Capítulo 17: Segredos

Itachi fugiu, foi essa sensação que teve quando mergulhou na escuridão da noite, dando as costas para Sakura, não querendo que ela visse a agonia em seu rosto. Fugiu de coisas que não entendia e sobre as quais não queria pensar, assim como de todos os sentimentos vorazes que ela despertava em si. Nunca uma pessoa o fez passar do desejo a raiva tão intensamente quanto ela, e mesmo assim... Ele nunca se sentiu tão vivo.

Pela primeira vez desde o massacre do Clã, pesadelos sombrios não consumiam Itachi, seu ódio e pesar diminuindo na presença de Sakura, ele tinha sorrido mais nos últimos dias do que pelos últimos anos, aquilo não fazia sentido, mas ele não podia negar. Pela primeira vez em anos, Itachi sentiu seu antigo eu, e Sakura era a razão daquilo. Ele fechou os olhos sentindo uma rajada de vento frio balançar sua capa, ela apareceu repentinamente em seus pensamentos com os olhos verdes cheios de vida e as bochechas em chamas, ele lutou para afastá-la e ser calculista como sempre, ao abri-los vermelho sangue prevaleceu, ele retornou.

As horas passaram-se e Sakura perdeu a noção de quanto tempo estava sentada ali, olhando pro nada, escorada a porta no quarto mal iluminado com uma vela no canto. Era como sentir a vida esvaindo entre os dedos como a areia do deserto, seus braços estavam dormentes por ficar na mesma posição e ela mantinha-se paralisada, a fim de se obrigar a digerir tudo aquilo. Itachi a evitava como uma praga, ela confirmou isso após procurar constantemente o chakra dele e não encontrar sequer vestígios, ele estava se distanciando cada vez mais, seu olhar frio e a aura sombria que o cercava deixava uma impressão de que para ele não tinha significado nada.

Isso deixou um gosto amargo na boca, quão ingênua ela foi por pensar que talvez, no fundo, fosse diferente pra ele, que havia algo muito forte entre os dois e que não atingia somente a ela. Aquilo começou a pesar dentro de si, um vazio frio de desespero crescendo no seu peito, por mais que ela quisesse negar, sabia que tinha chegado ao ponto central. Porque se sentia assim? Ferida no fundo de seu âmago. Ela sabia a resposta, estava com medo... Medo de se apaixonar por um homem com quem nunca poderia ter um futuro, um homem que poderia despedaçá-la se a deixasse.

Sakura voltou a realidade com uma dor alfinetando sua cabeça, ela impulsionou chakra nos músculos para relaxar os nós e fazer o sangue circular normalmente nos braços dissipando a dormência, ela levou as mãos brilhando até a cabeça e começou a curar calmamente, fechando os olhos em um suspiro inaudível. "Em um minuto ele deixa eu me aproximar e no outro se fecha por inteiro."

A rosada se levantou retirando os fios rosas colados no rosto, caminhou até a janela abrindo as cortinas em um puxão, a visão do céu cinzento e carregado de nuvens a recebeu, o som estridente do trovão ecoava pela imensidão, ela pôde sentir um mal pressentimento. Sem querer seu olhar vagou pela estante que foi esquecida no decorrer do tempo, seu coração disparou ao focar no pergaminho desbotado com o broche vermelho no centro, o mesmo que a intrigou tempos atrás, ela engoliu em seco tentada a pegá-lo. "Vamos Sakura, apenas um pé á frente do outro." Ela se convenceu pisando devagar.

Em frente a estante ela tocou o pergaminho com a ponta dos dedos e sentiu o coração acelerar tanto que pulsava na garganta, ela parou, olhando em volta muito atenta, sua atenção voltou ao que tinha em mãos e delicadamente removeu a fita ao redor do broche, ela respirou fundo e abriu. Sakura tremia ao passar os olhos em cada linha ali contida, incapaz de acreditar em seus próprios olhos, sentiu como se um buraco negro se formasse sob seus pés sugando-a para o fundo. Por todos esses anos Konoha escondeu esse segredo grotesco, manchando Itachi Uchiha como assassino a sangue frio, quando na verdade tudo não passou de uma missão imposta pelo Hokage. Ela levou a mão a boca contendo um soluço, Itachi tinha arriscado tudo pelo bem da aldeia, exterminou o próprio Clã por puro dever, ele foi capaz de suportar tudo aquilo sozinho, ser odiado por tudo e por todos, viver nas sombras como um traidor, abriu mão de sua vida, um fardo sem igual.

