Capítulo 21: Sôfrega

Todo seu corpo tremia com os soluços contidos, ela se sentia estranhamente amortecida, como se nada pudesse a tocar naquele momento. Só no que conseguia pensar, só no que conseguia se concentrar era no fato de que ele a deixou.

Sentia-se esmagada ali, e isso só aumentou a sensação de vazio que sentia, um peso maior se abateu sobre seus ombros e a tristeza veio mais forte, junto com a solidão. Era como se sufocar, se encolher, se debater inutilmente dentro de si mesma.

Não se sabe quanto tempo ficou assim, minutos ou uma eternidade. Só despertou para a mundo a sua volta quando os gritos desesperados de Naruto alcançaram seus sentidos.

A dor a penetrava, tão afiada quanto uma faca, mas Sakura sabia que tinha que ser forte. Era o único caminho. Ainda, ela não conseguiu evitar a queimação em seus olhos quando levantou a cabeça do ombro de Naruto vendo seu olhar brilhante.

— Quem fez isso com você? A voz dele era puro ódio, suas esferas azuis furiosas.

— Akatsuki. Ela disse em um fio de voz, mal processando a palavra que rolou de sua língua.

Ela ainda estava muito afetada de sua luta com Itachi, seus cortes em diversos lugares permaneciam abertos, o sangue seco em sua bochecha estava lá, e ela sabia que tinha contusões em algumas partes.

— Eu vou matá-los. A aura do loiro parecia mortal, ele rosnou como uma fera e seus olhos piscaram vermelho.

— Eu estou bem. Sakura o tranquilizou com um aperto suave.

— Bem? Olhe só para você, eu nunca a vi nesse estado. Ele gritou, a raiva tomando o melhor dele.

— São inimigos poderosos, eu não poderia sair ilesa. Ela se levantou pesada, tentando reagir.

Genma parecia olhar desconfiado pra sua forma cansada, só agora ela o viu, parado nos portões de Konoha. Ele tinha um olhar.. temeroso? O que foi aquilo?

— Me desculpe Sakura, eu deveria estar aqui vigiando os portões em favor de um amigo mas sai por um momento e... Digamos que demorei, quando voltei você já estava lá desmaiada e, não sei por quanto tempo. Ele disse envergonhado, com um olhar de suplica pra que não contasse a Godaime.

— Tudo bem. Sakura sussurrou, com uma tristeza mais forte do que tudo, a deixando muito cansada.

— Vamos, você precisa reportar. Naruto apoiou ela com o braço quando a viu com dor.

— Hai. Ela suspirou, decolando sobre os telhados.

Partindo em direção ao escritório Hokage, com Naruto bem ao seu lado, a rosada chorava, quieta, silenciosa, lágrimas grossas escorrendo por seu rosto, desnudando sua alma que clamava por Itachi, como se não pudesse segurar o sofrimento que carregava. A chuva escondia suas lágrimas, misturando-se como um só.

Ele sabia, sabia que ela não iria deixá-lo, por isso a envolveu em um combate com mínimas chances, ele estava ciente de que ela daria tudo de si. Ela precisava estar ferida, cansada, ele planejou cada detalhe, pra que ela voltasse pra Konoha sem suspeitas ou acasos.

Ao chegar, uma batida na porta foi suficiente, ela suspirou nada preparada pra esse momento.

— Entre. A voz aguda e muito conhecida disse.

Ela ficou paralisada, não sabendo como iria encarar a mulher que assinou a petição de morte de seus pais, seu estômago se revirou fortemente, e os punhos apertaram instintivamente. Sakura não se mexeu, e quando Naruto abriu a porta e atravessou em passos largos ela não teve outra opção a não ser segui-lo.

"Segure-se." Ela pensou, vestindo a armadura fria, sem nenhum traço de emoção, os mesmos traços que ela veio a memorizar durante sua estadia com ele.

