Ser o terceiro participante a servir os jurados ajudava um pouco na ansiedade do loiro, pois eles dariam um feedback o quanto antes. Nunca que queria estar no lugar de Zeff que era o último, acabaria surtando de desespero. Sanji fingia estar normal e confiante, mas suas mãos trêmulas diziam o contrário. Honestamente, ele não estava dando a mínima para aquela competição, o que realmente importava era a posição no restaurante. Amava o que fazia, mas a verdade é que só aquilo não traria o futuro que desejava. Sabia que ainda era um pirralho que nem saíra do colegial e que ainda estava para fazer 18 anos, porém aquilo não fora um impedimento para sair de casa, morar sozinho, mesmo com a ajuda de muitas pessoas. E ele era grato, especialmente ao velhote e a Zoro. Se não fosse o marimo provavelmente ainda estaria preso nas amarras daquela família horrível.
Sabia que seu prato estava delicioso, tinha a aprovação de Zoro de cada um dos processos, mesmo que o idiota nunca admitisse em voz alta o quão bom estava, a expressão dele entregava totalmente. Zoro amava sua comida e Sanji amava cozinhar para ele.
Já estava no segundo candidato e aparentemente eles estavam se saindo melhor do que imaginava. Talvez seu prato não fosse tão bom quanto pensava... Não, definitivamente, sabia que era o melhor entre todos ali, inclusive o velhote de merda. Não havia sentido em fazer drama para um jogo já vencido. Já se enxergava com o troféu nas mãos e duzentas mellorines o abraçando, dizendo o quanto ele era perfeito e cozinhava bem, esfregando os seios fartos em seu rosto e corpo, amaciando-o... Seus pensamentos pervertidos foram afastados no momento que seu número fora chamado e ele levou os pratos para servir cada um dos jurados.
Fez a apresentação da forma mais elegante, explicando cada um dos procedimentos e ingredientes de alta qualidade que usara, sempre com um sorriso encantador no rosto. Os olhos brilhavam em expectativa enquanto eles se serviam e Sanji observava cada movimento, cada expressão. Suas suspeitas se confirmaram quando os jurados o encheram de elogios, fazendo-o sorrir ainda mais radiante. Aquele troféu estava mais do que garantido. Quando se afastou da mesa dos jurados, basicamente voltou a seu lugar saltitando. Se Zoro estivesse por perto diria que aquela vitória era por ele, mas como o imbecil havia chegado extremamente atrasado e ainda ficado longe que o demônio, sequer dava para olhar para ele.
Com isso, os outros participantes apresentaram seus pratos, até o último que era Zeff. Sanji teve certeza que havia recebido mais elogios do que o velho, então era uma vitória fácil, nenhum outro fora tão elogiado quanto ele.
Depois de muita enrolação sensacionalista inútil, eles finalmente anunciariam o vencedor. Três foram chamados a frente, incluindo ele e Zeff. O apresentador anunciou o terceiro lugar, depois de muitas frescuras e suspense inútil. Um cozinheiro que ele sequer notara durante todo o concurso, então não se lembrava do nome dele, era alguém muito irrelevante. Teve a enrolação da premiação de terceiro lugar e mais um monte de coisa inútil que não prestou atenção, estava muito impaciente para se importar. Então, os juízes falaram sobre detalhes do prato de cada um e disseram que anunciariam o vencedor.
E quando ouviu o nome de Zeff junto a palavra vencedor, Sanji congelou. Não conseguia acreditar que havia perdido de forma tão patética. Estava certo de que venceria, certo de que era melhor que o velhote, mas não era. Aquilo o apunhalou diretamente no coração. Ele quis chorar, só não tinha forças para isso. Perder era muito doloroso. Estava acostumado sempre a vencer, ou a empatar quando o negócio era com Zoro, mas ali estava ele perdendo para um velho beirando à morte. Sem perceber, acabou sorrindo. Até que não era de todo mal, assim aceitaria que Zeff era melhor e tinha muito o que lhe ensinar ainda.
O apresentador irritante pediu um discurso ao vencedor após lhe entregarem o prêmio,
— Só queria dizer que eu e o berinjelinha aqui somos Chef e Sous-Chef no Baratie e que estamos ansiosos pela visita de todos vocês. — Nunca que aquele velhote perderia a chance de fazer uma propaganda gratuita em rede nacional. Inicialmente Sanji não se tocou do que ele falava, sem perceber que havia sido mencionado como Sous-Chef. Só quando os papéis cortados já não caíam mais em cima deles e a gravação havia terminado, as pessoas se dispersado, Sanji percebeu e correu atrás do velho.
