Capítulo 27: Abismo
Seus olhos se abriram lentamente e as mãos tatearam cegamente em busca dele, ela se levantou olhando fixamente a sua volta, o quarto banhado em sombras, com janelas e portas de madeira fechadas. Mas nada se comparava com a escuridão dentro de si.
Os sintomas anteriores... poderia ela ter contraído a doença de Itachi? Ou seria um efeito colateral do kinjutsu? A rosada respirou com dificuldade, sentindo o chiar do peito em cada respiração.
Itachi
Tudo voltava pra ela agora, o olhar em seu rosto quando confessou que o amava, o esforço em tentar toca-la, as batidas frenéticas de seu coração perdendo o ritmo. As imagens de sua tentativa de salvá-lo entravam nela como punhaladas, fazendo tudo se tornar infinitamente pior.
Sakura se sentia sem escolhas, presa, sofrendo, agonizando. Às vezes ela ainda tentava se arrastar, mas outras, ela simplesmente morria. Morria dentro de si mesma, uma morte lenta, um lamento visceral, uma agonia pior do que tudo que já viveu.
Ela caminhou em silêncio, acompanhada por uma tristeza esmagadora, sentindo o frio da madrugada arrepiar sua pele. No fundo via o céu em um manto negro, que aos poucos se tornava azul, ela vagou sem rumo pela floresta de Konoha, seus pés descalços colidindo com a terra, e os fios rebeldes de seu cabelo em volta de rosto.
A rosada parou ao se encontrar na beira de um precipício, ali na ponta daquele despenhadeiro ela viu rachar a barreira invisível da última grama de força que sentia.
Ela fechou os olhos, deixando de lutar, e por um momento, só por um momento, desistiu. Queria tanto relaxar... tanto morrer... Porque de uma coisa tinha certeza, sempre aquela dor estaria consigo, pro resto da vida, e não aguentaria mais suportar.
Sakura engoliu um soluço e soube que logo acabaria, um passo, e ela mergulhou no abismo, em um poço sem fim de destruição. Ela sentiu o corpo caindo, o vento forte rangendo em seus ouvidos enquanto se entregava. Tudo se embaralhava em sua mente, imagens vinham e iam, mas agora iria se livrar de toda dor.
O sentimento de incapacidade, de falha, de não conseguir impedir tudo aquilo, uma vontade de fazer o tempo voltar atrás e proteger Itachi, impedi-lo de passar por tudo aquilo. Ela não queria mais continuar sua jornada, sentia-se um nada, pouco menos do que um inseto.
Um sentimento horrível se espalhou do ventre até seus ossos, não pôde impedir as lágrimas que inundavam e desciam por seu rosto, sabendo que estava a um toque do fim. Mas então... Algo a tocava, ruídos, um eco sem fim.
Ela abriu os olhos com o coração batendo forte no peito, em meio às sombras da noite centenas de corvos a rodeavam, o crocitar agudo ecoava enquanto a arranhavam numa tentativa de impedir sua queda.
"Itachi." Sakura sentiu o coração bombear tão forte que zumbia nos ouvidos, estava a ponto de desmaiar.
Olhando pra cima ela viu um único olho vermelho sangue em um dos corvos, em seguida, a escuridão a envolveu.
Já era tarde da noite quando Kasemaru finalmente teve alta, ela passou por mais uma série de perguntas feitas pela Godaime, em seguida foi apresentada a uma mulher chamada Anko, que também continha o selo amaldiçoado.
Ela suspirou caminhando pelos corredores do hospital, vestindo uma blusa branca e calça preta, junto a sandálias ninja que lhe concederam, seu cabelo permaneceu solto, com sua franjinha na testa e os fios longos até a cintura.
Kasemaru arfou quando viu um cão enorme, do tamanho de um urso, sua pelugem branca como a neve. Ela acelerou o passou e afagou sua cabeça, um leve sorriso se espalhando em seus lábios.
— Ei garoto, você está perdido? Ela se agachou acariando-o.
Ele latiu em resposta, abanando o rabo e lambendo seu rosto.