Seus passos ecoaram no chão e ela se viu parada de frente a Godaime. Pela primeira vez sentiu o coração chorar, sangrando por dentro enquanto aparentava tranquilidade por fora.

— Sakura... Tsunade disse sem acreditar, o coração dando um salto.

Sakura sentiu como se estivesse sufocando, como se todo ar tivesse sido sugado da sala, mas sabia que era apenas uma ilusão. Havia oxigênio suficiente ali, mas ela não parecia conseguir respirá-lo.

— Você está bem? Sakura? A voz de Tsunade penetrou a barreira dos ouvidos dela, soando muito preocupada.

Finalmente a rosada conseguiu respirar um pouco e afiou o olhar em sua mentora.

"Como pode fingir tanta preocupação? Como pode me olhar com amor e me apunhalar pelas costas?" Sakura fervia por dentro.

— Hai. Seu tom seco foi tudo que ouviram.

Naruto a encarava com uma expressão confusa e Tsunade suavizou a feição preocupada ao ouvi-la.

— Quando você chegou? A loira levantou-se aproximando e checando as feridas visíveis com o olhar.

— Genma fez o favor a Kotetsu de ficar em seu lugar nos portões, mas ele parecia ocupado por não estar lá e quando voltou, Sakura estava desmaiada bem ali. Foi a vez de Naruto falar, um brilho acusador no olhar que Tsunade conhecia muito bem.

Por hoje ser a folga de Shinuze, a loira tinha uma boa sugestão do que Genma estava fazendo fora dos portões, uma veia pulsou em sua têmpora e ela bufou em desacordo. "Baka" Ela pensou.

— Relatório. A loira disse, sua voz firme, mas os olhos vacilantes, levemente marejados.

Contendo-se com esforço extremo, a rosada suspirou antes de começar.

— Após me encontrar com o alvo fui posta em cativeiro por incontáveis dias, mesmo me esgueirando nas oportunidades dadas tudo que posso afirmar é que Pain irá fazer um movimento. Apesar do esforço sua voz saiu meio estrangulada.

— Você a mandou como isca? Mesmo sabendo dos riscos? Naruto acusou, um tanto alterado.

— Cuidado com os modos pirralho, não esqueça que sou a Godaime. Tsunade disse ríspida, mas havia uma pitada de culpa.

— Da última vez que você mandou um espião, viu o que aconteceu, pensei que não cometeria o mesmo erro, eu estava enganado. Naruto disse com pesar, claramente referindo-se a Jiraiya.

— Já chega. A loira bateu a mão sobre a mesa.

Ele parecia disposto a confrontá-la, seu olhar sobre a Godaime era intenso, como se exigisse uma explicação, uma coisa louca a se fazer.

Fazia algum tempo que Sakura não via Naruto bravo, mas, naquele momento, não conseguia se importar com nada ao seu redor. Todos os músculos do seu corpo tremiam com o esforço de conter a tempestade terrível que ameaçava sair de dentro dela.

— Como você escapou? Tsunade perguntou, com um mal estar ao vê-la machucada em todos os ângulos.

Sakura concentrou-se, ela não iria mentir, mas sim omitir, pra isso teria que estar muito perto da verdade, ela cruzou os braços e falou.

— Houve uma invasão no esconderijo, nukenis de várias aldeias, tiveram como alvo principal Itachi Uchiha. Sakura parou sentindo o nó na garganta ao dizer o nome dele. — Ele é muito poderoso, com parte de seu poder levou o esconderijo a ruínas e então vi a oportunidade perfeita de escapar, até Kisame Hoshikage me envolver em combate. Ela terminou sem expressão.

Perfeito, ela estava muito próxima da verdade, realmente lutou com Kisame, houve os nukenis e Itachi levou o esconderijo abaixo com seu poder sombrio. Ela só alterou a ordem das coisas.

"Nukenis? Seriam os mesmos que estamos investigando? Então eles não trabalham com a Akatsuki, interessante..." Tsunade levou a mão ao queixo.

