Zoro estava prestes a sair de casa para uma competição de kendo e se arrumava desajeitadamente em frente ao espelho. Por se arrumar, leia-se passar a mão nas mechas verdes para penteá-las precariamente e pôr uma camisa, coisa que raramente usava dentro de casa. Nunca parava muito para se olhar no espelho, mas observando em boa luz dava para notar bem os brincos que Sanji havia dado há alguns meses. Eles haviam mesmo ficado bonitos, o maldito com certeza tinha bom gosto.

Zoro tocou com a ponta dos dedos os objetos dourados e se lembrou de quando Sanji fez o mesmo. Bom, o loiro andava fazendo isso sempre que eles estavam a sós, mesmo que nunca durante mais que um segundo. Zoro não podia reclamar, ele realmente gostava de ser tocado ali, mas às vezes queria que seus encontros, ou sei lá como chamavam aquilo, durassem um pouco mais. Toda vez que ambos gozavam e voltavam à sua dinâmica de amizade convencional ele sentia que não havia aproveitado o quanto queria, não havia sido tocado o suficiente nem tocado o outro o bastante. Claro, um tocar em partes mais íntimas do outro era ótimo, mas às vezes parecia que era só isso que faziam. Zoro queria muito beijá-lo. Eles já haviam se beijado antes, mas aparentemente não havia funcionado direito porque ambas as vezes acabaram em um segundo constrangedor.

O mais vergonhoso era que não queria apenas beijar sua boca, queria beijar seus cabelos macios, sua sobrancelha esquisita, seu projeto de barba de que tanto se orgulhava. Até os pelinhos que cresciam em suas pernas… Na verdade, principalmente beijar a extensão daquelas pernas fortes. Talvez estivesse maluco e devesse apenas se contentar com os orgasmos e as visões que aqueles momentos o proporcionavam, mas queria tudo de Sanji, ele por inteiro.

Quase se esquecendo de voltar à realidade, Zoro acordou quando recebeu uma mensagem de Sanji dizendo que já estava a caminho. Koshiro não iria levá-lo pois tinha aulas para dar, não que ele assistisse a qualquer luta de Zoro que não fosse no dojo de qualquer forma. Zoro não se importava, só precisava trazer a vitória para casa e estava tudo certo.

A única coisa que estava em seu caminho era o tempo, mas pelo menos estava saindo cedo de casa. Seria tenebroso perder sua sequência impecável de vitórias por causa de um atraso, principalmente porque ele precisava lutar hoje. Não era a final, e Zoro pouco se importaria se fosse, já que o que era relevante era o nível dos participantes, não o estágio da competição, se fosse para a final com um fracote não faria a menor diferença em seu objetivo. A questão era que iria lutar com a pessoa que mais desejava desde que se entendia por gente, com o melhor de todos e, coincidentemente, seu pai biológico: Dracule Mihawk. Só de imaginar-se lutando com aquele homem fazia todos os pelos de seu corpo se eriçarem, ele nunca achou que ia chegar tão próximo do seu sonho tão cedo e agora tinha o objetivo bem ao alcance de sua mão.

Para não repetir o desastre de sua última luta em que quase foi desclassificado ao chegar absurdamente atrasado, iria com Sanji. O loiro havia combinado de encontrá-lo na estação, já que precisou dormir em casa no dia anterior, graças à casa de Zoro ser distante da sua e do restaurante e ao seu turno extenuante no Baratie.

Grandes cargos levam a grandes responsabilidades. Como Sanji havia se tornado o mais incrível sous-chef de toda a existência da humanidade, estava deveras atarefado. Seus turnos estavam mais puxados e mal havia tempo para a escola, ao menos faltava pouco para finalmente se formar e estar livre dos estudos, já que havia decidido não seguir para uma universidade e sim começar a trabalhar o período integral no restaurante. Também só faltava algumas semanas para seu aniversário e não via a hora, já estava cansado de ser chamado de pirralho pelo marimo. Engraçado que Zoro nunca o chamou dessa forma quando Sanji estava com o pau dele em sua boca...

