do corredor dos dormitórios.
— Certo.
Abri vagarosamente a porta do meu quarto, evitando fazer qualquer barulho que me denunciasse. Por sorte nenhum dos outros monitores da minha escala de rondas tinha costume de dormir com as portas abertas, então, todas estavam fechadas. Dei uma última ajeitada no cabelo e na camiseta antiga de meu pai antes de abrir a porta, mas quando o fiz estar com o cabelo arrumado ou com a cara menos amassada pareceram coisas pequenas, e extremamente inúteis ao que meus olhos estavam encarando.
Severo estava com o cabelo desgrenhado, totalmente o contrário do que eu geralmente estava acostumada a ver, seu manto estava jogado sobre seus ombros, sua mão direita sobre o lado esquerdo do seu peitoral pouco acima do local onde seu coração pulsava e a esquerda na lateral do seu abdômen. O problema crítico não era a posição de suas mãos, mas o que elas realmente escondiam: sangue e provavelmente de um ferimento que não seria curado com um simples Feitiço de Cura.
O sangue que atravessava sua camisa me deixou desequilibrada, achei que minhas pernas não fossem me aguentar e rapidamente estava desejando ter trazido minha varinha até aqui no corredor, para que eu pudesse levitá-lo de volta ao meu quarto e não ter que suportar o peso de meu corpo e do dele.
Severo suava tanto que era como se tivesse tomado chuva, mas apesar de estar sofrendo de dor não deixava transparecer. Não podia negar que minha garganta fechando me denunciava, eu estava prestes a chorar e a gritar pela Medibruxa de Hogwarts. Desisti da ideia quando ele retirou sua mão direita suja de sangue e colocou o indicador sobre o lábio, implorando para que eu mantivesse silêncio.
— Por que sempre que eu te vejo você está sangrando? — Sussurrei para ele e limpei a secura dos lábios com a minha língua, podia sentir também que meus olhos estavam vermelhos e lacrimejados.
Sem minha ajuda, Severo já havia entrado completamente no corredor e o puxei lentamente pelo braço, colocando a sua mão — agora livre — sobre meu ombro, o ajudando a chegarmos ao meu quarto. Podia notar seu desânimo enquanto forçava suas pernas a darem cada passo, mas não podia ajudá-lo enquanto sangrava. A tarefa árdua havia sido completa, mas ao invés de seguir para o meu quarto, segui com ele para o banheiro dos monitores. O sentei no futton do banco de ferro na entrada do banheiro e corri para a pia, lavando minhas mãos, e me livrando da minha blusa que acidentalmente tinha manchas de sangue vermelho vivo.
Me apoiei com as mãos na borda da pia e meu corpo automaticamente se inclinou, queria poder começar com minhas anotações mentais antes de cuidar dos ferimentos, mas foi impossível quando Severo pigarreou atrás de mim. Como ele ainda conseguia parar em pé?
Eu usava apenas um sutiã que cobria meus seios e me senti ligeiramente envergonhada por estar tão exposta a ele.
— Vou colocar uma blusa, sente-se ali, por favor. — Apontei para o banco onde tinha acabado de deixá-lo. — Eu já volto. — Quando passei ao seu lado, ele agarrou meu pulso com a mão suja, impedindo que eu desse mais um passo qualquer.
— Pode ficar desse jeito, você é linda.
— Severo...
— Sei como isso pode parecer estranho. Faz poucos dias, mas eu não quis ficar longe. Eu posso lidar sozinho com esses ferimentos, só quis fantasiar um paraíso enquanto cuido dos efeitos da minha zona de guerra.
Finalmente entendi que ele tinha sido convocado por Voldemort esta noite. Colei minha testa na dele e acariciei sua nuca, me deixando levar por todo o sentimento envolvido no momento e por toda a sua declaração distorcida de que eu era única pessoa com quem ele queria estar após uma noite assombrosa. Senti-me lisonjeada e ao mesmo tempo chateada por não compreender esse homem cheio de marcas físicas e emocionais.
Ele me puxou com sua mão direita e suja de sangue, colando seu corpo ao meu. O machucado não parecia um empecilho, pelo contrário, seu corpo permanecia quente e ele juntou seu lábio ao meu. Algumas lágrimas minhas caíram, rolando pelo meu rosto e eu não soube exatamente porque chorava, elas apenas se misturavam ao beijo que em tão pouco tempo se tornou intenso, como brasa se transformando em novas chamas ardentes, que queimava a pele com tanta demanda. Apertei ainda mais a sua nuca com a ponta dos meus dedos, puxando sua boca contra a minha, o sentindo suspirar.
— Você tem consciência de que eu nunca vou ser o homem perfeito para você, não tem? — Apoiou sua cabeça na minha. — Eu nunca vou ser bom o bastante.
Eu sabia disso, mas estava cansada de ouvir coisas como aquela.
— Não, Severo, por favor, não preciso de suas lamentações.
— Fui convocado para um ataque inesperado esta noite. Tentaram me matar à moda trouxa e eu revidei.
— Não quero saber, por favor. Só quero que você se recupere. — Suspirei e o ajudei a sentar novamente.
