Capítulo 22: Solidão
Sakura nunca soube o quão ruim era uma dor de cabeça de ressaca até ter uma, parecia que mil agulhas alfinetavam seu cérebro e ela gemeu, encostando a testa no chão gelado em busca de alívio.
Seus pensamentos nadaram enquanto sentia tudo girar, com a visão turva ela levantou a cabeça vendo dois loiros de laranja que sobressaíram acima dela, muito embaçados.
— Bunshin? Ela murmurou grogue.
— Hã? Não, sou eu mesmo Sakura, além de herdar o temperamento explosivo também herdou suas bebedeiras, você cheira a álcool. Naruto resmungou torcendo o nariz.
Ela quis gritar com ele, mas só o pensamento fez a dor picar em sua cabeça.
— O que faz aqui tão cedo? Não deveria estar estudando? Ela perguntou sentando-se com a mão na testa.
— Eu faço, deixei um Bunshin lá enquanto vim aqui. Ele riu coçando a cabeça.
Sakura fechou os olhos suspirando, tudo o que queria era ficar ali, jogada e sozinha para se afogar em suas mágoas.
— Eu trouxe isso. Ele ergueu uma cesta em mãos.
Sakura o olhou com carinho, era costume ela preparar as refeições pra ele e não o contrário, na cesta continha diversas frutas, foi a opção dele de um café da manhã.
— Não sou um bom cozinheiro você sabe. Ele fez beicinho e colocou a cesta sobre a mesa.
— Foi uma ótima escolha. Ela disse, indo até lá e olhando a cesta de perto.
Naruto a olhava com expectativa, ela não tinha um pingo de fome, no entanto, não queria decepcioná-lo. O estômago dela se embrulhou, uma náusea repentina, mas ela se encorajou e deu uma bela mordida na maçã.
Ela mastigou, sentindo o gosto da maçã misturado no licor ainda presente em sua língua, quando engoliu pareceu descer uma pilha de tijolos por sua garganta.
— Isso está muito bom. Ela conseguiu dizer, ganhando um sorriso radiante dele.
Mas após terminar a frase, uma onda quente atingiu sua garganta e ela vomitou todo o conteúdo do estômago.
— NANI? Naruto gritou surpreso.
— Me desculpe.. Eu não me sinto bem. Sakura se apoiou na mesa, sentindo-se fraca.
Naruto se lembrou de um dos dias estressantes após Sakura partir, Tsunade estava atolada em papéis e seus nervos ferviam, no fim do expediente ela se perdeu em um bar, chegando péssima no dia seguinte ao escritório, assim como Sakura se encontrava agora.
— Você está de ressaca. Ele disse como se acabasse de descobrir o óbvio.
— Não diga. Ela disse irônica.
Ele parecia prestes a retrucar, quando seu olhar ficou sério e uma expressão de medo cruzou seu rosto.
— Eu preciso ir, ela me pegou! Ele correu atravessando a sala e saindo pela janela.
— Hn. Ela se levantou pra limpar a bagunça que fez.
Depois de subir ao quarto e permanecer lá, Sakura ficou no abismo por mais dois dias, ora deitada, ora sentada, perambulando pela casa, arrasada, sentindo uma angústia comprimir o peito.
Se não fosse Naruto checá-la três vezes ao dia, ela acreditou que iria sucumbir, não estaria mais lúcida. Ele percebeu que havia algo de errado com ela mas não questionou, ficando em silêncio ao seu lado transmitindo o conforto que tanto precisava.
Nada amenizava a dor, com o passar dos dias a dor cresceu como um furacão. As lágrimas voltaram ao seus olhos e Sakura as enxugou, não queria se sentir daquele jeito, com pena de si mesma, devastada.
Ela queria se ocupar, fazer algo que espantasse a depressão que estava roubando sua vida. Para combater a ânsia de choro, Sakura prendeu o cabelo em um coque bagunçado, abriu todas as janelas e começou fazer uma geral pela casa coberta de poeira e teias de aranha.
Ela bateu os tapetes, lavou as cortinas, e descartou alguns itens velhos e quebrados, colocando-os em um saco grande. Vendo a casa agora com brilho e luz, era como um campo minado de lembranças, a cada passo dado uma a atingia.
Sakura fechou os olhos, deixando as lembranças a invadirem, por anos, ela lutou, se abafou, deixou aquela menina lá, esquecida e perdida nas lembranças que não queria ter, escondida e trancada em seu interior.
Por anos, ela a preferiu calada, esquecida, apagada. Sakura a anulou de si, porque não queria que o que ela passou a definisse, ela não queria ser aquela menina, nem aquela lembrança.
Aquela menina era o lembrete do que aconteceu, do que ela queria esquecer. A culpa por ser fraca e não conseguir impedir a tragédia. Inútil, fardo, irritante.
E ela lhe deu as costas, trancou cada memória de sua infância, cada sorriso, cada afago de sua família, foram trancafiados nela. Agora Sakura se culpou por esconder suas dores e camuflar seu sofrimento.
