Notas do Autor
Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.
Capítulo 8
Me arrastei para dentro da Sala Comunal torcendo para que nenhum dos meus amigos estivesse esperando por mim. Mas assim que cruzei o buraco no retrato, meu peito fez um novo som de bum, meu estômago embrulhou e minha visão se turvou em instantes por algo que eu deduzi apenas de passear os olhos pela sala: Harry sentado no sofá, curvado, com os cotovelos apoiados um em cada coxa e Rony sentado do outro lado, com o malão fechado no chão, próximo à base de seus pés. Ficou claro para mim que nossas vidas, naquele momento, tinham mudado.
A expressão entristecida no rosto de ambos me deixou constrangida e uma tristeza vertiginosa se espalhou pelo meu coração que bombardeou a sensação para o resto do meu corpo. Mal me dei conta de que estava plantada no mesmo lugar, agarrando a mim mesma e ainda totalmente encharcada pela chuva. Eles nem notaram que eu cheguei, pela primeira vez em muito tempo, a atenção deles não parecia ser a amiga que fazia seus deveres, e sim, a amizade deles. Os fragmentos de lembranças felizes, dos vários finais de semana e de férias divertidas tomaram minha mente, mas se tornaram uma tela de pintura acinzentada, seja lá de quem fosse a culpa.
O baque de deixar Severo ir não fora o bastante para terminar de me destruir. Meus amigos também pareciam estar em despedida, meus olhos tão propensos para uma resposta não pararam de intercalar entre um e outro, na ansiedade de que um deles me desse o que eu precisava para entender o que estava acontecendo na minha frente. Agradeci humildemente ao benevolente Merlin pela Sala Comunal estar vazia e não ter ninguém para presenciar a cena das duas pessoas que mais amo na vida, totalmente destruídas pela emoção.
Harry se levantou, não olhou para mim ou para Rony, apenas andou silenciosamente para a escada do dormitório dos meninos. Tive esperança de que ele parasse para me olhar mais uma vez e jurasse para mim que estava tudo em ordem. Queria que sua atitude não fosse sucinta a um ato desprovido de atenção. Eu estava ali, precisando de respostas, e ele simplesmente me deu as costas.
— Eu sinto muito, Hermione. — Rony soltou com a voz ridiculamente estúpida de uma falsa culpa. — Eu não queria que você precisasse saber assim de repente.
— O que eu exatamente preciso saber?
— Eu e a Lilá pedimos transferência para Beauxbatons.
Aquilo não me atingiu como esperava, porque, de alguma forma, era como se eu já soubesse. Um aluno não junta suas coisas no meio do ano letivo, as coloca no malão e simplesmente vai embora, um amigo que se preze não abandona os amigos porque estão em tempos difíceis. Estava claro no olhar, na afeição, que ele tinha decidido isso apenas por Lilá e aquilo foi o que doeu. Eu e Harry chegamos primeiro que ela.
— Durante essas semanas que passamos juntos, — Ele gesticulava as mãos enquanto falava. — nós ficamos muito íntimos… — Rony suspirou. — E quando me dei conta, ela já tinha tomado parte da minha vida.
O tempo todo eu percebi que Rony não tinha coragem de me olhar nos olhos devido a vergonha e o medo de não suportar a forma como eu o olhava.
— Lilá acha que sou um alvo em potencial, ficando em Hogwarts.
Seu tom foi como um vácuo para o meu cérebro. Toda a força e fibra nas minhas pernas apearam, meus joelhos doeram ao toque repentinamente. Queria mandá-lo embora, já estava com as malas feitas, era só sair, mas o resto de força que me restou aquele dia foi esgotada.
— Não conte a ninguém da minha família que ela disse isso. — Pediu com a voz trêmula e eu torcia para que fosse de remorso. — Eles não entenderiam, mamãe ficará uma fera quando souber. Por favor, Hermione, prometa.
— O que inventou para a sua mãe?
— Eu disse a ela que ganhei uma bolsa de intercâmbio, por ser um monitor exemplar.
Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Uma revolta fez minha garganta apertar.
— Não vou dizer nada, embora ache que está cometendo um grave erro ao esconder dos próprios pais o quanto você é manipulável.
— Então... — Os olhos dele escaneavam o salão enquanto falava. — Decidimos ir para a França e vermos como as coisas se comportam nos próximos meses. Acha que fizemos bem?
— Se vocês já decidiram, é óbvio que não está interessado no que eu acho, então não pergunte. — Respondi com a voz firme.
— Eu estou interessado! É que... Lilá tem certeza de que é essa a melhor solução… E você sabe como as mulheres são.
— Não, não sei, Rony, diga para mim por favor. Como as mulheres são?
— Você sabe...
— Não, é sério. Fala para mim.
— Esquece, Hermione, não é importante. — Ele estava começando a parecer envergonhado.
— Eu realmente adoraria saber. Responde, como as mulheres são?
Rony suspirou, depois falou sem emoção.
— Elas quem mandam.
— E seus amigos que se explodam? Você ficou maluco? Harry precisa de você! Precisa de nós dois! — Cuspi as palavras.
— Não grite, acalme-se...
— Eu não vou me acalmar!
— Uma vez na vida preciso pensar em mim, Hermione.
Virei para ele com os olhos flamejantes.
— Acontece que você não está pensando. Foi a Lilá quem pensou por vocês dois. Ou até isso você não percebeu?
— Não… digo… pensamos juntos.
— Não, Rony, não pensaram. Ela pensou. Sabe, eu não sei mais quem você é desde que começou esse lance com ela. E só faz o quê? Um mês? Dois? Não importa mesmo, porque eu já esqueci quem era Rony Weasley quando estava solteiro. Agora você só fala de si mesmo, sua posição de goleiro e sua adorável namorada, e qualquer um desses motivos que seja. E você também é muito indelicado quando fala conosco e fica sempre olhando por cima do ombro, para o caso de haver uma opção melhor...
— Isso não é verdade!
— É a verdade, Rony! Ah, que se dane vocês dois, para mim chega.
Ergui o corpo lentamente até estar ereta na sua frente. Meu queixo mostrava toda a minha impetuosa personalidade, e embora minhas forças estivessem esgotadas pelo meu próprio término, agora precisavam estar revitalizadas por Harry, ele precisaria muito de mim.
— Não vou dizer para sua mãe que sua namorada é uma idiota, não por você, mas por ela. Molly não precisa saber que tem um filho fracote. — Minha voz tinha um notável tom de nojo.
Furiosa, apanhei minha varinha e apontei para o malão dele fazendo-o flutuar, e esperei até que ele se levantasse e encarei os olhos azuis de Rony me dando conta de que ele agora era alguém a quem eu tinha certeza de que odiaria por tempo indeterminado. Era meu melhor amigo, mas era um cretino.