Aquele era outro ponto importante. Não estava conseguindo mais tanto tempo para ficar com o outro quanto desejava, ainda assim, não foram poucas as vezes que o moreno aparecera em seu trabalho e Sanji cozinhava com todo amor para ele. Sua atual vida corrida não o impedia de ir com frequência dormir na casa dele, ou como andava sendo mais comum, Zoro ir dormir em sua casa. E eles faziam coisas... Safadas. Muito safadas. O relacionamento dos dois ainda não estava da forma que Sanji idealizara, mas estava se encaminhando para tal. Sabia que uma hora ou outra os dois iriam ceder aos desejos mais apaixonantes e se entregariam àquele amor ardente.

Naquele dia era o campeonato que Zoro tanto esperava vencer. Por sorte, ele havia caído na mesma chave que Mihawk e não demorou para que fossem emparelhados na mesma luta. Desde o anúncio do torneio e que Zoro soube que seu pai participaria, ele ficou ansioso para aquilo. Sanji teve que acalmá-lo diversas vezes para que ele não fosse atrás do espadachim antes mesmo do dia. A verdade é que o marimo queria ter pulado da plateia na primeira batalha do homem de cabelos pretos e o enfrentado, apenas não aconteceu porque levou um puxão de orelha de certo loiro. Falando em orelha, Sanji sempre ficava encantado por ver que seu amado estava realmente usando os brincos que havia dado de presente com tanto amor e carinho, e definitivamente Zoro não poderia ficar mais lindo.

Infelizmente, o que o imbecil tinha de lindo, também tinha de perdido. O maldito estava atrasado e o pobre loirinho estava sofrendo na frente da estação durante mais minutos que planejava. A ideia de deixá-lo ir sozinho até a estação não parecia tão boa, deveria mesmo é ter o buscado no quarto e o arrastado até o torneio. Entretanto, como o belo bobo apaixonado que era, quando viu uma planta com pernas indo em sua direção, Sanji sorriu largo. Era realmente muito fácil.

— Esperou muito? — Zoro avistou Sanji na frente da estação e acenou para o loiro, que parecia cansado, mas bem arrumado como sempre. Ele fez a pergunta, se arrependendo quase instantaneamente de dar brecha para o outro insinuar que Zoro havia se perdido no minúsculo caminho até ali.

— Claro que esperei, idiota. — Sanji deu um chute leve na canela do outro e fez biquinho. — Mas, só hoje, não vou reclamar de seu maravilhoso senso de direção inexistente.

Por ser o melhor amigo da face da Terra, Sanji apenas deixou que sua graminha se atrasasse, para então levá-lo para o lugar que batalharia. Quando chegaram e o loiro tinha que se separar para ir até a plateia, enquanto Zoro ia para o local dos competidores, ele se atreveu a dar um beijinho bem rápido na bochecha do moreno e falar que acreditava nele e que Zoro venceria. Por ser um covarde, ele fugiu antes de ter alguma resposta e correu para se sentar em seu lugar. Já estava quase na hora da batalha e Zoro ainda precisava se preparar, como sempre muito atrasado.

Se Zoro já estava sorrindo confiante desde que havia chegado no local da competição, seu sorriso se alargou ainda mais ao receber o incentivo de Sanji. Sempre que tinha um pingo de dúvida duas coisas inevitavelmente acabavam vindo à sua mente, Kuina, por quem deveria alcançar seu objetivo e que era a pessoa que mais o incentivou em sua vida, e Sanji. Apesar de fazer relativamente pouco tempo que se conheciam, comparando com o restante dos garotos do grupo, com certeza o loiro era o que mais ajudava Zoro nesse quesito. Desde que se conheceram e Sanji assistiu a uma de suas lutas esse comportamento virou rotina e Zoro se acostumou a ter o loiro sempre na plateia, tanto que era até estranho quando Sanji não podia assisti-lo por algum motivo, como se faltasse algo lá.