— Certo, agora os pergaminhos. Ela parecia orgulhosa de sua aluna.

Sakura olhou para ela como se ela tivesse acabado de crescer uma segunda cabeça. "Do que ela está falando?"

— Esses na sua cintura. Tsunade gesticulou com a mão.

Sakura congelou, olhando pra baixo, não havia percebido os dois rolos ao redor de sua cintura, ela não sabia de onde veio, isso só poderia ter uma explicação... Itachi.

— Claro. Ela disfarçou, removendo-os da fita embalada em sua calça preta.

Tsunade os abriu, passando os olhos rapidamente pelas linhas contidas. Havia informações preciosas, como a quantia de animais de cauda que mantinham, a localização de sua base e alguns movimentos futuros dos membros, como a captura do Hachibi dentro de dias.

— Excelente, isso são mais informações do que esperava, eu sempre tive fé em você Sakura. Tsunade se aproximou colocando a mão na cabeça de Sakura em um gesto de carinho.

A rosada enrijeceu com o contato, todos os nervos de seu corpo endureceram, um fato que não passou despercebido pela loira. Sakura estava prestes a estourar, quando a mão de sua mentora se afastou e ela voltou ao seu acento.

— Bom trabalho, dispensada, e tire um bom descanso. Tsunade disse, sem perder o olhar cansado e a aparência fria de sua aluna.

Sakura saiu em um flash sem nenhuma palavra, ao se dar conta Naruto foi rápido em segui-la. Ela deixou seus pés a levarem, sua mente em um borrão, a chuva pingava sobre eles e tudo parecia silencioso ao pisar em seu pequeno dormitório próximo dos aposentos do Hokage, ela residiu ali durante esses anos após ficar órfã, sobre a tutela de Tsunade.

— Sakura você finalmente está em casa, eu pude imaginar esse momento durante todo o mês, senti sua falta. Ele abriu um enorme sorriso.

Sakura ainda estava parada no centro, um sentimento possesso a atingindo. Era como se uma represa tivesse estourado, e não podia ser contida. Uma névoa vermelha a envolveu, cobrindo a visão e o zumbido nos ouvidos ficou ainda mais alto a medida que as emoções saíam do controle.

— Eu vou em casa pegar uma roupa e volto pra dormir aqui, como fazíamos sempre, me dê um minuto, talvez dois. O loiro hiperativo correu em alta velocidade.

Assim que Naruto desapareceu, ela explodiu. Não estava mais racional nem sã, estava simplesmente enfurecida, a próxima coisa que ela fez foi jogar o punho cheio de chakra na parede. A rachadura se estendeu dali até o teto, desmoronando todo o edifício em um milhão de pedaços acima dela.

O tempo inteiro, ela ouviu gritos, saíam dela, mas muito distantes. Uma parte funcional do cérebro percebia que era ela, que eram seus gritos e xingamentos que ouvia, mas não conseguia se conter, pois parecia um tufão. Toda a raiva, mágoa e frustração chegaram à superfície, explodindo em uma fúria descontrolada.

Com o punho para cima ela destruiu a enorme pedra com ferragens que caiu sobre si, ao redor tudo havia desabado, seu antigo quarto não existia mais, eram pedregulhos e entulhos por toda parte, a chuva penetrou o lugar, contemplando o estrago feito.

Pegando o que sobrou de suas roupas no armário debaixo do concreto destruído, ela partiu, pro único lugar que pertencera. Sua antiga casa.

"Minha casa." O pensamento a atingiu.

Parada do lado de fora ela teve um vislumbre de onde nasceu e viveu parte de sua infância, tudo permaneceu fechado, com exceção de uma janela na lateral, que havia sido quebrada e algumas tábuas foram pregadas para ninguém invadir.

Sakura entrou por ali, destruindo as tábuas com sua imensa força, tudo parecia no mesmo lugar. Na sala ela viu o sofá antigo, com a pequena mesinha na frente, e o tapete por baixo muito empoeirado, assim como as cortinas e tudo que ali se encontrava.