— Você não vai decepcionar só a sua família, você decepcionou seus dois melhores amigos. — Ergui o malão em sua direção dando minha última palavra. — Não se preocupe em nos escrever como se estivesse tentando se redimir. Não precisamos de você.
No instante em que Rony me disse que iria embora, algo em mim havia mudado. Mas não sabia ao certo o que era. Não existia doçura em volta do meu coração, não existiam chances para perdoá-lo. Constantemente ouvia dizer que a dor te fazia crescer de forma rápida e todo o sofrimento se transformava em uma casca grossa onde ninguém poderia chegar até lá. No início, achei que a dor que tanto me diziam era devido ao fato de ter meu coração partido ou ser rejeitada pelo homem que amava, mas me dei conta de que a vida é pior.
Vendo de fora, minha realidade parecia frustrante, mas permaneci de pé, segurando o choro na garganta vendo Rony arrastar suas coisas para fora da Sala Comunal que dividimos por seis anos. Me dei conta do espaço que Rony tinha dentro do meu coração quando ele me deu as costas e odiei admitir que precisava demais dele, mas assim como "qualquer homem" eu também aprenderia a superá-lo, por mim e por Harry. Éramos agora uma dupla, Rony não estava mais autorizado a fazer parte das nossas vidas.
Meu melhor amigo me deixou em pedaços e me fez entender que a dor de ter deixado Severo partir não era nada comparada a perdê-lo. Eu era boa em mentir para meu reflexo, era mais fácil traçar isso do que assumir que Rony valorizou uma namorada imatura e grudenta muito mais que aos dois melhores amigos. E por incrível que pareça o primeiro homem a partir meu coração não foi Severo, na verdade, foi Ronald Weasley.
Eu estava no meu quarto individual no corredor de dormitório dos monitores e a porta foi aberta lentamente até eu ter a visão completa do rosto dele aparecer. Seus olhos estavam caídos como se lamentasse muito por mim, mas ainda assim eu percebi que ele queria me acolher. E eu precisava. Precisava de alguém para cuidar de mim, e não tinha dúvida que queria que fosse ele a me trazer de volta à vida.
Fazia duas semanas desde que Rony fora embora e eu chorei cada um desses dias que passaram, então, literalmente saltei para o abraço de Severo. Ele me abraçou de volta e seu cheiro almiscarado que eu tanto amava encheu meus sentidos. Torci para que esse perfume substituísse meu vazio, que curasse a dor, que afastasse a solidão, e que seu abraço me colocasse o mais perto possível de sentir que a partida de Rony não destruiu uma parte importante dentro de mim.
— Eu sinto como se estivesse morta. — Consegui dizer em meio ao turbilhão de lágrimas.
Apertei meus braços em volta do seu pescoço e o senti aumentando o aperto na minha cintura, fechei os olhos para absorver por completo o seu toque. Ele me fez sentir preciosa em poucos segundos de contato.
— Eu posso ajudar. — Disse beijando minha têmpora, sua mão foi em direção ao meu rosto e acomodei minha cabeça na sua palma, sentindo o carinho que ele fazia na minha pele com o polegar, enxugando minhas lágrimas. — Eu sei o que é isso, sei como é sentir que a luz que havia dentro de você se apagou.
Meu corpo tremeu sob sua mão.
— Sentir que foi trocada por alguém é uma das piores coisas que você vai sentir, mas você vai se sentir viva de novo, acredite. Você me fez sentir vivo de novo e quero fazer com que você tenha a mesma sensação. — Sua mão direita afastou do meu rosto um cacho fino de cabelo, desceu pelo meu braço e agarrou meu indicador, me puxando do quarto em direção ao corredor. — Venha, vamos sair desse castelo por umas horas.
Eu paralisei abaixo do umbral da porta.
— Isso quer dizer que nós não terminamos? — Perguntei com a voz trêmula e rouca.
— Terminamos? — Ele riu como se eu tivesse contado uma piada. — Nós mal começamos, Hermione.
Saímos pelas portas duplas e caminhamos em silêncio pelos terrenos da escola, em direção a Hogsmeade. Eu sempre gostei do silêncio, de não precisar me explicar e apenas me isolar do resto do mundo sem ser notada. Gostava da comodidade que o silêncio trazia, combinava com toda a minha essência, mas não quando se tratava de Severo. Quando o silêncio também o envolvia me sentia enciumada, jogada de escanteio. Um silêncio torturante e esmagador habitava entre nós.
A verdade era que não tínhamos nada para falar um ao outro desde o nosso rompimento. Desde que dei nosso ponto final eu tentava me convencer de que meu coração estava ocupado com raiva dele e de Rony, então era apenas um órgão em pedaços. Você nunca sabe como é estar com o coração partido até o seu melhor amigo o partir. Mas eu admitia que Rony fora corajoso, ao menos ele teve a boa — sendo extremamente sarcástica — vontade de me avisar para onde estava indo e por que.
Me dei conta que toda a dor estava ali, nitidamente, se transformando em algo sólido como a raiva, pois a única coisa certa era que eu estava me rebelando contra minha vida antiga. Não do tipo em que você precise, inclusive, mudar a cor do seu cabelo, mas provavelmente eu estava lidando com uma futura vida adulta, e ia ter que lidar com o idiota que partiu meu coração. Precisava ser a coisa certa na vida de Harry, ele é o meu melhor amigo, é órfão, e tem um alvo nas costas desde que nasceu. Eu precisava ser forte e constante, ser o mancomunado entre a dor e a estabilidade. E precisava ter sensibilidade para lidar com Harry, ele tinha tido estouros de humor terríveis ano passado, sem contar que perdeu o padrinho, a pessoa mais próxima de uma família que ele já teve. Eu não podia pedir que ele deixasse a dor de ser abandonado pelo melhor amigo para lá e seguisse com a sua vida, era injusto.
Havia chegado ao meu limite, Rony disse que estava indo embora, deixando nós dois, porque a namorada achava perigoso ele ser tão próximo de Harry. Ela usou Sirius como exemplo! Era uma víbora! Eu não ia ser decente, não ia dar o prazer a Rony de um dia ele me ver e sorrir para ele e esquecer tudo que ele fez em nossas costas. Isso era impossível.
Deixei os pensamentos incessantes de lado quando Severo e eu paramos na frente do prédio, onde o imóvel que um dia seria dele e de Bettany se encontrava. Pensei em várias ofensas para dizer, eu já estava despedaçada o suficiente pelo idiota do meu melhor amigo e ainda teria de lidar com um lugar cheio de lembranças de uma ex? Isso sem contar que estávamos no meio de dezembro e a tarde estava coberta por um tempo gelado e enevoado, minhas pernas tremiam de frio, meus lábios estavam levemente arroxeados e minha pele arrepiada pedia por um rápido aquecimento, que fosse mágico ou solar.
