Capítulo 16: Enfermidade
No dia seguinte ela estava desperta na primeira hora da manhã, sentou-se segurando os lençóis contra o peito e viu que Itachi não estava ao seu lado, o procurou com o olhar em cada canto do quarto escuro constatando sua ausência. Sakura indagou se ele estaria zangado pelo ocorrido anterior mas decidiu não levar o assunto adiante, ela esticou-se e seguiu para o banheiro. Em frente ao espelho ela viu seus olhos verdes brilhando no reflexo e suspirou por ser tão fraca em esconder suas emoções, todos seus sentimentos estavam a tona mal a permitindo respirar, invadindo cada canto de si, era notável. Ela jogou água gelada no rosto para se acalmar e fechou os olhos tentando reorganizar o que sentia, apertou fortemente a pia a sua frente e voltou o olhar pra si mesma, pouco mudou, ela bufou e pegando uma grande mecha rosa prendeu o cabelo em um rabo de cavalo alto, fez a higiene matinal e voltou ao quarto. Vestiu-se na roupa spandex que caiu perfeitamente nela, a blusa era preta de manga comprida com um detalhe vermelho que começava pela nuca e cobria toda as costas, fazendo par com a calça preta que serpenteava uma listra vermelha ao redor da coxa direita, calçou as sandálias e as luvas que deixavam parte dos dedos descobertos. Após dobrar os lençóis ela desceu as escadas rapidamente indo até o jardim, Itachi estava lá, de costas pra ela, mas sabia que ele tinha notado sua presença, o coração dela martelou forte no peito e ela mordeu a língua enviando uma onda de dor para tapear as emoções.
Itachi não precisava falar ou se mover, era nítido a aura de poder que o envolvia, era tão intenso e perturbador que por um momento ela quase deu um passo para trás, mas manteve-se firme. As imagens da noite passada vieram forte e ela corou enquanto traçava os olhos por ele, em um minuto de distração, sem dizer nada ele a atacou. Sakura assustou-se quando foi atinginda no estômago e dobrou-se de dor, em seguida ele jogou a katana ao lado dela e sem dar tempo de recuperar-se iniciou o combate com vigor. Nada a preparou para aquele olhar, a dureza de seu rosto másculo, a força bruta que a infligia e o olhar tão gelado que a fez querer fugir, era agressivo, impiedoso, distante... Ela estremeceu, não conseguia pensar com clareza, tentou lutar contra ele mas os pensamentos embaralhavam a sufocando, ele a golpeou outra vez e ela caiu para trás, Itachi fez rápidos selos de mão, seu sharingan queimava violento.
Katon: Hōsenka Tsumabeni
Uma enxurrada de shuriken ardendo em chamas vinha em sua direção, Sakura rebatia com sua katana, o barulho dos metais se chocando retumbou enquanto se livrava de todas.
Em uma rajada de vento ele estava a sua frente, Itachi fechou uma mão em sua garganta imobilizando-a, manteve um aperto mortal. Sakura engasgou levando uma mão até o braço dele e arranhando como um filhote indefeso, ele a tinha presa em seu olhar, como se exigisse algo dela, furioso, como se fosse matá-la. Um lampejo de emoção foi visível em seus olhos, mas se foi no minuto seguinte, seu olhar parecia ainda mais bruto, como se não quisesse sentir aquilo. Em meio ao medo que infiltrou-se em suas veias ela largou a espada e lançou um soco nele com firmeza, o punho cheio de chakra estalou em contato com o peito dele, nem isso o fez soltá-la. Itachi a olhava de maneira profunda, como se pudesse ver sua alma, ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas, ele a olhava tão atentamente, como se buscasse uma resposta, até que a soltou devagar. Ela sugou o ar com força e levou as mãos ao pescoço em uma crise de tosse, estava em uma posição curvada enquanto respirava ofegantemente, tentando entender o que acabara de acontecer, até que subiu o olhar e viu Itachi que parecia contorcer o rosto de dor, ela avançou até ele, rapidamente levando as mãos até seu peito com agilidade pronta para curar os danos. "O que?" Sakura arregalou os olhos, estava apavorada.
