Quando eu cheguei no hotel que seria o equivalente de minha casa, senti-me nostálgico. Era parte da minha tumultuada vida de caipira vencedor passar divertidas semanas nos hotéis de Shinjuku enquanto eu sambava outras crianças. O Torneio de Cartas de Digimon, uma feira científica, quando a mamãe me trazia porque tinha medo de me deixar em Fukuoka sozinho enquanto ela e meu pai trabalhavam em outros cantos do Japão... Foi legal. Admito.
Mas me lembrei de uma data em especial, o dia que voltei do mundo digital. Nunca soube explicar, mas eu estava atordoado por ter voltado pra casa na companhia de um bando de crianças mais novas que eu, e... É, deixo pra ti imaginar a reticências.
Assim que entrei na sala, meu bolso vibrou. Peguei meu celular e atendi.
- Akiyama falando.
- Ryouzinho! - ih, lá vem bomba - Está ocupado amanhã?
- Não... Por que?
- Eu te quero na Donna amanhã às sete. E sem atrasos.
- O que aconteceu pra você me querer tão cedo?
- Recebi umas especificações da Shiseido, e preciso conferir se você atende elas ou se vou precisar chamar um photosshopeiro.
- Certo... - estranhei. - A Ruki vai?
- Não.
- Ué? Por quê só eu?
- Porque a Ruki já é modelo experiente, então ela se mantém em padrões de qualquer trabalho. E além do mais, mesmo que ela fosse eu não seria idiota o suficiente pra fazer isso ao mesmo tempo com os dois?
- O que você quer dizer com isso? - Estranhei.
- Eu quero dizer que a Donna não é motel. Se eu deixo os dois apenas de roupa íntima na mesma sala, oxalá o que o tio da limpeza vai dizer de limpar resíduos. - ela falou, controlando o riso.
Eu tô ficando mole, porque né...
- Obrigado por considerar essa hipótese, Jun. Realmente não seria legal o pessoal da limpeza ir limpar sangue de Makino das paredes.
- Ou o seu, vai que... Né?
Ri de escárnio.
- Que mente criativa a sua, Junnie.
- Bem, sou a produtora-chefe dessa empresa, criatividade é minha maior qualidade...
- ... Que aplicada ao seu esforço de me ver com a Ruki é em vão além de se tornar defeito, certo?
- Credo homem, pare com isso.
Ela se silenciou depois que eu ri.
- Ah. Nem se atreva a comer besteira hoje, ok?
- Okkie-Dokkie, chefe.
- Então até.
Ela desligou. Deixei o celular em cima da mesa e rumei para o banho.
...
Eu me obriguei a comprar um café quando cheguei na Donna. Eu estava cansado e estava ciente disso, mas não dormi direito noite passada. O motivo? Não sei. Nem é dia de Cricket, então não tive motivos pra madrugar.
- Você está bem, Ryouzinho? - Jun perguntou enquanto virava a quarta xícara de café preto.
- Estou com sono, por hora, mas logo passa.
- Aaaaah eu queria que a Ruki estivesse aqui. Aquele café que ela faz é uma delícia! - Jun resmungou. - Um daqueles me deixa na tomada por horas!
- É tão bom assim? - perguntei enquanto bebia meu café comprado.
- É, mas o que te faz ficar ligada é que a gente pára pra conversar. Quando ela não vem de manhã a gente nem critica a galera.- Chizuru sugou o suco. - Só a Ruki pra fazer a gente rir bem alto numa segunda.
Fiquei imaginando essas três destilando veneno. Eis algo que eu fico feliz por não presenciar.
- Bem, vamos começar. - Jun se levantou da cadeira, deixou a xícara na bancada e abriu a porta, colocando a cabeça pra fora. - MIWAKO, IWATE! TRAGAM AS FANGIRLS!
Quase cuspi o café, um pouco vazou pelo nariz.
Ninguém me disse que eu lidaria com fangirls. Eu tenho medo delas.
Aos poucos, vi dez meninas entrarem na sala. Pareciam japonesas comuns: colegiais, donas de casa, bancárias...
Quando a última delas entrou, Jun fechou a porta.
- Meninas, obrigada por ouvir meu chamado novamente. - Jun falou pra elas. Eu estava com cara de tacho.
- Sem problema, Jun-sama - falou uma das colegiais - Sabe que se precisar estaremos à sua disposição.
Jun sorriu. Discretamente Chizuru colocou protetores de ouvido.
- A situação é essa, moças: a Shiseido quer um japonês perfeito. E vocês sabem quando eu quero dizer perfeito, certo?
- Sim. - todas elas disseram.