Me encolhi quando ele pousou um de seus braços no meu ombro, me puxando carinhosamente para me aninhar debaixo dele e afrouxou o braço direito de forma natural, me trazendo conforto enquanto caminhávamos para a entrada do prédio. Não deixei que ele percebesse minha expressão de indignidade, estar naquele lugar foi contraproducente às minhas expectativas.
— Eu sei o que você está pensando. — Ele encostou seus lábios em meu cabelo enquanto subíamos os degraus até o saguão. — E você está errada, como estava errada no momento em que terminou comigo. Você estava errada porque nós damos certo, mesmo que seja do jeito errado.
Não respondi nada. Queria perguntar por que estávamos ali, o que tanto ele fazia suspense e se aquilo tinha a ver com Bettany — supunha que sim —, mas pressionei os lábios e mordi a língua me impedindo de demonstrar qualquer curiosidade.
— Ia trazer você aqui no fim de semana de visita da escola ao povoado, mas as circunstâncias me fizeram perceber que você precisava saber disso antes. Me passe sua varinha.
Ele puxou minha mão para si, e segurou meu pulso, apontando a varinha para a porta do apartamento, faíscas verdes saltaram dela e se entrelaçaram ao buraco da fechadura, claramente me dando acesso irrestrito ao lugar. O olhei indignada, esperando por respostas e ao mesmo tempo, meu interior saltava e dava gritinhos enquanto eu ficava perplexa.
— Nós precisaremos de um lugar fora daquele castelo.
Ele me encarou, esperando por qualquer manifestação minha, mas eu estava admirada demais para poder dizer qualquer coisa. Não sabia exatamente se estava feliz, perplexa ou decepcionada demais por ele ter dito que o nosso lugar seria o lugar que era para ser dele e de Bettany. Fiquei imóvel encarando a varinha na minha mão e pensando que se resolvesse abrir aquela porta seria como dar espaço para que ele tentasse me colocar no lugar de outra mais uma vez. Eu não queria ser a substituta, nas últimas duas semanas eu mencionei isso conscientemente para justificar o nosso fim.
Mesmo assim, respirei fundo e abri a porta, retirando qualquer chance de arrependimento. O estampido na minha cabeça fez com que eu perdesse completamente o sentido da audição. Meus olhos ficaram levemente arregalados pelo espanto de como aquele apartamento havia sido modificado. Todo o espaço foi reformado em assoalho em tons suaves e as paredes em claras e neutras, branco e palha. A parede que havíamos pintado outro dia não tinha sido mudada, mas a decoração tinha tomado para outro tom.
A cozinha com os armários em tom azul escuro e a mesa juntamente com as cadeiras também carregaram o mesmo tom forte. O tecido dos sofás agora era cinza e entre eles, uma mesa de centro, redonda em madeira.
— Você está me dando um apartamento? — Encarei seus olhos que continham aquele breve tom de confusão. — E quando foi que você teve tempo pra redecorar tudo isso?
Ele fechou a porta atrás de si, trancando-a com um sorriso educado.
— No domingo, e o apartamento continua sendo meu. — Ele caminhou até o centro da sala, retirando seu manto. — Só lhe dei acesso irrestrito à ele. Considere esse lugar como seu porto seguro, um lugar para onde pode fugir sempre que precisar ficar sozinha.
Não gostei da ideia de que o motivo para tanta tensão fosse meus problemas, mas de novo, não falei nada. Não entendi seu olhar de reprovação, mas também tentei não levar para o lado pessoal, eu estava apática demais.
— Eu preciso de um banho. — Ele suspirou entediado, encarando-me em seguida.
— Desculpe. — Cruzei os dedos na frente do corpo, olhando para a ponta das minhas botas molhadas. Troquei a posição de meu olhar para seu manto esquecido no sofá, espalhado de qualquer forma e logo depois seu peito nu, entrou na minha frente, a camisa sendo também largada em cima do manto. Seu indicador foi para a ponta do meu queixo e o polegar pressionou levemente a parte superior. Coloquei meus braços em volta da sua cintura, puxando-o um pouco mais para perto.
— Em nossa última conversa você me agradeceu por tudo, e agora se desculpa. — Ele roçou a ponta do seu nariz pela minha mandíbula. — Isso tudo é bem confuso, mas ainda tem algo em mim que atrai você, eu acho.
Afundei meu rosto no seu peito.
— Talvez seja o corpo, você tem um belo corpo. — Me afastei para confirmar minha observação. — É, você realmente tem um belo corpo, com ele, você consegue atrair alunas inocentes e virgens. — Mordi o lábio inferior. — Isso não foi uma indireta, — Balancei a cabeça envergonhada — e o que eu disse agora também não foi.
Mordi a lateral da bochecha e fiz uma negação com a cabeça. Ele levantou uma sobrancelha irônico.
— Que bom que eu não deixei isso terminar. — Ele me puxou para mais perto, colando nossas cinturas e minha respiração fraquejou.
— Não fazia ideia de que estávamos em algo tão sério. — Respondi.
— Você não faz ideia de tantas coisas, Srta. Granger. — Murmurou ele antes de me puxar um pouco mais para cima pela cintura, até que eu finalmente alcançasse seus lábios.
A sensação era a mesma de que eu me lembrava, carregada de uma brutalidade incomum, de forma que me fizesse querer aquebrantar todas as barreiras que ele impunha entre nós e até as que eu mesma coloquei.
— Acho melhor mesmo você não me deixar fugir, Severo.
Me afastei e pousei minha testa sobre a dele respirando pausadamente, com os olhos fechados e segurando as lágrimas que vieram de repente, ao lembrar que eu sempre desejei um relacionamento que fosse ao menos parecido com o dos meus pais até perceber que preciso criar o meu próprio, sem me inspirar ou espelhar em alguém.
— Porque se você fizer isso não posso garantir que não vou beber em outra festa de estudantes. — Respondi, ainda de olhos fechados, acariciando os cabelos de sua nuca.
— Eu estou realmente preocupado agora.
Abri meus olhos e sorri para a expressão preocupada dele.
— É só não tentar terminar mais, então. — Ele beijou minha testa. — Preciso mesmo de um banho, ficaria surpresa do quanto alguns ingredientes de Poções são asquerosos. Aproveite a segurança de um espaço neutro para não pensar no imbecil do Weasley. E não fuja.
Minha resposta foi rápida e direta, afirmei positivamente com a cabeça e ele sumiu no final do corredor à minha frente. Infelizmente, não esqueci a decepção que passei há duas semanas e toda angústia, que havia sumido desde que Severo me arrastou do meu quarto voltaram rapidamente, causando em mim uma forte e instável dor emocional.
Eu e Harry ainda não tínhamos parado para conversar sobre o impacto da partida de Rony sobre a nossa amizade e isso fazia com que minha dor emocional se tornasse física e, automaticamente, me vi incapacitada de tomar as rédeas como eu estava acostumada. Cresci com sabedoria para lidar com decepções, mas não de alguém tão próximo.