— Tanta dor... ela murmurou com voz embargada e os olhos marejados.

Sakura sentiu uma tristeza arrasadora que se espalhava por completo, a angústia, a mágoa e o rancor retornaram como se a contaminasse, ela chorou por ele, sofreu por ele, lágrimas que vinham de sua alma que gemia por dentro como se fosse capaz de sentindo sua dor.

"Como puderam permitir isso, como o Sandaime foi capaz de aceitar?" Ao mesmo tempo que a repulsa, veio também uma onda de ódio.

Ela odiou cada membro do conselho, cada Daimyō, e principalmente o título Kage. Odiava por permitirem tanta desgraça, por viverem suas vidas como heróis, seres adorados e exaltados, vivendo como se fingissem não ver, festejando e se beneficiando às custas dos outros por todos esses anos, enquanto os que verdadeiramente amam sua aldeia são responsabilizados por suas sujeiras, hipócritas, hipócritas! Itachi não merecia isso, o Clã Uchiha não merecia, ela mesma não merecia, Naruto não merecia ser tratado como monstro por toda infância, nem ao menos foi protegido. Doía, tudo nela doía, seu coração, sua cabeça, o estômago, seu ser mais profundo, ela não sentia pena dele, apenas compartilhava sua dor, se colocando no lugar dele e sentindo tudo, um homem de princípios que passou a ser odiado até por seu único irmão. "Sasuke ele precisa saber a verdade." Algo estalou dentro dela, lembrar que seu antigo companheiro vivia, respirava, apenas por sua esperada vingança.

"Não, se Sasuke cometer esse erro nunca irá se perdoar." Uma coisa muito ruim se alojou dentro de si, como um aperto no peito intenso, tão dolorido que a nocauteava por dentro, as lágrimas escorriam sem controle por suas bochechas e Sakura se sentia perdida, queria correr até Sasuke e contar toda verdade aos prantos, mas ao mesmo tempo queria ficar ao lado de Itachi compartilhando sua dor em secreto. A rosada estava tão perdida, olhando fixamente o pergaminho em suas mãos agora molhado por suas lágrimas, mas era como se não o visse, desligada para o mundo, estava tão imersa em seus pensamentos que não percebeu a presença na porta.

Todo seu corpo se arrepiou da cabeça aos pés, ali parado na porta Itachi tinha um olhar indescritível em sua mão que segurava o pergaminho, então seu olhar subiu de encontro ao dela, seus olhos escuros soltavam faíscas, como um animal feroz, suas pupilas dilatadas. Conforme se aproximava em passos firmes, ela percebeu não só a fúria em seu rosto como a energia violenta que o dominava.

Sakura paralisou, o medo a sacudiu em seu interior, incontrolável, avisando-a do perigo, ela não conseguia raciocinar direito e engoliu e seco. "Droga." Ela deu um passo para trás.

Sua aura de poder estava mais presente do que nunca, ameaçador, tornando-o mais perigoso.

— Itachi... Sakura chamou em desespero, o medo infiltrado em suas entranhas.

Ele parou, tudo pareceu congelar, só para explodir sua aura ao redor de si, Sakura soltou um grito estrangulado quando uma corrente grossa penetrou a coleira prendendo-a, era envolta em chakra vermelho, ela nunca viu nada parecido. Itachi estava respirando forte, ela podia ver um músculo pulsando nas suas mandíbulas cerradas, suas esferas carmesim com o sharingan alterado, ele parecia selvagem e completamente furioso. O olhar dele foi direcionado ao papel desbotado em suas mãos.

— Amaterasu. Sua voz era um rosnado feral.

Sakura largou o pergaminho assustada quando o calor das chamas negras queimou a ponta dos dedos, no chão o papel foi consumido mas as chamas permaneceram. Itachi tinha um olhar mortal no rosto frio e sem emoção, enquanto a mantinha presa, a sua mercê, ela sentiu medo, sentiu que ultrapassou uma linha sem volta ao abrir aquele pergaminho, Sakura cambaleou para trás temendo o homem a sua frente que tinha uma ferocidade tremenda que emanava de seus poros, podia sentir no ar sua raiva assassina, o coração dela batia intensamente, ela suplicou silenciosamente com o olhar, sentindo tremores a sacudirem.