Capítulo Dois
James
E o instinto toma o controle... porque, nesses momentos, não pensamos, apenas agimos – James.
— Não importa se é muito pequena! — exclamou James, exasperado. — Você pode transformar uma pedra em um elefante se conseguir ver as semelhanças e as diferenças!
— Isso não faz o menor sentido! — falou Peter, soltando a pena com frustração.
James respirou fundo, torcendo para que Sirius chegasse logo; Peter tinha percebido que Sirius estava atrasado e decidira que era o momento perfeito para pedir que James o ajudasse com o dever de Transfiguração.
— Faz, sim! Se é semelhante, você sabe o que vai continuar igual. Se se for diferente, você sabe o que precisa mudar e pode simplesmente mudar.
— Mas é pequeno!
— Essa é uma diferença. É tipo um feitiço de Ingurgitamento.
— Mas é um feitiço diferente!
— É só colocar no encantamento! — James percebeu que estava gritando e que Peter ainda não entendia. — Que tal uma rocha? Uma rocha tem o mesmo tamanho que um elefante. Você consegue transformar a rocha em um elefante?
— Acho que sim — respondeu Peter. — Porque elas são grandes e cinzentas.
— Exatamente — falou James. — São semelhanças.
Os olhos de Peter brilharam e ele assentiu.
— E a diferença seria que a rocha não tem uma tromba, certo?
— É, é uma das diferenças. A maior delas é que o elefante é um ser vivo — falou James.
Peter voltou a assentir.
— Acho que faz sentido. E como resolve a questão do tamanho?
— Como eu disse, você insere um feitiço de Ingurgitamento no encantamento.
— Como?
— São basicamente dois jeitos — falou James. — O primeiro é o que a maioria das pessoas usa; elas usam um pouco da própria magia para dar energia ao objeto, digamos que uma pedra. Basicamente — falou, abafando um suspiro ao ver que tinha perdido Peter —, é a energia delas que faz a pedra crescer ao mesmo tempo em que a transformam em um elefante. É um bom método se quiser que algo seja feito rapidamente, mas também vai te deixar cansado.
— Então é opcional?
— Às vezes. A autotransfiguração, como quando a gente se transforma, precisa da energia do próprio corpo. — James considerou explicar o motivo, mas balançou a cabeça. Hoje não. — Só é o jeito que o feitiço funciona.
— Mas eu não fico cansado — falou Peter, franzindo o cenho.
— Você ficaria ao voltar ao normal — falou James. — Primeiro, porque você não está usando uma varinha, então não tem um intermediário para canalizar; segundo, porque você precisa voltar a ficar grande.
— Ah!
— E se você fosse criar um rato usando um encantamento parecido ao que usa para se transformar, a energia também viria de você. — Peter assentiu. — O segundo método — falou James — usa a energia do próprio objeto ou, se estiver um lugar como Hogwarts, onde há um resíduo mágico forte, será a energia do ambiente.
— Mas e se for uma pedra? — perguntou Peter, confuso. — As pedras não têm energia.
— Você precisa lançar a magia através do tempo — falou James, temendo que tentar explicar fosse inútil. — É possível pegar energia da coisa que você está tentando criar, porque qualquer coisa viva tem energia. E se você pegar essa energia, você pode entregá-la ao objeto que está tentando mudar.
— Huh? — perguntou Peter, parecendo espantado.
— Basicamente, você precisa pegar a energia de algo que não existirá por alguns segundos e usá-la para criar a coisa da qual pegou a energia.
Peter ficou vesgo, como acontecia quando ele se esforçava para entender algo. Por fim, ele perguntou:
— E se nenhuma das coisas são vivas? E se for aquele negócio de transformar uma agulha em um fósforo que todo mundo faz no primeiro ano?
— É quase mais fácil simplesmente usar sua própria energia — falou James. — São dois objetos muito parecidos, quase do mesmo tamanho e você tá com uma varinha. Você pode fazer isso o dia todo e não sentir nada. Mas se quiser usar o segundo método, você usa energia do próprio processo. É preciso energia para mudar algo, certo, então você pega essa energia do que está para acontecer para fazer acontecer.
Peter piscou rapidamente e se afundou no colchão com um gemido.
— Eu odeio Transfiguração! — declarou.
