Capítulo 30: Escolha
Sakura assistiu enquanto o gigantesco sapo laranja de cem metros de altura aterrissava perto de si, sacudindo o chão tão violentamente que ela pôde sentir o trepidar em seus ossos.
— Shishou... Ela deixou escapar ao ver o estado abatido da loira.
Gamakichi a depositou no chão devagar.
A rosada se aproximou com o coração apertado, era como levar um soco no estômago.
— Sakura. Tsunade disse com a respiração ofegante. — Está tudo bem agora. Ela murmurou, sucumbindo ao cansaço.
Por um momento, a rosada ficou parada, olhando a transformação ocorrer no corpo de sua mentora. Ao vê-la ali assim, com a pele flácida e o coração batendo fraco, fez com que lutasse consigo mesmo, não aguentando ver sua shishou desmoronar.
Uma dúvida cruel a atacou, junto com vários sentimentos; culpa, saudade, mágoa, raiva. Mas não decidia o que fazer.
Fechando os olhos, ela se lembrou de quantas vezes reprimiu a vontade desesperadora de contar a Tsunade como estava prestes a explodir, como a dor a rasgava por dentro, uma dor que em momento algum sarou ou sumiu, mas só cresceu como um avalanche.
Os sentimentos borbulhavam dentro de si, impedindo de ver e ouvir a sua volta. Era como se um véu fosse lançado diante seus olhos.
"Há momentos em que um Shinobi deve tomar decisões dolorosas." A voz de Itachi soprou em seus ouvidos em uma breve recordação.
O pior de tudo era não reconhecer a si mesma, quem era Sakura Haruno? A infame garota apaixonada por Sasuke? A pobre órfã com o sonho tolo de ser uma kunoichi? o elo fraco do time sete?
As perguntas giravam e giravam em sua cabeça como uma tortura, seus olhos lacrimejaram quando se viu sem respostas, até que uma voz conhecida se fez presente ante uma lembrança.
"Primeiro de tudo, você é minha discípula. Uma kunoichi que vai herdar o poder dos Sannin lendários, e, Sakura Haruno, você também é a discípula da Godaime Hokage!"
Ela sentiu que a tristeza estava a ponto de a derrubar, mas uma força parecia ganhar terreno em seu interior. Muita coisa a levava ao limite, a uma escolha.
Tinha vindo devagar, como uma onda, mas aquela onda tornara-se um maremoto.
Seus olhos verdes estavam abertos e ardentes, ela lançou o selo em sua testa, que se abriu como uma estrela de quatro pontas. A rosada segurou as mãos de Tsunade com gratidão.
— Obrigado, Shishou. Ela disse suavemente, fazendo um selo de mão e canalizando todo chakra para a lesma de estatura média ao seu lado. — Vamos curá-la. Sakura disse duramente.
— Hai. Katsuyu se aproximou, cobrindo parte do corpo da loira.
Sakura se concentrou, na intenção de estabilizar sua mentora, ela se deu conta de que deixou-se cegar pelo ódio, direcionando toda sua raiva e frustração na loira, quando o verdadeiro culpado continuava a rastejar pelas sombras.
"Você vai pagar por isso, Danzou, eu garanto." Sakura franziu as sobrancelhas com raiva contida.
— Naruto! O desespero era notável na voz da morena.
Todo corpo da rosada ficou completamente em alerta, ela virou-se tendo um vislumbre das costas de Hinata que corria a toda velocidade.
— Espere, Hinata! Sakura pediu em vão.
Seu coração disparou ao pensar em seu amigo loiro em perigo, ela não perdeu tempo, acelerando o processo de cura.
— O que aconteceu? Ela exigiu do homem ao seu lado.
— Hinata-sama acabou de atacar Pain para tentar salvar Naruto! O Hyuuga gritou, seus olhos brancos se arregalaram enquanto observava uma luta que ela não podia ver.
— Kuso. Ela amaldiçoou sabendo que dois dos seus corriam perigo.
O tempo não estava a seu favor, ela continuou a tentar estabilizar Tsunade com agilidade, ela estava quase lá quando o ouviu.
— Não, Hinata-sama. O Hyuuga gritou em lamento.
Foi como sentir uma pancada por dentro, um pequeno tremor a percorreu, o ódio se infiltrava em suas entranhas, girando como um rodamoinho em seu interior. Ela permaneceu com o selo em apenas uma mão, infundido o máximo de chakra que podia na outra, a rosada avançou deixando uma nuvem de poeira para trás.
