Notas do Autor

Todas as personagens do universo Harry Potter, assim como as demais referências a ele, não pertencem ao autor desse texto, escrito sem nenhum interesse lucrativo, mas à JK Rowling.


Capítulo 9


A luz fraca do sol atravessou a pequena fresta das cortinas do meu dormitório. Meu corpo estava dolorido por ter perdido a consciência, aquela sensação também era uma novidade para mim. Inspirei e expirei olhando o relógio na minha mesa de cabeceira. Pelo menos havia ainda era hora do café da manhã, Harry e Gina devem ter me trazido pro meu quarto depois de ter apagado com a crise de pânico. Tenho certeza que Harry, Gina e a professora Minerva, que foi chamada por eles no meio da minha crise, não entenderam meu ataque.

Parei para pensar e repensar na minha descoberta e cheguei à conclusão de que encurralar Severo nunca me levaria a nada e precisava de respostas concretas, que me fizessem tomar uma decisão correta. Estalei a língua no céu da boca sentindo a amargura da minha realidade: eu teria que aceitar que uma mulher morta, disputava comigo o homem que eu amava.

Um homem que eu tão pouco conheço e só agora me dei conta do quanto nosso relacionamento era vago de informações necessárias. A data de seu nascimento eu precisei arrancar dele, mas tentei levianamente relevar tal situação, escondendo a verdade atrás de desculpas esfarrapadas. Eu precisava lidar com as consequências de enxergar Severo Snape como o homem que ele era e não como o homem que mostrava ser perante a uma escola inteira, adorado apenas por um quarto dos alunos — os sonserinos e odiado pelo restante, descontando apenas os cinco por cento onde eu me encaixava: no time das garotas que tinha uma oscilatória queda pelo sombrio professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Levantei decidida a descobrir mais sobre Lily. Iria até a biblioteca e pesquisaria o anuário de sua turma, bem como os jornais da época dela em busca de qualquer informação que importasse e me ajudasse a entender o emaranhado de linhas que entrelaçavam sua vida a de Severo. Expirei pela boca inflando as narinas, pus os pés no chão e vesti meu uniforme. Cheguei no Salão Principal quando a maioria dos alunos já tinha terminado sua refeição, o cheiro de comida impregnado no ar fez meu estômago roncar.

— Bom dia, Srta. Granger. — A professora McGonagall se aproximou de mim quando me servi de panquecas. — Espero que a comida esteja do seu agrado. Dormiu bem?

— Eu acho que sim. — Forcei um sorriso para ela, enquanto sentia o olhar especulativo dos meus amigos sobre mim.

— Bom. — Ela me analisou dos pés à cabeça, provavelmente notando que algo em mim estava diferente. — Não se incomode com as aulas que perdeu ontem, vou lhe enviar uma coruja com os horários das devidas reposições.

— Ontem? — Engoli em seco. — Que dia é hoje?

— O dia seguinte a sua crise. Papoula ministrou uma Poção do Sono em você para descansar seu sistema nervoso quando ficou claro para nós, assim que a examinamos, que você não descansava desde que o Sr. Weasley partiu.

O tom dela era ríspido e eu brinquei com o garfo no meu prato, incapaz de encará-la quando notei como seus olhos também mostravam uma genuína preocupação. Suspirei.

— Obrigada, professora. Pode não parecer, mas estou recuperada agora.

— Isso ainda não explica por que surtou ao ver uma fotografia.

— Eu preciso pesquisar algumas coisas antigas na biblioteca e aquela foto me lembrou de quão atrasada estou nessa minha tarefa.

Expliquei isso muito mais rapidamente do que pretendia e torci para que ela acreditasse em mim. Minerva franziu o lábio, enrugando a testa e depois suspirou.

— Que bom que voltou ao normal, Srta. Granger, por mim tudo bem. Passe no meu escritório ao final das aulas para pegar a autorização de acesso a qualquer arquivo que precise.

Minerva se foi e não encarei meus amigos, apenas continuei comendo sem demonstrar nenhuma emoção, mas a verdade é que, apesar de ter descoberto o segredo de Severo, estava ansiosa para vê-lo e ao mesmo tempo temia que fosse ser fraca, que não conseguiria olhar em seus olhos e esconder o que eu sabia. Porque agora eu sabia, depois de insistir para saber da verdade, ela veio até mim sem que eu precisasse entrar em confronto com ele. Ela só... voou para mim e eu agarrei, e agora, iria a fundo, a fim de descobrir tudo que eu pudesse sobre quem era Severo Snape.


Minhas primeiras aulas foram de Aritmancia, fiquei escutando dois alunos da Sonserina reclamarem de como já estavam cheios da escola, de todos os trabalhos e professores. Não tinha visto Severo ainda, mas mesmo assim meu coração batia forte sempre que pensava nele. Estava apavorada e só me dei conta disso na hora do almoço, quando o vi na mesa dos professores, segurando uma caneca fumegante enquanto observava os alunos da mesa da Sonserina.

Pela primeira vez desde que comecei esse caso com ele, admiti que era estranho estar na escola. Porque quando estava com Severo fora do horário de aula, ele me fazia sentir mais mulher e madura, e não uma adolescente bizarra concluindo o ensino básico em Hogwarts. Voltei meu olhar novamente para a mesa dos professores, ele continuava lá bebericando em pequenos goles o líquido quente, e desta vez olhava para mim como se compartilhássemos um desejo comum. Ele ergueu as sobrancelhas em uma breve saudação em minha direção, minhas bochechas queimaram e olhei para os lados tendo certeza de que nenhum outro aluno foi capaz de notar esse pequeno, mas íntimo momento.

Como eu poderia odiá-lo? Mesmo percebendo a verdade agora, não conseguia. Olhava para ele e via apenas um homem que amava a mesma mulher há anos. Meu coração se apertou sabendo que era um sentimento vivo dentro dele, sentimento que o consumia e dominava. Minha cabeça latejou denunciando resquícios dos efeitos da minha crise de ontem, respirei fundo sem saber o que fazer quando ele me encurralasse, e o pior, ele sabia que tinha esse controle obsessivo sobre mim.

— Hermione, você está bem? — Harry soltou o garfo no próprio prato. — Está resmungando e se movendo do meu lado como uma louca. — Ele me fitou. — E você nem comeu suas batatas.

— Não seja estúpido, Potter. — Draco, que escolheu justo esse momento para passar ao lado de nossa mesa, nos encarou. — Ela acabou de ser trocada por outra pelo amiguinho de infância. Você não queria que ela estivesse distribuindo sorrisos, não é?

