Havia saído de casa com antecedência. Mais precisamente algumas boas horas antes. Zoro jamais cogitaria a possibilidade de fazer isso em qualquer outra ocasião, na verdade geralmente ele saía atrasado porque estava sempre dormindo ou treinando, o que é bem mais importante que tudo.

Mas, hoje era uma exceção, ele realmente queria chegar na hora, ou no mínimo mais cedo do que de costume. Para alguém normal, bastaria sair de casa com uma leve antecedência, mas Zoro tinha uma inteligência espacial um tanto quanto peculiar e havia inúmeras histórias hilárias em seu grupo de amigos sobre vezes lendárias em que ele chegou a se perder por horas. Obviamente que isso era uma grande calúnia e Zoro não se perdia coisíssima nenhuma. Eram as malditas ruas que se mexiam e as placas de direção que estavam todas erradas.

Mesmo com toda relutância dele em admitir seu problema, saiu de casa antes para garantir. O motivo era que veria seu melhor amigo competir cozinhando essa tarde. Sanji foi insistente em convidá-lo e ele acabou prometendo que ia. Mesmo quase desistindo de irritação quando observou o cozinheiro convidando meio mundo de garotas, tanto conhecidas quanto desconhecidas, para irem também. Sanji era um retardado e entender seus comportamentos absurdos estava além da capacidade dos dois neurônios de Zoro. Ele ainda tentou por um tempo decifrar o que exatamente aconteceu no dia em que os dois praticamente se masturbaram juntos. Nada desde a cena no banheiro até o loiro fazendo perguntas estranhas, ficando esquisito e indo embora do nada, absolutamente nada fazia sentido. Mas Zoro não se debruçou sobre isso por muito tempo, apenas aceitando que o amigo era pervertido e maluco, o que eram duas verdades.

Zoro ainda encontrava parado no meio de um cruzamento olhando seu relógio. Notou que já havia dado a hora e ele não fazia a mínima ideia de onde estava. Merda. Sanji deveria ser um dos primeiros a subir no palco na competição de culinária. Nenhum dos seus outros amigos poderia vir e só Zoro prometeu estar lá. Merda, merda, merda.

Zoro pediu direções aproximadamente um milhão de vezes, mas ainda assim não adiantou muito. Deveria ter dormido no cubículo do loiro ontem e ter ido junto com ele hoje, mas optou por treinar à noite já que perderia o treino de hoje para assisti-lo.

Desistindo de tentar por conta própria, Zoro avistou um garoto na rua e resolveu tentar a sorte.

— Ei, moleque! — Ele parecia um pivete desses que passam o dia inteiro na rua, provavelmente também fazendo coisas erradas ao julgar pelo jeito que correu quando Zoro gritou em sua direção. — Fica quieto, só quero perguntar uma coisa. Você mora aqui? — Segurou o garoto pelo pulso antes que pudesse correr e ele fez que sim para a pergunta. — Me leva nesse lugar? — Zoro mostrou ao outro a localização no gps do celular.

— Depende. — Ele respondeu, esfregando o polegar ao indicador, claramente pedindo alguma grana em troca. Zoro esvaziou os bolsos e deu os míseros centavos que tinha ao menino, até o dinheiro de voltar para casa. Pelo menos tinha chance de chegar a tempo para ver Sanji.

Sanji estava nervoso. Fazia horas que estava naquele lugar esperando que a competição começasse e parecia que nunca iria. De um lado estava com medo de tudo ser cancelado e seu plano de se tornar o sous-chef do Baratie fosse ao ar, por outro lado estava com certo medo de perder e passar vergonha na frente de tantas pessoas, tantas mellorines que havia convidado, de Zeff e especialmente de Zoro. Não queria perder na frente dele, por mais confiante que fosse em suas próprias habilidades, sempre precisava existir uma insegurança. Seu passado com os Vinsmokes o deixava ainda mais sem confiança, Judge dizendo que sua comida era horrível e a jogando no lixo, seus irmãos fazendo o mesmo, e todos insinuando que cozinhar era para os serventes e não para os príncipes daquela família. O infeliz achava que eram descendentes de príncipes e aquilo era patético. Mesmo com o comportamento de um, Sanji achava aquela a história mais furada de toda a existência do mundo.