Pain estava prestes a estocar o último receptor no jinchuuriki, quando um estalo eco zumbiu em seus ouvidos, ele não viu isso chegar.
— MALDITO. Sakura ficou irada, acertando um soco potente na cara do ruivo, que o arremessou a vários quilômetros dentre as árvores.
Ela viu um flash de laranja e olhou para a extrema direita, para encontrar Naruto envolvido em um chakra vermelho ardente. Uma onda de força a arrastou para trás, a força intensa do chakra sacudiu toda a aldeia.
Sakura protegeu o rosto lutando para permanecer de pé, Naruto estava fora de si, destruindo tudo ao redor.
Um suave gemido chamou sua atenção, ela avistou Hinata ferida no canto e se apressou em ir até lá e curá-la rapidamente.
— Naruto... Ela balbuciou.
"Você o ama, não é?" Sakura suspirou, o suave brilho em suas mãos.
Hinata abriu os olhos devagar, sentindo o tremor no chão, ela sentou-se assustada.
— Você está bem? Sakura perguntou.
— Hai. Seus olhos perolados se arregalaram o ver a transformação em Kyuubi.
Outra onda de vento se alastrou, lançando-as para trás.
— Aí vem ele. Hinata disse atenta.
— Que venha! Sakura disse gravemente pondo-se de pé, suas esferas de jade reluziam sua raiva.
Ela estava pronta para entrar em combate quando sentiu, dentro de si a chama que queimava bruscamente, o chakra obscuro em um pico gigantesco fazendo sua pele se arrepiar, parecia intensamente maligno, um chakra que ela muito conhecia mas pouco se lembrava. Sasuke Uchiha.
"Ele está aqui, porque?" O forte chakra maligno se movia em alta velocidade próximo a eles. "Não agora, não posso me distrair." Ela engoliu em seco sem saber o que fazer.
— Naruto. Ela disse em um fio de voz, sentindo a queimação dentro de si que chegava a doer, como uma marca da maldição.
Ele mantinha o olhar fixo entre as árvores no horizonte na espera do inimigo, a sexta cauda surgindo nele.
Sakura fechou os olhos lembrando-se da promessa entre eles, sem pronunciar uma única palavra, ela tomou uma decisão, dividir seu fardo, era o mínimo que podia fazer.
Hinata, fique com a Godaime. Sakura disse a pegando pelo braço e se afastando da destruição eminente causada pelos dois shinobis extremamente fortes.
Hai. Ela disse timidamente.
Sakura correu em direção a Sasuke, sentindo o chakra dele se afastando cada vez mais. O coração dela galopou no peito ao pensar em Itachi, ela iria pará-lo, não importa o quê.
Ela seguiu o trajeto, saindo de Konoha e prosseguindo dentre a floresta, levou cerca de trinta minutos para avistar os resquícios da batalha, árvores em chamas e o chão em crateras, incinerado. Sakura pousou no chão, tendo a visão do homem correndo em sua direção um tanto ferido. Danzou Shimura.
Atrás dele, Sasuke continuou andando devagar, ao seu redor uma aura de morte.
— Me cure, agora! Danzou exigiu, cuspindo sangue.
Sakura tremeu, da cabeça aos pés, o coração dela batia tão forte que podia ouvi-lo. Ela deu um passo, e depois outro, e mais outro, logo se viu correndo em direção a Danzou. O assassino de seus pais.
Ela rugiu como um felino, ele só teve tempo de olhar surpreso, ferido. Mas já era tarde, Sakura ergueu o punho com toda força e acertou um soco brutal em seu queixo, deslocando seu maxilar, arremessando-o para trás.
Danzou caiu no chão desconcertado, ela sentou por cima dele, ajoelhando em seus braços, o ódio a consumindo como lava derretida enquanto ela dava um murro em sua cara, e mais outro, destroçando ossos, espirrando sangue, abrindo a carne.
Sakura nunca tinha sentido uma fúria assassina como aquela. Não era descontrolada como das outras vezes. Era gelada, dilacerante, silenciosa. Parecia a comer por dentro como uma coisa viva.
Ela o agarrou pela garganta, fúria extravasando de dentro de si, mas ainda muito gelada, muito dona de suas ações.
— Não vai desmaiar agora, não é? Sua voz era gélida.
— Tra...idor. Ele se engasgou em seu sangue.
— Você matou os meus pais, confesse. Sakura se inclinou sobre ele, apertando os olhos.
Ele tonteou, sentindo a inconsciência, sem dar nenhuma resposta.
— Responda porra! Ela deu um soco na altura dos rins, que o fez berrar.