— Obrigada por me lembrar disso, Malfoy. É realmente necessário. — Ergui a sobrancelha, ele deu de ombros. — Babaca! — Sussurrei.

— Eu ouvi isso. — Malfoy retrucou. — Escute Granger, você precisa de um emprego, eu vou arrumar um para você usando meu nome, chega de pobretões na sua vida.

— Você sempre foi imbecil assim ou fez curso? — Gina revirou os olhos, se movendo para mais perto de mim. — Eu amo você, é minha melhor amiga e aonde você for eu vou. Se você vai trabalhar em algum lugar que esse idiota arranjar, — Apontou por cima do ombro para Draco, que resmungou arranhando a garganta. — Eu vou também.

Nem sei se Draco a ouviu, ele já tinha passado por nossa mesa e resolveu voltar a nos ignorar.

— Não precisa fazer isso, Gina.

— Claro que preciso, e vou. — Ela ajeitou uma mecha do meu cabelo rebelde atrás de minha orelha, sorrindo gradualmente enquanto voltava sua atenção para o prato novamente. — Não se preocupe, estamos todos juntos nisso, vai ter que se contentar com essa Weasley aqui.

Apertei sua mão com força, quando senti que as lágrimas me invadiram, mas o sorriso de concordância de Harry e Gina aqueceram meu coração.


Após o almoço segui para meu quarto, ouvindo os murmúrios nos corredores. Era como se todos me olhassem e soubessem o que estava acontecendo na minha vida, que de fato, não lhes dizia respeito. Caminhei lentamente para o corredor do quinto andar, ia deixar metade das minhas coisas no quarto que ocuparia mais tarde, após a minha ronda. Quando cheguei à minha porta, encontrei com Téo encostado nela, mexendo sua varinha entre os dedos e concentrado em olhar o outro lado do corredor.

Mordi o lábio inferior, cruzando os braços e encostando a lateral do meu corpo na parede do corredor, olhei para a janela observando o inverno tomando conta do clima, eu ansiava pelo Natal, pois adorava a neve e o frio e visitaria meus pais. Encolhi os ombros, pigarreando para chamar a atenção de Téo e funcionou, ele me olhou calorosamente com um sorriso nos lábios e guardou a varinha bolso de suas vestes.

— Ei. — Téo ajeitou o cabelo com os dedos abertos, passando apressadamente a mão por eles. — Desculpe... Não vi você, estava te esperando.

Arqueei a sobrancelha e mordi a lateral da bochecha segurando para não rir do seu desconforto na minha presença.

— Certo... — Ele mordeu o lábio inferior. — Só estava com medo de que você ainda estivesse me odiando.

Torci o nariz ainda sem entender aonde ele queria chegar com a conversa sem sentido.

— Você está na frente da minha porta. — Apontei o indicador e isso fez com que ele saltasse alguns passos para o lado, se afastando. Não contive o riso diante do seu desmantelo. — Obrigada!

Entrei no quarto e arranquei da mochila os livros e materiais que já tinha usado pela manhã. Entoei o feitiço que exibia meu horário na minha agenda e respirei fundo ao ler "Defesa Contra as Artes das Trevas" em negrito. Minha primeira aula com Severo depois de ter beijado, dormido, beijado de novo, ele ter me feito um sexo oral inesquecível e eu ter descoberto seu envolvimento com a mãe de Harry. Por Merlin, onde eu estava com a cabeça? Saí do quarto, acabei até me esquecendo de que Téo tinha uma expressão de quem precisava urgentemente de atenção.

— Eu queria me desculpar de novo. — Disse, puxando o lábio com a mão e olhou para os meus pés. Ele nervoso até que ficava... Fofo? — A Professora Sinistra conversou comigo e me contou que ela e o Professor Snape estão saindo... E eu insinuei que vocês dois estavam... Você sabe… transando. — Ele deu de ombros e arregalei brevemente os olhos com a informação precipitada. Severo e Sinistra? Saindo? Quase me engasguei com a saliva. Que porcaria era essa? Sinistra tentando me proteger me causava náuseas. — Eu pensei que talvez nós pudéssemos sair para comermos juntos na visita de sábado ao povoado e conversarmos.

Observei seu esforço ao me convidar para sair, sorri e assenti.

— Claro. — Respondi na intenção de "manter as aparências", assim como a professora Sinistra havia tentado por mim, e algo no fundo do meu coração enciumado e travesso dizia que Severo sabia disso. — Mas não hoje, tenho lições atrasadas.

— Vocês dois não deveriam estar na sala? — A voz rouca e preocupante ecoou, cortando qualquer tipo de clima de conversa que eu e Téo chegamos a ter.

Severo estava parado ao meu lado, segurando sua varinha na mão direita, arqueando as sobrancelhas enquanto me analisava visualmente, seus olhos transmitindo toda a obsessão que ele tinha por mim. Meu ego e autoestima se elevaram a níveis extremos de confiança, observando a forma como seus lábios se moviam para mim, praticamente me ordenando a manter uma distância segura de Terêncio Boot.

— Tenho Poções agora. — Téo se afastou, piscando intuitivamente para mim e ergui as mãos acenando tranquilamente, agindo como se Severo nem estivesse ali. — Te vejo depois! — Gritou de longe.

Me virei para trancar a porta do quarto, tendo uma lembrança vaga de Harry me dizendo que a lição de hoje seria sobre feitiços escudos não verbais. Quando me virei de volta Severo continuava parado à minha frente com a mesma expressão de incredulidade na face. Respirei fundo apertando a mochila no ombro, mordiscando levemente o lábio e observando os ares ao nosso redor: completamente vazio. Éramos somente nós dois perambulando pelo corredor dos monitores. A estrutura e o ambiente de ar antigo deixavam a escola ainda mais fria do que já estava o clima lá fora.

Meu coração batia forte e meu desejo queimava a pele, mas eu precisava descobrir o que aconteceu em seu passado, então gritava para meu consciente se controlar e não estragar a minha tranquilidade. Aliás, Severo parecia ter um imenso prazer em fazer isso.

— Acho que eu estou atrasada para sua aula. — Dei ênfase em sua, apontando com o queixo o corredor extenso e vago. — E você também. — Apertei novamente a mochila contra o ombro, quase agindo como se ela fosse um escudo perfeito. — Não me olhe desse jeito, não estou a fim de discutir agora o porquê de Téo saber que você e Aurora Sinistra estão saindo e eu não.