- Este é Ryou Akiyama. - ela apontou pra mim - um modelo famoso na ilha de Kyushu. Ele precisa corresponder com alguns critérios deles, e estamos contando com vocês.
Elas tomaram fôlego. Jun emparelhou em meu lado.
- Podemos começar?
- Quando quiser, Jun-sama. - falou uma das donas de casa.
Jun colocou os tampões de ouvido. Algo me dizia que isso ia ser extremamente estranho.
- Licença, Ryou. - Ela disse olhando pra mim. Ela pegou minha camisa e levantou a parte da frente, mostrando todo o peitoral e a barriga.
Por um momento eu experimentei a sensação de surdez temporária que os soldados vivenciam.
O agudo que aquelas meninas tinham era absurdamente estridente!
Elas gritaram como loucas, pularam, se descabelaram. E então Jun abaixou minha camiseta.
- E ai, Chi? - Jun gritou.
- Numa escala de dez, 9.2. - Chizuru devolveu, olhando o computador.
- Tá valendo a pena a segunda parte? - Jun considerou.
- Temos que garantir que vá dar certo, não? - Chizuru finalizou, colocando um óculos escuro.
Jun também o fez. E enquanto colocava, veio a bomba.
- Preciso que tire as calças. - ela falou, séria.
- Pirou? Cê tá achando que eu sou o quê, gogoboy? - falei revoltado.
- Ryouzinho, pode ficar de samba-canção-
- Cueca. - corrigi
- Que seja, mas esse par de calças ai precisa ficar no chão por um minuto. O grito delas é importante.
Considerei. Me senti extremamente envergonhado. Sentia as pontas das orelhas queimando.
- Ok... - e abaixei o zíper.
Assim que minhas calças deslizaram, fechei o olho e tampei os ouvidos. As dez ali entraram em estado de surto, que ficou ainda mais forte quando a Jun me virou de costas. Três ou quatro delas hiperventilaram.
Jun me deu dois tapinhas nas costas, sinalizando que a tortura havia chegado ao fim. Subi-as e tentei me nortear, depois daqueles gritos estridentes. Vi que alguns copos, incluso a xícara de Jun, racharam tamanha foi a potência da garganta dessas meninas.
- Ok, meninas, obrigada por tudo. Certifiquem-se de passar ali na enfermaria pra termos certeza de que não teve nenhum problema, ok?
Elas se foram, carregando as que não aguentaram.
- Até que não fomos mal, Jun-sempai. - Chizuru falou enquanto mexia no Mac.
- Quanto que foi? - Jun removeu os protetores de ouvido.
- 9.2 Superior, 9.0 Inferior frontal e 9,3 Inferior traseiro. A Shiseido pediu quanto, 8.0?
- Yup.
- Isso quer dizer que passei? - falei, ainda ouvindo o zwiiiiiiiiin.
- Passou com folga. - Jun respondeu. Sacou o celular e digitou alguma mensagem rápida. - Agora vamos te apresentar.
- Apresentar?
- Yup. As meninas que estavam aqui eram do fandom de Arashi, Kurobas e Kimi ni Todoke. Agora mesmo devem estar espalhando pra Deus e o mundo que o modelo da nova campanha da Shiseido deixou quatro meninas no chão sem nem ao menos se mover.
Fiz cara de alívio.
- Então se prepare. Falando nisso – Jun virou a cabeça - bom dia, Ruki.
Pela barulheira eu não percebi a presença dela, então me virei imediatamente na direção que Jun olhava. Corei instantaneamente.
Encostada na parede, bebendo café, com um óculos escuro gigante. Parecia que hoje havia colocado pó cor-de-rosa no rosto e estava levemente corada.
- Dormiu bem? - Jun perguntou.
- Pior que sim. Mas acordar numa sexta tão cedo e ver um teste de popularidade como essa é, realmente, dos deuses.
Elas riram.
- To saindo pra enviar os relatórios. - Chizuru saiu.
- Volto logo também. - Jun pegou a xícara quebrada. - Quero uma nova mug.
E assim ficamos sozinhos. Ela na parede, e eu desmoronei no sofá ali do lado.
- Desde quando estava aqui? - suspirei, desolado.
- Desde a parte do café. Vi tudo.
- Não vai falar nada? - eu esperava as críticas dela, mas elas nunca vieram.
Caímos em silêncio. Mas pouco depois ela o quebrou, baixinho.
- Não tenho nada a criticar. - e bebeu mais café.
Estranhei.
- Certeza? Nenhum 'Amador' ou coisa do tipo?
