Capítulo 20: Despedida

Ainda era início de noite, mas a próxima manhã aproximava-se como uma nuvem sombria. Com Sakura deitada em seus braços, Itachi sentiu a conexão do vínculo sob sua pele, ele fechou os olhos um tanto nervoso, sendo obrigado a parar e analisar os sentimentos dos quais vinha fugindo.

Tudo se misturava, os sentimentos o dominavam e ele deixou que circulassem livres dentro de seu ser mais profundo, lá algo pulsou quente, teve uma sensação forte de que ela seria importante em sua vida e não sabia de onde isso veio, Itachi não entendeu porque ela despertava tantas coisas dentro dele.

Itachi nunca imaginou que poderia se descontrolar tanto, tomado por aquilo que ainda se recusava a nomear. Então recordou, a maldição do ódio, a maldição do Clã. O potencial de amar profundamente, intensamente com devoção insondável, ou odiar, um ódio puro com tanto fervor e vingança que os consome.

Amor

Itachi era capaz de amar, ele amou sua família, mas o que sentia por Sakura não podia ser amor, tinha que ser obsessão, talvez paixão.

"Não. Pare." Itachi disse a si mesmo, precisava tirá-la do seu sistema, fazer o que fosse necessário para livrar-se desse desejo deturpado e estranho.

Não há lugar para o amor no mundo Shinobi.

Sakura se mexeu erguendo os olhos de encontro ao dele, ela sentiu a maneira diferente que ele a olhava, como se pudesse ler sua alma, ela conteve o ar, estremecendo sem poder fugir do seu olhar. A rosada o olhou com toda gama de sentimentos que extravasavam de seu peito, sem conseguir escondê-los, teve medo que ele visse, que notasse.

Ela olhava pra ele de um modo tão entregue e aberto, que ficou mais do que óbvio. Itachi a soltou, nervoso, abalado, franzindo o cenho enquanto se sentava. Sakura mordeu o lábio com força, sentou-se de frente a ele desejando silenciosamente que não percebesse o que sentia.

O silêncio perdurou por um instante antes de Sakura se aproximar com o brilho familiar de seu ninjutsu em mãos.

— Posso? Ela perguntou suavemente.

— Hn. Foi tudo o que ele disse.

Ela checou os olhos dele encontrando poucos danos, mas resíduos de uma má formação em sua visão já eram visíveis, Sakura concentrou-se em purificar totalmente seus olhos. Com ele tão perto, ela tinha ficado completamente consciente do corpo grande e de sua perfeição puramente masculina. Ele a deixava nervosa, mesmo assim, sentia-se atraída por ele.

Pegou-se imaginando como seria se ela passasse as pontas dos dedos nas linhas retas de suas sobrancelhas e sentisse a textura, ou em seus cabelos escuros... "Concentração." Ela gritou consigo mesma em seu subconsciente.

— Terminei, creio que seus olhos não vão se deteriorar tão cedo, a não ser que force seu sharingan ao extremo. Ela viu ele abrir os olhos devagar.

Sakura corou com a proximidade entre eles e desviou o olhar, sentindo o coração pular uma batida.

— Olhe para mim. Ele exigiu.

Sakura obedeceu imediatamente, sem entender porque Itachi tinha tanto poder sobre ela.

— Aquilo não acontecerá novamente, não há palavras para explicar o que fiz, o medo que causei em você, o meu descontrole. Nunca se repetirá. Itachi disse em sua voz profunda, porém gentilmente.

Sakura concordou com a cabeça, sentiu as pequenas borboletas no estômago voltarem, Itachi estava se desculpando. A sua maneira, mas estava, ela considerava isso um grande ganho. A sinceridade era explícita em seus olhos, e a rosada sentiu as emoções se revolverem dentro dela. Ela deveria estar aterrorizada, mas quando olhou pra ele, tudo o que sentia era o calor sombrio familiar, aquele zumbido, a percepção que fazia sua pele arrepiar e sua respiração chegar a garganta.