— Eu pedi para ela fazer isso. — Admitiu ele com a sobrancelha franzida. — Depois daquele dia que o ameacei. Deduzi que ele era inteligente o suficiente para ligar os pontos e saber sobre nós. Então a usei como uma cortina de fumaça.

Sua expressão frustrada me deu espaço para imaginar que ele esperava que eu tivesse entendido isso sozinha. Era uma coisa óbvia.

— Então tudo bem se eu também usar Téo como desculpa? — Mordi a língua me amaldiçoando, Severo tinha rugas na testa agora, de tanta irritação. — Preciso ir.

— Não. Não precisa!

Ele segurou meu cotovelo quando decidi dar as costas e naquele ato de mantermos a distância, me beijou no meio do corredor do quinto andar. Na escola! Meu corpo reagia empurrando o seu, mas ele me empurrou contra a porta, pressionando-me com avidez contra o objeto atrás de mim e depois de me beijar até que não tivéssemos mais fôlego, sugou levemente meu pescoço, fazendo com que eu arfasse.

— Alguém vai nos ver!

Tentei novamente empurrá-lo, mas minhas pernas e mãos estavam completamente cedidas ao seu toque.

— Tem razão. — Sussurrou ele contra a minha pele, sentindo meu cheiro e se deliciando calorosamente do aroma adocicado.

Fui puxada brutalmente pela mão para dentro do quarto, que estava escuro porque eu tinha fechado as cortinas quando esvaziei meus livros lá. Não pude ver os olhos dele, de repente seu toque não estava mais sobre a minha pele, mas podia escutar sua respiração densa em algum lugar. Deixei minha mochila cair aos pés quando senti sua mão apertando ruidosamente meu seio direito, me puxando pela cintura com a outra e, mais uma vez, selando nossa boca, separando meus lábios com a sua língua aveludada, me tirando completamente do chão. Ele me puxou pela coxa, colocando minha perna direita no seu quadril, onde me senti pressionada e levianamente injustiçada por ele sempre me tocar daquela forma e eu nunca pude tocar diretamente com liberdade seu corpo.

Estava chateada? Sim.

Estava confusa? Sim.

Queria descobrir a verdade? Sim.

Eu queria pará-lo e questioná-lo sobre tudo? Não, definitivamente não!

Minhas mãos correram por seus ombros buscando uma entrada no seu manto. Queria sentir sua pele, que fosse um único pedacinho quente e que ela me queimasse. Inspirei no seu pescoço sentindo o cheiro almiscarado de onipotência que corria totalmente por ele. Mordi o local de encontro entre seu pescoço e ombro, lembrando vagamente de ter duas marcas no meu — por sorte, nenhum dos meus amigos pareceu notar — e Severo gemeu meu nome e a palavra ficou ecoando na minha cabeça, me fazendo perceber que eu precisava escutá-lo fazendo isso mais vezes. Pensando nisso suguei com mais força, procurando seu apoio enquanto ele apertava minha bunda e mordiscava minha orelha.

— Estamos atrasados. — Falou, beijando minha boca e depois puxando meu lábio inferior com o dente. — Estamos muito atrasados. — Ele riu. — Você está melhor? — sussurrou, agora distribuindo beijos pela minha mandíbula e pescoço. — Porque tenho a terrível impressão que teve outra crise de pânico por alguma coisa que eu fiz. — Continuou descendo, afastando com a mão livre meu uniforme e deixando espaço para acariciar-me debaixo de minha camisa. — Ou que você acha que eu fiz.

Seus dedos dedilharam pela minha pele, chegando até a base do meu sutiã; sua mão quente encobriu um seio meu rijo e sua boca voltou para minha.

— Vou te dar uma advertência por chegar atrasada na droga da minha aula. — Proferiu com a voz arrastada. — E outra para Terêncio Boot, por te convidar para sair. — Dito isso, ele se afastou, abrindo a porta e deixando a claridade mostrar como eu estava descabelada. — Até a próxima lição, Srta. Granger.

— Sem reposição depois da aula hoje, ouviu? — Quase gritei saindo atrás dele. — Vou estudar.

— Sem problemas, tenho um compromisso.

Ajeitando o manto, ele piscou para mim e sorriu, virando e saindo com sua capa esvoaçante por todo o corredor extenso. Esse homem... Ele ia acabar comigo e o pior de tudo é que eu estava deixando.


Assim que entrei na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, vi a confirmação que de a aula seria sobre feitiços escudos não verbais. Um feitiço não verbal é um feitiço que é feito sem que o encantamento seja dito em voz alta. Severo andava pelo outro lado da sala em direção à própria escrivaninha, suas vestes negras escuras enfunando a cada passo e, toda a classe o acompanhava com os olhos.

— Creio que os senhores são absolutamente novatos no uso de feitiços mudos. Qual é a vantagem de um feitiço mudo?

Ouvir sua voz fez minha mente retornar aos vinte minutos anteriores onde ele me espremeu contra a porta do meu quarto de monitora. Aquela coisa não parava de me passar pela cabeça.

— Muito bem… Srta. Granger?

Balancei a cabeça negativamente ao ouvir meu nome e, alguns sonserinos da classe me olharam rindo e zombando de mim. Encolhi os ombros na defensiva.

— Você pode recitar a resposta do Livro padrão de feitiços, 6a série para nós? — Cruzou os braços, e percebi a sua tentativa de me distrair.

— O adversário não pode prever que tipo de feitiço a pessoa vai realizar — Respondi —, o que lhe dá uma fração de segundo de vantagem.

— Cinco pontos concedidos por nunca nos decepcionar em decorar a resposta.

A maior parte da sala gargalhou ao ouvirem o professor zombar de forma cruel da minha resposta. Severo bateu com a varinha na lousa e todos se silenciaram instantaneamente.

— Sim, aqueles que se aperfeiçoam e aprendem a usar a magia sem proferir os encantamentos, passam a contar com o elemento surpresa em sua arte. Nem todos os bruxos conseguem fazer isso, é claro; é uma questão de concentração e poder mental que alguns — seu olhar recaiu demoradamente em Harry — não possuem. Parabéns por recitar a resposta Srta. Granger, ao menos alguém nesta sala se dá ao trabalho de ler sobre o que estudaremos.

