Apesar de ter negado veementemente Sanji realmente apareceu nos próximos dias nos treinos de Zoro. Durante todo o ano ele se tornou uma constante, sua presença tão corriqueira quanto a dos seus demais amigos. Surpreendentemente, depois do primeiro dia conturbado que se conheceram eles não ficaram estranhos um com o outro ou nada do tipo. Eles apenas continuaram se tratando com naturalidade e rivalidade, e suas brigas já haviam se tornado patrimônio de seu grupo de amigos. Usopp, Nami e Chopper achavam um caso perdido, mas como Luffy achava bastante divertido, e como era a palavra dele que prevalecia no final, todos tinham que aguentar os dois quase se esbofeteando como crianças de vez em quando. Mas, verdade seja dita, eles brigavam o tempo todo graças ao fato de estarem juntos o tempo todo. Desde que Sanji começou a frequentar a casa de Zoro ele não parou mais, e depois da escola dormia na casa do rapaz de cabelos verdes quase tanto, se não mais, quanto em sua própria casa. Ou melhor, quarto.
Zoro não se importava. Ele gostava de ter alguém para jogar com ele, já que sua irmã estava interessada demais em rabos de saia para perder tempo jogando com um pirralho como ele, nas palavras dela. Não é como se Sanji também não ficasse atrás de garotas o tempo todo, Zoro inclusive se irritava ao pensar nisso. Mas, ao menos sabia que as investidas patéticas do loiro iriam repelir qualquer garota do mundo. Embora sentisse esse tipo de coisa, e embora desde o primeiro dia esse sentimento tenha sido nutrido até ficar cada vez mais intenso, Zoro estava tranquilo.
Fazia um ano que Sanji havia se mudado para aquela cidade. Nesse período, ele arrumou bons amigos, como Luffy, Usopp e até o mais jovem Chopper, boas mulheres que se casariam com ele futuramente, como Nami e a professora de História Robin, e um inimigo. O último, era Zoro. Seu arqui-inimigo e maior rival. Sanji o odiava cada dia mais, mesmo que no fundo aceitasse levemente que ele se tornara seu melhor amigo. Mentira, ele não aceitava nada, assim como o outro também negava, não que fizesse alguma diferente. Eram melhores amigos e aquela amizade certamente duraria até depois do colégio.
Zoro era extremamente irritante, mais do que pensou que ele era na primeira vez que se viram. Até a respiração dele era odiável. Vê-lo se esforçar tanto para derrotar Kuina chegava a ser patético, ele deveria aceitar logo que ela era invencível. Mesmo assim, Sanji estava sempre indo no dojo acompanhar as batalhas e treinos, anotava dicas para o moreno melhorar, e sem perceber acabava sempre torcendo pelo marimo. Quem queria enganar? Os esforços de Zoro o inspiravam e o fez sair das amarras que o seguraram naquela família horrível.
Sabia que não demoraria para Judge ser demitido novamente por ser um merda e sempre arrumar encrenca em qualquer lugar que estava, então logo no primeiro mês, Sanji correu atrás de um emprego, até encontrar o restaurante perfeito. Baratie. O dono era um velho caquético beirando a morte e se Sanji conseguisse o posto de sous-chef poderia herdar aquele restaurante, e honestamente para aquilo acontecer só faltava Zeff aceitar sua habilidade na cozinha. O loiro era melhor do que qualquer um dos cozinheiros daquele restaurante, mesmo tendo apenas 15 e 16 anos. O velhote era tão ou até mais insuportável que Zoro, porém acabou se apegando ao carinho que recebia... Carinho significava chutes em sua bunda de acordo com o dicionário dele. Já estava conseguindo se manter e Zeff até o ajudou a alugar um quarto minúsculo em um lugar perto do restaurante, assim não precisava mais ir atrás de Judge e seus irmãos. Sanji estava livre e tudo graças a inspiração de seu amigo, era agradecido, por isso vivia mimando-o com bentôs recheados de comidas que Zoro amava. Claro, ele levava para Luffy também, mas era só porque caso não levasse, ninguém conseguiria almoçar. E para Nami, por ela ser uma Deusa. E para Vivi, que estava sempre com Nami, então precisava agradá-la também. Às vezes até para Robin, que era sua Deusa suprema. Sua beleza era maior do que a de uma anja.