Ela estava com medo de tudo, de perdê-lo, de transparecer seu sentimento, medo de que soubesse. Mas não estava com medo dele, sabia que Itachi não a machucaria, ela sentia aquilo com cada fibra de seu ser e quando viu a confirmação nos olhos negros dele, a ansiedade borbulhando em suas veias se transformou em outra coisa... Algo igualmente perturbador.

Ela lambeu os lábios, sua boca de repente seca e os olhos dele seguiram o movimento.

— Itachi, como eram seus dias na aldeia? Sakura acabou perguntando, queria conhecer tudo sobre ele.

Um filme se passou diante dos seus olhos nesse momento, sua família, sua equipe com Kakashi Hatake, Shisui, sua Kaasan...

— Feliz. Itachi sussurrou golpeado pelas lembranças, era como se estivesse em um transe revivendo tudo em sua mente.

Então a dor veio, como se falasse com ele, a pequena voz de seus pecados, ele teve receio, de se abrir com ela e acontecer outra tragédia, de ter herdado a maldição do Clã e, em algum momento, vê-la se manifestar. Quando perdeu o controle e a caçou na floresta tudo nele exigia a morte, e ele quase fez, o prazer de matar, foi a primeira vez que sentiu e isso o assustou.

Ela tinha um toque de inocência, uma alma pura, Itachi teve receio de contaminar Sakura com suas sombras, de envolvê-la em um mundo de escuridão interior.

— E sua Kaasan? Como ela era? Sakura perguntou com certa doçura em sua voz.

Algo aqueceu seu coração, e Itachi sabia exatamente o que era, ele a sentia viva dentro dele, confortando nas noites mais terríveis em que os pesadelos o atormentavam.

— Ela era doce, cuidadosa, a personificação de força em uma mulher delicada, não havia nada no mundo que ela quisesse e não conseguisse, o pilar da minha família. Itachi disse um tanto nostálgico.

Sakura sorriu, percebendo aquele lado diferente que habitava nele, ela aproveitou a atenção recebida para falar um pouco de si.

— Eu posso imaginar, ela foi uma mulher incrível. Sabe, a minha mãe era mandona mas nos amava de todo coração. Ela sentiu os olhos picarem em leves sinais de lágrimas.

Apesar de negar os sentimentos que ainda corroíam o peito, Itachi sentia Mikoto presente em si, sua imagem parecia vivida em sua mente, com aqueles olhos doces e aquele sorriso que parecia ter o poder de iluminar tudo. Até seu Tousan, um homem forte, poderoso, líder do Clã Uchiha, com seu jeito severo e indiferente, fora dominado pelo amor sem limites que tinha por ela.

Observando Sakura durante esse tempo, Itachi entendeu porque sua Kaasan a escolheu, um coração puro, ela tinha expectativas na criança de cabelos rosas.

— Eu te disse antes, você foi escolhida a dedo e testada. Itachi se lembrava claramente do ocorrido.

— Como foi isso? Eu.. não consigo me lembrar. Sakura murmurou enrugando a testa, forçando a memória.

Seus olhos grandes e verdes mexiam com algo dentro dele, Itachi se via admirando-os, brilhavam sempre que emoções a atingiam.

— Você era criança, por isso não há recordações. Sakura, você foi escolhida por Mikoto Uchiha e sua lealdade foi testada, desde nova você tem um gênio forte e uma boca alta. Itachi começou dizendo, recebendo uma sobrancelha arqueada dela e um leve manchar de suas bochechas flamejantes. — Mas ao entrar em combate, foi submissa, não se rebelou.

Sakura estava muito atenta a ele quando dejavu a pegou, estava escuro, foi derrotada, alguém mantinha o pé em suas costas ela podia sentir, sua respiração abafada, vozes ao redor.

— Você foi vendada e colocada em combate direito, comigo. Ele falou com dureza. — Quanto mais cedo é feito o pacto, menores são as chances de falhar, você se submeteu a mim naquele momento.

Ela engoliu em seco, então era isso, Itachi era o único que tinha o pé em suas costas esbanjando ar de vitória. Mas não entendeu, sendo tão teimosa devia ter rebatido, enfrentá-lo outra vez, mas se deu conta de que talvez esse era o seu destino.