A sala toda pareceu se completar em silêncio, com todos o olhando apreensivos. Esse era um fato incomum para todos os alunos daquela sala: Severo Snape não costumava elogiar seus alunos, menos ainda se eles fossem grifinórios. Duas horas depois e ninguém ainda tinha dito uma única palavra, todos ainda completamente chocados com o comportamento dele no início da aula.

— Lição para casa... Dois rolos de pergaminho baseados no que a Srta. Granger recitou, sem copiar do livro, usem a inteligência para recitar com outras palavras o que significa um feitiço escudo não verbal.

A turma praguejou insatisfeita.

Juntei meus pergaminhos, pena e tinteiro caneta sobre a mesa. Os alunos saíram assim que a sineta tocou, o que eu agradeci muito generosamente já que enfrentar o engarrafamento na saída da aula era terrível. Soltei meus cabelos do rabo de cavalo bem feito no alto da cabeça, coloquei o elástico que o prendia no bolso do uniforme e caminhei lentamente atrás dos últimos cinco alunos, que pareciam despreocupados em sair.

— Srta. Granger. — Severo chamou antes de eu conseguir completar meu trajeto silencioso até o outro lado da porta.

Fechei os olhos voltando lentamente para frente de sua mesa.

— A exibição em aula foi suficiente para você considerar o tanto de apreço que tenho por você?

Minha garganta secou repentinamente ao entender a pergunta dele. Não era um "eu te amo", mas era alguma coisa e por mais que fosse pouco, havia sido suficiente para que eu ficasse com dor de cabeça por estar escondendo a verdade.

— Foi. — Eu respondi finalmente, sorrindo nervosa e caminhando para fora da sala.


Dois dias depois eu estava envolta com jornais antigos, buscando informações sobre Lily, minha pesquisa não tinha rendido muito e eu continuava sabendo o que todos sabiam: Lily era conhecida por ser uma estudante vivaz, talentosa e popular, se tornou Monitora Chefe em seu último ano em Hogwarts e também era uma das favoritas do professor Horácio Slughorn pois ela tinha um talento especial para poções. Lembrei também que Harry me contou que Lupin uma vez descreveu-a como uma pessoa extraordinariamente gentil, com o hábito de ver o melhor nos outros, mesmo quando eles não podiam ver por si próprios. Eu também sabia que durante a Primeira Guerra Bruxa, Lílian foi um membro da Ordem da Fênix e sua morte foi um puro sacrifício por amor à Harry. Isso resultou na temporária derrota do Lorde das Trevas e Harry saiu ileso, exceto pela cicatriz de raio na testa.

Suspirei desanimada, devolvendo uma pilha de jornais aos respectivos catálogos. E se eu não tivesse tão distraída em pensamentos teria visto a coruja das torres pousar na minha mesa antes de ouvir a bronca de Gina por ter seu tinteiro esparramado pelo trabalho de feitiços que estava fazendo.

— Desculpe. — Murmurei para ela e arranquei rapidamente o pergaminho do bico do animal, que levantou voo em seguida.

Não tinha remetente, mas a mensagem escrita era claramente para mim.

"Elfrados - Hogsmeade, Sábado no horário do almoço. Suas respostas sobre eles estarão lá, Srta. Granger."

É irracional e fora do personagem para mim e o meu mundo inteiro se sente fora de equilíbrio quando releio o pedaço de pergaminho. Alguém sabe sobre o que estou pesquisando, e me enviou esta mensagem, o texto é auto explicável. Minha cabeça começa a zumbir com flashbacks da tarde que descobri sobre o casamento de Severo. Mal estar corre para cima do meu estômago e eu tenho que correr para o banheiro.

— Hermione? — Gina chama do lado de fora da porta do banheiro.

— Só um minuto, Gina.

Eu limpo minha boca e ligo a torneira fria, jogando em minha cabeça e rosto a água quase gelada. Gina está esperando por mim quando saio.

— Você consegue me cobrir sábado na visita a Hogsmeade?

— O quê? Porquê? O que aconteceu?

— Vem.

— Hermione, você está me assustando.

Eu a guio até meu dormitório e fecho as cortinas, recitando um encantamento de silêncio para termos privacidade, pegando a mão dela na minha.

— Eu preciso visitar um local, mas preciso que confirme que estive com você o tempo todo em Hogsmeade. Não quero que ninguém descubra o que estou investigando.

Ela puxou a mão dela da minha.

— Você vai se colocar em risco? O que aconteceu?

— É sobre Severo, mas não posso contar mais do que isso. Não é um segredo meu. Por favor? — Ela concordou com a cabeça e eu a abracei. — Obrigada, Gina.

A partir dali, eu tenho o cuidado de não ver Severo até o final de semana ou ele perceberia que eu estava escondendo algo dele. Mas na noite de sexta é minha ronda de monitora e quando ouço a batida na porta do meu quarto, sei que é ele. Os pés de Severo se arrastam para dentro do meu quarto assim que abro a porta e ele cai na poltrona de leitura, jogando sua varinha e seu manto na mesinha de apoio. Ele esfrega as mãos por sua cabeça e eu noto sua camisa rasgada e um pouco de sangue manchando o tecido.

— O que aconteceu, Severo?

Ele olha para cima e exala.

— O de sempre. Fui convocado esta noite. Eu preciso tomar banho, só queria ver você antes.

Ele sai tão rápido quanto entrou e sei que está indo para o banheiro do final do corredor, o mesmo onde ficamos juntos semanas antes. Eu pego o manto dele e o desembaraço em busca de mais manchas de sangue e um pedaço de pergaminho cai no chão. Eu luto comigo mesmo por dez minutos apenas olhando para o papel antes de pegá-lo e desdobrá-lo. Me odeio por ser uma adolescente tão insegura, que desce tanto o nível para olhar mensagens que não lhe dizem respeito, mas tento me dizer que estou verificando apenas para ver se ele corre algum risco, porém meu coração batendo tão alto em meus ouvidos e minhas mãos tremendo, se negam a acreditar nisso.

"Eu terei uma hora livre no sábado, ainda que seja a minha hora de almoço. Conhece o Elfrados? Te espero lá. Jenna."

Eu dobro novamente o pergaminho e o coloco de volta no bolso do seu manto, exatamente onde ele o deixou, forçando as lágrimas a não caírem. Vinte minutos depois ele está de banho tomado e roupas limpas e de volta ao meu quarto e me forço a soar natural.

— Porque estava sangrando?

— Não era meu sangue.