Dentro de um ano eles haviam se tornado melhores amigos e passavam os dias praticamente inteiros juntos. Até os treinos de Zoro melhoraram com a presença de Sanji e as observações que ele fazia após vê-lo lutar, assim como os movimentos que acabou aprendendo lutando toda hora com o loiro, o ajudavam muito. Com certeza deveria estar perto de finalmente vencer Kuina. Isso era o suficiente. Zoro não poderia estar mais satisfeito com a vida.
Ok, ele poderia ficar um pouco mais satisfeito se conseguisse vencer essa partida de Sanji para não ter o desprazer de ouvir aquele deboche todo por ter perdido tantas vezes seguidas.
Cenas como a atual se repetiam com frequência quase diária. Sanji na casa de Zoro, ou o contrário, os dois jogando algo e competindo colocando em jogo alguma coisa, seja quem lavaria os pratos ou quem limparia o banheiro da casa do outro. Obviamente que o loiro estava vencendo. Havia apelado e escolhido um jogo de corrida, eram os mais fáceis para ele vencer sem trabalho. Quando era de luta, ficavam muito pau a pau, então quando queria uma vitória fácil era só escolher qualquer um que era baseado em direções. Zoro se perdia até mesmo dentro de um jogo, era fofo. E ele acabava de passar a linha de chegada em primeiro lugar e nem havia sinal da moto do moreno.
Zoro estava ferrado. Ele só concordou em jogar esse jogo maldito porque a alternativa era admitir que tinha um problema com direções, coisa que jamais faria. Zoro soltou o controle emburrado na hora em que perdeu, já pensando na tagarelice sem fim do loiro ao seu lado e na limpeza que teria que fazer na casa dele dessa vez. Bom, não é como se o lugar em que Sanji morava tivesse alguma sujeira, já que o rapaz era fresco demais para deixar que isso acontecesse.
— Você é tão ruim nisso. — Comentou levantando os braços com o controle e sorriu vitorioso tão grande que mostrava todos seus dentes perfeitos e branquinhos.
Olhando para o lado, Zoro se arrependeu amargamente porque Sanji sorria largo igual o gato de Cheshire. Zoro não pensou duas vezes e agarrou a almofada mais próxima, a socando imediatamente na cara convencida do garoto, que não pareceu se abalar e continuou com aquele sorriso estúpido no rosto. Isso só fez Zoro bater mais nele enquanto o outro revidava ainda vitorioso. Maldito.
— Cozinheiro imbecil — Ele murmurava entre almofadadas. — Pare de rir. Estou seriamente me arrependendo de te deixar dormir aqui hoje, pode voltar para aquele seu cubículo. — Ele disse de forma pouco convincente. Óbvio que ele sofreria a noite inteira com a humilhação infinita de sua derrota, mas Sanji estava tão em casa em sua casa que nem avisava mais quando ia para lá.
O fato de que o sorriso do loiro pareceu apenas aumentar fez uma veia saltar da testa de Zoro. Definitivamente iria matá-lo. Cozinheiro injusto e trapaceiro era o que ele era. Já Sanji estava radiante. Nada como vencer Zoro, era a melhor das sensações. Sequer estava se importando com a aposta que fizeram, só o gostinho da vitória era o suficiente, mesmo que nada estivesse em jogo. Não ligava por ter apanhado do outro, o que importava era a surra que havia dado naquela disputa, fazendo o moreno beijar o chão. E o mais hilário era que Zoro não admitia a derrota, mesmo tendo perdido tão pateticamente. Ele poderia bater o quanto quisesse, Sanji ainda era o vencedor e faria questão de esfregar na cara dele pelas próximas horas até caírem na cama exaustos de tanto rir.