Sakura se sentiu muito confortável ao redor dele, tanto que começará a contar muito de sua vida, seu sofrimento com a morte dos pais, o fracasso em impedir Sasuke de deixar a aldeia, o tanto que se esforçou para crescer suas habilidades, contudo ela evitou tocar o nome de sua mentora, ainda doía em seu coração proferir qualquer coisa relacionada a ela.

O tempo passou e os dois nem perceberam, Itachi também falou, mesmo que pouco, contando sobre suas crenças e que era pacifista, motivo de não querer deixar o Clã começar uma guerra por poder. Sacrificando a todos e a si mesmo no processo, também deixou claro que não guardava mágoa ou rancor de Konoha, Itachi amava sua aldeia e se orgulhava disso.

Pareciam leves, relaxados, aproveitando como um casal comum, Itachi indagou porque ele estava tão confortável em sua companhia, porque ele tinha sentido que ela era igual a ele daquele modo: um sobrevivente, alguém que também tinha conhecido sofrimento e perda.

Sakura estava surpresa por ter falado de suas dores e seus fracassos a Itachi, ela nunca se abriu sobre aquilo com ninguém que não fosse um bom amigo e, mesmo assim, havia coisas que ela contou a ele que estavam no fundo de seu íntimo, inalcançável a qualquer um. De modo estranho ela se sentiu mais achegada a ele, como se o vínculo se fortalecesse.

— Vamos dormir, amanhã é um longo dia. Itachi disse, caminhando até o altar do santuário a procura de um futon.

— Hai. Sakura se acomodou no que ele lhe entregara.

Deitada ao lado dele, os pensamentos agitavam seu ser, ela achou difícil dormir, ansiosa, Sakura teve certeza absoluta de que, enquanto estivesse com Itachi, ela poderia ser ela mesma. E teve a sensação de que, ele também sentia isso. Ela adormeceu, tendo em mente que amanhã contaria a ele sua decisão de não voltar a Konoha.

A manhã chegou trazendo consigo um clima gelado, com suas nuvens carregadas. Dentro do santuário, Sakura se encontrava desperta, tomando cuidado para não acordar o Uchiha ao seu lado. Ela explorou o local, levando as mãos a parede e traçando os símbolos curiosos com os dedos. Sua atenção voltando ao desenho do olho no teto, era caracterizado por um padrão de ondulações que se espalhavam por todo globo ocular, diferente de qualquer doujutsu que já viu.

Ela subiu ao altar admirando as duas estátuas dos deuses, suspirou devagar colocando-se em posição e iniciando os movimentos do kata.

Itachi acordou devagar, sentindo-se completamente relaxado, ao sentar-se ele pegou um movimento com o canto dos olhos e deu um leve sorriso quando a viu praticando.

Sakura pulou de repente, Itachi estava parado no pé da escada e, dada sua postura, ele estava lá por um tempo. Ela sorriu com a mão no peito e deu um olhar acusador a ele por assustá-la, ele por sua vez tinha um brilho divertido nos olhos, e duas espadas em mãos.

Itachi se aproximou entregando-lhe uma espada, ele a rodeou, seus passos eram de um predador, elegante e mortífero.

— Os movimentos devem ser graciosos, a espada é parte de você. Sua voz soou branda, ele girou sua própria espada em mãos.

Sakura observou e fez o mesmo que ele.

— Concentre-se, saiba o que está ao seu redor. Itachi jogou a espada a direita, de costas um pro outro, ela jogou também, imitando seus passos.

— Nunca perca o equilíbrio. Itachi a derrubou com o pé, apontando a espada pra ela. — Você morre. Os olhos dele queimavam nos dela.

Ele esticou a mão como apoio, Sakura pegou com um sorriso desafiador, eles deram distância necessária e começaram o combate. Suas espadas chocaram-se em cada investida bruta, a rosada manejava muito melhor agora, cruzando golpe com golpe. Ela tentou rasgar sua roupa novamente sem sucesso, Itachi achava engraçado sua ousadia.