O barulho do tapa veio alto juntamente com a dor, suas mãos ardiam e foram lançadas para o lado, Itachi tinha um olhar sério enquanto se afastava. Ela sentiu o coração apertar, as lágrimas deslizando sem controle por suas bochechas. Os pulmões de Itachi estavam danificados ao extremo, era quase que um milagre ele ainda estar vivo, em sequência a tosse o atingiu, fazendo-o cuspir sangue.
"Não, não pode ser." Sakura tremia com a possibilidade real de perdê-lo, ela não estava preparada pra aquilo, nunca sentiu uma dor tão grande e devoradora na vida.
— Itachi... Sua voz saiu embargada.
Ele tinha a mão na boca, controlando a respiração que parecia afetada, porém seus olhos permaneciam nela, indescritíveis.
Sakura sentiu-se tonta, como se fosse desmaiar a qualquer momento, ela ficou em choque, paralisada, sentindo o mundo desabar ao seu redor, até que uma lembrança antiga reacendeu em sua memória.
Flashback
Ela sorria e sentia-se cada vez mais confiante desde que conseguiu utilizar ninjutsu médico e teve sucesso em sua provação com o peixe. Na sala sendo observada pelos olhos atentos de Tsunade, Sakura se empenhava em ler os livros, Ino também estava lá, tentando reanimar o peixe por algumas horas.
— Senhora Tsunade, seria possível para o médico ninja curar algum tipo de doença que afete diretamente o paciente?
Tsunade sorriu sentada ao sofá, fazendo sinal com a mão para que ela se aproximasse.
— Você é curiosa pirralha, isso é bom. O ninjutsu médico permite que cure o paciente desde as feridas mais intensas até as mais leves, como também venenos, cirurgias, recuperação entre tantos outros, porém a doença é diferente, e se for fatal não há cura. A loira disse calmamente tocando o dedo sobre o diamante em sua testa. — A não ser que você tenha isso.
— Incrível. Sakura murmurou impressionada.
— O Selo da Força de Uma Centena permite que você una seu ninjutsu direto nas correntes sanguíneas do paciente, trocando essência e podendo livra-lo da doença. Ela explicou observando o interesse da pequena a sua frente. — Mais isso nunca deve ser feito, os riscos são inúmeros e há pouca chance de sucesso, caso falhar, o médico herda a doença de seu paciente para o resto da vida ou a morte.
Sakura engoliu em seco, tocando a própria testa.
— Quais as chances de sucesso? Ela perguntou atenta.
— Apenas 3%. A loira disse seriamente.
Era muito pouco, mas Sakura se agarrou aquele pequeno grão de esperança, ela forçou-se a andar com as pernas trêmulas até ele.
— Porque não me contou? Ela sussurrou.
— Eu sei lidar com isso. Sua voz era grossa e cortante.
— Mas... ele agarrou o pulso dela com a mão esquerda em um aperto de ferro.
— Isso acaba aqui. Ele declarou pondo fim a discussão.
A angústia a consumia por dentro, Itachi se foi, deixando-a sozinha no jardim, ele parecia decidido a por uma distância enorme entre os dois, ela se sentou na grama estupefada, uma dor aguda perfurou seu peito trazendo memórias de seus momentos juntos, cada toque, olhar, a eletricidade quando seus corpos se encontravam, lágrimas dolorosas brotaram em seus olhos e rolaram em sua face, ela não impediu, se livrando do sentimento ruim que estava alojado em seu coração, como se a vida dela fosse arrancada junto à doença dele. Ela não podia, não suportaria perdê-lo, apertou os punhos com tanta força que doeu, se continuasse assim ele iria... Morrer uma voz interior soprou em seus ouvidos, Sakura sentiu o coração sendo esmagado e o estômago embrulhar fortemente, abraçou os joelhos e chorou.
O dia se arrastou passando lentamente como uma verdadeira tortura, não conseguia parar de pensar nele, um peso maior se abateu sobre seus ombros e a tristeza veio mais forte. Era como se asfixiar aos poucos dentro de si mesma, a crise de choro veio outra vez junto com a sensação de perda, seus olhos estavam inchados de tanto chorar mas ela não podia evitar, precisava vê-lo, confirmar que estava bem. Inquieta ela enxugou os olhos enquanto andava em círculos pelo quarto sentindo o coração doer, uma agonia latejante se espalhando por seu peito. Sakura estava prestes a entrar em colapso quando o viu entrar pela porta, ela não se mexeu, com medo de que fosse fruto da sua imaginação e do seu desejo de tê-lo ali, quando seus olhos se encontraram a rosada sentiu um baque por dentro, sua primeira reação foi correr até ele, entretanto ela se segurou com medo de afastá-lo, ficou em transe apenas olhando enquanto ele se aproximava devagar.