Escutei a água jorrando do banheiro e imaginei como Severo estaria agora, acabei me jogando no sofá soltando uma lufada densa de ar e meu corpo todo estremeceu se contentando com apenas imagens inapropriadas e a alegria de saber que ele ainda queria me tocar como mulher. Eu estou ciente que Severo é uma incógnita para mim, e sei sobre os riscos que estamos correndo se alguém descobrir a respeito da nossa proximidade. Retomar a relação com ele só complicaria mais a minha vida já tão confusa, mas hoje eu não tinha disposição para discutir sobre isso.
Me afundei no sofá achando-o tão confortável quanto a minha cama e meu corpo se rendeu a total preguiça, comecei a sentir dores nos pés por causa das botas apertando a ponta dos meus dedos e optei por retirá-las ao mesmo tempo em que uma chuva começou a chicotear lá fora, batendo forte contra as vidraças do apartamento. Agradeci mentalmente, fazendo uma reverência a cada janela fechada.
Eu me senti em casa, mesmo sabendo que não era realmente minha. Severo tinha razão quando disse que esse seria meu porto seguro, pois eu me sentia extremamente segura e confortável, aconchegada naquele sofá macio. Mas pensando bem cheguei à intuitiva conclusão de que não era o que, mas quem. Não era o apartamento ou o sofá que me faziam sentir em casa, era Severo. Cada parte dele me fazia bem e, meu porto seguro, não se tratava do lugar, mas sim da pessoa. Qualquer lugar onde ele estivesse seria o meu lugar favorito e eu me sentiria segura, confortável e preciosa contanto que ele estivesse por perto. Fugir com ele todos os dias para esse apartamento depois de cada aula me parecia um ótimo plano já que ninguém no povoado me conhecia e era extremamente proibido qualquer um do prédio dar informações sobre os moradores.
Descansei a cabeça no braço do sofá e respirei fundo deixando que meus pensamentos abandonassem minha mente barulhenta até que ela se tornasse um painel em branco, pronto para ser pincelado. Deixei que o cansaço dominasse meu corpo de forma positiva, dando espaço merecido para o sono que me encobriu até não sobrar mais nada.
Abri os olhos assustada quando me deparei com um barulho estridente, corrompendo toda a sala e arregalei os olhos para o ambiente levemente escuro. Levantei meu corpo, sobraçando com a palma da minha mão sobre o sofá e olhei para os dois lados, percebendo que Severo ainda tomava banho pelo barulho da água que passava pelo encanamento. Me dei conta de que não tinha cochilado mais que cinco minutos e o barulho que me acordara era o galeão de Severo, que tocava incansavelmente em algum lugar da sala, me coloquei de pé para enxergar melhor e me guiei na direção do som até notar a moeda sobre a ilha da cozinha.
Murmurei um xingamento que me veio à cabeça quando tropecei nas minhas botas jogadas de qualquer forma no chão e apanhei o galeão dele na mão. O nome na moeda não me surpreendeu tanto quanto deveria, levando em consideração que quando visitamos o escritório do diretor, ouvi o nome dela diversas vezes: Arya. Tentei tomar a decisão mais sensata: eu poderia deixar aquele som estridente tocando infinitamente ou poderia atender e sermos apresentadas. O quão íntimo pareceria atender a ligação da melhor amiga do meu... Professor?
Minha ponderação não demorou muito mais do que dez segundos já que Arya me pareceu uma mulher impaciente, e que provavelmente ligaria até que o infeliz decidisse atender, pelo menos foi assim que a minha mente formulou uma descrição para o insistente som do galeão. Depois de fechar os olhos e suspirar intensamente, apontei minha varinha para a moeda e atendi a ligação sem nenhum remorso, só queria me livrar daquele barulho estridente.
Meu "sim" foi mais forçado do que eu planejei, e minha voz soou alta e carregada de uma simpatia tão forçada que pressionei as pálpebras me amaldiçoando irrevogavelmente.
— Ainda bem que foi você quem atendeu. — Disse a voz feminina com um suspiro cansado. — Eu sou a Arya, ainda não fomos apresentadas pessoalmente, mas o professor Dumbledore escreveu para Sam e contou que Severo estava passando muito tempo com uma aluna. — Ela sorriu. — E que você tem idade para ser filha dele.
Tentei não me ofender com o seu comentário, e tudo que me restou foi sorrir como se tivesse entendido a ironia no seu tom.
— Só que Severo não passa tempo com alunas, então suponho que você seja a nova namorada. Ele realmente não para com ninguém. — Ela suspirou, mas seu tom pareceu irritado, suspeitei de que era tão ciumenta quanto o próprio Severo. A diferença evidente era que ela não escondia isso.
— Nós não somos namorados. — Sussurrei voltando para meu sofá confortável com o galeão na mão. — Ele é meu professor e está me dando aulas de reforço.
— Que seja, eu não liguei para rotular quem o Severo namora. — Ela respondeu e escutei um barulho do outro lado, como se estivesse fechando algum armário. — O aniversário dele está chegando, mas isso você deve saber, apesar dele detestar essa data… Conversando, nós resolvemos que seria boa ideia uma festa surpresa para o carrancudo. E Alvo exigiu que você fosse convidada, então, se você planeja entrar para a família Snape, essa seria uma ótima oportunidade. Como o aniversário dele é logo após as festividades de ano novo, chegaremos aí na quinta feira após o Natal. Se você ainda não comprou o presente, posso te ajudar com isso.
— Acho que vai ser interessante. — Falei convencida e totalmente sincera. Apesar do seu tom desprezível perante a ideia de eu estar "namorando" seu melhor amigo, Arya me pareceu ser o tipo de pessoa que eu adoraria ter como amiga. — Vou associar seu galeão ao meu e te mandar uma mensagem.
O chuveiro foi desligado e encerrei a ligação antes dela conseguir terminar de dizer tchau, eu me desculparia por isso depois, mas agora eu só queria focar na imagem de Severo Snape com uma toalha enrolada na cintura. Ele estava parado na porta do quarto, e a toalha deixava à mostra sua abertura viril em um perfeito V, contemplei exasperadamente sua masculinidade e mordi o lábio inferior quando ele permaneceu parado, me desafiando para um jogo perverso, a qual eu certamente sairia perdendo.
Meus hormônios sempre estavam à flor da pele quando se tratava dele, de forma que me fazia querer correr para os seus braços e me confortar neles mesmo tendo certeza que me envolver com ele era um erro terrível. Mas desejá-lo era um pensamento que pertencia à minha adolescência impetuosa, que almejava experimentar tudo que fosse proibido. E sendo sincera comigo mesmo, eu desejava que ele cuidasse de mim de formas inimagináveis, fosse sexualmente ou sentimentalmente, mesmo correndo o risco dele destruir meu coração.