Só havia entrado naquela competição por ter caído nas provocações do chef Zeff, insistindo que ele nunca chegaria ao cargo de sous-chef e muito menos de chef, nem em seus mais belos sonhos. A proposta do velhote era para que vencesse a competição e assim daria o cargo a ele. Estava confiante de que conseguiria, mas ficaria ainda mais confiante se o infeliz do marimo estivesse ali na plateia. Mesmo com centenas de pessoas, um gorila com cabelo verde era fácil de ser notado e não o enxergava em lugar algum. Estava começando a se irritar, não acreditava que o imbecil havia se perdido.

No momento que o loiro pegou o celular para ligar e xingar Zoro, um dos organizadores do concurso entrou no camarim e anunciou aos competidores que iria começar a introdução da competição e que a introdução dos participantes seria em seguida. Por ser fora das regras, teve que deixar o celular no armário em que suas coisas estavam guardadas e se aprontar. Aparentemente aquela competição era mais séria do que parecia e iria até passar em algum canal de televisão. Aquilo o deixou em pânico. Todas as belas damas do mundo poderiam vê-lo vencer, seu coração se enchia de alegria ao pensar nisso e ele sorria bobamente até se lembrar da planta infeliz que provavelmente não chegara ainda. Tantos dias para se perder e o idiota tinha que se perder justo naquele? Não que ele não se perdesse todo dia.

Quando os participantes começaram a ser chamados pelo número que haviam lhes atribuído, Sanji não conseguiu mais pensar em nada além da vitória. Ao chamarem o número 3, ele entrou sorrindo radiante e ouviu gritinhos da plateia, sabendo que eram suas deusas comemorando sua vitória antes da hora. Ele mandou beijos, muitos beijos, desejando que cada uma delas sentisse seu amor naquele momento. Durante o tempo que estava no palco, ele continuou a procurar o cara que amava meio distraído e alheio ao que acontecia fora das arquibancadas. Isso até um suposto convidado de honra que se inscrevera de última hora entrou no palco lançando um olhar de superioridade para o pobre garoto. Era Zeff, seu chefe e o infeliz que o desafiara a vencer aquela competição. Sanji quis chutar sua cabeça, mas como seria violência contra anciões, teve que se conter. Não acreditava que o desgraçado iria participar só para provar algo ao loiro. Maldito velhote.

Ele engoliu a seco pela primeira vez naquele dia com real medo de perder, porém, ao mesmo tempo, estava mais obstinado a vencer. Após a provocação visual com o velho, o jovem cozinheiro desesperadamente procurou Zoro na plateia. Sentia sua respiração acelerada e não queria ser obrigado a se retirar por sua pressão baixar. Em algum lugar ao fundo, muito fundo mesmo, ele viu seu marimo e sorriu de leve, apaixonado. As câmeras filmaram aquela expressão constrangedora, mas tudo bem, não negava que estava apaixonado mesmo. Com Zoro ali sentiu-se com mais confiança, tendo a certeza de que colocaria aquele velhote no chão e pisaria nele.

Como chegou bastante tarde na feira gastronômica, Zoro pegou um péssimo lugar e estava distante demais para enxergar Sanji direito. Felizmente, o loiro apareceu no telão com um sorriso lindo, e Zoro se sentiu bobo por sorrir de volta tontamente e aliviado por estar longe o suficiente para Sanji não o ver assim. Sentia seu rosto quente e era tudo por causa de um mínimo sorriso idiota vindo do retardado. Era injusto como o outro o pegava de surpresa sendo tão lindo às vezes e Zoro parecia estar ficando cada vez mais fraco para isso. Ele usava sua melhor dólmã e parecia muito confiante, o olho azul brilhava enquanto o apresentador mostrava aos participantes os ingredientes que iriam usar. Quando começaram a cozinhar, o telão não mostrava Sanji o tempo inteiro e isso fez Zoro se arrepender amargamente de ter se atrasado, pois não queria tirar os olhos do cozinheiro nem por um segundo.

Obviamente, ele já havia visto Sanji cozinhar milhares de vezes. Mas nunca nesse nível de rapidez e agilidade. Geralmente o via enquanto estavam em casa quando tudo era mais tranquilo e caseiro então não chegava a vê-lo cozinhando muito profissionalmente. Raramente entrava na cozinha do Baratie depois que Zeff colocou um aviso de proibido plantas na porta porque, segundo ele, Zoro aparecia lá com frequência demais e atrapalhava o berinjelinha.