Seguiu para o vestiário e antes que pudesse chegar nele, ele viu uma criatura conhecida se aproximando e tentou desviar e fingir que não havia visto, falhando miseravelmente.

— Quem era aquele? — A voz irritante e anasalada perguntou intrometida, como sempre.

— Um amigo.

— Ele é fofo, ao contrário de você. — Ela disse fazendo uma careta exagerada para enfatizar o quanto achava Zoro tosco e o garoto de cabelos verdes apressou o passo para deixá-la para trás. — Mas até que vocês combinam. — Perona soltou antes de Zoro bater a porta do vestiário atrás de si a deixando falando sozinha. Ele só via sua meio-irmã raras vezes no ano e mesmo assim era mais do que gostaria de ver.

Sanji estava ansioso para o início da luta. Sabia o quanto era importante para o marimo e o quanto ele desejava vencer, então fazia questão de vê-lo se esforçando para no final seus esforços serem recompensados. Estava rezando para que tudo fosse de acordo com o planejado e o moreno colocasse aquele homem para beijar seus pés, que era ali seu lugar. Alguns de seus amigos também estavam na plateia, mas infelizmente os lugares perto deles já estavam esgotados, então só restou ficar longe. Ao menos ali poderia ver mais de perto.

Inesperadamente, em algum momento uma garota extremamente bela, não que todas não fossem igualmente belas, sentou-se do seu lado e Sanji sequer teve tempo de cortejá-la, porque esta já puxara assunto perguntando o que ele e Zoro tinham. Naquele momento ele corou como um pimentão vermelho e abaixou o olhar para seus sapatos exageradamente formais para aquela ocasião. Diferente de todos ali, Sanji se destacava com suas roupas de marca e extremo bom gosto. O terno era muito refinado para uma competição de kendo e ele parecia um executivo esquisitão.

Ele demorou para responder, tentando se entender com seus próprios pensamentos o que ele e Zoro realmente tinham. Não estavam namorando ou juntos, apenas haviam ficado algumas vezes... E por algumas podia-se entender muitas. Não sabia quem era aquela garota, ou as intenções que ela tinha com o moreno, então sem pensar ele respondeu que estavam juntos. Dois segundos depois, antes que a garota de cabelo rosa esboçasse qualquer reação ou desse qualquer resposta, ele tentou se corrigir dizendo que eram apenas amigos. O sorrisinho dela dizia claramente que não havia acreditado naquela história e que sabia que eles de fato estavam juntos de alguma forma. Sanji concordava que estavam, porém, não haviam conversado nada sobre o assunto ainda, talvez para Zoro não fosse aquilo que desejava. Minutos depois, Sanji descobriu que aquela garota era a tão odiada meia-irmã de Zoro e discordava completamente da descrição que o marimo sempre dava dela. Perona estava longe de ser feia, irritante e barulhenta, ela era um anjo estonteante.

Quando sua luta finalmente foi anunciada e Zoro saiu, os olhos foram imediatamente em direção à plateia e lá estava seu pontinho amarelo favorito, infelizmente ao lado de um familiar pontinho rosa. Esperar que Perona ficasse de boca fechada e não puxasse papo com o loiro seria pedir demais, já que ela se entediava muito fácil com qualquer coisa a ver com espadas. Tudo bem, não pensaria nessa dor de cabeça agora, estava focado em vencer, focado em dar seu melhor.

Sua confiança, no entanto, ia progressivamente diminuindo à medida em que Mihawk se aproximava. Eles nem haviam começado a lutar e Zoro já podia sentir o quão bom o fodido era. Parecia que toda vez que Zoro fazia das tripas coração e conseguia com muito esforço e suor aumentar em dez vezes sua força, Mihawk aumentava em dez mil.

— Há quanto tempo, Roronoa. — O homem falou em seu tom indiferente, como sempre. Zoro supunha que era apenas a personalidade dele e que mesmo se tivessem sido próximos algum dia provavelmente ele o trataria com a mesma formalidade e frieza de agora. Não que fizesse diferença.