Severo fazia tudo se tornar perigoso, e eu me deliciava com as descobertas que eu fazia sobre mim mesma. Gostava da sensação do olhar dele sobre mim que, bastava esse olhar e um sorriso malicioso somado ao seu cheiro almiscarado para o meu coração bater forte no peito, em descompasso. Eu queria mesmo que ele me levasse direto para sua cama e me fizesse esquecer qualquer preocupação da minha vida.
— Eu ouvi você falando com alguém, era o seu galeão?
Ele caminhou na minha direção, totalmente despreocupado e pouco se importando com o efeito que me causava com aquela toalha. Seu cabelo escorria água pelo seu ombro e pescoço e continuava seu percurso cascateando até seu abdômen, onde eu parei os olhos me permitindo ter um acesso não restrito.
— Quer tocar? — Apontou com o indicador para onde meus olhos pairavam sem esconder a obsessão que eles admitiram.
— Era o seu galeão, sua amiga Arya, parece que o professor Dumbledore insinuou que você está de namorada nova. — Sorri, e ele me lançou um olhar de admiração, me concedendo uma sensação diferente de todas que já senti antes. — O que foi?
— Você fica linda quando sorri espontaneamente.
Naquele exato momento senti minhas bochechas corarem como nunca, pois não importava a minha razão me dizendo que ficar com ele era um erro, cada vez que Severo Snape me olhava eu tinha a impressão de que não desejaria outro homem na vida além dele. Quando seu rosto ficou mais perto do meu, ele riu da minha bochecha púrpura e soltei o ar pela boca, roçando ligeiramente meus lábios nos dele.
Seus lábios eram habilidosos, macios e desejáveis, tanto quanto me lembrava. Sentir a superfície da sua boca na minha fez o turbilhão de emoções dentro de mim parecer melhorar de uma forma inimaginável. Nossas bocas se conectaram em um encaixe único, ele me puxou pela cintura e minhas costas se chocaram contra a parede do corredor, onde o ambiente parecia estar ainda mais escuro.
Severo chegou mais perto e senti sua língua separar meus lábios, já conhecendo o gosto e me tornando ainda mais íntima do seu processo, ele me abraçou com mais força, mostrando-se tão possessivo e habilidoso com suas mãos quanto era no preparo de Poções. Eu também queria tocá-lo e sentir sua pele, talvez até arrancar aquela toalha à força, mas ele agarrou minhas mãos e as colocou acima da minha cabeça e seus dedos entrelaçaram nos meus enquanto eu o beijava intensamente.
Nosso beijo foi tão envolvente que mal percebi quando ele abaixou minhas mãos e as suas desceram para meu quadris, agarrando-os com força, e me puxando para cima, tirando os meus pés do chão e o meu desejo de entrelaçar minhas pernas em sua cintura foi finalmente concedido. Fui carregada para o quarto sem nenhum pestanejo, não me importei, estar em suas mãos era estar protegida, porque ele se preocupou em me arrancar do meu sofrimento por Rony e cuidou de mim. Comecei a ver uma chama de esperança para nós.
Senti o colchão em minhas costas, estava confortável e ele levantou, erguendo seus olhos, passeando-os pelo meu corpo ainda coberto por minhas roupas e desejei imensamente que seu próximo passo fosse se livrar delas. Fechei os olhos com o desejo ardendo na minha pele, minha virilha o amaldiçoava por ele ser tão cauteloso, mas suas mãos acabaram cedendo ao meu corpo e sorri com os olhos fechados, quando elas passearam por mim, começando pela panturrilha e deslizando por minhas coxas, estava usando saia, então ele teve livre acesso para subir as mãos um pouco mais, chegando rapidamente ao elástico da minha calcinha. Pressionei os lábios querendo balbuciar algum palavrão, mas me neguei a estragar o momento.
Só que o meu cérebro era racional demais e parecia que brigar contra meus hormônios ardentes era sua nova motivação, então ele lançou a imagem da foto de Severo abraçado à outra sob minhas pálpebras. Imediatamente um medo me inundou, mesmo eu o desejando tanto. Ansiei tanto para que ele me tocasse e agora meu cérebro me forçava a agir como se não estivesse pronta, apenas porque eu queria saber tudo sobre o seu tal casamento — que já havia acabado.
— Severo... — Gemi quando a palma da sua mão direita passeou pela parte exterior da minha intimidade sensível e levemente umedecida pelo seu toque
— O que foi? — Ele ofegou, inclinando seu corpo por cima do meu, beijando meu pescoço, mordiscando o lóbulo da minha orelha, fazendo com que meu coração batesse ainda mais forte e descontrolado. Quando permaneci em silêncio ele parou. Tirou suas mãos de debaixo do meu uniforme e me olhou confuso. Escondi o rosto nas mãos e respirei fundo, envergonhada. — Ei. — ele retirou minhas mãos, obrigando-me a olhá-lo, mas não fiz isso, virei o rosto no instante em que ele exigiu um contato visual. — O que foi, Hermione? — Agarrou meu queixo puxando meu rosto de volta para me olhar.
— Você a amava muito... não é? — Franzi a testa lembrando novamente da foto dos dois, porque por mais que tentasse, a imagem ficava repassando na minha mente como um filme repetitivo.
Eu não esperava que ele fosse levar esse assunto a sério, era evidente que seus olhos carregavam culpa por tudo que havia acontecido entre os dois, mas eu via algo que nem mesmo ele via. Luta. Ele lutou contra si mesmo para manter vivo e em chamas o amor que ele dizia sentir por ela.
Severo levantou de cima de mim e se arrastou até o closet tirando de lá duas blusas, uma ele lançou a mim e outra ele usou, colocando uma calça de moletom preta e voltando para a cama. Levantei e fui direto para o banheiro, retirando meu uniforme levemente úmido pelo frio que encaramos do castelo até aqui e vesti sua camisa, que continha seu cheiro almiscarado e viciante. Torci mentalmente para que aquele perfume se impregnasse no meu corpo.
Quando voltei para a cama, ele estava esticado com as pernas cruzadas e as mãos entrelaçadas na nuca. Fiquei me perguntando se ele desejava que eu me deitasse ao seu lado lá, seu olhar foi uma resposta imediata ao meu pensamento. Caminhei vagarosamente até estar deitada. Virei meu corpo para ele, esperando pela minha resposta e permaneci pelo que me pareceu uma eternidade, mas não retirei os olhos do seu corpo imóvel, enquanto ele não tentava fingir, não fechou os olhos nem os desviou, estava concentrado. Ele respirou fundo, trocando a sua posição das mãos e levando seu braço até sua testa, escondendo seus olhos.
— Eu não vou falar com você sobre isso ainda. O que importa é que eu quero você, embora pelo visto, você não acredite. Espero que isso seja suficiente, porque, embora não pareça, eu também tenho um coração que corre riscos.