— Ei, quer dizer que eu consegui, mesmo perdendo? — Ele perguntou, os olhos brilhando de animação, imaginando o quão bom seria poder alugar um lugar melhor para morar, com uma real cozinha ao menos.
— É, pode ficar, só tem cozinheiro ruim naquele restaurante de merda mesmo. — Zeff deu de ombros, era a verdade que Sanji era o melhor depois dele, fazer o quê. — Vai dormir na casa do seu namoradinho hoje?
— Hã?
— Não pense que eu não reparei que estava o tempo todo olhando para o ponto verde naquela plateia. — O velho disse sem se importar, era a verdade, eles só não aceitavam ainda.
— E-ele não é meu... N-namorado. — Sanji respondeu gaguejando sem transmitir nenhuma confiança de que aquelas palavras eram reais. — Mas eu vou sim... Na verdade ele vai dormir no meu quarto hoje...
— Usem camisinha. — O maldito disse rindo da situação e saiu deixando um loirinho totalmente corado e envergonhado.
Zoro esperou a maioria da multidão se dispersar antes de rumar para o palco atrás de Sanji. Surpreendentemente, ele não se perdeu na linha reta até ele, o que não seria exatamente algo novo. Quando o avistou, apesar de ter perdido para o velho, Sanji parecia a pessoa mais feliz do mundo. Nunca havia o visto tão radiante desde que conseguiu seu emprego no Baratie e finalmente saiu da casa da família.
Assim que o loiro estava em sua frente, sem pensar no que fazia, Zoro o abraçou tão depressa que por um triz o equilíbrio de ambos não havia cedido. Fez aquilo por impulso, estava tão feliz por Sanji que nem sabia como pôr em palavras, e agora estava dando um abraço estranhamente demorado no amigo, na frente de um monte de pessoas.
Ele enterrou seu rosto no pescoço do outro depois de alguns segundos, tudo aquilo era bem vergonhoso então queria uma forma de ao menos esconder seu rosto vermelho o máximo possível. Ao fazer isso, acabou encostando os lábios na pele alheia, o que era igualmente vergonhoso. Ele se conteve para não mover os lábios e beijar a pele clara, se contentando em sentir a respiração do outro enquanto encaixava o corpo magro no seu. Talvez ele tenha deixado escapar um murmúrio de parabéns, que com certeza o loiro não ouviu.
Sanji ficara radiante após a derrota que no fim se tornara uma vitória, sua maior conquista. Tinha o emprego de seus sonhos, um ótimo mestre e um futuro namorado adorável. Não esperava que Zoro o abraçasse daquela forma, e em nenhuma de suas vidas que ele negaria aquele calor. Talvez fosse só um abraço de consolação pela perda, mas ele não estava nem ligando, aquele gesto significava muito mais. Quis que o abraço durasse pelo resto de sua vida, mesmo sabendo que a realidade era triste e dura.
Sentira os lábios do marimo em sua pele e desejou tanto que ele o tivesse beijado, parecia ser um consolo ainda melhor. Sanji ouvira muito bem os parabéns do outro e seu sorriso se tornou maior, estava tão feliz por ouvir aquelas palavras que poderia morrer de alegria. Zoro o fazia sentir coisas muito estranhas. Entretanto, a realidade havia batido em sua porta e começaram a ser expulsos com gestos nada elegantes do pessoal que começava a fazer a limpeza.
Zoro se manteve abraçado a Sanji todo aquele tempo, sem muita coragem ou vontade de se desgrudar do outro até que ele gentilmente se desprendeu de si e indicou a saída com a cabeça. O loiro parecia surpreso, mas sorria mais do que antes para ele e Zoro sentiu seu rosto esquentar ainda mais, se é que isso era possível.
Sanji mostrou um biquinho emburrado por ter que se separar do abraço e levar Zoro embora. Bom, ao menos teriam todo o resto do dia e o fim de semana para ficarem bem juntinhos.