— Você é tão grande. Kasemaru sorriu, entretida com o animal.
— Ele não está perdido, eu sou o dono. Uma voz conhecida retumbou acima dela.
O tempo fechou, Kasemaru levantou devagar, olhos ardentes no moreno a sua frente, ela conteve a ânsia de rosnar.
— O que faz aqui? Ela indagou raivosa.
— Sou encarregado de sua estadia na aldeia, em outras palavras, sua babá. Kiba disse sem humor, enrugando o nariz.
— Eu não preciso de um, sugiro que saia daqui. Ela disse em um leve tom de ameaça, que não passou despercebido por ele.
— Escuta aqui, eu menos ainda gostaria de ser o escolhido pra essa missão, então não fique achando que é a única chateada com isso, o desgosto é mútuo. Kiba disse ríspido, a pegando pelo braço.
— Me solta! Kasemaru puxou o braço em um arranque.
— Vamos sair daqui, agora. Ele disse em voz baixa.
— Eu não vou com você. Ela gritou, decidida a fazer uma cena sobre isso.
As poucas pessoas que ali passavam olharam de relance, desaprovando a situação.
— Fale baixo, você está em um hospital. Kiba disse, vendo a atenção ser atraída a eles.
Kasemaru olhou em volta envergonhada.
— Já disse que não vou com você. Ela falou entre dentes.
— Você vai sim. Kiba se aproximou.
— Me faça. Ela provocou, seus rostos muito perto, ela teve que inclinar a cabeça por ele ser mais alto.
Os dois se pegaram pela gola da camisa ao mesmo tempo, os narizes quase se tocando, a raiva evaporava ao redor deles. Kasemaru manteve o aperto, olhando dentro de seus olhos em desafio, Kiba tinha um brilho feroz em suas pupilas verticais.
— Vejo que estão se dando bem. A voz de Tsunade os tirou de seu confronto.
Ambos se soltaram, virando pro lado oposto.
— Tsc. Kiba resmungou.
— Sabe, ultimamente tenho estado em meio há tantos problemas que se eu ver mais um não sei o que sou capaz de fazer. A loira disse brincando com uma esfera de metal na mão.
Kiba e Kasemaru olharam atentos.
— Tem sido bastante exaustivo, então, tem algo que queiram me falar? Ela perguntou com um sorriso, dando um aperto na esfera, fazendo-a virar pó diante seus olhos.
Kasemaru arregalou os olhos assustada, quando ela exigiu a presença de um líder não imaginou ser uma mulher extremamente forte e com pavio curto.
— Não Godaime, tudo está sob controle. Kiba respondeu ágil.
— Ótimo, quero um relatório todo final do dia. Tsunade se despediu, atendendo um casal de idosos.
Kiba soltou o ar em alívio, voltando sua carranca para a garota ao seu lado.
— Ela é muito temperamental, não a teste. Ele avisou.
— Hm. Kasemaru cruzou os braços.
— Vamos. Ele colocou as mãos no bolso caminhando ao lado de seu cachorro. — A propósito, ele se chama Akamaru.
— Akamaru. Ela disse devagar, ganhando um latido alto dele.
Sem escolhas ela o seguiu até sua casa, passando entre as ruas da aldeia iluminada na noite, as pessoas bebiam, conversavam, sorriam, nem se davam conta de que tinha um estranho entre eles, uma criança passou por ela e sorriu, por um instante ela se sentiu acolhida. Sem olhares odiosos ou de medo.
Ela caminhou em silêncio ao lado dele, passando por baixo de um grande arco de madeira, entrando em um local com símbolo de presas em uma pedra no centro. Era tudo muito bonito, as casas com uma beleza clássica, rústica, um espaço amplo.
Havia cães por toda parte, homens e mulheres com uma semelhança notável, com as mesmas marcas que Kiba exibia em suas bochechas, contudo ela poderia diferenciar as dele, que eram mais marcadas, com um tom vibrante... Ela mordeu a bochecha ao se dar conta dos pensamentos.