Nenhum de nós dois disse mais nada por um longo tempo e quando me dei conta, Severo tinha pego no sono. Na noite em que passamos juntos anteriormente eu dormi antes dele e por isso não havia percebido como ficava perturbado enquanto dormia. Os movimentos durante o sono eram normais, justificava o termo "encontrar a posição mais confortável", no entanto, ele se movia de forma perturbadora.
Fiquei de dez a vinte minutos observando como sua expressão havia mudado de um instante para o outro, seja qual fosse o seu segredo, ele também o atormentava em sonho. Entre seus olhos existiam leves rugas de apavoramento. Acariciei-as até que voltassem a ser lisas e tranquilas.
Senti um desejo de poder entrar completamente em sua vida, e passar quase uma hora o observando dormir me fez entender coisas que acordada eu nunca perceberia. Com certeza Severo não me contava nada sobre o seu passado porque tentava me proteger. Mas a questão é que eu queria ser uma egoísta disposta a enfrentar qualquer problema por ele, desde que soubesse sobre tudo o que passou. Ele se moveu mais uma vez, ficando de costas para mim e seus resmungos inconscientes me convenceram de que ele precisava mesmo de algo que o protegesse, e não me proteger.
O abracei pela cintura, escondendo meu rosto no seu pescoço e inspirando fortemente seu cheiro. Tinha que admitir, se quisesse mesmo descobrir qualquer coisa sobre sua ex mulher teria de ser sozinha, sem a sua colaboração. Coragem era algo que não me faltava e também desacreditava que qualquer coisa que descobrisse fosse me assustar, quer dizer, depois que Rony abandonou a mim e a Harry sem pestanejar eu duvidava que me decepcionaria tanto com alguém de novo.
Peguei meu galeão e enviei uma mensagem Gina, pedindo para que pegasse Allie na casa de visitas dos pais trouxas. Larguei a moeda de volta na mesinha de cabeceira e voltei a proteger Severo de seus pesadelos, o abraçando contra mim e enterrando meu nariz no seu cabelo.
Quando abri os olhos novamente fiquei deprimida ao me deparar com a escuridão. Já era tarde e provavelmente precisava voltar para o castelo. Aquilo fez com que meu peito doesse porque se existia uma coisa que me fazia lembrar do abandono do meu melhor amigo, era Hogwarts. De forma instintiva aquele apartamento havia realmente se tornado meu porto seguro, me sentia confortável e aconchegada naquela cama com Severo.
Severo.
Respirei fundo quando meus olhos pairaram sobre ele, dormindo tranquilamente sem nenhuma inquietação e me deixei acreditar que esse repentino conforto foi por minha causa, que eu o havia tranquilizado. Mesmo assim, percebi que ficar na cama não me faria sentir melhor, então me levantei, e caminhei para fora do quarto descalça, usando a blusa dele que cobria metade das minhas coxas. O apartamento estava escuro e silencioso, exatamente o que eu precisava depois de duas longas e terríveis semanas.
Peguei um livro que estava sobre a mesa de centro para não me sentir tão sozinha e me proibi de olhar no relógio, pois poderia me arrepender de estar ali e ter que correr para o quarto para pegar minhas roupas e voltar para a escola. Antes de começar a leitura, procurei por alguma coisa nos armários e acabei encontrando uma caixinha verde de chá. Com a varinha, acendi uma chama no fogão, coloquei um pouco de água para aquecer e apoiei o corpo na ilha enquanto esperava.
— Você me largou na cama, no escuro. — Severo apareceu, sendo refletido pela luz fraca que entrava pelas vidraças.
— Não quis te acordar, sinto muito. — Pisquei várias vezes observando a figura devastadora que se aproximava de mim com o cabelo bagunçado e os olhos pequenos de sono.
— O que está fazendo? — Ele se deteve junto à ilha e sua testa crispou ao ver a caixinha de chá sobre a pedra. — Pode fazer um para mim também? — Confirmei com a cabeça e ele me deu as costas, sentando-se no sofá.
Aquele clima era estranho, com uma tensão permutável que me fez odiar ter parado mais cedo algo que eu queria. Era inegável a minha paixão por ele, ele era o homem a quem eu queria me entregar. Bufei exasperada, e irritada comigo mesma, mas acabei fazendo parecer que estava irritada com ele, pois seu olhar disse mais do que palavras visuais. Ele estava certo de que todo o clima esquisito era por sua causa.
O encarei e vislumbrei quando ele passou as mãos pelos nós do cabelo. Peguei outra caneca, enchendo-a com água e preparei o chá, mudando meu foco uma vez ou outra para seu corpo esparramado no sofá, sua expressão carrancuda me fez sorrir quando me aproximei com as duas canecas, entreguei uma a ele, sem deslocar meu olhar e me sentei ao seu lado, sobre uma de minhas pernas. Beberiquei por cima, sentindo o líquido queimar meu lábio superior e gemi baixo. Severo olhou para mim debochado e bebeu um gole grande do seu chá. Eu me senti ofendida como se ele quisesse me chamar de fraca, então tomei um gole longo do meu, fechei os olhos ao sentir aquela merda queimar toda a minha garganta.
— Ai, que droga! — Coloquei a caneca na mesa de centro e abanei com as mãos meu rosto com a boca aberta. — Por que fez isso? — Crispei a testa em desaprovação e ele me encarou de volta.
— Isso não é uma competição, Srta. Granger. — Sorriu.
Colocou sua caneca ao lado da minha e se inclinou na minha direção, colocando sua língua na minha boca. Diferente da minha que se queimou com o líquido quente, a dele estava fria como uma pedra de gelo. Ele me puxou pela bainha da camiseta, fazendo com que eu me aproximasse alguns centímetros do seu corpo que, deliberadamente, estava exposto. Severo sabia que minha fraqueza existencial era o seu corpo exposto para mim. Só para mim. Adorava cada parte dele e estar só com sua calça de moletom, e me abraçando possessivamente me deixava vulnerável.
— Melhor? — Perguntou com um riso nasalado. — Você não esquentou a minha água. — Ele acariciou meu lábio superior e depois passou o polegar no lábio inferior lentamente, e eu abri a boca, sugando seu polegar deliciosamente de um jeito sensual.
Inspirei com os olhos fechados, até sentir sua boca pressionar a minha novamente. Ele me puxou para seu colo, o que fez meu coração bater forte no peito sem chance de recriminação. Agarrei seu pescoço ferozmente, puxando-o com força contra a minha boca e minha excitação queria que nossos corpos se tornassem um só, que se colidissem a uma sintonia crônica e perfeita. O entusiasmo dos meus lábios em contato com os dele era de extrema urgência; eu o queria e entregaria tudo a ele se me pedisse. Gemi seu nome baixinho, enquanto ele beijava meu pescoço.