Sakura divagou, mesmo depois de tudo, tudo que Konoha causou a ele, todo fardo e toda dor... Itachi ainda era um shinobi leal, os pergaminhos foram sem dúvidas uma maneira dele contribuir com a aldeia, relembrou uma conversa que tiveram, onde ele deixou claro suas crenças e sua devoção sem fim por Konoha.

A vila certamente tem seu lado sombrio e suas inconsistências, mas eu ainda sou Itachi Uchiha da folha. A voz dele soprou na mente dela.

Ela continuava se lembrando de todas as razões porque esta era a decisão certa dele tomar. Até quando ela poderia ficar sem que o líder descobrisse e quisesse matá-la?

Mas aquilo não importava, ela não conseguia colocar lógica na sua dor.

Sakura continuou e, de alguma forma, entrou no banheiro, onde agora estava se despindo devagar. Ao abrir o chuveiro a água gelada jorrou e ela imaginou vagamente como não havia esgotado as reservas depois de tantos anos, mesmo sendo fria o que indicava que não havia luz, era o suficiente.

Ao remover a calça um pedaço de algo caiu ao seus pés, nua, ela se agachou para pegar. Era o pequeno pedaço de tecido com a nuvem vermelha, que ela tinha cortado da capa de Itachi.

Ela se aguentou até entrar no chuveiro, mas na hora que sentiu a água fria na sua pele, todo os resquícios de força a abandonaram. Deslizando para o piso, Sakura abraçou seus joelhos e chorou, chorou de todo seu coração, apertando com força o tecido da capa, e sentindo a sensação terrível de que aquele homem havia arrancado um pedaço de si.

Cada pontada de dor era um lembrete de suas noites de amor, ele ocupava cada recanto de sua mente e invadia sua alma. Latejando dentro de si. Sakura ficou ali, remoendo e sentindo-se completamente vazia sem ele.

Naruto a tirou de seu devaneio, quando sua voz alta ecoou pela casa.

— Sakura eu voltei e então, bam, tudo desmoronado, eu fiquei preocupado e vim correndo até aqui, o que aconteceu? Ele caminhou em direção ao banheiro, mas parou quando ouviu a água correr.

— Como me achou? A voz dela saiu muito baixa do chuveiro, mas teve certeza que ele ouvira.

— Veja bem, eu ando treinando o modo Sennin diariamente para que eu possa aumentar o período de tempo, então quando ativado posso sentir seu chakra em qualquer lugar da aldeia. Ele coçou a cabeça em sua explicação.

— Entendo. Ela sussurrou.

O resto do dia passou em um borrão. Um borrão no qual Naruto nunca saiu do lado dela nem por um minuto, ele abriu as janelas permitindo a entrada do ar, e até trouxe dois ramen para que pudessem comer juntos. Sakura vestiu uma blusa verde e shorts branco, penteou o cabelo sem vontade e sentou-se em sua cama ao lado dele.

Algumas velas iluminavam o quarto, a chuva ainda caia lá fora e ela sentia caindo em seu interior, chorando por dentro.

— Então essa era sua antiga casa? É muito bom, apesar da poeira. Ele cavou em seu ramen, saboreando o divino tempero.

— Hai, amanhã eu vou dar um jeito na bagunça. Ela falou olhando para o alimento em mãos, sem um pingo de fome.

— O que foi? Você não gosta? Eu posso trocar o sabor pra você. Ele perguntou com um olhar atento.

— Não é isso, eu aprecio muito, só não tenho fome, estou exausta. Ela disse suspirando.

— Eu vejo, você deve ter dado duro pra poder enfrentar aquele homem peixe. Ele continuou a comer.

— Exato, toma pode ficar com o meu. Ela entregou seu ramen a ele.

— Tem certeza? Os olhos dele brilhavam como os de uma criança.

— Tenho. Ela forçou um sorriso.