Ele parou em frente uma casa grande, tirando os sapatos antes de entrar, ela seguiu o exemplo e se esgueirou atrás dele. Kasemaru se encantou com o lugar, tudo com muita madeira, ambientes arejados, estofados confortáveis, chão de tábuas corridas que brilhavam, bem encerados.
Ela ficou paralisada na porta admirando a casa quando percebeu que Kiba entrara e conversava com uma mulher muito parecida com ele. Tinha marcações vermelhas sobre os olhos, acompanhando as marcas na bochecha e um tom escuro de batom roxo.
Ela tinha olhos selvagens e aparentava ser uma mulher forte, rigorosa por natureza, seus lábios se ergueram em um sorriso deixando os dentes afiados amostra. Kasemaru sentiu-se nervosa com o olhar e abaixou a cabeça rapidamente demonstrando respeito.
— Boa noite Senhora. Kasemaru disse em cumprimento.
— Seja bem vinda ao clã Inuzuka, eu sou Tsume, mãe de Kiba e esse é Kuromaru. Ela disse apontando pro cão ao seu lado, que tinha o pêlo escuro com a parte inferior branca, não possuía a orelha esquerda e usava um tapa olho.
— Arigatou, me chamo Kasemaru. Ela colocou uma mecha atrás da orelha, porque se sentia tão nervosa? Seu coração parecia tremer por dentro.
— Nunca pensei que chegaria o dia em que Kiba traria uma garota pra casa, mesmo sendo por conta de uma missão. Tsume disse com diversão.
— Mãe. Kiba chamou sua atenção ficando levemente corado.
Kasemaru teve vontade de rir, gostando da provocação imposta por Tsume. Ela viu Kiba sentar-se de joelhos ao redor de uma mesinha e fez o mesmo, acompanhando seus movimentos. Logo em seguida Tsume os serviu com uma variedade de alimentos.
A boca dela salivou diante o aroma, mas o nervosismo se intensificou em seu interior, ela passou os olhos pelos pauzinhos que lhe foram entregues e sentiu a mão suar. Não fazia ideia de como usar.
Kiba utilizava com facilidade, comendo e se envolvendo em uma conversa com Tsume, seus olhos tentaram memorizar os movimentos mas ela temeu fazer uma tentativa.
— Parece que sua irmã vai chegar mais tarde hoje. Tsume falou, dando um olhar no relógio.
— Ela trabalha demais. Kiba deu um suspiro.
— Você deveria fazer o mesmo. Ela repreendeu.
Kiba bufou em irritação, comendo com satisfação o peixe grelhado. Tsume viu a garota ainda sem tocar na comida e arqueou a sobrancelha.
— Você não vai comer? Ela perguntou.
Kasemaru engoliu em seco, como ela ia contar que passou anos presa em uma cela e não sabia se portar como uma pessoa normal?
— Agradeço, mas não sinto fome no momento. Ela deu a desculpa torcendo pra que acreditassem.
O estômago dela resolveu protestar bem naquela hora, se havia algo que queria fazer era se esconder em um buraco naquele momento.
— Não precisa ser tímida, sinta-se em casa. Tsume riu vendo o quão vermelha a garota estava.
— Desculpe, eu só quero descansar. Ela disse nervosa, se levantando.
— Kiba, mostre ela os aposentos. Tsume mandou, terminando sua refeição.
Ele levantou intrigado, imaginando o que a fez negar a comida mesmo estando com fome, ao passar na frente dela pôde sentir o cheiro de medo. Kiba anotou mentalmente descobrir o motivo disso.
Ele deslizou a porta do shoji e ela entrou, vendo o cômodo confortável e simples. Kiba continuou parado na entrada analisando a desconhecida. Kasemaru se virou e viu o olhar frio de Kiba sobre si, antes que pudesse pronunciar uma palavra ele se foi, fechando a porta.
Ela deitou no futon, olhando a lua pela janela como se estivesse hipnotizada, sentindo algo balançar por dentro. As horas se passaram e a garota de cabelos roxos permanecia acordada em sua insônia observando o início da matina.