- Se você quer ser tanto humilhado a esta hora, posso realizar seu desejo. – ela fechou a frase com mais ceticismo que o normal.
- Nah, continue assim, não mereço esse tipo de tratamento antes das dez da manhã, e ainda numa sexta.
Me deixei afundar no sofá. Isso nunca aconteceu comigo em Fukuoka. Precisa ter nervos de ferro pra aguentar tudo isso e ainda por cima antes das dez. Nem eu corrigindo prova era assim, estressante.
E o mais, ela ainda estava ali. Os gritos mascararam a presença dela, o quanto será que ela não riu de mim? Ou pior: escondeu com aqueles malditos óculos todos os insultos guardados para as futuras chances de começar a me criticar?
Baguncei meu cabelo. Acho que estou pensando demais...
- Quer um café? – ela perguntou, em um tom inocente.
- Oi?
- Você quer um café? – Ela repetiu.
Por fim ela tirou os óculos e os colocou no cabelo.
- E por que eu iria querer um café seu? – Alfinetei.
- Olha, eu estou tentando ser legal e gentil com meu colega caipira novato e se não quiser apenas diga não e tudo vai ficar bem, mas não dê uma de mulher mal comida que tá muito cedo e estamos em ambiente de trabalho. – ela me lembrou.
Suspirei.
- Se não for te incomodar, eu aceito sua oferta.
Com um sorriso , ela desencostou da parede e seguiu para a porta. "Vem comigo" ela disse e saiu. A segui até uma sala que logo se mostrou ser adaptada para ser a cozinha.
Lá, ela pediu pra que eu me sentasse enquanto ela revirava os armários em busca do pó de café e esquentava a água.
- Quer cappucinno, flat ou longshot? – Ela perguntou enquanto abria a geladeira.
- Qual deles vai curar meu stress? – respondi enquanto me divertia em ver ela segurar a porta da geladeira com o salto.
- Qualquer um deles. – ela respondeu, confiante.
- Sendo assim, aceito um longshot sem açúcar, por favor.
- Ok. – E pescou duas xícaras brancas do gabinete.
Enquanto ela fazia o café, me levantei e fui olhar a sala.
Uma das paredes era de um vermelho-escuro muito bonito, e um quadro bem barato. A outra parede era a janela. Dava pra ver o horizonte de Tóquio dela e no cantinho direito uma pontinha do prédio do parlamento. Algumas cadeiras e poltronas aqui e ali, duas mesas redondas, algumas placas que ditavam as regras, e alguns plugs pra carregar aparelhos. Iluminado por luzes indiretas e menores detalhes feito em gesso.
A cozinha em si era de canto a canto, com um gabinete superior cheio de pratos, xícaras, pires e o que quiser imaginar que haja em uma cozinha. Duas das gavetas eram dedicadas para abrigar os talheres – incluso os hashis – e o gabinete inferior era usado pra guardar muitas coisas, sendo o mais presente o café. Na bancada da pia tinha duas jarras elétricas, dois micro-ondas, apetrechos para lavar a louça e duas cafeteiras.
E... Cá entre nós?
Ela estava simples. Um vestido marrom e essa cor estranha que elas insistem em dizer "bege-creme" e bolinhas brancas, desses que te deixa com cara de balão de ar quente, um salto simples preto e o cabelo preso em uma trança.
Mas me agradava ver ela entonar alguns lalalás bem baixinho de alguma música que desconheço enquanto fazia o café. E pelo cheiro parecia realmente bom.
Voltei a olhar a janela. Um céu azul ensaiava sair logo mais, mas ainda tinha uns resquícios de laranja e ambar colorindo algumas núvens. Ainda dava pra ver algumas estrelas.
Deixei que aquele céu levasse alguns suspiros meus. Fui tirado desse estado de admiração quando ela encostou uma das xícaras no meu braço.
- Longshot sem açúcar. – e me passou a xícara.
- Obrigado. – e sorri sem jeito.
Ela parou do meu lado e sem dizer uma palavra bebeu o café enquanto admirava a vista.
Tudo estava calmo e silencioso por um momento.
- Ruki-tan eu estou sentindo cheiro de MAGIKno e nem me chamou? – Chizuru apareceu na porta.
Nos viramos.
- Opa, interrompi algo? – Ela olhou pra nós e corou.
- Não, imagina. – Ruki falou, solene – Pega um pouco, acabei de fazer.
Ela se sentou em uma das poltronas ali perto. Aproveitei eu mesmo e puxei uma pra mim. Logo Chizuru estava na roda, com sua xícara preta.
- E ai, Chizu-tan, acha que a Shiseido vai falar algo depois daquele teste? – Ruki disse.