Então, era interessante estar nessa posição. Principalmente porque normalmente o loiro era quem estava na plateia assistindo aos inúmeros treinos e competições de que Zoro participava e torcendo, agora os dois estavam em posições invertidas. Embora com certeza Zoro não pudesse dar dicas de culinária após a competição, como Sanji fazia depois de suas lutas. Ele observava, quando podia, a quantidade enorme de processos que o outra fazia ao mesmo tempo, como ele se mexia precisa e delicadamente. Zoro ficava até meio perdido com aquilo tudo. Na verdade, ele nem havia entendido direito as regras dessa competição. A única coisa que ele sabia era que se sabor era o que importava então Sanji já havia ganhado. A comida dele era a mais gostosa do mundo.

O loiro estava extremamente empolgado com a competição. Ali era seu lugar e ele amava tanto cozinhar que chegava a doer. Olhar, vez ou outra, seu amado lá no fundo o incentiva ainda mais, não queria fazer feio na frente dele, especialmente porque Zoro sempre vencia seus campeonatos, nada mais justo do que Sanji levar um troféu para casa também. A única coisa ruim de tudo aquilo era que enquanto o jovem cozinhava da forma mais elegante e delicada possível, o velho estava na bancada ao seu lado e cozinhava como um brutamontes. Zeff era um ogro na cozinha e sempre impressionava a todos no quão bom ele era, mesmo agindo assim. Tudo bem que não era tão homem das cavernas quanto o marimo, mas estava próximo.

Sanji odiava o quanto estava sendo ofuscado pelos holofotes por causa daquele velhote. Além de velho, ainda era rude e principalmente, uma de suas pernas era de pau e estava sendo constantemente gravada. Não via ponto naquilo, Zeff não era incrível por ter uma perna a menos, na verdade aquilo não era uma prova de sua habilidade ou de toda batalha para conquistar tudo que havia conquistado. Por mais que negasse, Sanji havia se apegado ao maldito, e comentários sobre ele ser desabilitado ou que não deveria estar na cozinha e sim sentado em um sofá o fazia sentir um ódio tão forte que não sabia explicar. Era um carinho estranho, quase como se aquele homem fosse seu real pai e que estivesse perdido no mundo em todos aqueles anos. Não eram poucas as vezes que mesmo depois do expediente acabar, Sanji ainda continuava no Baratie conversando durante horas com o homem, mesmo no dia seguinte precisando acordar cedo para ir ao colégio.

Sanji voltou a se concentrar nos preparos, tentando ignorar o quão sensacionalista estava sendo aquele concurso. Por estar sendo transmitido na televisão, tinha a infelicidade de ter um apresentador idiota daqueles de programas de entretenimento, que tentava fazer a plateia ser barulhenta e torcer para os concorrentes, criando uma rivalidade desnecessária entre eles. Como se já não bastasse sua rivalidade com Zeff, ainda tinha que ver os outros participantes, aos seus olhos bem inferiores, como rivais? Até parece. Tudo aquilo parecia sem sentido, odiava o que a gastronomia havia se tornado nos últimos tempos, maldito seja Masterchef. Começava a sentir que mesmo se vencesse, não teria ganhado nada. Bom, ao menos seria sous-chef e esfregaria na cara do velhote o quanto era um ótimo cozinheiro.

O apresentador irritante anunciou que só faltava meia hora para terminar, ele pôde ouvir outros participantes em desespero, batendo panelas e até derrubando talheres, quase entrando em desespero. Sanji, que já estava com os preparos bem adiantados, estava mais tranquilo que tudo, não tão tranquilo quanto o velho irritante ao seu lado, mas tudo bem. Já se encaminhava para a finalização do prato, terminando cada um dos processos e pensava em como montaria o prato para entregar aos jurados.