Fui até a banheira, abrir as torneiras, e deixei que a água e a espuma a preenchesse vagarosamente. Quando me virei de volta, Severo tinha apagado no banco de ferro e parecia que o tempo havia parado naquele instante. Meu corpo tinha tomado a coloração avermelhada, seu sangue impregnado na minha pele e em minhas vestes. Atravessei o banheiro com o pensamento cheio de perguntas, procurando preencher as lacunas que se formaram à medida que eu o observava.
Ele abandonou sua camisa antes de apagar, me ajoelhei no piso ao lado do banco e, usando a varinha dele, murmurei um Evanesco para limpar o melhor que pude a sujeira do peito dele. Lancei mais um feitiço para parar o sangramento, mas não ousei nada mais complexo na esperança de fechar o corte, não era a minha varinha e eu também não estava segura o bastante para usar o feitiço básico de cura que eu sabia, em um ferimento tão profundo. Se usássemos técnicas trouxas, eu diria que ele precisaria de cinco ou seis pontos para que pudesse fechá-lo.
Não podia negar que o ver tão indefeso era estranho. Seus lábios estavam levemente franzidos, a testa crispando mesmo que sua respiração fosse profunda e tranquila. Um homem como Severo, aparentemente, não conseguia dormir tão tranquilamente se não houvesse coisas às quais ele precisasse esconder. Corri com a ponta do indicador pelo seu tórax, desenhando símbolos irreconhecíveis por mim e por ele, apenas tentando não ter motivos para me afastar. Deslizei por toda a extensão do seu peito até alcançar a ponta do seu queixo onde meu indicador pôde chegar ao seu lábio franzido, e me inclinei para ele.
Nunca saboreei o lábio de alguém enquanto ele mesmo estivesse incapaz de corresponder; nunca, na verdade, imaginei que fosse fazer isso com ele. Às vezes, as situações a qual nos encontrávamos me fazia esquecer que ele era um membro da docência de minha escola e esquecer-se disso facilitava as coisas, principalmente para mim, que me preocupava demais com a reação das pessoas.
Depositei repetidos selinhos no seu lábio dormente e distribuí alguns beijos pelas maçãs de seu rosto. Quando as torneiras da banheira pararam de pingar foi que eu me dei conta de que estava agindo possessivamente, encobrindo seu rosto com beijos esperançosos. Fiz menção de me afastar, precisava controlar a ânsia de beijá-lo a cada segundo, mas, para a minha surpresa, Severo não estava tão apagado quanto imaginei.
Sua mão envolveu meu pulso, me puxando de volta ao seu corpo e com a outra mão ele puxou minha perna para que eu me sentasse sobre a sua cintura. Meu coração batia descompassado, eu tinha certeza de que ele sabia exatamente como minhas emoções respondiam ao seu toque e me senti ligeiramente envergonhada; sem blusa e sentada sobre ele, uma perna minha a cada lado de seu corpo. Lancei um olhar repleto de constrangimento, mesmo que ele estivesse apenas com uma fresta de pálpebras erguidas.
— Tranquei a porta com um feitiço.
Franzi a sobrancelha com a sua confissão e acabei sorrindo em seguida, não pude deixar de notar sua voz carregada de malícia.
— Vem aqui. — Ele disse e abriu totalmente os olhos quando me inclinei.
— A banheira já está cheia...
— O banho pode esperar.
A onda de calafrios percorreu meu corpo no instante em que nossos lábios se encostaram e o arrepio percorreu minha nuca quando ele friccionou sua língua contra a minha. Seu beijo havia se tornado uma mistura de possessividade e proteção; ele queria me possuir e queria me proteger de um modo tangível. Agarrei sua nuca, entrelaçando meus dedos abaixo e o puxei para junto de mim, onde seu corpo se tornou mais ereto e permaneci sentada colando seu peito contra o meu. Suas mãos, que até o momento estavam postas na lateral de seu corpo, praticamente imóveis, começaram a subir pelo meu calcanhar até minha coxa e ele a apertou livremente.
Um gemido baixo e inesperado escapou pela minha garganta, era tão rouco que não lembrava em nada a minha voz calma e doce. Não deixei de notar o quanto meu corpo respondia positivamente a cada toque que ele ousava percorrê-lo. O seu toque era carregado de obsessão, mas eu também percebia o quanto ele lutava em objeção a me tocar tão intimamente. Ele tentava de várias maneiras não ir além, embora eu não me sentisse desconfortável, pelo contrário, ele foi o único homem que conseguiu isso de mim e agora duvidava que outro conseguisse a liberdade que ele teve.
Desci as mãos pelo seu peito e abdômen, procurando pelo botão da sua calça. Minhas mãos estavam trêmulas, assim como todo meu corpo, e ele sorriu entre o beijo deixando claro que havia percebido toda a minha inabilidade. Era íngreme atingir meu objetivo, minha falta de experiência deixava claro que eu o queria, muito além de beijos e abraços, mas meu desleixo com as habilidades carnais não me deixou prosseguir. Bufei completamente chocada, não imaginava que fosse tão difícil abrir a porcaria de um botão.
— Shhh... — Ele afastou minhas mãos rapidamente e sorriu. — Não precisa ser tão apressada, Granger, vamos com calma.
Fechei os olhos, constrangida, tudo aquilo era extremamente novo para mim. Ele segurou minha cabeça entre as mãos e beijou minha testa, erguendo seu pescoço para alcançá-la.
— Eu sou o primeiro homem que te toca assim, não é? — Seu olhar tinha luxúria e ele parecia completamente convencido e cheio de si.