James riu.
— James Potter! — A voz trêmula de Sirius ecoou pelo dormitório.
James pegou o espelho no criado-mudo.
— Padfoot? — Sirius estava pálido e tudo ao se redor estava borrado, o que significava que ele corria. — Onde você tá? Wormtail e eu estamos esperando há tempos.
— Prongs, eu fodi com tudo — falou Sirius diretamente. — M-muito.
— O que aconteceu? — quis saber James, preocupado. — Onde você tá?
— Entrando... entrando no Salão Comunal — respondeu Sirius.
— O que tá acontecendo? — perguntou Peter.
— Nem ideia — disse James. Mas estava preocupado; Sirius estava chateado com algo e ele corria, então devia ser urgente.
— Disparates. — Ouviram Sirius dizer. James tirou um dos sapatos de debaixo da cama. — Jamie, eu não quis fazer isso, juro! — Um baque veio do outro lado da porta antes de ela ser aberta violentamente para admitir um Sirius perturbado.
— Não quis fazer o quê? — perguntou James, amarrando o cadarço.
Sirius jogou o espelho na cama e se virou.
— Eu não quis — falou ele, lastimoso. — Moony... Eu contei pro Seboso... o Salgueiro.
— Você fez o quê? — James perguntou num tom mortífero.
— Eu contei pra ele, pro Seboso... o botão, a árvore e aí ele saiu correndo...
— Snape foi ver o Moony? — perguntou James, lívido. No que o Sirius tava pensando?! E Snape?! Ele sabia, sei que sabe! Ele não percebe que é perigoso? E se ele morrer? Remus vai ter sangue em suas mãos, e Sirius também. Eles serão assassinos, por acidente, é claro... Não acredito que Sirius faria algo assim de propósito e Remus não tem muito controle no momento... mas nenhum dos dois vai pensar assim.
— Me desculpe! — gritou Sirius. Ele deve estar em choque, percebeu James. Acho que eu não estaria pensando direito se fosse ele. Peter certamente não vai fazer nada sobre isso e quando alguém conseguir explicar isso tudo pra um professor, o Sebo... Snape já pode estar morto, e não importa o quanto a gente o odeie, não é algo que a gente queira!
James se jogou para fora da cama e saiu correndo do dormitório. Por favor, que não seja tarde demais!
Ele chegou no jardim em tempo recorde – tinha usado todos os atalhos que conhecia e correra o caminho todo. Suas pernas queimavam e seu cabelo suado colava em seu rosto, mas ele não se atreveu a parar. Sentiu sua magia responder ao estresse e a jogou no botão do Salgueiro Lutador. Ele congelou na mesma hora, e James não precisou parar antes de se jogar pelo buraco em meio às raízes.
O túnel estava silencioso e escurecido. James procurou por sua varinha, mas não estava em seu bolso. Deu de ombros. Sem varinha então. Espero não me arrepender. Continuou a descer o túnel o mais silenciosamente possível, uma mão correndo pela parede de terra. Por fim, depois do que pareceu uma eternidade, o túnel começou a subir e lá estava a curva conhecida. Ao fazer a curva, o cheiro de Snape ficou mais forte e, um momento depois, deu um encontrão nas costas do outro garoto.
Snape soltou uma exclamação e se virou, pressionando a ponta da varinha na garganta de James.
— Potter? — rosnou, soando chocado e irritado ao mesmo tempo. James afastou a varinha e levou um dedo aos lábios, os olhos se ajustando o bastante para que conseguisse ver a porta, que conectava o túnel à Casa, entreaberta. Snape revirou os olhos. — Com medo que eu incomode seu amigo?
— Shiu — murmurou James. Conseguia ouvir movimento do outro lado da porta. Segurou o braço de Snape e tentou puxá-lo pelo túnel.
Snape se soltou.
— Não! Não até eu ver.
— Não seja idiota! Vamos!
— Shiu! — falou Snape. Ele se aproximou e empurrou a porta.
— Não! — sibilou James quando a porta se abriu com um ranger alto. Snape deu outro passo para frente, olhando para os móveis surrados e as janelas cobertas por tábuas com curiosidade. — Precisamos sair daqui!