- Ah, falar eles vão. Nosso garotão aqui foi bem além do que a gente esperava. – Chizuru bebeu um pouco de café – Ainda não supera o Teppei e o GACKT, mas vai dar um grande boom nas vendas deles.
Elas riram.
- Vocês se importam de me falar que diabos foi esse teste? – Falei, amuado no café.
- Ah, a Jun não te falou? Usamos os gritos das meninas pra dar uma margem sobre como a imagem do modelo vai ajudar nas vendas. Eles pediram 8.0 para ambos.
- Incluindo a Ruki?
- Incluindo a Ruki-tan. – Chizuru concluiu com mais um gole de café.
- E... por âmbito de curiosidade... Quanto que ela fez? – Perguntei.
Ruki corou e olhou pro lado, bebericando o café.
- Ruki-tan? 10 em tudo. – Chizuru falou – Especialmente no quesito 'Me diz o que ela usa que eu quero ficar linda também'.
Olhei impressionado pra ela. Concordo que ela tem mais beleza que o resto das mulheres que conheço, mas não a esse ponto absurdo. Eu achei que era eu e meu mal de achar a Ruki a mais linda de todas, mas parece que não foi apenas eu.
Ouvi um barulhinho na porta e me virei, curioso. Uma Jun entrava de fininho, assaltando um café.
- Tudo bem ai, Jun? – Falei, inocente.
Jun soltou um "gyaaah!"com o susto, quase derrubando a xícara nova.
- Quer me ver morta, desgranha de homem!? – Falou, com raiva. Logo voltou a murmurar – Só porque tem um corpinho gostosinho acha que pode fazer isso, aff novatos.
As meninas riram.
- Cês tão rindo do quê, suas coisas? – Jun se recompôs e foi pra porta, saindo, mas logo voltou, apontando – E você, Srta. Cabelo de Fogo, pode vir comigo! Nada de namoro em horário de trabalho!
- Namoro um caramba! Me respeita, Jun! – Ruki falou, revoltada – Tá achando que eu sou àquelas fangirls que piram com esses pedreiros de templo, é? – e apontou pra mim, acompanhado de um olhar de cima a baixo com pinceladas de nojo.
- Wowowowow vai me ofender—
- Que seja Ruki, vem logo! Preciso da sua ajuda!
- Tá bom, mulher chata. – Ruki se levantou e quando passou perto da bancada colocou a xícara no comecinho da bancada e a empurrou, que foi deslizando até a pia e caiu em cima da esponja de lavar os pratos. – Espera ai, caramba!
E assim elas sumiram, deixando eu e Chizuru sozinhos.
- E essas são minhas colegas de trabalho. – Chizuru suspirou.
- Faz quanto tempo que você está aqui, trabalhando com elas?
- Alguns meses. Ruki-tan que me indicou. – Chizuru bebeu mais um gole do café.
- "-tan"? De que parte do Japão você veio pra falar assim?
- Eu? Kyushu. Sou de Fukuoka.
- Que legal, sou de Kitakyushu! – falei animado.
- Mentaiko suitou to?* - ela falou, com graça.
- Suikan ba!** - Respondi ao mesmo tom.
Rimos alto.
- Gente! Sabia que você veio do sul mas nunca de Kitakyushu! Que coisa!
- Você deve sofrer muito nas mãos dessas meninas, não? – Falei, com pena.
- Da Jun sim, da Ruki-tan não.
- Ué, e por que não? A Ruki não é daqui?
- Ela veio pra Tóquio quando tinha quatro anos, mas de origem mesmo ela é de Himeji. A família Makino é de Kansai, mas mudou pra Shinjuku quando o patriarca da família morreu. – Chizuru virou o café. – Quando ela está bem descontraída ela fala "manya" ou "mahen" quando ela fica com pena.
- Wow. – estava impressionado. – Você conhece mesmo a Ruki, não? – e bebi um pouco do café.
- Ah, somos veteranas uma da outra.
- Como assim?
- Eu sou formada em Engenharia de Sistemas e ela em Moda e Design. Mas a gente descobriu que não era bem isso que a gente queria pra seguir como carreira. Ai trocamos os materiais e ajudamos uma a outra ao longo do curso. Eu estou no primeiro ano de moda, e ela no primeiro ano de 'engesys'. E também ela pediu pra que eu ficasse no lugar dela depois dessa campanha da Shiseido. Ela vai se afastar um pouco do mundo da moda pra cursar a faculdade.
Oi?
- Mas... Mas... Mas... – Por quê eu estou gaguejando?