Sem aguentar mais ficar parada ela levantou-se, deslizou a porta e saiu entre o corredor, dando de cara com Kiba. Ela pulou assustada, ele fez sinal de silêncio com o dedo sobre a boca, uma fina camada de luz sobre o rosto dele encoberto pelas sombras da noite.
Ela o seguiu muda, o céu escuro ficando levemente azulado, em uma bela mistura de cores. Ao chegar na floresta ela viu árvores levemente danificadas, Kiba parou e se esticou sem tirar o olhar dela.
— Eu costumo treinar aqui. A voz dele soou firme.
— Tão cedo? Ela perguntou curiosa.
— Essa é a melhor hora, antes do sol nascer, ajuda a afiar meus sentidos. Kiba explicou, dando um assobio.
Minutos depois Akamaru surgiu, parando ao lado de seu dono e obedientemente cumprindo os comandos, iniciando o treinamento.
Kasemaru os observou, não podia negar que faziam uma ótima dupla, os ataques combinados eram impecáveis, assim como as estratégias. Ela os viu por um longo tempo, notando o quanto Kiba era apegado ao companheiro canino e acima de tudo o quão eram leais um ao outro.
Kiba fez uma pausa, sentando ao chão em descanso, Akamaru correu energético pela floresta. Ela sorriu sentindo a língua coçar em provocação.
— Você está acabado, para Akamaru parece ter sido um simples aquecimento. Ela provocou.
— Porque ao invés de encher minha paciência não fala um pouco sobre você? Kiba disse relaxado, os braços cruzados atrás da cabeça.
— O que quer saber? Ela se encostou em uma pedra.
— Seus pontos fortes. Ele falou olhando-a de canto.
— Eu tenho ouvidos sensíveis, posso escutar passos a vários quilômetros de distância. Também possuo um nariz aguçado, parecido com o seu. Ela contou, vendo ele se sentar de imediato.
— Interessante. Ele murmurou pra si mesmo.
— E posso ver perfeitamente no escuro. Kasemaru o encarou.
— Visão noturna? Kiba parecia surpreso.
Ela grunhiu em concordância, ocultando a parte em que se transformava em um monstro horrível.
— E meus olhos têm a capacidade de enxergar nitidamente a longa distância. Ela se virou para dar uma demonstração.
— Como? Kiba se aproximou em curiosidade.
— Veja aquele penhasco. Ela apontou para o monumento distante.
— Eu vejo, mas um pouco indistinto. Kiba disse forçando a visão.
— Pois bem, eu vejo perfeitamente. Ela olhou fixamente, seus olhos ficaram escuros como o céu da meia noite.
Ela captou algo rosa, cambaleando e caindo no precipício, não era algo, era alguém. Kasemaru abriu a boca em choque voltando a cor púrpura de seus olhos.
— Kiba, alguém caiu lá de cima. Ela gritou agitada.
— Hã, você deve ter se confundido, ninguém costuma treinar aqui, os shinobis preferem o campo de treinamento. Ele deu de ombros.
— Não, eu sei o que vi, tinha um rosa chiclete inconfundível. Kasemaru disse rapidamente, lembrando-se da garota que pôs fim à vida de Kabuto.
"Sakura?" Kiba indagou.
Naquele momento Akamaru apareceu latindo em desespero, como se quisesse se comunicar com Kiba.
— Calma garoto, o que foi? Kiba o tranquilizou ouvindo seus latidos desesperados.
Então Kasemaru sentiu, o cheiro, aquele cheiro, sangue. Ela se eriçou, sentindo o selo da maldição se estender sobre seu corpo, os dentes ficaram pontiagudos, as unhas cresceram e os pêlos começaram a aparecer em seu rosto, assim como em seu braço.
"Não." Ela gemeu por dentro, sentindo o desejo insano de matar, seus olhos ficaram completamente pretos, e o selo se estendia para o segundo estágio.
— Kasemaru, precisamos ir. Kiba chamou, vendo-a de costas estranhamente com um chakra sombrio.