— Itachi eu cheguei à conclusão que.. Ela se abaixou, esquivando-se do golpe dele. — Vou desertar Konoha, eu fico aqui. Sakura disse, sua respiração entre cortada pela batalha calorosa.

Ele franziu o cenho, sentindo um baque no estômago, isso não podia acontecer, já não bastasse seu otouto tolo ser um renegado por sua causa, Sakura não seria um deles.

— Receio que não seja possível. Sua voz vibrou no ar carregado.

Sakura bateu suas espadas, ficando cara a cara com ele.

— Essa é a minha decisão, não há mais o que dizer. Sakura jogou as próprias palavras de Itachi em seu rosto, ela ergueu o queixo, enfrentando-o.

Itachi estava abismado com tamanha insolência, o olhar dele se enfureceu, era como se soltasse faíscas, e a boca apertou-se em numa linha perigosa.

— Certo, que seja assim, mas antes tem que me vencer. Disse ele asperamente.

Sakura sentiu o coração bombear fortemente, ele impôs um desafio, um que ela sabia muito bem que tinha mínimas chances de ganhar, mas a vontade de ficar ao lado dele e a garra de querer curá-lo eram suas armas mais poderosas. Era sua deixa, ela concluiu, e não conseguiu mais pensar, todos seus sentidos focados na luta por vir.

— Hai. Ela rugiu se lançando contra ele.

— Sem chakra. Foi sua única palavra antes dele atacar.

Itachi desferia os golpes com violência, de formal ágil, deixando-a encurralada. Sakura rangeu os dentes com um pouco de dificuldade em fazer a defesa. "Eu não vou perder!"A raiva a dominou como um fogo.

Com velocidade insana ele se aproximou, prestes a desferir um golpe certeiro, que acabaria com a luta. Seus olhos se encontraram e Itachi pôde ver, a vontade do fogo queimando em suas orbes verdes. Sakura desviou do ataque surpresa, contra atacando em seguida.

— Shaaaa. Ela deu um grito feroz, batendo contra ele com toda sua força.

Sakura foi rápida em seus ataques, um após o outro com uma velocidade que ela não julgou ser capaz de conseguir, seus olhos selvagens corriam por ele a procura de uma brecha.

"Está levando a sério." Itachi viu as emoções estampadas em suas feições, ela queria ficar... Por ele.

A rosada rapidamente se ajustou ao ritmo da luta, suas mãos pareciam mexer-se por conta própria, ela estava começando a ver apenas vultos devida a velocidade que se encontravam. Cada investida era mais bruta que a anterior, ela se certificou disso, nada a faria parar.

Encima, pro lado, no meio, suas espadas rangiam no encontro, ela estava prevendo os movimentos dele e fazendo um bom uso de suas técnicas, Itachi ficou impressionado, a força de sua vontade fez com que ela executasse o Kenjutsu habilmente.

Ela não só se adequou ao ritmo da batalha, como manipulou. Se continuasse assim tinha grandes chances de ganhar, pelo menos contra qualquer outro, mas Itachi Uchiha não estava disposto a cooperar com sua decisão.

Ele aproveitou a distração dos olhos dela em ler seus novos conjuntos de movimentos, o que acabou criando uma pequena abertura em sua defesa. Itachi avançou em sua falha, desferindo um golpe veloz no ombro de Sakura.

— Tsc. Ela gemeu recuando, sentindo a dor da picada.

Itachi a sondou com os olhos escuros, dominantes, caminhando em círculos ao redor dela, ele estava no controle e Sakura sabia que ele a tinha na palma das mãos. Ele avançou, suas espadas se conectaram em frenesi, Itachi derrubou a guarda dela, aplicando cortes em sua coxa, costela e antebraço. Sakura mordeu o lábio com dor, fazendo investidas contra ele.

"Nani?" Ela arregalou os olhos quando em um conjunto de ataques específicos, ele retirou a espada dela que voou para trás.

Sakura estava em desvantagem, mas não recuou, ela sentiu o suor descer de sua testa até a ponta do queixo, as feridas ardiam e seu interior se agitava, o cansaço queria abatê-la mas não aceitava a derrota. Ela franziu o cenho e se preparou.