Ele caminha até mim e tenta me beijar, mas me sinto doente, dou um passo para trás, me esquivando dele.

— Por que recuou do meu toque?

— Eu me sinto doente, isso é tudo. Uma pessoa lhe procurou hoje aqui no castelo, Jenna. Quem é ela?

Surpresa iluminou seus olhos e se ele fosse outra pessoa, eu não perceberia que sua mão estava apertada em um punho com a menção do nome dela.

— Ela não disse quem era?

Eu consigo ouvir a contrariedade em sua voz e quero gritar e bater em seu peito e fazer ele me dizer a verdade para que assim eu não perca mais da minha sanidade imaginando o que mais ele esconde de mim. Tem de haver algumas explicações que vão fazer tudo isso fazer sentido e nós podemos rir sobre isso e sermos nós mesmos novamente.

— Não. — Eu digo.

— É provavelmente algum representante de ingredientes raros para Poções, às vezes recebo visitas de alguns deles. Eu não conheço ninguém chamado Jenna.

Eu não consigo respirar, não importa quantas respirações eu tomo.

— Por que você está tão quieta?

Ele pergunta e anda em minha direção com os braços estendidos para me abraçar, como ele já fez dezenas de vezes antes, mas eu dou outro passo para longe. Eu não vou encontrar o consolo que ele sempre me dava, eu não posso mais fazer isso. É como se eu tivesse sido engolida por meus pesadelos e não consigo acordar.

— Meu silêncio devia significar alguma coisa para você. Devia ao menos lhe dizer o quão alto a sua voz está falando mentiras e o quanto de dano isso causa a nós.

Finalmente as lágrimas que segurei desde que li o pergaminho em seu bolso caem no meu rosto e queimam uma trilha por ele que parece ácido. Passo por Severo e saio, ignorando a voz dele chamando atrás de mim.

— Hermione, não sei o que diabos está acontecendo, mas eu não gosto. Isso não somos nós, precisamos conversar!

Tenho sorte ao sair do quarto e assim que viro o corredor seguinte quase esbarrar na professora Minerva. Um suspiro de alívio sai da minha garganta e eu apressadamente invento uma mentira para ela sobre Gina ter me mandado uma coruja dizendo que Allie teve um pesadelo e está chorando e chamando por mim. Severo nos alcança em seguida, mas na frente da professora Minerva ele não pode fazer nada, e apenas assiste quando ela me libera da monitoria e ordena que eu vá para a minha torre. Não olho para ele quando dou as costas aos dois e saio pisando duro em direção ao meu dormitório coletivo.

No sábado de manhã desço com meus amigos para o café da manhã antes da visita ao povoado e não vejo sinal de Severo na mesa dos professores. Gina avisa a Harry que eu e ela iremos visitar a loja de roupas íntimas e portanto ele está dispensado de nos acompanhar. Eu e ela nos despedimos em uma das ruas laterais do povoado, não sem antes ela me recomendar cuidado.

Então, eu finalmente me torno essa garota, aquela que espera por seu namorado passar e o segue. Sinto repulsa por mim e por ele, e juro por todos os deuses que se eu vê-lo beijar ou tocar uma outra mulher, ele vai morrer com a força da maldição que vou lançar nele. O vejo entrar no restaurante e me arrasto até o lugar para olhar pela janela. Ele é chamado por uma mulher loira e magra e meu sangue esquenta mais ainda, embora eu realmente esteja envergonhada de minhas ações e meus pensamentos.

Severo não parece íntimo com ela e antes que ele tenha pedido algo, vejo seu rosto se contorcer de raiva em algo que ela disse e então ele se levanta e sai, eu rapidamente me escondo na esquina, mas ainda dando uma olhada para ele, o vejo apenas por um segundo até que ele aparata. Poucos minutos depois, a tal Jenna, está saindo também, ao contrário dele, ela não aparata, então eu simplesmente a sigo.

Minhas entranhas estão geladas quando a sigo até as ruas mais afastadas do vilarejo e vejo uma placa no lugar onde ela entra, Bluewater. Lembro vagamente de algo que li sobre o povoado e, se minhas memórias não estão ruins, este é um lugar onde bruxos são trazidos para uma espécie de retiro, a mulher mostra uma credencial e entra.

Eu levo vinte minutos para acalmar a minha respiração e sair de trás da árvore onde me escondi. A tristeza por me tornar essa pessoa desconfiada chicoteia minhas entranhas como um furacão rasgando através de mim. Minhas pernas estão fracas e não tenho certeza se posso nem mesmo entrar, os portões de ferro do lugar são intimidantes. Mesmo assim, me obrigo a caminhar até a entrada vigiada por um bruxo em uma caixa com uma janela de vidro.

— Posso ajudá-la, Srta.?

— Eu preciso ver um dos... médicos aqui. Jenna?

— Nome.

— Hermione Granger. — Respondo.

Ele desliza sua varinha e se vira para mim.

— Você não tem uma hora marcada, eu preciso saber se ela pode atender.

Ele ergue a varinha novamente e, em seguida, um zumbido alto perfura o ar. Eu quase morro de choque, o bruxo sorri para mim quando vê minha mão apertada em meu coração e a cor ser drenada do meu rosto.

— Você pode entrar.

Eu entro timidamente, olhando para mais bruxos que estavam do lado de dentro do portão. Uma parede enorme rodeia a propriedade. Isso está enlouquecedor demais e eu não tenho nenhuma razão para ter medo, mas estou apavorada quando o portão é fechado atrás de mim. Dou alguns passos e abro uma porta para um hall de entrada e logo em seguida, a recepção.

Me perguntam sobre quaisquer armas ou objetos metálicos e depois uma bruxa com vestes de auror me revista minuciosamente e me manda seguir em frente. Eu não preciso falar com outra recepcionista porque a tal Jenna está esperando por mim e me chama para segui-la ao escritório.

— Sente-se.

Ela aponta e quero recusar, e apenas gritar com ela para me dizer o que diabos estava fazendo com Severo, mas minhas pernas estão prestes a virar geleia e eu preciso realmente me sentar.

— Isso é inesperado. — Ela sorri para mim. — Você não chegou em uma boa hora, quer agendar uma consulta? Eu vou ficar feliz em responder quaisquer perguntas que você possa ter, e então, eu...

Eu levanto a minha mão para impedi-la no meio da frase.

— O que está acontecendo com você e Severo Snape?

