Na sala de detenção, sentado longe do outro garoto e com muita vontade de fumar, Sanji começou a murmurar para si mesmo e alto o suficiente para que fosse ouvido.
— Pelo menos não sou um punk que pinta o cabelo de verde. — Algo em si o fazia querer provocar mais e mais aquele desgraçado até que voltasse a agarrar seu colarinho e de preferência o jogasse contra a parede, assim teria desculpas para realmente poder chutar aquela cara feia. Era estranho aquela excitação, nunca que perdia tempo com punks de merda, mas aquele em especial o irritava de uma forma que não dava para descrever.
Zoro até poderia responder o que o loiro disse, explicar que não pintava o cabelo coisa nenhuma e aquela era sua cor natural. Que, na verdade, Koshiro até tentou pintar de preto uma vez quando ele era menor, para chamar menos atenção na escola e ficar dentro das regras, mas as raízes ficavam verdinhas tão rápido que não compensava, então Koshiro conversou com a escola para não ter que trocar Zoro de lugar. Bom, não é como se não houvesse uma quantidade assustadora de gente com cabelos de cores estranhas nessa escola de qualquer forma. Mas, esse retardado não merecia uma explicação elaborada.
No entanto, eles já estavam há um bom tempo na sala de detenção, e Zoro já havia notado que o loiro era muito impaciente e carente de sociabilidade para passar cinco minutos sem interagir com outro ser humano. Então resolveu morder parcialmente a isca.
— Pelo menos não sou um esquisito que chega na escola no meio do semestre e ainda fica tratando mal os alunos veteranos. — Ele pausou um pouco refletindo sobre o assunto, Sanji deveria ter perdido ao menos três meses de conteúdos, era insano tentar acompanhar a essa altura. Sem contar que mudar devia ser um saco, se ele tivesse tido que mudar lá atrás, teria pensado isso.
Sanji até tentou ignorar... Mentira, ele não tentou porra nenhuma. Basicamente havia voado para cima de Zoro novamente e tentado chutá-lo na cara, não permitiria que ele falasse aquelas merdas sendo que ele não sabia de nada, não fazia ideia do quão difícil aquilo era e do quão ainda mais difícil era para o loiro fazer-se de indiferente sobre toda a situação. Iria quebrar os dentes do imbecil, um por um.
Quando estava para chutar mais centenas de vezes o estúpido, o sinal tocou e no mesmo instante a porta foi escancarada como se a pessoa que a empurrou já estivesse lá desde antes do sinal. Era Luffy e por que não estava surpreso?
— Anda, Zoro, você sabe que a Kuina não vai perdoar se você se atrasar para o treino! — Luffy gritou e a palavra treino lhe chamou a atenção. Pelo físico minimamente um pouco acima de... Zoro ou alguma merda assim, ele provavelmente era de algum clube de esportes, não era uma surpresa.
— Treino? — Sanji deixou escapar no calor do momento sem pensar muito, arrependendo-se imediatamente por demonstrar o mísero interesse no gramado da escola.
Zoro arqueou uma sobrancelha ao escutar a pergunta vinda do loiro com tanto interesse. Óbvio que Luffy tinha que vir gritando sobre seus compromissos para um completo estranho. Nem sabia porque o amigo se interessava tanto assim, aliás, porque a única vez que tentou manusear uma espada ele apenas ficou socando tudo com a espada na mão. Mas devia admitir que estava um tanto grato pelo entusiasmo de Luffy, com a distração que teve hoje havia esquecido completamente que já estava na hora de perder para sua irmã, quer dizer, de treinar com sua irmã.
— Zoro faz lutinha de espadas, Sanji! É muito divertido, você devia vir ver! — Luffy berrou para Sanji antes que Zoro tivesse oportunidade de abrir a boca para tentar explicar o único interesse da sua vida. Zoro notou que o loiro estava prestes a abrir a boca, possivelmente para recusar, mas Luffy já tinha as mãos dos dois nas suas e os arrastava até o treino pelos corredores da escola.