— Ainda não. — Um rosnado baixo soou e então algo se moveu no corredor do outro lado do cômodo. Snape choramingou. Moony os viu e rosnou, as pupilas dilatadas com animação selvagem. Suas orelhas se ergueram e seus lábios se levantaram para mostrar os dentes longos e brancos. Merda. Merda, merda, merda, merda, merda, merda, merda, merda... Moony rosnou mais uma vez e trotou até a sala de estar.
Snape choramingou e tentou recuar, mas James afundou os dedos em seu braço, mantendo-o no lugar.
— Não se mexa — falou sem mover os lábios. — Se você correr, ele vai atrás. Entendeu? — Snape empalideceu e assentiu. James se virou para o lobo, que os observava com interesse, a dois metros deles. — Oi, Moony — falou James num fio de voz. Os olhos do lobo brilharam e seu rabo fez um movimento engraçado, que podia ter sido um balançar. — Como se sente? — O lobo inclinou a cabeça para o lado, os olhos marrons fixos nos meninos. James não gostou do jeito que ele os olhava. — Não, Moony — falou. — Não somos o jantar, somos amigos. Ou pelo menos eu sou. Esse idiota não é um amigo, mas eu vou ficar muito bravo se você o comer. — O lobo deu um passo lento para frente, farejando com curiosidade.
— Nós vamos morrer — choramingou Snape.
— E de quem é a culpa? — ralhou James. — Moony, você tá um pouco perto demais. Vai um pouquinho pra trás, cara. — Moony rosnou. — Ou não — falou. — Só não chegue mais perto. — Moony farejou novamente. — Isso mesmo — disse. — Você me conhece. Você não quer me machucar.
— Ele não é um cachorro, Potter — sibilou Snape. — Ele é um monstro. Não vamos chegar a lugar nenhum com uma conversa.
— Que tal você calar a boca — falou James. — A conversa parece ter funcionado até agora e eu não tô vendo você dar uma ideia melhor.
— Eu vou estuporar essa coisa — falou Snape, decidido.
— Ele — corrigiu. — E não vai funcionar. Não se for só você a conjurar o feitiço.
— Então me ajude — falou Snape.
— Sem varinha — falou James com uma careta, ainda olhando para Moony. O lobo ainda não estava agressivo, o que era surpreendente, mas ele provavelmente nunca tinha visto humanos antes. E a curiosidade sempre tinha feito parte da natureza de Moony. Vamos torcer para ele não ficar entediado e decidir que somos mais interessantes mortos.
— Acho que você ficou tão preocupado com meu bem-estar que a esqueceu, né? — perguntou Snape, desdenhoso.
— Na verdade foi isso mesmo — respondeu.
Snape não parecia saber se estava brincando ou não.
— Eu vou matá-lo então — falou, erguendo a varinha. — Antes ele do que nós.
— Não se atreva! — falou James, forçando-o a abaixar a varinha. Moony rosnou. James respirou fundo. — Quando eu falar, corra pra porta. Feche atrás de você.
— E te deixar aqui? — perguntou Snape. — Sem varinha?
— Ele é meu amigo — falou, ainda observando Moony. Ou pelo menos ele vai ser assim que reconhecer Prongs... — Ele não vai me machucar.
— Se você é tão arrogante a ponto de acreditar nisso, então merece morrer — disse Snape.
— Corra — falou. Snape correu. Moony foi atrás do garoto de cabelo ensebado, mas James se jogou contra o lobo, prendendo-o no chão. Moony caiu com um som parecido com uma tosse, Snape fechou a porta e James se transformou em Prongs no instante em que bateu no chão.
Moony se ergueu num pulo, rosnando, e aí viu Prongs. Ele voltou a erguer as orelhas e sua língua se estendeu quando ele se aproximou para cumprimentá-lo. Ele cheirou James uma vez, incerto do que pensar, e olhou ao redor, como se esperasse que Padfoot e Wormtail saíssem debaixo de um sofá arruinado. Quando eles não apareceram, seu cheiro passou a ser irritado e ele se virou para James, rosnando mais uma vez. James recuou, tomando o cuidado de não permitir que Moony ficasse entre ele e a porta.