Estava enganado quanto a ficarem juntos o tempo todo. Assim que se sentou no metrô ele quase capotou de tanto sono. Era estranho como só de se sentar por um segundo fazia com que seu corpo voltasse a si e lembrasse que estava completamente morto. O que a adrenalina não faz. Era impressionante o quão cansado e sonolento estava, talvez tivessem que deixar as conversas para o outro dia.
A viagem até a casa de Sanji se resumiu em Zoro escutando todos os detalhes da receita incrivelmente incrível do loiro, como se já não tivesse escutado um milhão de vezes durante a semana. Era um pouco irritante, mas preferia ouvir a ser chutado. Não durou tanto tempo de qualquer forma, e eles logo ficaram em um silêncio confortável. Sanji encostava a cabeça na janela do metrô e tinha uma expressão de contentamento e um leve sorriso nos lábios finos. Apesar disso, só agora Zoro notava o quanto parecia exausto. As olheiras embaixo do olho azulado eram bem evidentes e ele sabia que o loiro realmente não deveria ter dormido nada esses dias. Ao menos amanhã era sábado, então o cozinheiro poderia descansar sem precisar se preocupar com acordar cedo para estudar. Zoro iria tentar convencê-lo a ir dormir o quanto antes, no entanto, já estava acostumado em dormir a noite toda enquanto o amigo tinha insônia, não importando o quanto cansado estivesse. Bom, agora dormiriam em sua própria casa, então talvez isso o ajudasse a dormir, quem sabe.
Apesar de já ter ido ao pequeno apartamento várias vezes, nunca realmente havia dormido lá, mas Sanji havia convidado então era assim que seria. Não havia considerado a logística da coisa, já que não havia nenhum espaço nem muitos móveis, mas não se importou muito. Zoro conseguia dormir em qualquer lugar, em qualquer circunstância, de qualquer forma.
Quando chegaram em sua casa, a última consciência do loiro o lembrou que fora uma péssima ideia que surgiu em um momento de total carência. Como Zoro dormiria ali se mal havia uma cama de solteiro? Sequer existia um sofá. Não que fosse um problema para o outro, o ponto era que não queria deixá-lo dormindo jogado no chão. Infelizmente estava muito cansado para continuar com os pensamentos e ele sentia sua consciência indo embora pouco a pouco... Talvez não tão pouco assim. Ao trancar a porta, ele segurou na mão do outro e o arrastou para a cama sem deixá-lo protestar.
Definitivamente, o garoto de cabelos verdes não estava esperando por isso.
— Ei, Cook, o que… — Antes que pudesse completar a frase o cozinheiro o empurrou em sua cama e deitou em si.
Sanji estava muito cansado para pegar um travesseiro, então após jogar o maior deitado no colchão, simplesmente subiu por cima dele e deitou em seu peitoral.
Sem dizer absolutamente nada e com um sorriso no rosto, ele adormeceu feito um anjo, mais rápido do que o marimo em qualquer uma das vezes que ele dormira em toda sua vida.
Não era do feitio de Sanji dormir com as roupas com que chegara em casa e sem antes tomar um banho, muito menos adormecer imediatamente desse jeito. Estava basicamente fingindo que Zoro era um travesseiro, apoiando todo o peso de seu corpo em cima dele. Sanji era muito sem noção. Se fosse o contrário o loiro com certeza seria esmagado com o peso do marimo. Pelo menos Sanji era leve o suficiente para Zoro conseguir respirar normalmente, mesmo estando completamente coberto com o corpo alheio. E ele parecia estar dormindo tão bem, como se Zoro fosse o melhor travesseiro do mundo.
A expressão de Zoro se suavizou ao olhar o rosto do amigo. Ele não queria dormir. Queria ficar olhando seu próprio peito subir com a respiração levantando a cabeça loira junto a noite inteira. Mas estava tão confortável que era inevitável. O loiro havia se entrelaçado em seu corpo por inteiro, as pernas o agarrando por baixo e os pés encostando nos seus. A mão de Sanji em seu peito estava quase encostando na sua, e Zoro achou que não seria tão mau mover seus dedos alguns centímetros para o lado e encostá-los nos dele. Provavelmente o cozinheiro estava com muito sono para raciocinar agora e estava dormindo tão estranhamente próximo dele que de manhã com certeza ele levaria a culpa por isso e seria xingado. Mas, isso parecia ser um preço pequeno a pagar em troca de uma noite tão boa.