— Vamos ter mesmo essa conversa agora? — Minha respiração estava densa e o tom escarlate de minhas bochechas deixou claro que não estava pronta para ter aquela conversa ainda, mas os olhos de Severo me fulminavam.
— Você está sentada em mim e estou duro, tenho dois cortes profundos que precisam de atenção, e o meu sangue está espalhado pelo seu corpo. Sim, nós vamos ter essa conversa agora.
— Não use a palavra duro. — Escondi o rosto na curva de seu ombro. — Me deixa constrangida e nervosa.
Respirei fundo e, apesar de existir toda aquela sujeira espalhada de novo e seus cortes tivessem voltado a sangrar, realmente sentia que teríamos aquela conversa.
— Eu tenho dezessete anos e provavelmente sou a única adolescente da minha turma que ainda é virgem, mas não me envergonho por isso. Fui criada achando que a minha virgindade é algo importante, então eu a prezo.
Seu semblante mudou de divertido para extremamente sério. Ele sabia mesmo como mudar o rumo de uma conversa.
— Não tenho certeza se sou o homem certo para você entregar a sua virgindade.
Eu estava confortável para conversar, e o momento que parecia tão leve quanto realmente deveria ser, se tornou pesado em questão de segundos.
— Quero que me escute bem. Me apaixonar não está nos meus planos. Você me perguntou se em algum momento eu me apaixonaria por você. — Fechou os olhos se concentrando na resposta a seguir. — Definitivamente não, e não é porque não quero, mas porque não posso.
— O que nós estamos fazendo, afinal?
Saí de cima dele e cobri a parte da frente do meu corpo, onde meus seios, sem que eu percebesse, se enrijeceram em algum momento antes dele acabar com o clima, estava envergonhada. Por que ele sempre tinha que fazer tudo se tornar incrível e depois estragar?
— O que um homem e uma mulher fazem quando se sentem atraídos. — Se levantou parando na minha frente. — Eles se divertem juntos, ficam juntos sem planejar, apenas, porque querem aquilo. E nós ainda temos um agravante, estamos em guerra, não sabemos o que nos espera e, por isso, tendemos a apressar esse tipo de coisa, entende?
Confirmei com a cabeça, sem encará-lo.
— Mas se você quer que eu toque você... — Sua voz saiu mais falha e baixa, do que anteriormente. — me diga exatamente onde.
Ele estendeu a mão, tirando o meu braço que cobria meus seios e senti minha respiração falhar. Deslizou seu indicador pela fresta que separava meus mamilos e ofeguei. Seu passeio não terminou exatamente ali, seus olhos estavam me cobiçando com uma malícia que eu não tinha visto ainda. Ele estava agindo exatamente como meu corpo havia implorado há pouco.
— Pare. — Fechei os olhos com força. — Por favor, não faça isso se não for pra chegar até o final.
Sua mão escorregou pela minha cintura parando em minha lombar, onde senti um leve apertão e meu corpo se chocou com o seu peito quente e sujo outra vez.
— Se você quer mesmo fazer isso precisa estar relaxada. Apenas relaxe, se quiser que isso seja bom.
Apertei sua cintura com força e ele gemeu, mas não foi de prazer e sim de dor, meus dedos pressionaram exatamente próximo ao lugar onde havia um dos cortes. Sua boca tomou meus lábios novamente, com a costumeira possessividade e ele mordiscou meu lábio inferior com selvageria, contraindo seu corpo contra o meu.
— Por que algo me diz que você tem milhares de segredos? — Apoiei as mãos espalmadas contra seu peito e o empurrei levemente em direção ao banco.
— Pode acreditar que você é o melhor segredo que eu guardo. Mas acredite quando digo que você não me conhece e eu não sou o homem certo.
Ele agarrou meus pulsos trocando nossas posições, e me colocou contra o estofado.
— Você está errado. — Ergui o queixo antes que ele tentasse me parar. — Você é o homem certo, eu sei o necessário para saber disso.
— Saber o necessário, não é suficiente.
— Tudo bem, mas essa é uma escolha minha e não sua. — Bufei. — Você é ótimo nisso e eu...
Ele colocou o indicador no meu lábio, os cobrindo, enquanto balançava negativamente sua cabeça. Seu olhar era de desaprovação.
— Preciso de um banho, você me ajuda? — Ele disse pousando seu olhar frio sobre mim e lá estávamos nós de novo, regressando.
Assenti e ele levantou em direção à pia enquanto me deixei ficar com a cabeça entre minhas mãos e pensamentos desordenados. Nunca imaginei que um dia eu o teria assim tão perto, mas que ele tivesse tantos segredos que pudessem me confundir e me enfraquecer. Algo na minha consciência dizia que deveria pensar em desistir, no entanto, faziam apenas alguns poucos dias desde que tudo se tornou possível e eu não queria, não podia desistir agora, mesmo que ele esteja disposto a resistir em alimentar a atração física que sentimos um pelo outro e que eu ainda esteja tentando entender o que estamos fazendo, afinal.
Sempre que eu pensava em atração física, o sexo era o mais próximo que eu conseguia chegar a imaginar nesse tipo de relação, porém ele também se negava a isso e eu não fazia ideia do que ele estava enfrentando consigo mesmo, para se negar a transar comigo. A chama que queimava todo o meu corpo quando ele me tocava estava me machucando e era notório que ele também entrava em combustão, só que sempre encontrava um jeito de nos parar.