Itachi veio sem pudor, a atacava vorazmente, não dando tempo pra que ela fizesse outra coisa a não ser desviar, as picadas eram certeiras em diversos locais. Sakura sentiu o líquido quente escorrer em sua bochecha, varias áreas de seu corpo estavam sendo atingidas, ela desviava de dois golpes mas era atingia por um, tão rápido que não conseguia ver, apenas sentir.

Ela só via uma maneira de pará-lo, e se encorajou. "Eu vou vencer!" A espada veio em um disparo, no último segundo do golpe Sakura o parou, os dois se entreolharam.

A espada entrou em sua pele abrindo sua carne em uma dor alucinante, o braço erguido bloqueando o golpe, ela tinha os olhos como o de um animal enfurecido. Itachi ficou em choque, mesmo que mantivesse a aparência calma, tudo dentro dele se ascendeu.

"Garota tola, não sabe quando desistir." E mais uma vez ela o surpreendeu, erguendo um sorriso com o canto dos lábios.

— Shannaro. Ela gritou, acertando-o com uma joelhada no abdômen, que o repeliu para longe.

Itachi bateu com as costas na parede, sentindo o comichar da dor se espalhar, ele divagou por um momento, quão longe chegaria essa kunoichi por um assassino, um desonesto? Seus olhos a percorreram, analisando os traços de seu rosto zangado, que a deixava ainda mais bela.

Sakura tinha a respiração ofegante, um olho fechado e a mão na costela que sangrava, seu corpo estava repleto de suor que escorria até a ponta do nariz, ela secou com o cotovelo antes que pingasse no chão, o sangue jorrava de seu braço ferido, seu rosto sujo de poeira, ela emitia sons ao sugar o ar, sentia-se cansada. Ela abaixou lentamente pegando a espada dele que caíra aos seus pés, com a lâmina em mãos e um olhar duro, lançou na direção dele, soltando um rosnado.

A espada cravou na parede ao lado da cabeça de Itachi, emitindo um ruído que ecoou em meio ao silêncio.

"E se ela realmente ficasse?" O pensamento era um sussurro insidioso na sua cabeça, sombrio e tentador. Não. Ele não podia, seu destino estava selado, não tinha volta, era irreversível.

Devolvendo o olhar que recebeu, Itachi se levantou removendo a poeira de sua blusa preta, em um piscar de olhos ele estava à frente dela. Ela sentiu o cheiro dele, os cabelos escuros que balançaram atrás de si, o tempo pareceu correr em câmera lenta quando ele se pôs a sua frente, pronto para iniciar o combate.

Eles pareciam se conectar com os movimentos, como uma dança, seus golpes se encaixavam perfeitamente, moveram-se graciosos, sedentos por vitória. Itachi desviava dos punhos dela com facilidade mas foi pego por uma cabeçada dolorosa. Por sua vez, ele a atingiu no ferimento propositalmente, ouvindo seu gemido alto de protesto.

Mas a determinação da rosada parecia não ter fim, ela aumentou a sequência dos golpes, mais velocidade. Itachi bloqueou e a atingiu com um chute, fazendo-a rolar até o canto da estátua.

Quando Sakura se ajoelhou, ele mergulhou sua espada por trás, atravessando-a em seu estômago.

— Fim. Itachi falou baixo, deslizando a espada de dentro dela com cuidado, só para ouvir um puf e ver um bloco de madeira surgir em seu lugar.

— Fim, Uchiha, eu ganho. Sua voz soou rouca, ela tinha a ponta afiada da espada colada à nuca de Itachi.

Itachi ficou muito sério, ela o enganou, pela segunda vez, ele se lembrou de sua esperteza na floresta, fingindo render-se. De forma ágil, ele a derrubou com o pé, rapidamente, prendendo-a embaixo dele.

— Eu disse nunca perca o equilíbrio. Você perde. A voz dele baixou para um sussurro rouco, e um brilho mais quente e sombrio nos olhos, que agora sangravam vermelho.

O coração dela voltou a galopar loucamente no peito, Sakura se viu estatelada de costas no chão, com os braços presos acima da cabeça e Itachi deitado sobre ela.