- Sim, o curso é bem pesado. – Acho que ela leu a minha mente. – Ela, enquanto modelo e maquiadora-chefe, não consegue. Assim ela pediu pra Jun deixar ela como modelo pra trabalho local, ou seja: no Japão, mais pra não sumir do nada. Quando ela voltar ela retoma a carreira. Por isso eu estou aqui.
Estou no chão. Mas...
- Mas ela falou que conseguiu fazer moda de boa...
- E conseguiu, o portfólio dela aqui na Donna deu uns créditos bons embora ela nunca tenha precisado usar deles, mas ainda assim aqui não têm nada a ver com engenharia de sistemas. Ela vai precisar dedicar mais tempo pra isso do que ela dedicou em Moda. Eu mesmo lembro que implorei pros meus pais ficarem aqui e me segurarem pra eu não trabalhar e focar.
Ouvindo isso me faz pensar que eu mendigando nota, fazendo serenata de desespero pras professoras me passar e chorando sangue pelos trabalhos que a Kyudai te arrancava da pele eram brincadeira de criança.
Duas faculdades na universidade pública que chegava a ser disputada à paulada pelos concursandos e que era a primeira das sete maiores do Japão. Meu lado orgulhoso precisou admitir que, mesmo ela sendo tudo isso, ela era no mínimo foda. ***
- Bem, melhor a gente ir. – Ela olhou no celular – Provavelmente eles mandaram algum representante das revistas pra puxar mais info.
Assim ela se levantou e repetiu o mesmo ato de Ruki: fez a xícara deslizar e cair certinho na pia.
- Ah! Chizuru-san! – chamei – Antes de você ir embora: por que vocês usaram óculos escuros naquela hora?
Ela riu.
- A Donna proíbe seus agenciados de ficar 'secando' os modelos, mesmo os modelos entre si. Mas eles nunca falaram nada sobre os óculos escuros, então a gente usa pra lidar com esses processos e tirar umas casquinhas discretamente. – e piscou.
Hein? Senti que uma das minhas sombrancelhas se arqueou, acentuando meu rosto com o ar de dúvida.
- Se eu fosse você, ficaria preparado. – Ela tirou os óculos rayban da cabeça e os colocou, arrumando os fios rebeldes em seguida. – Se a Ruki-tan se deu ao trabalho de vir aqui apenas pra ver seu ensaio de popularidade quer dizer que muitas outras virão, e entre a gente, vale a pena levar uma chamada da diretora geral apenas por te ver sem camisa.
E saiu, e logo a voz dela ecoou pelo corredor, "sala 105, por favor!".
Eu ri comigo mesmo e balancei a cabeça. "Vai entender a capital", falei em meu sotaque kyushuniano.
Quando passei pela bancada tentei repetir o mesmo ato que tanto a Bruxa como Chizuru fizeram com maestria, mas o que isso me rendeu foi juntar os cacos da xícara que se despedaçou no chão e esperar que ninguém tivesse escutado ela se quebrar.
Quando eu cheguei na sala, eu encontrei a Jun conversando com um cara na mesma altura que a minha, mas de um cabelo mais claro e mais branco do que eu. Parecia aqueles caras de revista vestido e parecia que tinha alguns brincos em ambas as orelhas.
- Ah, ai está ele! – Jun falou quando me notou.
Ele se virou. Os olhos vermelhos e o rosto gentil entregavam quem ele era.
- Whoa! Ryou-san! – Takato falou, surpreso. – Que coisa!
- Matsuda! Há quanto tempo! – e apertamos as mãos um do outro – Não sabia que trabalhava aqui!
Ele riu.
- Mas não trabalho. Eu trabalho na redação da Fuji TV, mas vira e mexe acabo fazendo freelancing com a AneCan e a ViVi, e elas me mandaram aqui pra pegar mais info sobre o 'garanhão do sul'.
- De onde tirou isso? – falei espantado.
- Não se fala em outra coisa nos fóruns. Em você e na Ruki pra esta campanha. – ele falou, animado.
De novo não. Fui infeliz anos atrás com aquele fandom idiota que me queria com a Bruxa, eu não preciso de um repeteco do passado.
- A Ruki foi buscar uma papelada, logo ela deve estar aqui. – Jun falou – Que acham de a gente se sentar e o Takato ir escrevendo mais sobre?
- Uma excelente ideia, preciso parar um pouco. Não dormi muito – Takato disse, enquanto bocejava – fui pra casa lá pelas duas da manhã e me arrancaram de casa às seis.
- Como que anda a Reaper Princess? – falei, lembrando daquela menina que ele era apaixonado anos atrás.