Respirei fundo, ele já havia se livrado da calça e estava só com uma peça íntima cinza. Desviei os olhos do seu corpo, não queria ser pega o admirando, mesmo que fosse complicado não olhar. Estava bem claro como água que ele fazia um belo jogo de sedução comigo. Andei para a banheira colocando minha mão direita na mesma e sentindo a temperatura, estava morna.
— Acho melhor você entrar antes que a água esfrie.
Ergui o corpo me deparando com a figura masculina parada logo atrás de mim. Por Merlin, o que ele estava fazendo?
— Em um momento você diz que não pode assumir esse papel e agora... você está nu?
Me proibi de me virar, podia sentir sua ereção em minhas costas e me recusei a enfrentar meu pecado.
— Você pode fechar os olhos se preferir.
Ele entrou na banheira e ergueu a esponja na minha direção, e eu fiquei ali petrificada, me forçando a não olhar para o seu membro exposto. Ele era um canalha! Há poucos minutos eu teria me entregado a ele de corpo e alma, e ele desperdiçou essa oportunidade. Agora agia como se estivesse correndo atrás do prejuízo.
— Eu tenho que esfregar... tudo?
Arqueei as sobrancelhas e ele sorriu irônico. Era tão cretino que estava se divertindo com o meu constrangimento.
— Não admito trabalhos malfeitos Srta. Granger, seis anos de aula e ainda não aprendeu isso?
Ele se inclinou e levantou para se afastar mais longe na banheira e foi inevitável, impossível não olhar. Minha imaginação fértil e minhas fantasias vibraram, mas sabia que o lado decoroso da minha mente condenaria aquela visão para o resto da minha vida, foi a única certeza que tive antes de me ajoelhar ao lado da borda e começar a esfregar suas costas lentamente, tomando cuidado para não chegar até seu ferimento e acabar piorando tudo.
— Você devia entrar, está suja também.
Podia sentir a ironia no seu tom de voz e talvez eu devesse entrar nesse jogo que ele escolheu jogar.
— Tem razão.
Me levantei, puxando o short para baixo, mas mantendo minhas roupas íntimas no lugar. Ele me olhou dos pés à cabeça, me analisando.
— É um banho, Srta. Granger, isso quer dizer sem nenhuma peça de roupa.
Praguejei mentalmente. Ele era bom em jogar.
— Certo, mas não olhe.
Me virei de costas, cruzando os braços atrás de mim e desprendendo o fecho do meu sutiã, depois desci minha calcinha até o calcanhar e a empurrei para o canto. Estar de costas me deixava mais confortável, apesar de ter certeza de que seu olhar me queimava.
— Eu estou olhando. — Ele avisou descaradamente, confirmando meus pensamentos.
— Não vou me virar até que você esteja de costas. — Foi a minha vez de jogar.
Escutei um barulho como um murmúrio de estresse seguido pelo barulho de água sendo remexida e sorri sem mostrar os dentes, me virando para ele. Mas Severo Snape não era de dar o braço a torcer, e eu soube disso no instante em que o vi quando cheguei em Hogwarts pela primeira vez, então foi óbvio que lá estava ele, me olhando fixamente com o semblante sério e focado em absorver cada uma das minhas curvas. Queria cavar um buraco no chão e sumir entre o mármore branco do piso, mas a linha séria nos seus lábios me fez perceber que ele fazia uma análise do que estava vendo.
Pensei e repensei e decidi que não podia esperar que ele me achasse ainda mais imatura e ridícula, caminhei para a banheira, agarrei a bucha de banho que havia soltado ao lado e entrei nela, me sentando de frente para ele. Seus olhos estavam fixos em mim, ainda em uma análise que não parecia ter fim. Puxei minhas pernas de encontro ao meu peito, ficando encolhida de um lado só da banheira, enquanto ele mantinha as pernas relaxadas e esticadas ao lado do meu corpo.
— Vem cá.
Ele esticou a mão puxando minhas pernas pelo calcanhar e sem nenhuma objeção, deixei que ele esticasse minhas pernas por cima das suas e agradeci mentalmente que a banheira estivesse adornada por espuma, assim meus seios ficavam escondidos debaixo delas.
— Você é tímida, gosto disso em você.
Sua mão que estava afundada na água emergiu e agarrou minha lombar, fazendo com que meu bumbum se arrastasse no mármore do fundo da banheira e eu ficasse a poucos centímetros de me encostar totalmente nele. A mão grossa acariciou com leveza minha pele coberta por espuma e depois minha bochecha, se inclinando um pouco para frente encostou sua boca na minha depositando um beijo demorado.
Me arrastei mais um pouco em sua direção até senti-lo roçar na minha intimidade sem querer. Diferente de todas as minhas reações anteriores, meu corpo agora estava mais parecido com uma fonte de energia e toda a minha pele estava arrepiada com o toque íntimo que a pressão da água fez ao nosso redor e ele nem ao menos tinha me tocado pra valer. Esperava que ele fizesse isso, aliás, os gemidos baixos que eu ecoava entre nosso beijo deixava claro que eu queria isso.