Desci minhas mãos pelo seu peito e mordisquei sua orelha, Severo me recompensou instantaneamente gemendo no meu ouvido. Eu me sentia completamente dele, a cada toque de suas mãos sobre minha pele. Enquanto ele me deitava novamente no sofá, beijava a extensão do meu pescoço e descia uma manga de sua blusa que eu usava, beijando também meu ombro, me causando leves gemidos de prazer ao sentir sua boca tão fria deixando marcas por cada parte de mim. Literalmente, marcas. Sua boca sugou a pele entre meu pescoço, depois mordeu friamente a pele da ponta do meu ombro. Eu gritei, mas não era de dor.
Severo abaixou a cabeça entre minhas pernas e eu gemi sentindo sua respiração sob o pano de algodão da minha calcinha. Era a primeira vez que alguém me causava aquela sensação, primeira vez que alguém colocava a cabeça entre as minhas pernas e sentia verdadeiramente o cheiro da minha excitação. Ofeguei e arqueei as costas quando sua mão alcançou o elástico da lateral. Ele me beijou sobre o algodão, agarrei a borda do sofá, procurando forças para aguentar o frio que começou no meu ventre e subiu, deixando minha garganta seca. Seus beijos permaneceram lá e reprimi o gemido na garganta, mudando minha mão para seus cabelos, os agarrei com força quando senti seus lábios molhados na borda da minha calcinha antes de seus dedos abaixá-la.
— Pode gemer, não reprima. — Ele sussurrou. — Não importa se você está zangada comigo. — Ele abaixou mais um centímetro do pano que separava sua boca do meu ponto mais sensível. — E não importa o que eu sinto ou o que eu senti por alguém, agora, nesse minuto, somos só eu e você.
O elástico correu pela minha coxa, até ficar preso em meu calcanhar e finalmente estar livre da única coisa que o impedia de me tocar. Sua língua correu para cima e para baixo, seu indicador afastou os lábios e ele pressionou a língua, fazendo movimentos circulares até eu finalmente gritar seu nome. Corri com minhas unhas por suas costas e deixei marcas vermelhas de um evidente descontrole. Eu queria que ele ficasse marcado com o meu nome e quando fosse dormir se lembrasse da forma como só eu poderia dizer a ele o quanto a sua existência tinha importância para mim.
A cada gemido que eu soltava, sua língua deslizava pela minha entrada. Uma. Duas. Três vezes e a cada uma, a sensação era de que me entreguei ao espaço e acabei em um universo completamente paralelo ao que estava acostumada. Meu coração batia forte, minhas pernas tremiam de excitação, eu queria me tocar e queria que ele me tocasse, mas um tremor estrondoso se apoderou de mim e fiquei fraca demais para dizer qualquer coisa.
Ele caiu sobre mim, respirando pesadamente e eu ofegava no seu rosto com os olhos fechados, inclinando minha cabeça para trás. Percebi que o que ele me fez sentir era a coisa mais prazerosa que alguém me fez e depois disso eu só fiquei mais determinada de que queria experimentar várias formas de amor com Severo.
— Severo? — O chamei em um sussurro, acariciando suas costas marcadas pelas minhas unhas.
— Hum? — Ele escondeu seu rosto na curva do meu ombro.
— Esse vai ser o seu melhor aniversário, prometo.
Era por volta das 21h30 quando voltamos ao castelo sob uma tempestade que chegou de repente. Nos despedimos nos degraus de entrada e eu agradeci a magia por nos manter secos e aquecidos.
Gina me escreveu mais cedo e disse que Harry se trancou no quarto desde que eu saí e que Allie não parava de perguntar por ele e por Rony. Meu coração cedeu a esse apelo e a primeira coisa que fiz foi me vestir, e vir para o castelo.
Severo tinha me proporcionado a melhor sensação e o mais prazeroso dos sentimentos até agora e tinha me feito esquecer do desgosto de meu último momento com Rony. Me encontrei suspirando diversas vezes enquanto subia até a Torre da Grifinória, lembrando cada vez mais intensamente da hora anterior. Meu corpo todo se arrepiava de excitação, imaginando a próxima vez que o tocaria e que ele me tocaria com a boca, com a língua, da forma que ele quisesse.
Passei pelo buraco do retrato e não encontrei a Sala Comunal tão silenciosa quanto eu esperava, Allie sentada no sofá com um livro de feitiços aberto no colo e seus olhos vidrados na leitura. Senti-me a monitora adulta da Grifinória assim que pousei meus olhos sobre ela, suspirei antes de me aproximar.
— Ei, pestinha! — Falei com um sorriso alegre no rosto, me jogando ao seu lado e beijei demoradamente sua bochecha.
Allie me devolveu um sorriso lindo e eu apertei suas bochechas com força, obrigando-a fazer um bico de peixe.
— Ai, Mione! Isso machuca! — Allie bateu na minha mão e sorri. Ela era um sopro de preciosidade na minha vida e eu a guardaria como se fosse ouro. — Não aperta minhas bochechas, não sou tão criança!
Ela fez uma careta emburrada e olhou de volta para seu livro.
— Mas elas são tão fofinhas. — Tentei segurar seu rosto entre as mãos, mas ela se jogou para trás, caindo na gargalhada quando comecei a fazer cócegas em sua barriga. — Você não deveria estar na cama? — Franzi a testa recuperando o fôlego.
— Não tinha nenhum monitor aqui para nos mandar subir e a Gina me prometeu pedir chocolate quente aos elfos se eu fizesse minhas lições. Falando nisso — ela olhou por cima do ombro para Gina, que conversava com Dino junto às escadas dos dormitórios. —, cadê a comida?
Vi Gina se despedir de Dino e subir para o dormitório, provavelmente para pegar a capa de invisibilidade de Harry, sempre que algum de nós precisava visitar a cozinha depois do toque de recolher, pedíamos emprestada a capa dele.
— Hermione... — Allie se virou para mim.
— Hum?
— O Rony, ele vai voltar, não vai?
Respirei fundo, não queria mentir para ela, mas precisava. Seus olhos eram dóceis e amáveis, e eu sabia que ela adorava Rony e o tinha como um herói. Ele tinha uma facilidade incrível de fazê-la sorrir. No fundo, eu queria que ela destruísse todas essas expectativas falhas e desfizesse essa imagem de bom moço que tinha dele.
— Ele vai passar um tempo fora, enquanto isso você tem a mim e a Gina, ela também é ruiva e é uma Weasley. Nós vamos ficar sempre juntas.
— Jura? — Ela ergueu seu mindinho para mim, um hábito trouxa que ela ainda não tinha desapegado.
— Juro.
Enganchei nossos dedos e ela os apertou com força, deitando a cabeça sobre meu ombro e acariciei seus cabelos enquanto ela voltava a sua leitura sobre o feitiço de levitação. Invejei a inocência intocada de Allie, porque era infinitamente melhor que ela não soubesse de nada e guardasse o amor, a crença e tudo que acreditava para si. A realidade era dura demais para uma menina recém chegada ao mundo da magia.