— Eu diria que foi um empate. Ela resmungou.

— Você quebrou o acordo, sem chakra. Itachi disse muito perto de sua boca.

— E você também, com seu sharingan. A provocação era nítida em seu olhar.

— Eu não disse nada sobre não usar meu doujutsu. Ele franziu as sobrancelhas, certamente irritado.

— Isso é trapaça! Sakura disse com um tom de raiva.

Mas calou-se quando Itachi abaixou e capturou seus lábios, com uma paixão que a consumia, roubando sua respiração, beijos drogados que enuviavam a mente dela. Ele parou, ajudando-a se levantar, ela tinha o rosto tingido de um rosa profundo mas ele fingiu não perceber.

Itachi precisava afastá-la, ela estava sob sua pele, invadindo seus pensamentos e despertando coisas que ele não queria sentir. Ele não permitiria que ela interferisse seus planos, dentro dele sabia que a presença dela provocava uma vontade a muito tempo adormecida, e precisava impedir isso de surgir.

Ele já fora afetado por ela, por isso, sabia que já era hora dela partir. A última noite não tinha sido de ajuda, se alguma coisa, só piorou. O gosto dela ainda estava na sua língua, doce e vital, e saber que não a teria novamente era tão agonizante quanto uma ferroada.

— Precisamos ir. Itachi disse com seu tom habitual, sem emoção.

— Onde vamos? Sakura curava a ferida em seu braço provocada pela espada, observando-o vestir sua capa.

Ele não respondeu, dando um olhar por cima do ombro, Sakura se apressou em segui-lo.

A viagem de volta levou menos tempo, pois, Itachi manteve um ritmo energético, navegando pela floresta conhecida com facilidade, ele pegou um atalho que adiantaria sua chegada. Sakura o seguiu sem pestanejar, a necessidade que ela tinha de falar o tempo todo, de sempre ter um assunto diferente, o agradou. Agora mesmo ela falava sobre o quanto adorava as estrelas, e que em certas noites passava horas olhando pro céu.

— Você deve me achar uma tola. Ela sorriu ao seu lado, agora caminhando calmamente entre a floresta.

— Eu não acho. Ele disse com sinceridade, vendo o sorriso dela crescer, e algo afetar seu peito.

Sakura se sentia tão feliz, caminhando ao lado de Itachi e conversando sobre tudo, ele era muito sábio, sempre mostrando bem seu ponto de vista, fazendo-a refletir.

Quando seus olhos se encontraram, ela soube que perdeu. Ali, naquele momento, entendeu que o amava, independente de quem ele era, do que fez no passado, ela era toda dele, de corpo e alma. Perceber finalmente aquilo fez com que um mar se abrisse, tudo que ela lutou contra veio com força absurda, um sentimento sem igual.

Desejo, admiração, paixão, amor, tudo se misturou em si, e se intensificou. Ela suspirou, sentindo que se esparramava sem controle em seu âmago.

Itachi fez uma pausa, o vento frio sacudiu as franjas escuras que adornavam seu resto, Sakura parou também, mas mantinha os olhos ligados nele, o único responsável por despertar tanto nela.

Quando ela mudou o olhar pra frente, se deu conta do porque ele havia parado. Aquele lugar, foi onde a encontraram, ainda havia vestígios de sua luta com Kisame. A divisa do país do fogo.

Uma pressão pesada se instalou no seu peito, comprimindo suas costelas e apertando seu estômago. Foi como se ela tivesse levado um soco, olhou pra ele boquiaberta, entendeu que a deixaria, o pânico veio como uma chicotada rasgando-a por dentro.

— Não. Seu corpo se sacudia com soluços, o medo era tão atroz que a dobrava no meio.

Lágrimas embaçavam sua visão, ela se aproximou de Itachi em desespero, implorando com os olhos, como se pedisse que ele negasse.

A expressão dele era inescrutável, seus olhos ônix estavam intensos. Seu silêncio foi o suficiente.

Sakura estava tão descontrolada que enfiou o rosto nas mãos, chorando copiosamente, seu coração sangrava, doía tanto que pensou que não suportaria.