- Katou-san? Muito bem. Ela se formou em Pedagogia e conseguiu um emprego de professora numa escola do primário perto da estação de Iriya, a gente normalmente se vê depois das oito da noite.
- Ah, vocês estão juntos? – falei.
- Sim, sim. A gente vai casar em breve. Me passa seu endereço depois pra te mandar o convite!
Pesquei um papel ali perto, emprestei a caneta dele e escrevi dois endereços no qual eu poderia estar.
- Pode mandar pra qualquer um desses que eu pego o convite. – falei.
- Ah, vais ficar por aqui? – ele falou, olhando meu endereço de Shibuya.
- Se tudo for conforme os planos da Donna, provavelmente vou ter de me mudar pra cá.
Neste momento a Bruxa entrou na sala.
- Talvez ele vá morar com a Ruki, se continuar nesse ritmo. – Jun cutucou.
Eu estava pronto pra rebater, mas Ruki apenas mostrou o dedo para Jun, sem olhar pra ela. "Ahhan, e a gente vai ter uma cadela chamada Jun Motomiya", ela disse enquanto colocava os papéis na mesa. Jun deu uma risadinha e retribuiu o gesto imitando-o. Quando a Bruxa colocou os papéis no lugar, ela se sentou perto de Takato.
- Vocês são assim sempre ou porque eu estou aqui que vocês se atacam? – falei, abismado com essa cena.
- Os dois. – Takato falou por fim, tentando conter o riso. – Tem dias que elas praticamente se matam.
- Apenas mais uma sexta-feira de trabalho, Ryouzinho. – Jun falou, fazendo um sorriso extremamente falso. – Isso acaba depois das tres da tarde.
- Provavelmente antes da uma, se tudo acabar bem. – a Bruxa deu um sorriso para a Jun, ajeitando os sunglasses no cabelo. – Isso inclui, claro, a Jun ficar de boa e parar de me shippar com esse pedreiro de templo.
- Pedreiro de tempo é a sua—
- AEEEEOOOW – Takato gritou, chamando a nossa atenção – Certo então, vocês dois, são dez e um pouco mais de uma sexta-feira. Eu sei que tá foda de se controlarem ai, mas pelo menos tentem ser sociáveis ou eu levo essa briga pras revistas, escrevo um fanromance aqui e ai sim vocês estão na bosta!
- Você não se atreveria! – Eu e a bruxa falamos juntos.
Takato segurou o gravador no alto e olhou com um olhar desafiador para ambos. Suspiramos e trocamos um olhar de desprezo acompanhado com um gesto obsceno, partindo de ambos os lados.
Takato apertou um botão do gravador e trouxe para perto da boca dele.
- Hoje, um belo dia de Agosto, venho trazer uma entrevista exclusiva com os modelos da campanha da Shiseido: Makino Ruki, uma veterana da Donna Models vinda de Himeji, e Akiyama Ryou, um novo rosto para Kitakyushu. – Takato falou, polidamente.
Respondemos as perguntas de Takato da maneira mais polida e educada que pudemos. Mesmo a Jun, quando chegou as perguntas dela, respondeu com um tom ironico mas polido ao mesmo tempo. A entrevista no total durou umas duas horas, incluso uma foto de cada um de nós.
A Missus saiu para ir no banheiro e eu me estiquei para pegar mais café.
Takato respirou e chamou por Jun.
- Sério que ele aceitou trabalhar com ela numa boa? - Takato falou.
- Numa boa? Devia ter visto o piti que ele deu na hora. Parecia que ele que administrava a conta da Ruki no twitter! - Jun respondeu.
- Bem, eles são parecidos nesse quesito - Takato falou, se afastando de fininho - Não me impressiona ele depois ficar contando vantagem do quão profissional ele se acha.
- O quê queres dizer com isso, Takato? - falei, bebendo café.
- Que é tudo desejo de um quarto com ela.
Takato saiu correndo assim que terminou a frase. Eu cuspi o café longe e gritei, em fúria, que era loucura. Fui até a porta, e quando a abri dei de cara com o Satanás. Eu corei, imaginando se ela tinha ouvido aquilo (claro que tinha), mas o rosto dela estava inatingível.
- Amador. – deu um suspiro decepcionado e foi embora.
- Hein?
- Jun eu estou indo embora. Ficar neste lugar vai me custar mais de uma hora na massagem. – ela falou, alto.
- Bon voyage, mon cher! – Jun respondeu. – Mas fica esperta se eu te ligar, hein!
Não houve resposta. A vi virar no correrdor revirando a bolsa procurando por algo, e sumiu.
- Acho que por hoje foi só, certo? – Jun falou, se levantando do sofá.