Não demorou muito para que ela pegasse no sono. Quando Gina voltou com os lanchinhos para Sala Comunal, Allie já havia dormido completamente. Aproveitei e conversei com Gina sobre como agora as coisas seriam diferentes e pedi que ela conversasse com Dino para arrancar os companheiros de quarto o mais cedo possível amanhã, e deixasse Harry sozinho. Eu subiria até lá assim que acordasse. Expliquei que tinha chegado à conclusão de que ele não podia nem devia ficar trancafiado no quarto fingindo que o mundo se resumia àquilo.
Eu entendia seu lado, claro, era complicado se deparar com o abandono de um amigo que fez uma mudança tão absurda em sua vida, mas se entregar ou não ao mal que aquilo te causava, era o que definia quem você realmente era. Queria provar a ele que não importava se Rony foi embora, ele ia dar conta de todos os problemas e assumir todas as responsabilidades como o herói que eu sabia que ele era.
Eu mesma curti minha própria tristeza por duas semanas, visitei meus pais e contei a minha mãe sobre o que Rony fez e chorei com ela. Não tive nem forças para contar sobre Severo. Parecia ínfimo sofrer por algo tão mínimo quando eu tinha sido machucada tão duramente pelo meu melhor amigo.
Já tinha deixado Harry curtir a tristeza dele tempo demais e agora, definitivamente, não era a hora dele voltar a ser um adolescente rebelde. Abri a porta do quarto e vi a imagem de um garoto desgastado a qual eu nunca havia conhecido. Seu cabelo estava desgrenhado, os olhos inchados e observei por cima de seus ombros: fotografias espalhadas pelo colchão e lençóis amarrotados por cada canto.
— Harry, não é assim que se resolve as coisas. — Sussurrei e respirei fundo.
Minha primeira reação foi apontar a varinha para organizar os cobertores e ir até o armário para apanhar um uniforme limpo para ele. Ele não merecia ficar naquela bagunça. Havia retirado todas as fotografias de sua caixa de lembranças e recortado Rony de todas as que ele estava nas pontas. As que ele estava entre nós dois, foram descartadas na lixeira junto da sua cama. Nitidamente Harry queria apagá-lo de nossas vidas, seja de qual maneira for.
Minha vontade de chorar voltou com força total e não impedi as lágrimas de caírem, ainda estava magoada demais para fingir sorrisos e compreensão, era um direito meu estar naquele estado e me sentir traída tanto quanto Harry. Ele percebeu isso e me abraçou esmagadoramente, me acolhendo como amigos costumam fazer. Harry compreendeu toda a minha dor naquele instante, sussurrando no meu ouvido que as coisas voltariam ao normal e que conseguiríamos passar por cima disso.
— Tudo bem, shhh... — Ele me afastou, segurando minha cabeça com suas mãos e olhando fundo em meus olhos. — Nós vamos ficar bem, Hermione. Eu prometo.
— Harry...
— Não estou enterrado aqui na tristeza. — Suspirou ele, sentando-se na cama e puxando uma foto para seu colo. — Eu só não consigo acreditar que ele foi capaz de ser tão covarde e burro! Principalmente burro! — Ele ergueu a cabeça, mostrando seus olhos verdes arregalados. — Nós somos praticamente da família dele. — Ele jogou a foto recortada para dentro da caixas vazias. — Babaca!
— Vou te ajudar com essa bagunça.
Comecei a juntar as fotografias picotadas, jogando fora mais algumas onde Rony aparecia no meio de nós. Não sabia por que, mas as pessoas tinham essa concepção de que a fotografia eterniza os momentos, para mim, fotografias eram um modo de se torturar com um tempo que não voltaria mais. Comecei a observar uma por uma enquanto colocava as que seriam salvas na caixa de papelão ao meu lado. Para minha tranquilidade não encontrei nenhuma que me levasse a qualquer momento com Rony, acho que Harry fez um bom trabalho se livrando de nossas lembranças, não precisávamos delas.
Mas em uma delas... Uma mulher que, definitivamente, fez meu coração bater tão forte no peito que pensei que não poderia, em hipótese alguma, disfarçar a sensação de pânico se estendendo por minha expressão atônita. Minha respiração ficou entrecortada e em mim havia lembranças do dia que vi aquela foto pela primeira vez. Tremi segurando a fotografia na mão, pois sorrindo e acenando para mim, estavam os pais de Harry, e a mãe dele, era a mesma ruiva na foto que vi algumas semanas antes. Lily Evans era a ex mulher de Severo.
Fragmentos de memórias percorreram pela minha mente, Harry tinha um álbum cheio de fotos dos pais que ele ganhou de presente de Hagrid no primeiro ano. E ano passado Moody nos mostrou uma foto da Ordem da Fênix original onde Lily aparecia, mas sua imagem havia sumido completamente da minha mente. Nesta imagem ela abraçava Tiago pelos ombros, sorrindo, e bagunçava ainda mais o cabelo dele. Nada parecia fazer sentido para mim. Como é que ela foi casada com Tiago e teve Harry, se tinha casado antes com Severo?
Tudo ficou embaçado como se eu fosse desmaiar, mas era algo mais comparado com choro e falta de ar. Minhas pernas tremiam, meu corpo cambaleou para trás e senti Harry me dando apoio pelas costas. Meu coração estava empacado na garganta, minha alma parecia se rasgar por dentro como papel e comecei a ofegar. Não conseguia respirar.
— Hermione...? — A voz de Harry ecoou no fundo do meu consciente impassível. Nada de meu corpo responder aos meus comandos. — Eu achei que você não tinha mais essas crises! — Ele segurou minha cabeça com suas mãos. — GINA! —
Harry gritou desesperado, me olhando no fundo dos olhos com os mesmos olhos verdes dela. A fotografia deslizou entre meus dedos.
— Hermione, respira, fala comigo...
Solucei, soltando finalmente o choro pela garganta. Gina escancarou a porta e olhou para mim espantada, como se tivesse visto um fantasma e foi aí que me dei conta de que havia caído no chão, Harry me segurava fortemente com os olhos preocupados. Afundei minha cabeça no seu peito, o abraçando contra mim.
Lily Potter era a ruiva de Severo Snape. A mulher de olhos verdes e intensos que me fitava sorridente daquela fotografia foi o amor da vida dele. Cobri a boca para abafar meu ofego, fechei os olhos com força, pois não queria acreditar que Severo omitiu isso de mim e disse não saber se podia se apaixonar. Era devastador saber que ele não podia me amar porque estava preso a alguém que morreu fazia anos.
A última coisa que me lembro é de Gina me segurando e gritando para Harry chamar a professora Minerva.
Notas Finais
Beijos e até o próximo!