Só que Severo não era como todos os homens. Pelo menos, não os de filmes trouxas que assisti, neles os homens mal resistiam a uma mulher que estava prestes a se entregar. Mas, contrariando todas suas atitudes até agora, ele me puxou um pouco mais, me ordenando a me sentar em seu colo. Podia jurar que minhas maçãs queimaram quando fiquei exatamente em cima dele.
— Pode se mexer.
Apesar de soar suave e calma, estava implícito em sua voz algum tipo de ordem. Ele agarrou minha cintura e me ajudou com os movimentos sobre sua ereção intacta abaixo de mim, apesar de não ter penetração alguma, aquilo era bom e aumentava meu ego a outros níveis.
— Isso... — Ele arfou colocando sua testa na curva do meu ombro. — Continue.
Beijou meu pescoço e acima dos meus seios, distribuindo beijos molhados e firmes. Eu conseguia sentir o seu nervosismo e insegurança, ele estava nervoso por mim. A ponta de meu mamilo direito se enrijeceu com a língua que o contornava vivamente, meu corpo parou, extasiado. Minha perna tremia enquanto ele sugava um seio e com a mão livre acariciava o outro. O toque de sua língua quente e aveludada me fez sentir algumas emoções e querer implorar para que fizéssemos bem mais do que aquilo.
As batidas fortes na porta do banheiro fizeram todas as sensações desaparecerem tão rápido quanto começaram.
— Srta. Granger? — Era a voz da professora Minerva.
Olhei espantada para Severo que tinha o canto dos lábios erguidos em um sorriso intrínseco. Me levantei rapidamente, cambaleando e agarrando uma das toalhas brancas da montanha a um canto, me enrolei nela enquanto apanhava a varinha de Severo e jogava para ele. Meu coração pulsava, enquanto ele ria assistindo meu desespero.
— Acho bom você ficar quieto. — Sussurrei.
Outra batida na porta e a tentativa inútil de Minerva entrar no banheiro aconteceram quando vi a maçaneta se mover.
— Já estou indo. — Murmurei ordenando que Severo desfizesse o tal feitiço que usou para lacrá-la.
Abri e fechei rapidamente a porta, saindo do banheiro para o corredor. A imagem da minha diretora de Casa apertou meu coração. Não lembrava de já tê-la visto com um olhar de desespero antes. Por um instante esqueci de quem estava atrás da porta do banheiro. Ignorei meus sentimentos relacionados a Severo e o foco principal era a minha primeira heroína em Hogwarts: Minerva McGonagall. A princípio seu olhar dizia que ela precisava de um abraço, daqueles que te esmaga e sufoca, daqueles que dão impressão de que a pessoa está tentando roubar qualquer dor que esteja culminada a você e transferir para ela, e foi exatamente o que fiz, até que ela ergueu a linha séria de seus lábios e respirou fundo mostrando que tinha se aliviado.
— Está tudo bem, professora?
— É a segunda vez, em menos de uma semana que você desaparece de seu quarto! — Esbravejou séria e com uma expressão tão agourenta que me senti culpada. — O que está pensando? Desaparecendo assim em... em tempos tão incertos?
— Desculpe, eu…
Tentei desesperadamente encontrar alguma desculpa convincente, mas só consegui gaguejar.
— Está com problemas para dormir? — Seu olhar analítico me assustou.
— Sim… e acho que eu não sou a única. — Sorri gentilmente para ela, que imediatamente suavizou seu olhar.
— Você devia ir para cama agora, já são quase três da manhã e até onde eu sei não é dezembro ainda, ou seja, as férias estão distantes.
Era uma bronca, mas eu tive vontade de abraçá-la novamente por causa do alívio estampado em seu rosto quando me encontrou sã e salva aqui no banheiro.
— Boa noite, Srta. Granger.
Acompanhei com o olhar ela sumir pelo corredor e atrás de mim, a porta do banheiro se abriu e Severo saiu com uma toalha enrolada na cintura, aparentemente seu ferimento havia parado de sangrar, seguimos silenciosamente até o quarto que eu ocupava no corredor dos monitores. Assim que chegamos, ele me mandou apanhar a minha varinha e me ensinou o encantamento para fechar o corte.
Eu, definitivamente, não estava segura em lançar um feitiço recém aprendido na ferida aberta dele, mas como ele se negava a ir até Ala Hospitalar, não tinha outro jeito.
— Não vai doer muito? — Perguntei.
Ele sorriu, mas eu me mantive séria, o que fez com que ele apagasse instantaneamente seu sorriso.
— O que houve? — Perguntou colocando sua peça íntima e eu desviei os olhos para não acompanhar seus movimentos. — Não é como se você nunca tivesse me visto nu, Granger.
Fui até o armário e apanhei um dos pijamas da Grifinória que estavam limpos e dobrados ali e me vesti. Severo se aproximou me colocando contra a parede. Minhas costas suavemente se recostaram no armário e suas mãos, uma a cada lado sobre meus ombros, impediam que eu fugisse para qualquer lugar.
— Por que se vestiu se sabe que eu vou tirar sua roupa?
Minhas bochechas queimaram e mordi o lábio com entusiasmo, mas logo voltei para a realidade e a minha dizia que a professora McGonagall estava certa, eu precisava dormir.
— Não vou negar que você é muito bom com as cantadas, e que eu fiquei tentada, mas eu preciso dar um jeito nisso. — Gesticulei com o queixo para o ferimento semiaberto. — E também preciso dormir, porque, diferente de você que já tem a vida feita, eu tenho que me manter com boas notas se quiser ter um futuro.