- Sim, isso foi tudo. – Takato falou e logo se curvou – muito obrigada pela entrevista, Junnie, Ryou-san.
- Que nada, fiz meu trabalho, você sabe. – falei, sem jeito.
- E a propósito, Takato, tenta fazer parecer que é superficial, ok? – Jun falou.
- Roger that, Jun. Dependendo da minha redação vai parecer mais um trabalho do MatsuJun. – Takato falou, e pegou a bolsa. – Preciso ir, quero jantar em casa hoje.
- Até! – falei.
- Qualquer coisa me liga, hein? – Jun falou.
Takato desapareceu na porta.
- Bem, eu vou resolver algumas coisas com seu pai. Se quiser ir embora tudo bem. – Jun falou, estralando os dedos.
- Nah, vou ficar. Não tenho muito mais pra fazer hoje... Estava planejando sair pra ir dar uma volta, mas como meu rosto vai estar bem conhecido nas próximas horas, melhor eu me manter numa boa.
- Esse é o espírito, garoto. – e ela me deu um cafuné. – Então vamos indo. Eu quero ir embora antes do meio-dia.
E assim foi. Na hora seguinte a AneCan pediu mais uma foto minha com a Capeta, e ela teve de voltar pra Donna. Estava com uma cara de poucos amigos e ficou ainda mais azeda quando entrou na sala que nos fois designada como camarim e que teríamos de dividir.
- Que foi? – Olhei pra ela enquanto ela passava pelo camarim. Uma tempestade silenciosa a cada passo do salto alto que ecoava na sala me fazia ter um pouco de arrependimento de ter perguntado isso.
- Nada que lhe caiba saber, Akiyama. – disse indiferente. Ela desfez a trança rapidamente.
- Olha, não quero te criticar, por mais que minha garganta esteja arranhando pra isso, mas se quiser desabafar...
- Escuta – Ela bagunçou um pouco o cabelo e olhou pra mim, profundamente. – Obrigada por ser extremamente educado sendo você o grosso e troglodita que você é-
Pigareei e dei um olhar claro. "Cuidado com suas palavras".
- ... Mas eu não estou com saco nem tampouco papas pra olhar pra sua cara nem 'desabafar' contigo.
- Tá, o que aconteceu? – falei, sério, olhando ela nos olhos.
Minha mensagem foi clara, mesmo sem palavras: eu estava falando sério e eu escutaria qualquer que fosse a merda que ela fez. Ela suspirou e pegou o celular. Rapidamente digitou na tela e largou na mesa. Deslizei minha cadeira para mais perto e visualizar do que se tratava. Vi algumas entradas de tópico relembrando que nós dois tínhamos um passado, que por muito pouco não remexia naquele inverno estranho onde uma criatura desconhecida engolia o Prédio da Dieta e os arredores. Os adultos que nos cercavam naquela época juraram: vamos te proteger, mas mantenham a boca fechada sobre tudo aquilo. Até mesmo um cara do governo que ajudava a gente se envolveu em problemas sérios com a diretoria de segurança para poder apagar nossos dados daqueles incidentes.
- Eles estão escavando nosso passado como Domadores. – Falei por fim.
- Mesmo o Yamaki falando que tenha deletado tudo sobre os ataques, eu sei que nada some de verdade. Vai ter alguma pessoa vindo do inferno que vá escavar mais e puxar a verdade e, possivelmente destruir a vida de todos. – Ela falou, com uma voz grave e o rosto entre as mãos.
Entendo esse medo dela. Sim, trata-se apenas de trabalho e ambos somos bem crescidos para saber, mas nenhuma das crianças envolvidas queria ter sua vida destruida depois de mais de dez anos daquele ano. E o barco ainda afundava mais para meu lado, porque passei agradáveis dez meses em uma dimensão que ninguém sabia sobre e que voltei acompanhado de uma turma de crianças mais novas.
E em um lampejo decidi o que faria para fazer aquilo cessar de vez ou ao menos dar comida para eles pensarem.
- Vou dar a eles algo para se focarem e esquecerem disso. – falei, resoluto.
- Não quero sua ajuda. – ela falou, ríspida.
- Mas eu vou querer a sua. – e segurei as mãos dela.
Ela olhou pra minha cara, com ar de dúvida nos olhos. E eu apenas pisquei, tentando flertar com ela. Vendo isso ela apenas se levantou e saiu do camarim, balançando a cabeça. Dei uma risadinha e sai com as mãos no bolso, fingindo inocência.
- Certo – Jun falou – Todo mundo pronto?