Eu tenho um milhão de perguntas correndo pela minha cabeça, mas não consigo organizá-las, apenas essa. Ela se levanta e caminha ao redor da mesa, em seguida, senta-se no canto, juntando suas mãos em seu colo. Ela está ao alcance de um braço de distância e se ela disser qualquer coisa que eu nunca poderia imaginar acontecendo entre eles, posso deixar este lugar e ir direto para Azkaban, porque vou agarrá-la e arrancar seus cabelos a partir dos folículos.

— Sou limitada quanto ao que posso te dizer, mas o que posso falar é que eu sou a medibruxa responsável por Lily.

— Eu vou precisar de mais do que isso, Jenna. Por que vocês se encontraram para o almoço hoje?

— Para discutir o estado mental de Lily por causa do que houve ontem à noite.

O quê?

— Estou confusa. O que Lily tem a ver com isso? Ela está…

A imagem dos dois bilhetes inundou a minha mente. Respostas. Será que de alguma maneira eu sabia a resposta o tempo todo, mas estava com muito medo de expressá-la ou deixar minha mente acreditar?

— Estado mental dela? Como? — Eu respiro e as náuseas me ameaçam.

— Bem, o que eu posso dizer, vejamos, tudo estava bem com ela, até o ataque de ontem à noite.

— Desculpe, o que quer dizer com "tudo estava bem com ela"? — A verdade me atinge como um tsunami e eu cambaleio para trás. — Ela está viva, não está?

— Srta. Granger, deixe-me te dar um copo de água.

Eu pulo da cadeira e fora do escritório. A água não vai me ajudar a passar por isso. Empurro para fora das portas e inalo o ar profundamente, sentindo em meus pulmões. Eu estou sufocando porque não é possível que Lily Potter estivesse viva. Ela morreu quando Voldemort atacou a casa dos Potters. Harry esteve protegido esse tempo inteiro pelo amor que ela desprendeu com o sacrifício dela. Como ela pode estar viva? Como é possível isso acontecer?

Eu forço meus pés a me levarem até o portão e em vez de ser surpreendida pelo zumbido e o tilintar, congratulo-me com ele. O castelo de Hogwarts parece que está a milhas de distância e eu só quero chegar até minha cama e desabar em meu choro até que tudo o que descobri hoje faça sentido.

Não consigo chegar nem ao portão, pois a verdade de tudo o que descobri se manifesta na minha frente. As piscinas verdes brilhantes me congelam no lugar. Ondas de cabelo ruivo enquadram um rosto lindíssimo e um sorriso genuíno faz meu interior rastejar.

— Ah, olá!

Eu fiquei muda, não consigo falar, lágrimas acendem em meus olhos e meu corpo treme tanto que a minha visão embaça quando a voz dela ecoa em minha mente como casacos de escuridão me engolindo em um abismo de mentiras. Me arrependi imediatamente de estar ali. Eu não queria ter descoberto isso. Eu não sabia como me explicar nem dizer o porquê exatamente eu estava lá. A imagem de Lily parada na minha frente era o que me provava que Severo nunca me contou nada. E o pior nem era isso, o pior era que agora eu também fui inundada por uma onda avassaladora de compaixão por Harry. Ele teve sua vida inteira baseada em mentiras. Lágrimas pesadas desabam dos meus olhos.

Lily se aproximou e segurou minha mão com força, eu suspirei. Lamentava por ela. Lamentava por Harry e agora lamentava por mim, por ter me apaixonado por um homem que literalmente se amaldiçoava demais pelo passado.

— Eu preciso ir. — Minha voz saiu quase inaudível.

O resquício de tristeza na minha expressão se tornou evidente. Lily pareceu perceber, mas não me parou quando me soltei da mão dela e andei apressada até a saída, tentando inutilmente agir como se nada do que descobri tivesse me afetado. O problema de descobrir a verdade era esse: ela te triturava da pior forma possível. Não bastava ser apenas dolorosa, precisava ir além e me fazer sentir como se amar fosse um erro fodido. E a única coisa certa disso tudo era que a lesão que eu levaria dentro de mim daqui em diante seria grande e incompreensível para quem via de fora.

Abri o portão no mesmo instante em que outra pessoa. Sim, dava para ficar pior, Severo estava de cabeça baixa com as mãos enterradas no bolso de suas vestes e me olhou assim que batemos um no outro, incompreensível. Minha testa se enrugou, a dele não ficou diferente. Nossos olhos buscavam por respostas que só nossas bocas poderiam dar, mas que por um completo desastre estavam impossibilitadas no momento. Ambos estávamos chocados com a presença um do outro no mesmo lugar, e me dei conta de que assim como eu, ele também estava ali para vê-la. Só não sabia exatamente há quanto tempo ele tem feito isso e se fazia isso com esperanças de reatar com ela. Minha cabeça latejou de tanto cobrar de mim por respostas.

— Hermione? — Sussurrou ele, segurando meu pulso e me puxando para fora de uma vez. — O que você está fazendo aqui?

— Não! — Respirei fundo, olhando em seus olhos negros, cheio de dúvidas. Não estavam tão diferentes dos meus. — O que você está fazendo aqui?

— Vim ver uma amiga.

Minha raiva pareceu tomar outra proporção ao ouvi-lo novamente mentir. A minha boca seca tremeu.

— Lily? Ela não é sua amiga! — Ergui as mãos, perdendo o restante da paciência que me sobrara. — Ela foi sua esposa e ela estava morta até dez minutos atrás. Você mentiu esse tempo inteiro!

Empurrei seu peito com a força que não sabia que existia, até precisar dela. O empurrei mais uma vez vendo que foi inútil a tentativa na primeira, ele continuava intacto no lugar. Esmurrei seu peitoral sem me importar com os guardas que nos encaravam e sem nem ao menos ligar se Lily ou qualquer um lá de dentro nos visse. Minha voz estridente ecoou e meus cabelos voaram com a proporção da minha força.

— Seu idiota! Eu odeio você!

— Pare com isso! — Ele murmurou agarrando meus pulsos fazendo com que eu parasse e percebesse que minha respiração estava entrecortada de tanto erguer a voz e tentar, inutilmente, atingi-lo fisicamente. — Você não me odeia! Está muito longe disso.

Tentei empurrá-lo, mas ele continuou me puxando para longe do portão, me levando a uma distância segura de todos, e agora eu só conseguia sentir mais raiva de seus escrúpulos.