Ainda conseguia ouvir o coração de Snape bater e percebeu que ele não tinha corrido pelo túnel, como tinha concordado fazer. Ele acha que é uma brincadeira?, perguntou-se James, desviando de uma mordida de Moony. O lobo não parecia conseguir decidir se estava feliz por Prongs estar lá, triste por Padfoot não estar ou bravo por Snape ter fugido. Prongs recuou até a porta, imaginando como faria para voltar ao túnel; precisaria voltar ao normal para abrir a porta, isso era óbvio, e teria de ser logo, antes que Snape ou outra pessoa pudesse tentar "ajudá-lo".
Moony pulou para frente, brincalhão, e mordeu sua pata dianteira. Prongs sibilou quando os dentes do lobo correram por sua pele. Moony se afastou, parecendo arrependido. Prongs jogou a cabeça – fazendo Moony recuar ainda mais –, tentando parecer magoado de um jeito irritado, não vulnerável. Moony voltou para o corredor, o rabo peludo entre as patas. Essa é minha chance, pensou James. Seu flanco tocou a porta da madeira e ele se transformou, uma mão já segurando a maçaneta. Abriu a porta e se jogou para o outro lado antes que Moony pudesse entender o que tinha acontecido. Caiu no túnel quando a porta bateu e ergueu os olhos para ver a expressão alegre de Snape.
— O quê? — perguntou.
— Você está sangrando — falou Snape. James olhou para sua mão. Estava com um corte longo – muito profundo, mas não fatal –, que ia desde a dobra de seu cotovelo até a pele entre o dedão e o indicador. Deu de ombros. — Achei que você tinha dito que ele não ia te machucar.
— Ele não me machucou — falou James. — Isso aconteceu quando eu caí.
— Não foi, não.
— Foi, sim.
— Não tem nada no chão!
— Tinha uma pedra. Uma pedra grande e afiada — falou, levantando-se.
— Onde?
— No chão.
— Pode falar todas as besteiras que quiser, Potter, mas acho que daqui um mês vai ser bastante óbvio o que aconteceu.
— Se você diz — respondeu. — Agora, e essa é a última vez que vou dizer antes de te forçar fisicamente, vamos.
Snape o seguiu com um último sorriso cruel para a porta.
— Você será expulso por isso, Potter — falou Snape com alegria. — Você, Black e seu outro... amigo. Você planejou isso tudo, não foi, mas saiu pela culatra.
— Planejei? — perguntou James, incrédulo.
— Planejou. Mas perdeu a coragem. Decidiu não ia até o fim.
— Eu salvei a sua vida — falou.
— Você salvou a própria pele — respondeu Snape. Bastardinho ingrato, pensou James de mau humor. — Nada mais. Mas agora eu estou vivo para contar aos professores.
— Contar o que aos professores?
— Sobre seu plano para me matar.
— Eu te salvei! — berrou James. — Qual parte você não viu acontecer?
— Duvido que Black e Lupin fiquem felizes ao descobrirem que você estragou o joguinho deles.
— Acho que eles vão ficar bastante felizes — contou.
— Eles são monstros, os dois.
— Acho que você devia se olhar bem no espelho antes de sair por aí chamando os outros de monstros — respondeu James friamente. — Sirius e Remus não ficam se lamentando pelos cantos, querendo fazer os outros serem expulsos. Eles não saem com Comensais da Morte, nem atacam nascidos muggles, nem...
— Ele é um lobisomem! E Black é um assassino!
— Você também seria — lembrou James. — Você estava pronto para matar o Remus.
— Para salvar nossas vidas!
— Para salvar a sua vida — corrigiu. — Não finja que foi algo além disso. Você saiu por aquela porta no segundo que eu te falei para sair. Se teve alguém aqui querendo salvar a própria pele, foi você.
Snape o olhou com azedume.
— Você acha que é especial, Potter, porque é nobre e corajoso? — Algo fez barulho no escuro na frente deles. — Você acha...
— Cala a boca — falou James.
— Ou o que, Potter?
— Mandei calar a boca! — murmurou James ao ouvir o som mais uma vez. — Tô ouvindo alguma coisa.
— Não estou ouvindo nada — falou Snape, ranzinza. James lhe deu um soco no estômago, não com muita força, mas o bastante para fazê-lo se calar. Snape gemeu. — Você não precisava me bater!