— Você é péssima em Defesa Contra as Artes das Trevas. — Ele ergueu a sobrancelha me desafiando a respondê-lo.
— Isso porque você é quem ensina a disciplina. — Pisquei docemente, me soltando de suas mãos e indo até a cama. — Vem cá, professor, me deixa cuidar de você.
Seu sorriso malicioso me fez morder o lábio inferior e me amaldiçoei por estar jogando aquele jogo tão maldito e sujo, mas eu seria hipócrita de dizer que não gostava de fazer o que era errado. Precisei quase morrer pelas mãos de um Trasgo Montanhês para admitir que podia me orgulhar em fazer alguma coisa que não fosse só seguir as regras, pois, se Harry e Rony tivessem seguido às regras naquela noite, eu teria morrido sozinha naquele banheiro.
Cruzei as pernas debaixo de mim e peguei minha varinha. Minhas mãos estavam trêmulas, iria fechar um ferimento fundo com um feitiço que nunca lancei antes, e ainda tinha que fazer isso em um dos meus professores mais exigentes, não podia negar que aquilo me preocupava. Seria muito mais fácil se ele se permitisse ser cuidado por Madame Pomfrey, sei que ela faria aquilo até de olhos fechados. Mas suspeitava que essa parte obscura da vida dele como Comensal da Morte era mantida com discrição para os outros funcionários da escola.
Até onde eu sabia, Severo Snape era envolto em segredos. Embora eu tenha dito quando ele chegou que não queria saber de nada, agora estava tentada a perguntar sobre essa noite, sobre o corvo do outro dia e sobre o que havia lhe cortado tão feio, mas me policiei a respeitar o seu tempo e espaço, assim como havia dito que faria. Eu não podia viver à sombra do passado de um homem cheio de complicações inimagináveis.
— Como foi esta noite?
A pergunta saiu mesmo que eu não quisesse, e olhei em seus olhos quando lancei o feitiço no primeiro corte. Me admirou que ele não fez ao menos uma careta ao sentir sua pele sendo contorcida pelo flash do feitiço.
— Sangrenta. — Ele desviou os olhos para a janela. — Sobre as suas aulas particulares comigo, será que amanhã poderíamos fazer isso no escritório do diretor?
Parei o processo de lançar o feitiço no segundo corte no mesmo instante. Ele não podia estar falando sério.
— No escritório do professor Dumbledore?
Ele confirmou com a cabeça. O professor Dumbledore era a pessoa mais perceptiva que eu conhecia, o que Severo pretendia ficado comigo na presença dele? Mesmo que estivéssemos lá como professor e aluna, era muito arriscado, qualquer troca de olhares entre nós poderia nos trair.
— Não devíamos nos preocupar porque ele é, tipo, um bruxo bem perceptivo?
— Não.
Ele foi tão enfático, que eu decidi não argumentar mais.
— Por mim tudo bem.
Voltei minha atenção para o segundo corte e lancei o feitiço de cura. Minhas mãos ainda estavam um pouco trêmulas quando também lancei o Evanesco para limpar os resquícios de sangue que sobraram na pele dele. Sorri e pisquei para ele, concluindo o trabalho e depositando a minha varinha na mesa de cabeceira.
Quando me virei novamente, me deparei com o meu professor bem acomodado no canto da cama, com as costas para a parede e sua cabeça afundada em meu travesseiro, já parecendo dormir tranquilamente. Me esforcei para não fazer nenhum barulho até que estivesse deitada e coberta até a cintura com os lençóis.
Fiquei olhando para o teto, imaginando desenhos, esperando que o sono abusasse de mim como eu estava abusando da sorte. Eu não podia simplesmente deixá-lo dormir comigo, o risco de mais alguém no castelo descobrir tudo se tornava cada vez maior e as complicações que viriam junto também só cresciam, mas quando voltei meu olhar para seu rosto e lembrei que por baixo daquilo havia um homem machucado, com um passado que poderia me fazer odiá-lo pelo resto da vida — mesmo que por muitas vezes eu me recusasse a acreditar na possibilidade — apenas o deixei ficar.
Virei de lado, ficando totalmente virada para ele, assistindo ele dormir passivamente e pensando que meu coração batia bem mais forte agora do que antes e espancava meu peito à medida que meus olhos percorriam pelo rosto, pelo corpo e cada traço rudimentar que Severo Snape carregava e por mais que ele dissesse que ele era um desconhecido para mim, eu o via tanto.
Eu estava apaixonada por cada pedacinho intrínseco que ele carregava, mesmo que fossem segredos que um dia pudessem me destruir de uma vez por todas, eu sentia e queria que todas as minhas experiências fossem com ele. Que tudo que eu tivesse que ter a primeira vez, fosse com ele.
— Que merda, professor Snape, eu me apaixonei por você e foi tão rápido que nem consegui desviar.
Fechei os olhos virando para o outro lado, ficando de costas para ele, suspirando por ter finalmente admitido isso em voz alta. Um movimento lento e leve ocorreu atrás de mim. Senti seu braço, seu cheiro e o calor da sua pele em contato com o meu corpo quando ele enrolou seu braço na minha cintura e acomodou sua cabeça na curva do meu ombro. Sua respiração estava ofegante e um tanto quanto densa, não parecia que estivera dormindo até o momento. Coloquei minha mão sobre a sua e entrelacei nossos dedos, fechando finalmente os olhos e sentindo que aquela noite tinha, enfim, terminado para nós.