— Eu o odeio por ter me feito amar você enquanto mentia pra mim o tempo todo! — Fui arrastada contra a minha vontade para um beco e agradeci por ser dia. — E acima de tudo, eu te odeio, por ter descoberto tudo isso e ainda assim não conseguir te odiar como você merece!

Puxei minha mão, conseguindo me soltar e me afastei, ficando o mais distante possível dele. Estava com raiva e me achando uma estúpida. A coisa toda passava como um filme em minha mente. Convivi com ele por pouco tempo e em poucos meses a minha vida tinha virado de cabeça para baixo.

— Vai para o inferno! — Grunhi, lhe dando as costas. — Você me disse que a ama e ela está viva, então pode me deixar aqui e ir lá dentro ficar com ela! — Gritei, sem olhá-lo. Não tinha coragem, pois sabia que estava chorando o suficiente para que ele sentisse pena e a última coisa que precisava era de alguém tendo este sentimento por mim.

— Você quer a verdade? Quer? — Ele disse numa voz gelada e mais uma vez agarrou meu pulso. Não tive tempo de reagir antes do puxão da aparatação me arrancar do beco que tínhamos entrado.

A luz do dia desapareceu em um crepúsculo nebuloso. A brisa era fria quando Severo me arrastou por uma estrada cheia de sujeira e mato. Ambos os lados estavam cobertos de palmitos e ervas daninhas, alguns dos ramos eram tão longos que pareciam como se estivessem chegando a se conectar com a folhagem do outro lado.

Eu queria gritar para que ele me largasse, mas seu aperto em meu pulso era firme, embora ele parecesse tranquilo. Eu não tinha ideia de onde estávamos indo, e de repente um medo inexplicável se apoderou de mim e me impediu de reagir. E junto com ele veio a resignação de que não importava mais nada do que ele dissesse. Tudo o que eu sabia era que ele era um mentiroso e nada do que me dissesse agora, me faria perdoá-lo.

Ele me arrastou em silêncio pelos próximos dez minutos, o caminho se tornou cada vez mais estreito e continuou a diminuir até que não havia mais espaço para nós andarmos lado a lado. Ele me deixou passar por ele e apoiou a mão na parte inferior das minhas costas, me guiando para frente.

Senti o cheiro das flores de laranjeira antes que as visse. Chegamos a uma pequena clareira cercada pelas árvores cítricas perfumadas, dispostas em um círculo. Flores roxas cobriam o chão abaixo. Raios de sol viajavam através dos galhos e iluminavam a clareira. O único som era o das folhas farfalhando pela brisa, enviando um aroma doce no ar.

Se eu não tivesse tão irritada e triste, teria achado tudo lindo. Quando me virei para enfrentar Severo, ele não estava lá comigo. Ele estava do outro lado da clareira, se ajoelhando na parte inferior da maior árvore. Me aproximei dele lentamente, confusão tomando meu coração ao vê-lo daquele jeito. Sem se virar, ele pegou minha mão e apertou e eu olhei ao redor.

— Que lugar é esse? Por que essas árvores estão em um círculo?

Parecia um pouco não natural para elas não estar na forma de um laranjal real. Quando ele começou a falar, sua voz se tornou tensa.

— Eu acho que um dos moradores queria produzir e vender laranjas e, provavelmente, não tinha terra para plantar as árvores, de modo que ele só veio aqui e fez isso, onde ele pensou que ninguém jamais iria encontrá-las. Eu realmente não consegui pensar em qualquer outra razão. Me deparei com esse lugar quando eu costumava andar por aqui com Sam. — Severo se virou para mim. — Eu queria escolher um lugar bonito para ela.

— Ela quem?

Severo caiu de joelhos e me puxou para a mesma posição na frente dele. Ele segurou meu rosto com as mãos, tocou sua testa na minha e respirou fundo.

— Eu não sei o que você pensa de mim agora, mas eu sei que depois do que descobriu hoje, você pode até não querer olhar para mim. Eu não culpo você, se você decidiu me odiar pelo que eu fiz. Eu só preciso que você ouça tudo isso e se você quer fugir tão rápido e tão longe quanto possível uma vez que você souber tudo, então isso é algo com o qual eu vou ter que lidar.

Eu não respondi, eu não confiei de que saberia o que falar. A raiva e a tristeza ainda dominavam meu coração. Eu nem me mexi, e ele deve ter considerado que isso significava que eu estava lá para ouvir, ou que o que ele ia me dizer não importava. Honestamente, eu não sabia se eu iria me importar ou não.

Ele olhou nos meus olhos, em seguida, começou a sua história.

— Este é o lugar onde eu enterrei meu primeiro corpo.

Ele me observava atentamente enquanto ele esperava que eu reagisse ao que ele tinha acabado de dizer. Eu estava esperando que o choque aparecesse antes de dizer qualquer coisa de volta. Perguntas surgiram em toda parte, mas me mantive calada.

— Você não tem que me dizer mais nada.

— Não tenho, mas eu quero. — Severo se sentou debaixo da árvore e me puxou para os seus braços como se eu fosse uma criança pequena. — Você precisa saber tudo isso, não só metade de uma história. — Ele apoiou o queixo na minha cabeça. — Eu e Lily tínhamos quinze anos, não estávamos apaixonados, ou melhor, eu estava, ela não. Eu era apaixonado por ela desde que tinha nove anos.

Ele respirou fundo e olhou para cima, a lua já estava aparecendo através das árvores, embora o sol não estivesse totalmente adormecido, os dois estavam compartilhando o céu.

— Após um episódio de bebedeira em um dos jantares do Horácio, o mesmo tipo de festa da qual eu resgatei você meses atrás, nós fizemos uma cerimônia, como os trouxas fazem em Las Vegas. Nos casamos, passamos a noite juntos e ela ficou grávida, fui o primeiro dela e eu a amava pela maior parte da minha vida. Mas nenhum de nós dois sabíamos o que fazer, éramos apenas duas crianças. Lily disse que queria ficar com o bebê. Eu disse a ela que isso iria arruinar a vida dela, mas sendo um canalha estúpido, eu estava mais preocupado que isso poderia arruinar minha vida e entrei em pânico. Eu não falei com ela por meses depois disso. Eu a via na escola, vestindo vestes cada vez mais largas para esconder a barriga. Tenho certeza de que ela estava escondendo dos pais. Eu fui um idiota com ela e eu me arrependo todos os dias da minha vida.

Eu podia sentir as lágrimas se reunindo no topo da minha cabeça enquanto ele chorou silenciosamente no meu cabelo.