Ela se arrependeu por tentar arrancar a menina em si, por ter deixado tudo no passado silencioso e ter recorrido ao tempo para dar o esquecimento que tanto desejava. Sakura a abandonou, assim como fora abandonada naquela noite, no dia do assassinato.
O remorso veio, mas com ele um sentimento de libertação. Uma lágrima solitária escapou por baixo das pálpebras fechadas, ali sozinha, mas ao mesmo tempo acompanhada por ela, que naquele momento ínfimo Sakura deixou que segurasse sua mão.
Mesmo com tudo que fez, toda culpa que colocou sobre a menina, ela não a abandonara, como um espírito agarrada a si. Sakura não queria abrir os olhos e ver os dela, talvez acusadores ou tristes, mas tomando coragem ela fez.
Era como ver a si mesma, seus olhos tão verdes como cristais, os cabelos rosa muito curtos, era uma mera ilusão ela sabia. Durante muito tempo, Sakura a culpou por sua fraqueza, e a enterrou junto às lembranças do passado, cujo apagou com uma borracha, ignorando aquela parte de sua vida como se não existisse.
Mas depois de tantos anos enterrada, ela precisava sair, e Sakura deixou, as lembranças voltaram, batendo nela uma após a outra flutuando em sua memória, a menina se foi e uma sensação a atingiu, como uma paz de espírito.
Livre
Ela nunca se sentiu tão bem consigo mesma, era como se tivesse tido um acerto com o passado e foi libertador. Não doeu mais, apenas um sentimento nostálgico a pegou ao relembrar tudo.
"Eu me sinto melhor, talvez eu deva comprar os mantimentos pro jantar." Ela pegou a bolsinha em formato de lesma que ganhou de Naruto e sorriu lembrando que a dele era um sapo, representando ambas convocações.
Sakura caminhou calmamente pelas ruas de Konoha, o céu foi pintado em um laranja forte indicando o fim de tarde que admirou em silêncio. Antes de chegar ao mercado seu olhar foi atraído a uma loja de armas, ela entrou balançando os sinos pendurados na porta ao abri-la.
— Sakura! A voz feminina chamou atrás do balcão.
Sakura deu um leve sorriso, vendo a morena se aproximar com entusiasmo.
— Tenten, como vai? Ela disse educadamente.
— Muito bem, você sabe, apenas lidando com o pouco movimento. Ela sorriu.
— E como vai o noivado? Sakura perguntou passando os olhos pelas ferramentas ninja.
— Ótimo, mas agitado por alguns membros do Clã de Neji não aceitarem "mesclar" sua linhagem. Ela revirou os olhos.
— Entendo, o que ele fez? Neji não é o tipo de homem que se deixar mandar. O rosto da carranca do prodígio Hyuga veio em sua mente e Sakura sorriu de leve.
— Não mesmo, Neji declarou que qualquer um que se opor a ele faça isso no tatame! Tenten disse com uma risadinha.
— Posso imaginar que ninguém se atreveu. Sakura afirmou, seus olhos fixos na katana a sua frente.
— Exato, e agora eles me olham como se fossem me fuzilar com seu doujutsu. Tenten colocou a mão no rosto em frustração.
— Eu gosto disso. Sakura segurou a katana, o material do punho era revestido em couro, um marrom escuro com símbolos tradicionais de sua cultura, tinha aparência antiga mas uma beleza clássica.
— É antiquada, mas tão afiada quanto uma espada de dois gumes. Tenten passou a ponta do dedo sobre a lâmina muito suavemente.
— Vou levar. Sakura pagou e esperou Tenten embrulhar sua nova katana.
— Pronto. A morena entregou sorrindo.
— Arigatou. As duas falaram em uníssono.
Sakura acenou e se dirigiu para o mercado, comprando o necessário para encher os armários. De volta a casa, a rosada repousou os alimentos sobre a mesa e levou a katana ao quarto, indo direto ao chuveiro tomar um banho relaxante.
A noite começara a cair e ela se ocupou em preparar o jantar, vez ou outra a tristeza a pegava mas ela a empurrava em seu interior. Quando estava quase pronto a porta bateu e ela sabia que era Naruto pela energia que exalava dele.
— Pode entrar. Ela falou de longe.
Naruto entrou animado, contando tudo que aprendeu hoje, elogiando a nova aparência de sua casa e também o cheiro do jantar, tudo de uma só vez.
Ele se esgueirou por trás dela roubando um pedaço de carne e engasgando com o olhar que recebeu dela.
— Eu não resisti, o cheiro é tentador. Ele esfregou a cabeça com uma mão, a outra ainda escondida atrás das costas.
— Hn. Ela grunhiu.
— Não seja má. Ele deu um olhar infantil a ela.
— Não venha com esse olhar, pronto agora coma. Ela arrumou o prato dele colocando legumes que sabia que evitaria.
Ele não protestou, comendo tudo a uma velocidade incrível.