Ela sentiu que estava sendo dominada pela fera, suas mãos tremiam com o esforço de se conter, ela prendeu a respiração por um tempo lembrando-se dos ensinamentos de Anko.
"NÃO, eu tenho que me controlar." Ela lutou contra, sentindo uma dor terrível se apossar de si.
Ela caiu no chão com um grito agonizante, mesmo tentando se controlar era forte e visceral, completamente enlouquecedor. A criatura lutava dentro de si, tentando tomar o controle.
O suor pingava em seu queixo, suas unhas arranharam o solo profundamente enquanto rosnava, ela sentiu os ossos se contorcendo em uma dor que a perfurava.
Kasemaru trincou os dentes com tanta força que sentiu o gosto de ferrugem na boca, ela ascendeu o chakra em uma onda violenta, balançando as árvores ao redor. Seu coração batia forte no peito, sua energia fervendo, ela estava tremendo enquanto lutava para manter algum controle.
Sua respiração parou nos pulmões quando conseguiu a força para superar o animal furioso dentro dela. A sede de sangue que enchia seu corpo começou a se dissipar, substituída pelo calor líquido que iniciou em seu abdômen e fluiu suavemente pelo resto de seu corpo.
Ela se recompôs, ficando de pé um pouco ofegante, o selo recuou até o pescoço, pulsando com uma dor intensa. Ela enxugou o suor da testa, virando-se de frente a Kiba.
— Ei, o que há com você? Kiba perguntou desconfiado.
— Mais importante que isso, precisamos ir. Ela disse vendo o olhar questionar dele.
Ele semicerrou os olhos, intrigado com a exibição repentina. Kiba tentou, mesmo que brevemente, analisar aquilo, ela escondia algo obscuro e isso ficou claro em seus olhos assustados, nada do que fizesse seria o bastante para disfarçar.
— Vamos. Ele se apressou, decolando floresta a dentro, junto à ela e Akamaru. Com os pensamentos correndo a todo instante.
Sakura flutuou em sua consciência, sentindo algo molhado sobre o rosto, seus olhos abriram uma pequena fenda e sua visão nublada captou um... focinho gelado? Ela piscou confusa quando viu Akamaru encima de si.
Tonta ela olhou pra cima e notou que havia duas pessoas a sua volta, ela identificou Kiba com o rosto estranhamente pálido, e ao lado uma mulher de longos cabelos roxos iluminados pelo sol que acabara de surgir.
Sakura gemeu, sentindo o melado escorrer no canto em sua cabeça, seu corpo doía, mas não tanto quanto imaginava pelo impacto da queda, então o coração dela martelou forte, o crocitar, os corvos, sharingan... Itachi.
Ela tentou levantar mas chiou de dor, percebendo que não conseguia se mover, sentia-se fraca e esgotada de chakra como em seus dias de genin.
— Sakura o que aconteceu? Você está bem? Kiba perguntou preocupado.
Ela gemeu em resposta sentindo o corte em sua cabeça palpitar.
Ele se agachou ao seu lado e a tomou nos braços delicadamente.
— Calma, eu vou te levar pro hospital. Kiba tentou tranquiliza-la.
Ela queria protestar mas estava tão cansada de tudo que se deixou levar, tendo um vislumbre das folhas das árvores levemente sacudidas pelo vento, os pássaros em um belo canto ao nascer do sol, ela suspirou, se agarrando ao grão de esperança que apareceu.
Dentro do hospital o burburinho foi grande, a aprendiz da Godaime ferida agitou as enfermeiras de plantão. Kiba foi muito discreto, apesar de ter suas suspeitas se recusou a dar informação a qualquer um senão Tsunade.
A Loira chegou às pressas, deixando tudo para trás ao receber a notícia que sua pupila estava no hospital, mesmo depois de tudo, ainda sentia um afeto muito grande pela garota, a ponto de sentir um medo absurdo de perdê-la.