— Uma noite, Lily foi até a Sala Comunal da Sonserina, estava nervosa, o bebê estava chegando e ela não sabia o que fazer, não estava no tempo. Ela estava apenas com sete meses. Eu disse a ela que a levaria até a Ala Hospitalar. Ela se recusou, não queria que ninguém soubesse. Ela me fez jurar que não iria levá-la lá, não importava o quê. Seu rosto estava tão pálido e tudo o que ela queria era a minha ajuda. Então, eu a ajudei.

— Nós saímos e fomos até a Casa dos Gritos, e eu a coloquei sobre um cobertor. Ela gritou e gemeu por horas, eu segurei a mão dela durante todo o tempo. Estava quase amanhecendo e ela ainda não havia tido o bebê. Eu disse a ela que tinha acabado, ia levá-la para a Ala Hospitalar contra a vontade dela. Lily gritou comigo, me disse que o mínimo que eu poderia fazer por ter colocado ela nisso e ser um idiota todos esses meses era escutar o que ela queria.

Severo enxugou seus olhos com a manga.

— Então, eu fiz o que ela pediu e fiquei onde estava. — Ele estremeceu agora, suas palavras e seu corpo. — Quando o bebê finalmente chegou, ela era uma menina. Ela era tão pequena e eu podia praticamente ver através da pele dela. Ela estava tão quieta... tão parada. Eu sabia que ela provavelmente tinha estado morta muito antes de sair. Acho que foi apenas o corpo de Lily finalmente abandonando ela. Passei o bebê em uma toalha e entreguei a ela. Lily estava tão pálida e havia sangue por toda parte, entrei em pânico. Eu disse que ela precisava de ajuda, mas quando eu me aproximei, ela me agarrou pela camisa e implorou: 'Severo, me faça esquecer que meu bebê morreu'. E ela chorou por toda hora seguinte sobre o corpo da bebê. Eu me senti um lixo, tinha quinze anos e era incrivelmente estúpido, eu tinha errado com ela em todos os sentidos possíveis. Eu a amava, mas a ignorei quando ela mais precisava de mim e a deixei sofrer sozinha. O mínimo que eu podia fazer por ela era honrar seus desejos.

— Você enterrou sua filha aqui? — Perguntei.

Ele assentiu com a cabeça.

— Antes eu fiz o feitiço da memória em Lily e a apaguei, a levei para a Ala Hospitalar e menti, dizendo que já a tinha encontrado desacordada. Ninguém nunca soube do que houve com ela, embora eu tenha certeza que Papoula saiba. Voltei a Casa dos Gritos, peguei a bebê e a trouxe até aqui, pensei que ela gostaria dessa clareira, não queria simplesmente jogá-la em um pântano. — Ele fungou alto antes de continuar. — Eu deveria ter ido pedir ajuda e me arrependo todos os dias por não ter feito isso, como também me arrependo de tê-la feito esquecer de nós e da nossa filha. — Ele admitiu, sua voz geralmente forte estava fraca e trêmula.

— Era o que ela queria, Severo. — Eu disse. — Você era jovem, fez o que podia.

— Não, eu poderia ter feito mais. Eu poderia ter feito muito mais.

— Eu acho que o que você fez foi corajoso. Qualquer um poderia ter levado Lily contra vontade até a Ala Hospitalar. O que ela pediu de você não foi o que era esperado, mas era o que ela queria. Eu acho que levou muito mais força você ter honrado isso.

— Eu não sei quanto a força, eu fiz porque estava com um medo fodido. O primeiro sangue em minhas mãos foi o delas, de Lily e da bebê. Você deve imaginar o que eu fiz depois disso, porque depois de ter o sangue delas em minhas mãos, de alguma forma eu sabia que não seria o último. — Ele suspirou profundamente.

— Você se tornou um Comensal da Morte.

Ele assentiu em silêncio, mas me segurou mais apertado. Ficamos sentados ali até a lua estar bem alta no céu. Nenhum de nós dois falou mais nada durante muito tempo.

— Eu preciso me afastar de você para pensar sobre tudo isso, Severo.

Ele assentiu mais uma vez e nos aparatou direto nos portões do castelo e eu caminhei o mais rapidamente possível para longe dele. Segui desanimada até o meu dormitório. Gina viu meu rosto quando passei pela Sala Comunal e me seguiu até meu quarto.

Eu só chorei. Chorei. E chorei de novo com ela afagando meus cabelos e sempre que fazia menção de perguntar o que estava acontecendo, eu negava com a cabeça. Ela não insistia, me deixando afogar na tristeza e negação, até que tudo pudesse ser esquecido por um tempo.

— Então, você foi ver aquele assunto sobre o professor Snape? — Ela perguntou enquanto me ajudava a trocar minha roupa de cama.

— Fui. — Tentei sorrir, Gina tinha sido paciente comigo me vendo chorar há horas, gostaria de ser dócil em agradecimento. — E como você mesmo pôde ver, não terminou nada bem.

— Tenho certeza de que vocês vão se resolver. Todo mundo tem problemas.

— Os nossos são um pouquinho diferentes.

Gina não insistiu no assunto, se despediu com um beijo no meu cabelo e foi pro próprio dormitório e eu fiquei sozinha com meus pensamentos.

Baseado em todas as histórias de amor que eu já ouvi, a minha era a mais complicada. E eram coisas acontecendo o tempo todo, a separação de Severo, a partida de Rony e a descoberta chocante sobre a mãe de Harry. Torcia silenciosamente para que nada mais acontecesse.

Eu passei minha vida toda sem expectativa nenhuma de me apaixonar por alguém, muito menos que fosse alguém tão inalcançável, exatamente o que Severo é para mim. Quanto mais eu saltasse em sua direção, mais inalcançável ele se tornava. De repente comecei a me perguntar qual foi o momento em que eu cogitei a ideia de que isso fosse dar certo. Onde eu estava com a cabeça? Com certeza não era na realidade. Eu não tinha nada que pudesse me agarrar, nenhuma verdade ou um sentido sólido, eu só tinha a mim mesma.


Notas Finais

Chegamos no capítulo de algumas revelações. Um ponto crucial para nossa história e preciso que me deixem saber as impressões de vocês, então, por favor, me encham de comentários.

Estamos num momento sombrio no nosso mundo real com a chegada desse vírus e a recomendação da OMS é: Fiquem em casa! Por favor, vamos combinar de fazermos isso pelo bem de todos, Ok?

Beijos e até o próximo!