— Luffy, escuta — Zoro falou enquanto o garoto corria com os dois pendurados em suas mãos — Fica de boca fechada sobre essa detenção, ok? Nada de falar para Kuina. — Zoro já imaginava o sermão que ouviria se ela contasse a seu pai adotivo, e pior, as perguntas indesejáveis de sua irmã extremamente intrometida.
Sanji estava interessado naquela lutinha de espadas, por mais que kendo fosse um esporte que lhe parecesse nada além de patético. Talvez fosse por trauma de ter apanhado de seus irmãos que adoravam usar espadas de brinquedo quando criança para lhe machucar, mas isso não importava muito. Havia superado todos seus traumas de infância, tanto que sequer os chamava de trauma na atualidade.
Sem escolha foi arrastado até o clube de kendo e seu faro para mulheres acordou assim que pisou no local. Lá estava a mulher mais bela do mundo... Número 303... Daquele dia. Aquela era Kuina então? A irmã do Zoro? Nem se comparava, não eram nada parecidos. Podia se enxergar facilmente em uma cerimônia matrimonial com ela. Já conseguia escutar os sinos anunciando o quão felizes os noivos eram. Oh, Kuina, sua mais nova deusa número 303 do dia.
Encarando incrédulo o loiro e seus amigos do outro lado da sala, Zoro estava absolutamente enojado. Ele já achava Sanji insuportável e detestável, claro, mas essa faceta dele era algo que ele desejava nunca mais ter o desprazer de presenciar. O jeito como ele olhava para sua irmã era pior do que Luffy observando um pedaço de carne, gostaria de deletar de sua mente. Felizmente, Usopp teve o bom senso de colocar uma coleira nele a tempo.
Tirando-o do transe, Usopp que chegou de sabe-se lá onde, puxou-o pelo braço ao notar que não parecia estar muito bem. Sanji estava ofegante e babando, e conhecendo Kuina como conhecia ela não gostaria de um cachorro no cio em sua perna. Ele arrastou o loiro para um canto da sala e logo Luffy se juntou também. Sanji havia ficado emburrado por não poder conversar com sua esposa, era injusto, então nada além de um biquinho extremamente manhoso existia em seu rosto inexpressivo. Eram só espadas barulhentas se batendo uma contra a outra, o que poderia ter de tão bom?
Enquanto se preparava, Zoro sentia que esse seria um bom treino. Não que ele estivesse motivado a impressionar algum babaca ou algo do gênero, só se sentia confiante naquele dia, apenas. Ele segurava uma espada de madeira em cada braço e uma na boca, e nunca se cansava de ver o ponto de interrogação na cara de alguém quando o via pegar três espadas de uma vez pela primeira vez. Ficou frente para Kuina e sua postura mudara completamente. Zoro passava de relaxado a tenso, como se todos os músculos de seu corpo estivessem contraídos e em alerta, toda sua concentração focada naquela luta, uma determinação que quase fazia com que parecesse sério e maduro. Quase. Apesar de muito focado e do quanto havia treinado nos últimos tempos, acabou novamente perdendo para ela. Kuina empurrava a katana de madeira contra seu peito e sua perna imobilizava seu braço.
— Chegue atrasado de novo e eu quebro esse seu bracinho fino. — Ela disse em tom de brincadeira mostrando a língua, mas Zoro não tinha certeza se estava brincando. E bracinho fino? Claramente sua irmã havia ficado demente. Revirando os olhos Zoro os desviou para o canto onde um pontinho amarelo o observava caído no chão e se amaldiçoou por imaginar o que o outro garoto havia achado da luta.
A falta de expressão de Sanji durou bem pouco. Ele acabou ficando simplesmente encantado com aquela batalha. O barulho que as espadas faziam quando se cruzaram era ótimo de ser ouvido, kendo era totalmente diferente do que imaginava. Era uma arte quase tão bela quanto a culinária pela qual era apaixonado desde criança. A postura de Zoro era incrível e poderia até chamar de bela e atraente, mesmo que em primeiro momento a visão tosca dele com uma espada na boca tenha parecido estúpida. Ali ele parecia outra pessoa. A forma que se esforçava para derrotar aquela garota absurdamente perfeita o encantava. Quando percebeu, a luta havia acabado com uma grama como perdedora, e Sanji notou que sequer tirara os olhos do garoto. Perdeu todo seu tempo precioso olhando uma alga ao invés de uma bela dama. O que ele tinha de tão bom para chamar tanto a sua atenção?