— Você está aqui... está bem. Ela murmurou chorosa.
— Vem comigo. Ele disse calmamente gesticulando para que o acompanhasse.
Sakura piscou afastando a vontade de se debulhar em lágrimas, um tremor a percorreu enquanto caminharam pelo corredor indo até a varanda alta, havia duas poltronas viradas para o jardim e no pequeno muro rochoso dois copos de chá, ela se sentou logo após ele que entregou-lhe o copo quente, ela soprou suavemente e bebericou um pouco. Eles estavam sentados confortáveis na varanda olhando a noite, estrelas salpicavam o céu negro sobre suas cabeças os cercando com sua beleza cintilante, eles ficaram em silêncio até que Sakura com a aflição presente no peito revelou baixinho.
— Itachi, sobre hoje de manhã... Ela tomou cuidado com as palavras não querendo parecer insistente. — Eu posso cura-lo. Sakura disse segura de si, seus olhos em um apelo não dito fixos nos dele, tão escuros quanto a noite. Itachi permaneceu em silêncio, seu olhar sério dizia que entendia tudo, ele respirou fundo e foi direto ao ponto.
— Há momentos em que um shinobi deve tomar decisões dolorosas. Sua voz saiu branda, diferente de seu olhar. — Você ainda não passou por isso, mas chegará o dia em que entenderá. Itachi afirmou, tomando um gole de seu chá.
Sakura quis gritar, implorar para que a deixasse cura-lo, ela sentiu o coração pulsar, doer, apertou o copo em suas mãos inconscientemente, um suor frio se espalhou por seu corpo, sentia-se mole e lutou contra as lágrimas que ameaçavam se formar novamente, a dor a dilacerava ao pensar em perder nem que fosse um pouco dele.
— Deixa eu te ajudar. Ela disse um tanto nervosa, estremecendo.
— Essa é a minha decisão, não há mais o que dizer. Seus olhos se tornaram frios, o cenho levemente franzido.
Ela teve vontade de se encolher e chorar, mas de nada adiantaria, sentia rasgar-lhe o peito sob o olhar dele que dizia claramente que o ocorrido ficaria somente entre os dois, ela desviou o olhar em silêncio, ele também não disse mais nada, ela tentou empurrar a tristeza que insistia latejar em seu interior, precisava se controlar, trancar toda aquela dor, ter em mente que o que importava era o valor daquele momento junto a ele. Foi um custo conseguir se conter, não concordava com sua escolha mas precisava respeitar, se ele queria assim então ela faria de tudo para prolongar sua vida. Tinham muito pouco tempo juntos e ela não quis estragar aquilo, assim ela se esforçou para se manter plácida. O silêncio perdurou outra vez, até que ela o sondou.
— Com quantos anos estava quando ingressou na anbu? Ela viu ele hesitar por um momento, mas acabou dizendo.
— Aos 13 fui capitão. Suas palavras a chocaram e ela arregalou os olhos.
— NANI? 13 anos! Ela disse em voz alta espantada, corando de vergonha em sequência.
Não poderia ser diferente seu espanto, falar de Itachi era como um tabu na aldeia, não havia nada revelante sobre ele ou o Clã Uchiha, como uma queima total de arquivos tudo desapareceu.
Itachi tinha a sombra de um sorriso com a reação dela, ele fez que sim com a cabeça e continuou.
— Kakashi Hatake e eu trabalhamos juntos em um time. Ele observou seus olhos de esmeralda se iluminarem, ela abriu a boca de leve como se não acreditasse e acabou fazendo algumas perguntas que ele respondeu sem dar detalhes.
— Eu me pergunto se ele já era um tanto pervertido com aqueles livros icha-icha. Sakura murmurou imaginando um Kakashi jovem com o livro por toda parte.
O clima entre eles estava um tanto leve e ela sentiu-se calma, mesmo que temporariamente.
— Já imaginou o que vai fazer quando voltar a Konoha? Sua voz grossa ecoou.