— Hmmm, isso está ótimo Sakura. Ele entrou em sua comida esquecendo tudo ao redor.
Sakura também comeu, sentindo suas energias voltarem depois de alguns dias sem nada no estômago. Naruto percebendo a cor voltar até ela e o cansaço sobre os olhos se esvair indagou com dureza.
— A quantos dias você não come? Não parecia uma pergunta e sim uma acusação.
— Eu não sei. Ela sussurrou, vagamente lembrando de seu último jantar no esconderijo, a 4 dias atrás, talvez 5.
— Você deve se cuidar melhor, ou falarei com vovó Tsunade sobre isso. Ele ameaçou com o rosto sério.
Sakura apertou os pauzinhos em suas mãos, enrijecendo com a simples menção de seu nome. Ela ainda queria questionar a Godaime mas estava se segurando sobre isso, temendo perder o controle de suas emoções.
— Veja se eu me importo. Sakura deu de ombros.
Naruto virou a cabeça como se a analisasse, seus olhos se estreitaram e ele fez uma anotação mental de suas atitudes.
— Que tal treinar amanhã? Ele perguntou com entusiasmo.
— Parece bom. Sakura olhou pra ele, suas esmeraldas desafiadoras.
O jantar seguiu tranquilo, os dois trocando provocações de vez em quando sobre suas habilidades e força, apostando quem finalizaria a luta com um só golpe. Assim que terminaram ambos jogaram-se no amplo sofá, Naruto deitado em seu colo todo esparramado, rindo e relembrando muitas de suas travessuras.
— Você se lembra daquela vez que dois impostores se vestiram como Lee e Guy? Você os seguiu por toda parte fazendo coisas estúpidas acreditando ser treinamento. Sakura gargalhou com a lembrança.
— Eles eram iguais, como eu poderia saber?! Naruto fez beicinho e cruzou os braços.
— Iguais? Você só pode estar brincando. Ela bagunçou o cabelo dele com a mão.
Ele sorriu coçando o queixo.
— E quando os irmãos Fujin e Raijin escaparam da prisão? Não importa quantos clones eu fizesse eles continuavam na minha cola. Naruto fez uma careta lembrando do ocorrido.
— Nem mesmo com a ajuda do Ino-Shika-Cho vocês conseguiram detê-los. Sakura podia ouvir os gritos histéricos de Ino que recebeu uma bochecha inchada.
— É verdade, aqueles balofos eram fortes. Naruto disse com desgosto.
— E aquela vez que tentamos espiar Kakashi sensei sem máscara. Sakura riu nostálgica.
— Nos teríamos conseguidos se Ino, Shikamaru e Chouji não tivessem caído encima de nós no Ichiraku! Naruto se levantou agitado movimentando as mãos.
— Sim foi uma jogada de mestre levá-lo para almoçar. Ela não podia negar, suas mãos coçavam para remover aquela máscara até hoje.
— Até mesmo Sasuke teme se empolgou e... Naruto parou suas palavras, desviando o olhar.
Um silêncio pesado se instalou, Naruto tinha um olhar perdido, uma tristeza evidente em seu rosto, Sakura sentiu o coração apertar vendo-o assim. Sasuke ainda tinha um efeito nele, mesmo depois de todos esses anos.
— Vamos trazê-lo pra casa. Sakura disse, dando um aperto confortador no ombro dele.
Ele concordou com a cabeça, quando ele a encarou, havia algo em seu olhos, algo que ele hesitava em falar.
— Há algo que você queira me contar? Ela buscou a resposta nas esferas azuis dele.
O olhar de Sakura foi tão intenso que o deixou nervoso, Naruto se afastou em um pulo, limpando a garganta um tanto nervoso.
— Nã.não Sakura, de onde você tirou isso? Olha a hora, eu devia me encontrar com os meninos no bar, eu vou indo, te vejo amanhã. Ele praticamente saiu correndo.
"Que estranho..." Ela pensou enquanto subia as escadas para o quarto.
Na cama a rosada rolou de bruços, enquanto olhava pela janela, o coração dela disparou no mesmo instante, no céu as estrelas cintilavam, ofuscando a lua com sua beleza, os brilhos reluziam por toda parte.
Fechando os olhos, muito quieta, ela viu um par de olhos escuros, profundos, que sorriam mesmo quando seus lábios não o faziam. Ela lembrou os toques, a sensação do calor, a felicidade momentânea. Sentia-o tão próximo, que era como se estivesse ali consigo.
A rosada chorou, muito, soluçando, o desespero a consumindo. A saudade que sentia de Itachi era o pior martírio, e com essa ela ainda teria que conviver muito tempo.
Não importa o quão acolhida estivesse ali, ainda assim, se sentia incompleta, um sentimento como se algo faltasse. Logo ela entendeu, solidão, não por ela estar só, e sim por esse vazio que a destruía por dentro.
Ela tentou dormir mais uma vez com aquele vazio. E a dor, que ocupava cada vez mais espaço em seu coração.