Sanji parecia bem à frente de todos no recinto, com exceção de Zeff. O loiro havia treinado feito louco na última semana. Zoro achava um pouco exagerado, já que ele cozinhava no Baratie todos os dias, isso devia ser o suficiente. Mas, depois que Sanji deu um longo sermão sobre como lá ele era um saucier, ou algo assim, e não poderia estar preparado para a competição fazendo apenas o trabalho que realizava no Baratie e sobre como algas ficam caladas e comem a comida sem dar pitaco, Zoro desistiu de perguntar e apenas aceitou. Como consequência do treinamento, eles passaram as tardes da semana inteira no pequeno apartamento do loiro, ao invés de na casa de Zoro, como sempre faziam. A razão de porque quase sempre acabavam preferindo a casa de Zoro era bem óbvia, visto que a casa dele era realmente uma casa e não um quarto com quarto e cozinha no mesmo ambiente, mas quando Zoro argumentou que ele poderia cozinhar na cozinha de sua casa Sanji insistiu que preferia usar sua própria cozinha, mesmo que não fosse lá essas coisas. A razão tinha algo a ver com não gostar de invadir a cozinha alheia e preferir seu próprio espaço, o que de novo apenas fez Zoro aceitar e calar a boca.

Sabia que Sanji quase não havia dormido nesses dias. Ele continuava a treinar até tarde depois que Zoro havia ido embora, aproveitando sua folga temporária e compulsória do trabalho, dada por Zeff para que treinasse como quisesse. Zoro voltava para casa à noite todos os dias para treinar, mas às vezes ele gostaria de mandar o treino pelos ares e continuar lá, apenas observando o outro, no dia anterior especificamente. Ficar naquele espaço enquanto o outro cozinhava era aconchegante e até um pouco íntimo. O aperto do lugar fazia com que tivesse impressão de estarem sempre muito próximos. O único cheiro que entrava em seus pulmões era o da comida e dos cigarros de Sanji. Ele não fumava enquanto cozinhava, apenas mantinhas um cigarro não-aceso nos lábios, mas o cheiro em suas roupas e seu corpo era suficiente para Zoro sentir. Desejava estar próximo o suficiente para sentir seu cheiro diretamente da pele do outro, ele respirava fundo e se perguntava quando foi que começou a gostar tanto dessa fumaça venenosa. E sabia no fundo que não era dos cigarros que gostava, era daquele que os fumava. Gostava deles pois gostava de tudo em Sanji.

Zoro percebeu que estava aéreo demais quando levou um chute de Sanji por não estar respondendo sua pergunta. O loiro queria saber que horas ele ia embora. Zoro olhou no relógio e teria que sair de casa naquele exato minuto se quisesse chegar a tempo de treinar o suficiente.

— Agora, na verdade — Ele respondeu, claramente não tão animado com a ideia.

— Ah… — Sanji também não parecia animado com o fato dele ter que voltar para casa. — Prova isso aqui antes de ir então. — Ele meteu a colher em uma das panelas borbulhantes, assoprou um pouco seu conteúdo e a ergueu até o rosto de Zoro que abocanhou o caldo de uma vez. Sanji o olhava com expectativa, pedindo uma resposta quanto ao sabor.

— Está ok. — Foi o que Zoro disse, enquanto seus olhos brilhavam, suas papilas gustativas derretiam-se e ele tinha vontade de beber todo o conteúdo daquela panela. — Aposto que os outros caras vão ser todos ruins mesmo. — Não queria dizer que Sanji iria ganhar, então foi o melhor que conseguiu pronunciar. Mesmo assim, o loiro convencido abriu um enorme sorriso e o acompanhou até a porta.

Ele se lembrou das palavras de Zoro no dia anterior, dizendo que estaria lá torcendo por ele e que sabia que ele conseguiria vencer qualquer outro, que a comida de Sanji era a melhor... Não que ele tenha dito com essas palavras, porém, pensar que Zoro amava sua comida o incentivava. Gostava de cozinhar para ele, de ver a expressão de satisfação no rosto moreno enquanto degustava daquela forma ogra dele, mas era fofo. E Sanji estava sorrindo como o idiota apaixonado que ele era.

Faltando apenas cinco minutos, ele e Zeff começaram a montagem do prato. Tudo estava pronto e perfeito, o aroma era maravilhoso e o sabor melhor ainda, sem contar na aparência perfeita que ficara. Ele sorriu para si mesmo, satisfeito com o resultado. Faltava só mais um minuto e muitos dos outros concorrentes só começaram a montar o prato naquele momento, um completo absurdo. Não tinha como eles conseguirem. Naqueles últimos trinta segundos, já estava tudo pronto, o prato limpo e já sabia como apresentar, então só restou aguardar. Nesse tempo, ficou olhando para Zoro, mesmo que mal pudesse enxergá-lo. Sentindo o coração bater muito acelerado e desesperado, só precisava vencer e depois comemorar com o outro, era tudo que mais desejava.