Naruto comeu sem parar, dando um pouco de silêncio a ela, um que ela apreciou para lutar contra a queimação nos olhos, que insistiam em se encher.

— Não precisa se preocupar, eu prometo nunca mais deixar que a Akatsuki toque em você de novo, e não pretendo ser capturado. Sua voz tornou-se seria de repente, fazendo Sakura olhar pra ele.

Pobre Naruto, mal sabia que sua maior vontade era estar nos braços de um certo akatsuki.

— Você não precisa prometer nada, eu posso me cuidar, eu é que prometo não deixar que ponham a mão em você. Ela disse apertando os punhos.

— Nossa Sakura, você ficou assustadora de repente. Ele disse inocente.

Em outra hora ela teria rido, mas a tristeza a consumia.

Ele falou sobre como Kakashi sensei teve que segurá-lo ao saber que ela havia partido sozinha em missão, e de como começará os estudos para ser um Hokage, também contou que Sai teve um encontro com Ino e riu de como deve ter sido isso, especulando as atitudes de Sai.

Em pouco tempo ele estava dormindo, roncando sobre a cama macia. Sakura continuou sentada, olhando pro nada, sentindo tudo, não importa o quanto ela tentasse, não conseguia parar as lágrimas de descerem.

O médico nela não se importou com suas feridas, absteve-se de curar, sentindo o leve repuxar da dor que acompanhava, mas essa não era páreo para a dor em seu coração. Ela ficou na cama, olhando para as paredes, pro teto, pro nada, naquele momento em que se sentia tão sensível, sozinha e perdida, ela fechou os olhos.

Deixou a mente solta enquanto pensamentos e imagens a bombardeavam, como se só esperassem uma fresta para sair.

Itachi marcou sua pele, sua marca estava tatuada por dentro, infiltrada tão fundo que não adiantava apenas tentar aceitar e entender. Continuava lá, marcada a ferro e fogo, sempre, sempre, sempre.

Na manhã seguinte, Sakura estava mais abatida do que nunca, ela não comeu, não dormiu, passou a noite em claro com uma tristeza sólida e um vazio esmagador. Com a manhã Naruto se foi, despediu-se dizendo que precisava voltar ao escritório e continuar os estudos para se tornar um Hokage.

Ela continuou na cama, sentada recostada nos travesseiros, olhando pra luz suave da vela acesa, estava entorpecida, sentiu como se estivesse morrendo aos poucos, de amor e de saudade. Sakura ficou ali em um estupor como se o tempo não passasse.

Soube que perdeu a maior parte do dia quando ergueu o olhar para a janela semi aberta e viu o manchar do céu que começava a escurecer. Ela precisava de algo, que a ajudasse a esquecer pelo menos por uma noite, que amenizasse seu sofrimento.

Mudando de roupa ela optou por sandálias simples e sua blusa vermelha habitual, junto com a calça escura de suas vestes Anbu. Ao sair nas ruas de Konoha ela pôde ver alguns bares já abertos, pessoas conversando entre si, crianças brincando e shinobis passando, todos pareciam felizes. Ela cruzou o caminho com a loja de flores Yamanaka mas decidiu passar, não tendo ânimo para entrar em uma conversa com Ino ou qualquer outra pessoa no momento.

Ela entrou em um bar pouco movimentado, sem nenhum rosto de seus amigos por sorte, ela caminhou até o balcão atraindo a atenção do dono do estabelecimento.

— Eu quero duas garrafas de saquê. Sua voz saiu dura.

— É pra já, duas garrafas para a pupila da Godaime. O homem de meia idade sorriu com bom humor.

Sakura bufou franzindo o cenho, vendo o homem dar meia volta e parar novamente a sua frente.

— Alguma preferência? Temos tipos diversos. Ele colocou os cotovelos sobre o balcão.

— Traga do mais forte. Sakura disse sem se importar.

O sorriso dele aumentou e ele acenou, indo e voltando com as duas garrafas.