Ele jamais iria se acovardar, mas assim que travaram o primeiro golpe ele sabia que estava destinado a uma derrota espetacular, a falhar pateticamente na frente de todos. Mesmo assim ele não deixou sua postura vacilar e manteve o confiante sorriso e continuou executando suas técnicas de três espadas com perfeição, mesmo que já soubesse que era em vão.

Foi uma luta bastante rápida, apesar de no começo Mihawk tê-lo deixado se mostrar um pouco antes de terminar a luta sem muito esforço. Kuina teria que perdoá-lo por ser tão fraco, talvez se fosse ela no lugar dele... Zoro rapidamente afastou essa linha de pensamento de sua mente, o passado era o passado. Era uma merda perder, mas não iria ficar remoendo uma ferida tão antiga e cicatrizada.

Ele se trancou no vestiário e, frustrado, se segurou para não jogar as espadas no chão. As guardou cuidadosamente em suas respectivas bainhas, mesmo que não tivesse as limpado ainda, amanhã ele cuidaria disso. Não estava com cabeça para fazer muita coisa.

Como não queria encontrar Koshiro, iria perguntar ao loiro se podiam ir para a casa dele ao invés da sua. Naquele momento dormir em qualquer lugar parecia mais agradável que voltar para casa. Claro que para perguntar isso ele precisaria primeiro encarar o loiro, coisa que relutava em fazer por estar com vergonha de ter perdido, com receio de ver aquele olhar de pena no rosto do outro, não queria que se sentisse assim sobre ele.

Ele saiu na frente, praticamente fugindo do prédio antes mesmo que Sanji o alcançasse, só queria sair logo, se afastar dos olhares de todos, sabia que o loiro viria atrás de si de qualquer forma.

Estava chovendo e ele já estava encharcado, mas Zoro não se importava muito. Na verdade, era até melhor, assim podia fingir que as espessas lágrimas de frustração eram gotas de chuva.

Desde que a luta começou, Sanji não tirou os olhos do marimo por nenhum segundo. Zoro estava tão esforçado, com aquele sorriso confiante, postura perfeita da forma que sempre o aconselhava e o loiro realmente achou que ele venceria. As técnicas eram incríveis, um cozinheiro jamais conseguiria realizá-las tão formosamente. Porém, acabou sendo uma luta rápida e infelizmente Zoro havia perdido. Sanji soube no momento que ele caiu de costas após ser jogado com a força da espada que o moreno sofreria por aquela derrota. Era totalmente diferente de quando Sanji perdeu a competição culinária, aquela vez era apenas uma brincadeira, não seu objetivo de vida, algo que ansiou vencer desde pequeno. Zoro fora derrotado e sem pensar duas vezes o loiro saiu de seu lugar e foi atrás dele.

Ao chegar no vestiário, fora informado que Zoro havia saído na direção que nem era a saída e sim os fundos, para depois voltar e ir para a saída. Sabia que o moreno estava desabando e não podia deixá-lo sozinho naquele momento. Quando o encontrou debaixo da chuva, não pôde deixar de pensar no quão dramática era aquela cena. Era óbvio que aquele garoto estava chorando e tentando disfarçar. Sanji caminhou até ele e segurou sua mão, apertando-a de uma forma que talvez pudesse transmitir qualquer conforto ao outro.

— Da próxima vez você vence. — O loiro disse com a voz calma e suave, tentando acalmá-lo. Não sabia muito bem como agir ou o que fazer, havia ficado encharcado e para quem olhasse de longe agora parecia uma cena ainda mais dramática. Ele suspirou e lembrou-se que havia um guarda-chuva compacto em sua bolsa, então o pegou e cobriu os dois da chuva forte. — Vamos para casa.

Sem dizer mais nada ele começou a levar em silêncio Zoro embora, para a direção correta que ficava seu lar.