— Achei que você nunca fosse admitir. — Ele sussurrou abaixo da minha orelha, e eu sorri antes de deixar que o sono me carregasse.
Abri vagarosamente os olhos tendo a visão ampla do quarto iluminado pelo nascer do sol, e pelo incômodo ao sentir cócegas na sola de meus pés. Contorci a ponta dos dedos e puxei as pernas para cima tendo a visão de um homem vestido de negro e parecendo completamente renovado. Severo não tinha mais aquela expressão de cansaço e seu cabelo estava impecável, exatamente como eu sempre me lembrava.
— Seu amiguinho Weasley já bateu na porta duas vezes. Você deveria se levantar, se ele bater outra vez eu não vou me segurar e acabar abrindo, isso vai ser um problema.
— Achei que quando acordasse você já teria me deixado aqui e ido embora.
— Realmente preciso ir, não se preocupe, usarei um feitiço indetectável para que ninguém me veja sair. — Ele fez uma pausa. — Ouvi que está fazendo um trabalho em dupla com Draco.
— Sim, em Runas Antigas.
— Não o mate, por favor.
Chutei os lençóis apressadamente.
— Era a Malfoy que você deveria dizer isso.
Ele ignorou completamente minha frase, depositando um beijo no meu cabelo.
— Precisamos tomar banho juntos mais vezes.
Um segundo depois, desapareceu, abrindo a porta e seguindo pelo corredor.
Bufei me apressando em catar meu uniforme do armário e Gina invadiu meu quarto alguns minutos depois, vendo minha cara emburrada.
— Noite difícil? — Perguntou curiosa.
— Não, eu…
Olhei para minha amiga e não pude mentir para ela, contei tudo o que tinha acontecido na noite anterior e agora ela me olhava com um sorriso insinuador.
— Dormiu com o professor? Você é bem mais danadinha do que eu pensava.
— Não ouviu nada do que eu disse? Severo estava com problemas. E fale mais baixo, por favor!
— Não vou te entregar, se é isso que você está querendo dizer!
— Não acho que vá me denunciar, Gina, sei que somos amigas.
— Você é virgem?
Parei no meio do quarto e ela se virou para mim.
— Desculpe, mas acho que isso não é um assunto que eu goste de tratar tão abertamente.
— Só quero te ajudar. Você não tem experiência nenhuma com homens e eu tenho experiência com alguns tipos.
— Você tem um tipo? — Arqueei a sobrancelha.
— Sou o tipo de todos. — Ela bufou, revirando os olhos.
— Gina, você também é virgem, no que exatamente você vai me ajudar? — Cruzei os braços.
— Primeiro: você precisa de um Curandeiro, só por prevenção. Mamãe me levou em um no verão, quando completei quinze anos. Segundo: precisa de roupas íntimas. Já vi as suas e acredite quando digo que calcinhas com estampa de florzinhas não faz o tipo de nenhum homem. Então, a não ser que ele seja um pedófilo, você vai precisar de algo que diga "eu não sou mais uma criança".
— Suponhamos que eu aceite...
— Começamos hoje, depois da sua aula. — Ela bateu palmas dando pulinhos ridículos de felicidade.
— Não dá!
— E por que não? — Cruzou os braços imitando minha posição.
— Vamos ter aula no escritório do professor Dumbledore. — Sussurrei.
— Ele vai conversar com o diretor sobre vocês ou algo assim?
Seu ar de questionamento me irritou.
— Não. Ele só precisa fazer alguma coisa lá e eu preciso estudar, vamos juntar a necessidade com o acaso.
— Belo acaso! — Ambas sorrimos. — Tudo bem, você pode faltar à aula e aí você já vai com uma calcinha decente para a aula extra com ele, vai que surge uma oportunidade.
Eu ia negar com certeza, essa era a intenção e, definitivamente, a coisa certa a se fazer. Mesmo que eu falte à aula e realmente vá com Gina comprar peças íntimas, já estou encrencada até o pescoço com Minerva por conta de minhas notas e uma segunda falta sem justificativa faria com que o diretor escrevesse para os meus pais. Porém, toda a explicação que havia arranjado até então para ela se esvaziou, quando minha diretora de Casa apareceu, com um elfo doméstico em seu encalço.
— Srta. Granger! — As minhas roupas de dormir sujas de sangue estavam nas mãos da pequena criatura ao seu lado. — Pode me explicar por que isso estava largado no chão dos banheiro dos monitores?
Eu e Gina nos entreolhamos esperando que o pior acontecesse. Comecei a me desesperar ao perceber que não sabia mentir para Minerva e uma imagem de meus pais me ensinando a ser uma boa garota e sempre contar a verdade mesmo que ela fosse bruta e dura demais para compreender, pairou sobre minha mente. No entanto, eu via que a verdade seria mais do que dura: seria devastadora. Se Minerva ou meus pais soubessem sobre Severo, as coisas fugiriam do controle, do nosso amplo e almejado controle.
Voltei meus olhos para Gina, se alguém era boa com mentiras esse alguém era ela, mas percebi que as coisas estavam um tanto quanto embaraçosas quando ela pigarreou e gesticulou para o corredor, no qual eu olhei com minha visão periférica, e vi uma figura envolta em vestes negras parada lá.