— Então para de falar — rosnou. Os garotos pararam de andar. Algo rosnou, baixo e ameaçadoramente. — Acenda a varinha — mandou James.
— Não, aí vai saber que estamos aqui!
— Eu acho que já sabe — disse James, a voz tensa. — E não tenho como me livrar dessa na base da conversa; Remus está atrás da gente. — Snape soltou um "eep" engraçado, mas acendeu a varinha. Primeira coisa útil que ele fez a noite toda. — Levante — mandou ao ouvir o rosnado. James entrou na frente de Snape quando uma enorme sombra negra entrou no círculo de luz da varinha. Sentiu-se relaxar com o alívio.
— Tem outro — guinchou Snape. E aí ele desmaiou. Sirius voltou ao normal.
James revirou os olhos, mas seus joelhos estavam fracos e Sirius precisou correr para segurá-lo quando eles cederam.
— Seu idiota — falou James, batendo em seu ombro. — Seu completo idiota.
— Eu estou com a sua varinha — falou Sirius, entregando-a. James a aceitou, grato. — Está machucado? Ou ele?
— Moony está bem e o Seboso estava bem até te ver — respondeu James, sem saber a quem Sirius se referiu ao dizer "ele". Aí fez uma careta. — Meu braço.
— Ele não...? — perguntou Sirius, parecendo horrorizado. Ele examinou o corte e o curou com um aceno de varinha.
— Não. Eu era Prongs quando aconteceu — contou, cansado.
Sirius pareceu aliviado e aí enfureceu-se.
— Então o Seboso sabe? Sobre a gente?!
— É claro que não — explodiu James. — Eu consigo ficar de boca fechada. — Sirius abaixou a cabeça, mas não antes de James ver que seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Pads — chamou, apertando seu ombro.
— Não — falou ele, soltando-se. Secou o rosto com a manga. — Eu fui um idiota, Prongs! Eu quase fiz alguém morrer! Eu contei o maior segredo do Moony! E eu quase te fiz morrer também, porque não estava pensando direito e não fui atrás do imbecil!
— Se você tivesse ido atrás dele enquanto não pensava direito, então os dois teriam sido mortos — falou. — Não vou fingir que não estou bravo, porque eu tô puto. O que você fez foi uma estupidez. — Sirius fungou, assentindo. — O único motivo para eu estar falando com você é porque eu não acho que tenha sido de propósito.
— Não foi! Eu já te falei que eu não queria fazer isso! Só aconteceu e eu tentei voltar atrás! — O pobre Sirius agora chorava abertamente; ele se afundou no chão do túnel e segurava a cabeça nas mãos.
— Não duvido — respondeu James honestamente. Olhou para o rosto do seu melhor amigo. — Eu não te odeio, Pads. Eu sei que você acha que odeio.
— Deveria — falou Sirius, secando os olhos.
— Provavelmente — concordou. — Mas não odeio. — Sirius fungou. — Pegue um lado — pediu James, indicando Snape.
Sirius torceu o nariz.
— Eu não quero tocar nele — choramingou.
— Nem vem — falou James, o tom duro. — A culpa é sua; não toda, porque o Seboso foi um burro ao te dar ouvidos e vir até aqui e ainda mais burro ao não me dar ouvidos quando tentei fazê-lo voltar. Mas parte da culpa é sua e você tem que assumir as consequências. — James cruzou os braços e olhou para Sirius com seriedade. Sirius parecia pronto para desmoronar, mas ele assentiu e segurou os pés cobertos por meias de Snape.
— Nós vamos ser expulsos.
James bufou, zombeteiro.
— É, porque essa é a primeira vez que isso é uma possibilidade. — Sirius sorriu e secou os olhos com a mão livre. — Olha — falou —, eu vou argumentar até a última galhada quando encontrarmos os professores para tentar salvar nossas peles. Não vamos a lugar nenhum sem brigar.
— Eu mereço ser expul...
— Não começa — falou James. — Se você der uma de Moony comigo, eu vou te dar de comida pra Lula Gigante. — Sirius riu. — Além do mais — continuou James —, você tá aqui, ajudando a carregar esse babaca. Isso conta pra alguma coisa. Pra muita coisa na verdade.
Sirius pareceu usar de todo seu autocontrole para não desmoronar e começar a chorar de novo.