— Sim, eu fiz, e faria tudo de novo. Ele confessou, a maldade brilhou em seus olhos quando um sorriso enfeitou sua face.
Ela sentiu o ódio fervilhando em seu interior, ainda um pouco mortificado. A rosada lutou para não explodir, a fúria circulava em seu sangue, golpeava sua alma, a deixando ansiosa por mais.
— Eu vou acabar com sua vida medíocre. Ela sussurrou próxima ao seu ouvido.
Ele ainda estava consciente, grogue, deformado, mas ainda a olhando. E era assim que ela queria. Sakura levantou a mão e com um movimento brusco a enfiou em seu peito, agarrando o órgão muscular que bombeava fortemente em sua mão.
Danzou soltou um grito de pura angústia, que ecoou no vazio da floresta. Sakura olhou bem em seus olhos e falou.
— Eu não disse que ia te matar? Vai pro inferno. E sem nenhum complexo de culpa, puxou, arrancando o coração com a própria mão, manchando-a de sangue.
Ele continuou com os olhos em si, agora vazios, sem vida, vidrados. No mesmo instante ela ouviu o som da lâmina afiada de Sasuke passando pela garganta do inimigo, degolando-o.
Ela chorava, sem lágrimas, o vento sacudia seus fios longos ao esmagar o órgão com um aperto destruidor. Seus olhos estavam secos, mas o resto de si, não.
— Sakura. A voz forte de Sasuke a trouxe de volta, ela o olhou séria.
— Sasuke Uchiha. Ela disse sem emoção.
Ele estava mais alto, com o olhar extremamente penetrante, os ombros largos e a mãos firmes e grandes, o rosto anguloso e com traços bravios, combinando com os cabelos escuros espetados. Uma franja cobria todo o olho esquerdo.
— O que faz aqui? Ele balançou sua kusanagi, limpando o sangue.
— O mesmo que você. Ela respondeu sem tirar os olhos dele.
— Não é todo dia que vemos um ninja da folha exterminando um conselheiro... eu vou guardar seu segredo. Sasuke disse com indiferença.
— Eu não pretendo que seja um segredo. Ela o sondou, caminhando devagar até ele.
— E o que você pretende? Sua voz fria a atingiu.
— Levá-lo de volta. Ela foi sincera, moldando silenciosamente o chakra nas mãos.
— Você não vale o meu tempo. Sasuke virou as costas, saltando em uma árvore.
Em um borrão Sakura estava atrás dele, seu punho banhado de chakra em uma mira perfeita, foi impedido por uma força estranha.
— Sasuke, vá. Um grito feminino irrompeu de trás dela.
Ele se foi sem olhar para trás. Sakura virou-se reconhecendo a kunoichi de cabelos vermelhos, ao olhar para o braço ela viu correntes imobilizando-a, seus olhos semicerraram. Por sua postura corporal ela não parecia ser apta para combate, mas não era uma kunoichi qualquer.
— Eu não quero machucar você. Sakura avisou.
— Cale-se. Karin gritou, liberando uma quantia de correntes que travaram o braço da rosada.
Kōsui Supurē
Karin pulverizou uma enorme camada de fumaça rosa, mantendo Sakura imóvel para que a envenenasse.
No meio da névoa a rosada prendeu a respiração, dando um arranque violento com o braço preso pelas correntes.
"Shaaaaaa" Ela gritou em seu interior.
Karin foi pega de surpresa ao ser puxada, ela flutuou no ar por um segundo e no outro uma dor aguda penetrou seu abdômen. O punho de Sakura se conectou na kunoichi, cheio de ferocidade.
A mulher de cabelos vermelhos desmaiou, levando consigo as correntes inquebráveis. Sakura cambaleou, sentindo que fora afetada pelo veneno mesmo não o tendo respirado.
Ela avançou sob as árvores, cravando em sua coxa uma agulha senbon envenenada, que cortaria os efeitos do veneno de Karin.
"Não está longe." Ela apertou o passo, sentindo-o logo à frente.
Logo ela se viu contemplando suas costas em sua longa capa, próximo à fronteira, no Vale do Fim.
— Você não para de me perseguir, está testando minha paciência... Sua voz era baixa e ameaçadora.
— Eu não dou a mínima para sua paciência, porque você foge Uchiha? Com
Medo? Ela disse com ironia, sentindo a raiva percorrer suas veias
— Você vai se arrepender de entrar em meu caminho. Ele desembainhou a espada.
Sakura sentiu as borboletas no estômago que antecipavam o calor da batalha, e entendia o que sua intuição a alertava desde que o viu, ele era perigoso.