Ela sentiu o estômago se apertar, não queria se imaginar longe dele, ainda mais agora... Cedo ou tarde ela voltaria, especialmente para exterminar Danzou, mas o que viria a seguir, ela não sabia, um incômodo vinha toda vez que pensava em Konoha.
— Na verdade não. Ela disse com sinceridade baixando o olhar.
— Pretende questionar a Godaime? Seus olhos escuros estavam nela.
Sakura sentiu a raiva se acendendo aos poucos, queria sim, questionar, gritar, acusar, mas sabia que arrancar a verdade de sua mentora não seria fácil.
— Não tem o que falar, ela é tão culpada quanto Danzou. Ela disse irritada.
— Toda história tem dois lados. Ele a observou com um olhar agudo por baixo dos cílios grossos.
— Ela se entregou no momento em que assinou aquele maldito pergaminho. Sakura não queria pensar sobre aquilo, a ira vinha tão forte que temia fazer uma loucura quando pisasse em Konoha outra vez.
— Você se concentra no trivial e perde de vista o que mais importa. Itachi endureceu o olhar, seu tom era baixo mas levemente áspero.
Sakura se calou, as palavras dele ficaram sob sua pele, uma pequena semente sendo plantada dentro de si, mas ela fez questão de arrancar, por fim fechou os olhos e suspirou. A brisa noturna batia em seus rosto um tanto gelada, o vento frio soprando nela de leve, acalmando o coração, seu olhar voltou a ele que parecia distante observando o céu, ela empurrou a angústia ao pensar que ele seria tomado pela doença, queria aproveitar o tempo com ele respeitando sua escolha em um apego aos pequenos detalhes, mas sabia o quanto ia sofrer e perder um pedaço de si mesma quando ele a deixasse. Contudo não havia o que fazer, ela foi culpada por alimentar aquele fascínio, entendia o que era aquela obsessão sem limites que ele despertava dentro dela, não quis nomear esse sentimento, mas soube que ele estava lá, com uma certeza tão grande que não deixava dúvidas. A rosada lutava contra aquilo mas estava enraizado dentro de si, ganhando espaço a cada dia.
Ela se levantou agitada colocando o copo de volta ao muro e virando-se pra ele, não sabia o que deu em si mesma, como uma necessidade, agiu por puro impulso ao levar as mãos até o peito dele com o suave brilho verde. Itachi parecia surpreso por sua ousadia, na mesma hora um olhar furioso tomou seu semblante, mas ela o encarou de volta sem fugir daquele olhar que tinha um efeito sem igual nela.
— Estou apenas aliviando a dor. Ela disse sem recuar perante aquele olhar que a desestabilizava.
Itachi pareceu relutar mas tão logo cedeu, ao sentir alívio ao respirar ela supôs, indagou como ele conseguiu se manter firme perante a isso, continuava em combate como se não fosse nada, olhando seu rosto era impossível notar, continuava forte, não estava magro ou debilitado, pelo contrário, parecia cem por cento saudável. Ela concentrou-se em tratar o máximo que podia de seus pulmões afetados, ele permaneceu quieto, os olhos queimando nela.
— Suficiente. Ele disse irritado, empurrando e passando por ela.
— Não. Sakura o desafiou, ergueu levemente o queixo andando até ele, seu temperamento vindo à tona. — Eu apenas quero lhe proporcionar qualidade de vida. Disse decidida.
A rosada teve medo dele, parecia irritado demais, sentiu a energia sombria que vinha dele e engoliu em seco, ele fechou o espaço entre eles com um olhar ardente.
— Não seja tola. Sua voz baixa, estranhamente suave a assustou.
Sakura estremeceu, os lábios tão próximos dos dele, seu cheiro atingindo seus sentidos, Itachi a fitou profundamente e disse em tom frio.
— Se eu quiser, procuro você. Era uma dispensa muito clara, ele deu as costas, pulando sob o muro e sumindo na escuridão da noite.
Sakura voltou ao quarto batendo a porta, escorou-se de costas nela, sentia-se magoada, inconformada, cheia de raiva. Teve vontade de correr até ele e socá-lo, mas não podia, deslizou na porta até estar sentada ao chão, fechou os olhos e chorou, perdida em meio a sentimentos diversos que a sufocavam.