— Desculpa — fungou ele. — Eu realmente não queria que isso acontecesse. — Fungou ruidosamente, e James o ouviu engolir. — Quando... quando chegar a hora... eu quero contar pro Moony.
James teria ficado desapontado com qualquer outra coisa. Se ainda tinha dúvidas sobre Sirius, elas sumiram. Assentiu.
— Mas eu vou junto.
— Obrigado — falou Sirius, a voz falhando. Ele foi o primeiro a sair do túnel – ele colocou a mão para fora do buraco e apertou o botão – e James o seguiu. Os professores Dumbledore, McGonagall, Slughorn, Flitwick e Winters estavam reunidos nos jardins, assim como vários alunos; James viu Rita, Bozo, Emmeline, Katelyn, Sylvia, os irmãos Bones – Timothy, Edgar e Amelia –, Narcissa e Reg, Alice, Marlene, que flertava com Ludo, e uma Corvinal excêntrica chamada Aislinne. A Madame Pomfrey também estava lá e soltou uma exclamação de alívio ao vê-los. Winters e Flitwick tentavam manter os alunos fora do caminho.
— Nem uma palavra — murmurou James. Sirius assentiu.
— Ele está machucado? — perguntou Madame Pomfrey, indicando o corpo molenga de Snape.
— Não — respondeu James. — Ele desmaiou quando Sirius chegou. Ele deve ter achado que era... — Olhou para os alunos. Madame Pomfrey assentiu.
O professor Dumbledore se aproximou.
— Se puder acordar Snape, Poppy — falou. Ele olhou para James e Sirius com olhos azuis tristes. — Não falem com ninguém. A senha é Maçã do Amor.
— Sim, senhor — falou James. Sirius assentiu. Eles subiram as escadas e entraram na escola.
— Nós estamos mortos! — gemeu Sirius ao subirem as escadas de mármore. — Não enche — explodiu com Frank, que recuou parecendo apologético.
James tinha preocupações menores. Ele franzia o cenho para os pés.
— Onde está meu outro sapato?
Sirius revirou os olhos.
— Você o deixou no dormitório, tonto. Junto com a varinha.
— Então por que não trouxe meu sapato também? — perguntou.
— Não estava pensando. Além do mais, foi você que saiu sem ele pra começo de... Você está tentando me distrair! — exclamou Sirius.
— Tá funcionando?
— Estava — falou tristemente. — Eu estreguei tudo.
James riu pelo nariz.
— Maçã do Amor — falou para a gárgula, que foi para o lado. A parede se abriu, revelando uma escadaria conhecida. Com cada degrau, o estômago de Sirius se apertava mais um pouco, James conseguia ver em seu rosto. James conjurou uma simples cadeira de madeira para si mesmo e Sirius fez o mesmo, parecendo extremamente nervoso. — Vai ficar tudo bem — falou James, apertando o ombro do seu quase irmão. Sirius forçou um sorriso.
As pessoas chamam James de valentão, chamam-no de imaturo, preguiçoso, arrogante e impulsivo. O próprio James primeiro faria uma careta, mas concordaria que, sim, era conhecido por dificultar a vida dos outros alunos, mas raramente o fazia pelo prazer. Imaturidade é relativa, ele diria; aos dezesseis anos, maturidade dificilmente seria seu ponto forte, apesar de ele gostar de pensar que estava crescendo. Ele ficaria irritado se falassem que ele era preguiçoso, mas não diria nada. Ele permitiria que pensassem o que quisessem, e então ele ia ser o capitão durante os treinos de Quadribol, nos quais se esforçaria tanto quanto seu time, e no dia seguinte acordaria ao raiar do sol para fazer seu dever de casa e o de Peter.
Já ser arrogante, James seria o primeiro a admitir que ele certamente tivera seus momentos e, segundos depois, ele tentaria convencer a pessoa – e a si mesmo – que ele era mais do que apenas arrogante. Impulsividade, bem, James não era particularmente afeiçoado à palavra, mas ele admitia que às vezes não parava para pensar nas consequências e agia por instinto. Mesmo assim, se seus instintos lhe dissessem para se colocar numa situação perigosa sem varinha para salvar seu inimigo... era tolo, talvez, mas certamente não fazia dele uma má pessoa.