Estavam se pegando aos tapas no chão, Sanji dando joelhadas que seriam muito fortes para qualquer outra pessoa, mas como era Zoro estava até pegando muito leve e sendo muito gentil, até serem interrompidos de supetã Zoro se preparava para descontar sua derrota novamente em Sanji a porta do quarto se abriu de repente, fazendo os dois rapazes rapidamente se ajeitarem. Koshiro entrou no quarto e por instinto eles se separaram. O loiro ficou corado sem motivo com medo daquela cena ser mal interpretada. Era estranho o homem entrar daquela forma, então sua mente já começava a criar mil teorias de que o homem suspeitava sobre o que realmente faziam ali dentro e se era apropriado para uma casa de família... Porém, todos os pensamentos talvez impróprios sumiram totalmente da mente dele quando olhou para o mais velho e notou sua expressão de sofrimento.
Assim que Zoro olhou para seu pai adotivo também soube que algo estava errado. Já era estranho o suficiente que ele não tivesse batido na porta como o homem educado que era, e sim a escancarado tão depressa. Mas o que havia visto no rosto dele era uma tristeza assustadora.
— Kuina foi atropelada... E ela... — Ele abaixou o olhar, mostrando um semblante triste. — Morreu... A caminho do hospital.
Sanji não conseguiu dizer nada, nem pensar nada. As lágrimas escaparam de seus olhos no mesmo instante e ele olhou para Zoro sem conseguir imaginar o quanto ele sofria.
Zoro escutou as palavras cuspidas tão repentinamente que em qualquer outra situação teria achado com certeza que só podia se tratar de uma piada. Mas, como quem as estava proferindo era Koshiro, não havia a menor possibilidade deste ser o caso. Assim que ouviu ele sentiu a barriga embrulhar, como se tivesse sido atingido, porém um soco no estômago teria sido mil vezes mais gentil. Não conseguia prestar atenção em nada, não notou que Koshiro logo saiu do quarto assim que deu a notícia, não notou que Sanji chorava copiosamente ao seu lado. Estava tão apático que devia ser assustador para quem o assistia. Mas ele simplesmente não conseguia processar aquilo. Apenas passou longos minutos fitando o nada, como se esperasse uma resposta ou explicação que nunca viria. Ele não entendia, por mais que forçasse seu cérebro ao máximo ele não conseguia de jeito nenhum. Como poderia alguém que sempre esteve em sua vida, que ele basicamente nasceu conhecendo, quem via todo santo dia, como podia ser que alguém assim simplesmente desaparecesse do nada? Ele pensou amargamente que era quase como se nunca tivesse existido. Ele nunca mais ouviria aquela voz, nunca mais veria aquele sorriso, nunca mais lutaria contra ela. Não houve última chance, não houve últimas palavras, só vazio e dor.
E depois da apatia que Zoro sentiu, a dor veio com força. As lágrimas finas escorriam pelo seu rosto sem que ele sequer estivesse sentindo. Zoro notou de repente que precisava desesperadamente de ar, mas não tinha total certeza de que seu corpo o obedeceria, então apenas permaneceu no chão imóvel. Sua irmã estava morta e isso era tudo que conseguia pateticamente fazer. Uma piada cruel do destino a levou embora e ela nunca voltaria, nunca o venceria de novo, nunca perderia para ele, nunca seria a melhor como sonhava. Zoro pensou que era bom que não tivesse jantado, caso contrário a náusea que sentia ao pensar nisso o faria pôr tudo para fora.
Sanji sabia que seu amigo entraria em transe e não iria atrapalhar seu luto. Esperou que Zoro surtasse, mas apenas o silêncio perturbador era presente. Queria abraçá-lo e confortá-lo, dizer que ficaria tudo bem, que aquilo passaria, só que não conseguiu. Ele era a prova viva de que a dor nunca iria embora e Zoro sofreria pelo resto da vida aquela perda. Sanji também. Quando era criança perdeu sua mãe e não teve ninguém que o deixasse chorar no colo, não desejava o mesmo para o moreno. Se Zoro sentisse raiva, deixaria que descontasse em si, se ele sentisse tristeza, o amigo existia para confortá-lo e fazer com que pelo menos 1% dessa tristeza fosse embora. Não o deixaria sozinho nunca.
Deixando qualquer vergonha de lado, Sanji tocou o rosto do outro cheio de lágrimas, limpando-as como se aquilo fosse acabar com a dor que ele sentia. Delicadamente puxou o rosto dele para deitar-se em seu peito e o abraçou, abandonado todo o tempo de rivalidade, todas as brigas e discussões, só queria fazê-lo se sentir um pouquinho melhor. As mãos do moreno agarraram-se em seu corpo com tanta força que poderia quebrá-lo se fosse frágil, mas Sanji não era e mesmo se fosse, naquele momento, se tornaria forte apenas para seu amigo mais amado.