Itachi estava parado, olhando fixamente pra ela, parecendo um pouco mexido em vê-la assim, mas sabia o que tinha que fazer. Ele deu-lhe as costas. Quando Sakura viu que a abandonaria, ela correu até ele, abraçando-o fortemente por trás.

— Não faça isso, por favor, Itachi... As lágrimas fluíam sem parar, ela engasgou, esfregando o rosto molhado nas costas dele.

A angústia era latente em seu interior, se acumulando como se fosse explodir.

— Me escute, não posso, não posso ficar sem você, sei que há coisas que colocam um abismo entre nós, mas, você é o meu lar, Itachi eu... "te amo". Tudo dentro dela gritou esse fato, mas por fora um nó entalou sua garganta, ela não conseguiu dizer. — Eu faço o que você quiser, por favor, eu te peço, não me deixe. Ela pediu, sem vergonha de implorar.

Itachi segurou e a virou de frente, com o olhar percorreu seu traços, parou na bochecha cortada, na boca e subiu até os olhos vermelhos e inchados. Os dois se olharam por um momento, cheios de intimidade.

A mão de Itachi se ergueu, um sorriso apareceu em seu lábios, quando seus dedos cutucaram a testa dela com um toque afetuoso.

— Desculpe Sakura, talvez da próxima vez. Itachi disse gentilmente.

Ela estava presa em seu olhar, o gesto de carinho fez seu coração bater tão forte que pôde ouvi-lo, os tomoes do sharingan giravam sem parar, a escuridão se fechou ao redor dela, sentiu-se flutuando entre a inconsciência, que a puxava e se viu sem forças para relutar.

Então, ela viu os dois felizes, Itachi parecia mais velho mas isso não interferia nada em sua beleza, ele sorria pra ela mostrando os dentes brancos e bem-feitos, com os caninos ligeiramente mais salientes. E quando ele a abraçou e ambos olharam para o lado, duas crianças vinham correndo em sua direção, eram uma mistura dos dois, os olhos da menina eram de um verde profundo, e os cabelos escuros como o do pai, o menino era exatamente como Itachi, o mesmo olhar intimidante.

Ambos agarraram-se em suas pernas, completando o abraço e sorrindo, Itachi pegou o menino em seu colo e sorriu para Sakura, ela pensou que fosse morrer de amor naquele momento, mas uma voz profunda soou no fundo.

Quando olhar para o céu, lembre-se de que estamos vendo as mesmas estrelas.

E aí... Foi como se um raio caísse encima dela e o choque a sacudisse, fazendo abrir os olhos. Ali sobre o céu que rugia em nuvens pesadas, coberta de terra e sangue seco, sendo amparada enfrente os portões de Konoha.

As lágrimas escorreram de seus olhos, e só aí percebeu que chorava, Naruto estava a sua frente, falando incessantemente e abraçando-a, com um braço apoiado em sua coluna para que ficasse sentada. Mas ela não sentia e nem ouvia nada ao redor, como se fosse uma casca vazia, sem sua alma que pertencia somente a ele e foi arrancada quando ele partiu.

Sentia-se sem rumo, sem chão, estava como que dopada, perdida. Em segundos ou minutos, trilhas molhadas desceram por seu rosto.

Chuva

Gotas bateram em sua pele, sufocando-a em carícias e falso conforto. Naquele instante Sakura soube, Itachi a marcou como nenhum outro jamais poderia.

Abrir mão de Sakura foi tão devastador quanto ele temeu que seria, Itachi se sentia ferido por dentro, como uma árvore cuja casca protetora foi arrancada. Os pingos gelados picaram sua pele, e deixou a água jorrar sobre si, pouco se importando com o olhar curioso de seu companheiro na caverna.

— Eu não sei o que alguém frio como você está pensando numa hora dessas... Mas daqui parece que você está chorando. Kisame afirmou.

Itachi permaneceu abaixo da tempestade, sua mente sendo preenchida, pela mulher que estava agarrada em suas entranhas.

"Chuva e lágrimas caem no meu rosto, meu corpo não consegue ficar, mas meu coração não consegue sair."