Ela ouviu atentamente o relato de Kiba, seu coração se agitou no peito e os olhos se arregalam com a realização. Suicídio. Tsunade a curou, vendo seus olhos abertos mas perdidos.
Ambas não trocaram palavras, mas Sakura viu em seu olhar o pedido mudo de perdão, a preocupação estampada nas esferas castanhas, a maneira carinhosa que a tocava. A rosada queria, muito, acreditar em sua inocência, mas era difícil. Seus olhos se fixaram em sua mentora, vendo o distante indício de lágrimas.
— Não diga nada a Naruto, por favor. Sakura pediu com voz rouca, a garganta um tanto seca.
— Você tem minha palavra. Tsunade suspirou, verificando os caminhos do chakra.
Ao terminar a loira se retirou do quarto, dando ordens de repouso a aluna que sofria os efeitos colaterais de um tipo raro de doença. Tsunade fechou a porta e se recostou nela, Sakura, sua preciosa aprendiz, considerada sua filha... parecendo tão sozinha e perdida, que seu coração se apertou.
Sua vontade era ir até lá, conforta-lá e protegê-la, moldar mais uma vez sua força para que nada pudesse a abater. Mas havia um mar de espinhos entre elas, Tsunade não sabia como lidar com isso sem invadir o espaço imposto por Sakura.
Ela apertou os punhos relembrando os olhos verdes sem brilho, que a enchia de preocupação. Só havia uma pessoa capaz de desvendar a causa de tudo isso, assim como achar um meio de chegar até a rosada. Tsunade caminhou a passos firmes, determinada, encontrando um anbu no caminho.
— Me traga Shikamaru Nara. Ela exigiu duramente, subindo as escadas até seu escritório.
No dia seguinte às coisas estavam fervendo, Sakura foi exonerada de qualquer missão, ficando sobre observação de um anbu, que não saia de sua cola. Ela ouviu Ino, Kiba, Kakashi e até mesmo Neji em sua porta, mas ignorou a todas as chamadas. A rosada deu graças por Naruto não estar na aldeia, como ela iria explicar suas ações? A que ponto tinha chegado?
Sakura ficou na cama o tempo todo, sentindo um estranho cansaço, uma vontade de ficar sozinha e não ter que ver ou falar com ninguém. Lá fora o dia seguia, mas ali dentro do quarto trancado e na penumbra, era como se a noite se estendesse, silenciosa, opressiva, solitária.
Não se sabe que horas eram, nem ao menos se levantou para comer, cheia de pensamentos e lembranças, que se tornavam cada vez mais fortes dentro de si.
Odiava ficar deprimida, prostrada, mas parecia que aquilo se tornava cada vez mais uma rotina de sua vida. Ela sabia que querendo ou não teria que retomar a vida, sorrir, fingir...
Para seus amigos, ela era sempre a bem humorada, corajosa, com um temperamento explosivo, mas apegada aos companheiros. Mas agora, só ela sabia o que sentia, o quanto se escondia, e mesmo sabendo não conseguia parar, afastá-los era seu escudo, uma forma de se proteger.
Sakura fechou os olhos, como se pudesse apagar toda angústia que a consumia. Um dia ela poderia ter paz? Passar um dia inteiro sem nenhuma lembrança?
Ela começou a chorar, levantou-se para lavar o rosto, com raiva por estar tão sensível e abalada nos últimos dias, por não conseguir se manter ao menos em seu limite. Ela se entregou... parou de lutar, desistiu de sua vida.
— Ahhhhhh. Sakura gritou no banheiro vazio, com mágoa, tristeza, raiva, engolindo o choro.
Ela se jogou na cama, as lembranças a derrubando, o cheiro, os toques, o amor que a rasgava e sangrava por dentro. Só de imaginar sua vida longe dele, a dor vinha abissal, terrível. O sofrimento estava lá, latente, impedindo-a até de respirar, mostrando que faltava algo, como se houvesse um buraco.
Sakura continuou imóvel, lágrimas descendo por seu resto, mesmo sem querer. A presença de Itachi marcada a ferro, em sua pele e em sua alma, para sempre.