— Esses são os mais fortes e também os favoritos de Tsunade-hime, tenho certeza que vai aprovar! Ele lhe entregou duas grandes garrafas de saquê.

— Arigatou. Sakura pagou e se retirou o mais depressa possível.

Entrando em casa ela parou na sala, sentando-se e tomando um grande gole da bebida, que queimou em seu estômago vazio. Serviu-se de mais uma dose, bebendo em grandes goles.

Ali, sozinha, ela não precisava mais ser forte, deixou cair sua armadura, sobrando só a dor. Fechou os olhos, nocauteada, quebrada, vieram imagens e sensações aleatórias, acertado-a em cheio.

Itachi...

Ela encheu o copo, tomou o líquido ardente e encheu de novo até a borda. Enquanto bebia mais e tentava esquecer, ela só lembrava. De tudo. De cada instante que pareceu tão simples, mas que agora vinha com força total.

As dores a golpearam, consumindo e dilacerando tudo nela, até que não restou mais nada, somente o abismo.

Sakura bebeu, muito, um copo após o outro, até esvaziar as duas garrafas e seus pensamentos se embaralharem, a ponto de não saber distinguir a realidade. A dor passou e ela cedeu, afundando em um sono que a fez apagar de imediato.

Sangue

Por toda parte

Dor

— Eu me pergunto por quanto tempo você será capaz de aguentar. O tom frio vibrou no ar.

Aquela voz... Pertencia a ele.

Gotejar

Dor

— Itachi. Sakura chamou em desespero.

Uma risada sombria encheu o ar.

Ela queria gritar, mas não teve ar o suficiente, queria se mover, mas estava presa, amarrada no lugar. As cordas cortavam a pele quando lutava contra elas. Ela pôde ouvir o riso, obscuro e inumano, assim como os gritos de dor e agonia que saíam dela, deixando sua mente tão exposta e mutilada quanto sua carne.

Tormento

Dor

Lua de sangue

Sua forma apareceu, como uma criatura da noite, sua pele banhada pela luz da lua, seu olhar cruel com uma grossa linha de sangue que descia até sua garganta, seu Mangekyo Sharingan em toda sua glória.

Era apenas o início de seu tormento.

Itachi ergueu a lâmina uma última vez e a poça de sangue se transformou em um oceano.

Morte

Sakura acordou gritando, sentindo o corpo molhado de suor, ela estremeceu. Um pesadelo, um tão real que sua pele estava arrepiada e um frio percorreu sua espinha. Ela tinha a respiração ofegante enquanto se sentava, encostando a cabeça na parede.

Por um momento ficou desorientada, em seguida uma batida na porta, a cabeça dela doeu com o som, levantando-se bem devagar ela abriu a porta.

— Kakashi sensei? Ela disse surpresa.

— Eu vim ver minha aluna favorita. Ele sorriu enrugando os olhos, com as mãos no bolso.

Além do famoso Ninja que copia estar no topo da lista dos atrasados, ele também não era uma pessoa de visitas.

"Suspeito." Ela levantou a sobrancelha.

— Na verdade eu vim checar você, soube do que aconteceu em seu dormitório, a Godaime viria por si mesma, mas ficou presa em suas reuniões depois das informações que recebeu. Kakashi estava analisando ela com o olhar.

— Foi um acidente. Sakura disse entre dentes.

Kakashi não pareceu acreditar, dizendo com o olhar que prosseguisse com sua explicação.

— Eu aprecio tamanha preocupação, mas ainda estou exausta, quero ficar um pouco sozinha. Ela disse séria.

— Eu imagino... Até mais. Ele desapareceu com seu Shunshin no Jutsu, deixando uma nuvem de fumaça para trás.

Ao fechar a porta Sakura se recostou nela, deslizando devagar até chegar ao chão, a dor momentaneamente apagada voltou, trazendo um aperto terrível em seu peito e em seu coração. Ela se encolheu fechando os olhos, recordando a imagem dele em desespero silencioso.

"Se ele não voltar, vou me perder..."