Bufei desesperada, apesar de até então ter mostrado uma falsa imagem de garota calma, não havia motivos para me manter assim. Eu estava encrencada de todas as maneiras possíveis.
— Então? — Minerva reforçou.
— Professora McGonagall, eu…
Gina me olhou com as sobrancelhas erguidas, esboçando aquele ar de questionamento como se dissesse "o que pensa que está fazendo?".
— Eu tive um incidente na noite passada, — Limpei a garganta, pigarreando, e dando alguns passos para mais perto do elfo doméstico que ainda segurava os tecidos sujos. — com a minha…
Olhei para Gina mais uma vez, que agora escondia um sorriso sarcástico atrás de toda modéstia.
— Eu fiquei menstruada enquanto dormia. Por isso estava acordada às três da manhã. Quando a senhora me encontrou eu tinha ido tomar banho e me livrar de toda a sujeira… Saí tão rapidamente de lá depois da sua bronca que esqueci de apanhar minhas roupas.
Provavelmente eu tinha ganhado uma coloração diferente da lívida costumeira. Gina finalmente se fez útil e me deu uma força quando assentiu para a professora McGonagall e sua expressão pareceu se tranquilizar, fazendo imediatamente eu me sentir mal por ter mentido abertamente para ela.
— Ah, mas é claro. — Minerva revirou os olhos como se fosse óbvio. — Você não é mais uma criança. Desculpe, Srta. Granger, não me passou pela cabeça que fosse isso.
— Tudo bem. — Soltei a respiração que segurei desde que ela gritou a primeira vez. — Eu vou trocar de roupa ou vou me atrasar.
— Eu espero você. — Gina piscou para mim.
Não era como se eu tivesse alguma escolha, ela havia deixado clara suas intenções de me arrastar até o Hogsmeade e gastar todas as minhas economias em lingeries e por um lado ela estava certa.
— Certo. Vou deixar que se arrume. — Minerva sorriu para mim como se pedisse desculpas e dissesse: "não foi minha intenção desconfiar de você". Ah, Minerva, se você ao menos soubesse…
Assim que ela saiu do quarto, a culpa fez morada na boca do meu estômago, meu consciente ainda intacto dizia para eu abrir o jogo ou simplesmente não cometer o mesmo erro outra vez. Porém, quando pensava em parar com tantos erros, me lembrava de forma vaga o porquê de estar fazendo isso e quando me deparava com as explicações… Bum! Eu desistia de parar de errar. Era por ele e por todo aquele sentimento que eu estava errando, e por mais que fosse a minha pior escolha, meu coração não me deixava desviar e tampouco fazia questão disso.
Eu me tornei, entrementes, uma boa mentirosa e o pior... eu gostava. Allie sabia, a professora Sinistra sabia e deixei que Gina me convencesse com sua eloquência. Me deixei apaixonar por Severo e por seu desfilar tênue de homem que sabia manter o controle de tudo, inclusive, da forma como meu coração batia naquele momento. Tolice a minha pensar que eu tinha o controle.
Pensar tanto no assunto me deixou com falta de ar e andei até minha cama emaranhada, sentei-me na lateral e cobri o rosto com as mãos espalmadas, meio trêmulas e constatei que definitivamente eu havia acabado de vivenciar um ato catatônico de bipolaridade. Há alguns instantes eu estava tranquila com a minha própria análise mental e convencida de que meus motivos eram cordiais e plausíveis, mas agora, pensando como uma pessoa sensata estava tudo tão horrível que mal podia respirar.
Eu nunca me dei bem com a pressão e tudo ao meu redor me pressionava. Duas crises de pânico desde que Severo entrou na minha vida. Duas vezes que a falta de ar foi maior que a própria consciência da realidade. Estava irritada comigo, mas controlei as emoções que me saltavam às órbitas até estar totalmente pronta para olhar de novo para Gina, que me assistia.
— Você precisa se acalmar. — Gina me disse e fechei os olhos com a força sobrenatural que eu não tinha, buscando imensamente a calma e a paciência que ela me sugeria.
— Eu estou tentando. — Minha voz saiu amargurada, embargada de uma possível crise de choro que me fez morder o lábio inferior, me ordenando a não vacilar. — Eu tenho mentido para Minerva e escondido isso dos meus pais, as três pessoas que eu mais amo nessa vida. E estou principalmente tentando... me forçando, a não culpar a pessoa por quem estou apaixonada por causar tudo isso.
— Não acho que seja o momento certo. — Ela disse suavemente.
— O momento certo pra quê? — Minha testa crispou em confusão.
— Contar para os seus pais sobre vocês dois, não é a hora. Só faz poucas semanas, Hermione, você não pode se iludir com essa situação. Ele pode muito bem descobrir hoje ou amanhã que está cometendo um erro saindo com você, e não porque você não seja a pessoa certa, mas porque o momento é que está errado. Então, não, não conte ainda.
As palavras carregadas de verdade de Gina me atingiram com força.
— Você está tão certa, Gina. Tão certa.
Afundei meu rosto no seu peito dela quando ela me abraçou, sentindo levemente o perfume floral da minha melhor amiga impregnar no meu pijama, enquanto minhas lágrimas molharam o uniforme dela.
Notas Finais
Beijos e até o próximo!