— Ei, Sanji, por que está em pé? — Usopp perguntou, fazendo o garoto loiro notar a situação estranha em que se encontrava. O coração estava acelerado e ele estava ofegante, como se tivesse torcido com todas as suas forças. Porém, o estranho era que não estava daquela forma por causa da garota.
— Ah, eu não... Sei...
Zoro já havia se levantado e observava Sanji que parecia quase que… Boquiaberto? Zoro se sentia um pouco orgulhoso. O que era estranho porque ele sabia que tinha dado seu melhor e sabia que era bom no que fazia não precisava do aval de alguém que nem sabia o que era kendo.
Mesmo assim se sentia bem consigo ao ver que tinha causado aparentemente uma boa impressão. Apesar de que sempre se sentia meio idiota em usar espadas de treino. Imagina se o loiro o visse com Yuubashiri, Kitetsu e Shuusui, iria ficar ainda mais impressionado. Balançou a cabeça para tentar afastar esses pensamentos enquanto pegava uma toalha para enxugar o suor que escorria em gotículas pela pele bronzeada. Depois de beber água e se despedir da irmã foi até os amigos e quis provocar o loiro de alguma forma.
— Então… O que achou? — Ao invés da provocação que tinha em mente o que acabou saindo de seus lábios foi essa pergunta um tanto envergonhada e seu corpo acompanhou suas palavras em forma de gesto, coçando a nuca instintivamente.
Sanji se sentiu impressionado com a maravilhosa cena que havia presenciado, mas não é como se fosse admitir, sequer para si mesmo, muito menos para o orgulhoso de merda que era aquele cacto ambulante. Ele franziu o cenho quando o imbecil ousou direcionar palavras à sua pessoa, quem ele pensava que era? Não passava de um brutamontes com cara feia.
— Se você nem consegue vencer, deveria desistir. — Ele respondeu cruzando os braços e se mostrando superior ao outro, tentando ao máximo não deixar a voz vacilar para entregar que na realidade havia ficado deveras admirado com tudo que Zoro lhe demonstrou. Entretanto, aquela expressão estranha na cara do outro, que parecia até vergonha, mesmo que o loiro acreditasse que um monte de grama não poderia sentir-se envergonhado, o chamava muito a atenção. Sentindo-se mal por ter sido muito grosso, tentou corrigir minimamente, não havia entrado naquela escola para conseguir inimigos, mesmo que o moreno lhe irritasse. — Não é grande coisa... Nem de todo ruim...
Ele bufou e virou o rosto para o lado, não tendo a mínima vontade de deixar que seu rosto envergonhado fosse encarado.
Não que Zoro esperasse uma resposta decente, lógico. A aura de superior do mauricinho deixava claro que ele nunca admitiria nada de bom sobre si, só por cima do cadáver dele. Mas, por mínimo que fosse o reconhecimento verbal a contragosto de que ele havia sim gostado era o que importava. Então sorriu triunfante para o loiro que tentava ignorá-lo olhando para o outro lado.
— Bom eu vou indo então. — Falou para Luffy e Usopp. Como morava na direção oposta deles acabavam se separando na volta para casa. E como sua irmã mais velha tinha uma vida social inútil, ao contrário dele que não via serventia nisso, acabava voltando sozinho. — Tem treino todos os dias, se te interessa tanto. — Falou por último olhando para o loiro que ainda tentava ignorá-lo com todas as células de seu corpo. Enquanto falava pôs a mão suada em seu ombro sem querer, ou talvez propositalmente.
— Como se me interessasse! — Sanji basicamente gritou em resposta, tentando com todas as forças se convencer de que seu interesse em Zoro treinando era menor que zero. Ele enxotou aquela mão fedida de seu ombro, olhando irritado para aquele verme imundo. Sentia o cheiro de suor e por mais desagradável devesse ser, estranhamente não o incomodava tanto.
Mas é claro que ficar perto de um homem exalando testosterona era a última coisa que desejava para seu primeiro dia de aula...