- Se importam se eu tomar um copo d'água? – ela falou, meio sem ar.
- A enfermaria é logo ali, quer que eu te carregue? – falei, inocentemente falso.
Ela me olhou de cima a baixo.
- Estou com cara de argamassa por algum acaso, seu pedreiro de templo? – ela soltou.
- Eu diria mais que você parece uma cal: branca e bem fininha. – devolvi.
Trocamos ódio com olhares secos. Mas quis tirar ela da linha e pisquei de novo. E ela ficou ainda mais nervosa.
Chizuru olhava, confusa.
- Jun-sempai, por que de repente eu me vejo querendo a Rukitan e o Ryou-san juntos? - ela falou enquanto eu era fuzilado pelo olhar raivoso da Bruxa..
- Não se preocupe, Chi. Diz a lenda que no dia mais escuro da noite mais sem fim eles vão tomar vergonha na cara e pegar um quarto. - Fuzilei Jun. E ela apenas sorriu. - E eu aposto trinta mil yenes que vai ser antes do fim dessa campanha.
- Dou vinte mil se sair na betsu. - Chizuru completou.
Ow caramba, entendo que eu estou provocando ela mesmo, mas qual é a doença de vocês que me querem com a Satanás?
- Bota ai no bolo: cinquenta mil yenes se pegarem foto deles junto. - meu pai falou, arrumando a câmera.
Por essa eu não esperava. Até você, pai? Que desonra.
Ela riu, de escárnio, quebrando o clima.
- Certo certo, fangirls, vamos tirar essa merda de foto logo. Eu quero ir embora. – ela falou, jogando o cabelo pro lado.
Eu olhei pro lado e cobri o rosto.
Meninas, de verdade, do fundo do meu coração: jogar cabelo pro lado faz qualquer um perder o norte. Não abusem dessa arma.
Senti que estava embarassado, mas a coisa ficou séria quando eu vi a Jun me olhando, com um sorriso de canto de boca, com um olhar malicioso.
Nem lembro de como que a gente tirou a foto. Mas eu estava feliz.
Pode não parecer, mas era parte do meu plano, sim. Vergonhoso, mas tem seu ladinho divertido.
...
- Diz ai, Chi – Jun disse, digitando – E se saísse um casinho entre o Ryouki?
- Ryouki? Ruki-tan e Ryou-san?
- Yup.
- Eu acharia uma fofura, mas eles se odeiam. – Chizuru falou, com pena.
- Ah você acha?
A ruiva olhou para a morena, com um rosto preenchido pela luz da malícia.
Ainda que não fizesse muito sentido, ela sorriu.
oooOooo
01. Mentaiko: Um doce de Kyushu.
02. suikan to?/suikan ba: dialeto de Kyushu. Significa "Gosta disso?"/"Gosto!". De acordo com a net, o dialeto de Kyushu puxa muito para o Coreano, dando a distância de um para o outro, e é muito comum ouvir gangsters falando nesse dialeto,
03. Eu nunca pesquisei muito a fundo, mas a Toudai não tem curso de moda, e há uma outra uni voltada para o ramo, e que aparece em Paradise Kiss. A Ruki veio de lá, e a Chizuru estuda no mesmo curso atualmente.
Freetalking: e ai meninas, de boas? Espero que sim.
Vocês já viram fanfic com trilha sonora? Eu acho que a PCB vai ter uma. A Ending vai ser definitivamente a 'Crazy Stupid Love' da Cheryl Cole. Enfim, vou postando sempre algo sobre a fic no twitter, mais geralmente um rascunho da fic junto com o link, então fica ai a dica. jyunirii.
E... Eu não sei se de fato quando as meninas jogam os cabelos os meninos ficam todo dokidokis, no meu caso eu fico é com inveja. Meu cabelo é do mais cacheado que existe, então quando eu arrumo ele, normalmente fica daquele jeito por muitas horas, então aceito correções e ideias (why not)?
Mas algo que eu sei é que os meninos ficam naquela fase de negação antes deles admitirem que se apaixonaram. Se isso vale pra vida adulta nem sei, mas coloquei aqui e vai ser assim mesmo. Estou usando o modelo irlandês de flamboyancing pra montar esse Ryou 'romanticinico', ou seja, esperem muitas drogas daqui pra frente.
E claro, eu espero que você continue lendo a fic.
Te vejo depois.
Ps.: Uma droguinha grátis: o dialeto de Kansai seria um equivalente do sotaque mineiro e o dialeto de Kyushu seria o mais refinado sotaque de um traficante do Alemão. Imaginem esses dois brigando por causa do dialeto que eles falam e me digam depois.