Zoro sentia que molhava a camisa de Sanji enquanto permanecia deitado no menor. Talvez ele tivesse recusado em qualquer outra ocasião, mas ele realmente precisava daquilo. Os dedos finos de Sanji se seguravam em sua nuca com cuidado e sua postura era completamente protetora.
Zoro não queria parecer frágil na frente de ninguém, como se precisasse ser cuidado. Na frente de Sanji especialmente. E, porra, ele não queria ser fraco...ele detestava ser fraco, mas naquele momento suas mãos não tiveram escolha a não ser segurarem-se no corpo à sua frente como se sua vida dependesse disso. Com um desespero irracional e desmesurado. Era absolutamente claro o porquê, pateticamente óbvio vergonhoso, mas caso ações não bastassem, Zoro balbuciou com o rosto quase enterrado no peito de Sanji.
— Dorme aqui.— A voz estranhamente alguns tons acima do que comumente usava entoou. — Até segunda.— Ele completou. O que ele realmente queria pedir era que Sanji jamais o deixasse, mas aquele era o máximo de vulnerabilidade verbal que se permitiria. Ele fechou os olhos incomodado consigo e esperando uma resposta, enquanto deixava o cheiro de cigarros e temperos entrar pelos seus pulmões e acalmá-lo minimamente.
Sanji poderia ficar ali o dia todo que não se cansaria. Zoro precisava dele naquele momento, precisava de seu carinho, então seus dedos fariam todo o carinho necessário naquela nuca que poderia ser facilmente apunhalada caso o loiro não tivesse boas intenções. Protegeria Zoro, mesmo ele não precisando de proteção, mesmo que fosse para protegê-lo de si ou dele mesmo. Então ele ouviu aquele pedido carente e um leve sorriso surgiu em seus lábios.
— Eu vou estar sempre aqui por você. — Ele beijou o topo da cabeça de Zoro, sem nem perceber o que fazia. Pareceu tão natural e o correto a se fazer naquele momento, não se arrependia e faria novamente, tanto que seus lábios ainda estavam encostando naquele homem.
Era estranho agirem assim, nem parecia eles sem toda aquela rivalidade e competições idiotas. Zoro sentiu-se ser beijado e tudo parecia surreal. Ele não era ele, Sanji não era Sanji. Porém, apenas permaneceu quieto e deixou o amigo o confortar da maneira estranhamente carinhosa que ele fazia.
Somente se desvencilhou do loiro depois de algum tempo e foi deitar-se no futon, de costas para onde o amigo dormiria. Talvez não devesse ter pedido para Sanji ficar com ele, até porque nem ele mesmo sabia o que queria fazer. Sentia como se estivesse se aproveitando da boa vontade do loiro. Mesmo sabendo que estava sendo egoísta, deixaria para pensar nisso depois. Por agora, ele só esperava que sua facilidade para dormir o ajudasse e que no outro dia acordasse e percebesse que foi tudo um pesadelo.
Sanji ficou ainda refletindo acordado. Se o moreno precisasse, Sanji não só dormiria com ele até segunda, como também pelo resto da vida. Estar ao lado de Zoro era seu objetivo e onde ele pertencia. No dia do enterro ele estaria segurando a mão dele e não deixaria que fugisse para qualquer lugar como tentativa de se isolar, ele iria junto e se isolariam juntos, apenas os dois.
Tais pensamentos eram estranhos, não sabia de onde surgiram ou se era a situação que estava fragilizando-os...Não, ele definitivamente sabia que não era devido a situação. A vontade de ficar perto dele não havia nascido ali, as horas que ele passava acordado observando o moreno dormindo todas as vezes que dormiam juntos não era só por ter insônia. Os sentimentos estranhos, os pensamentos que pareciam fora do lugar correto, tudo aquilo se encaixava e Sanji finalmente percebia o que significavam.
Estava apaixonado por Zoro e não fugiria daquilo.
