Quando cheguei na porta de minha casa, em Fukuoka, dei um sorriso torto. Era uma manhã bem clara, um tanto quente - vinte e nove graus, antes das dez, as plantas da frente da casa estavam bem verdes. Parece que havia chovido noite passada, enquanto eu estava nos céus, voando. Havia bastante orvalho aqui e ali, mas estava secando rápido, graças ao calor. E para me receber, minha gata estava na porta. Esticada no tapete azul, coçava gentilmente a orelha, e quando me viu, se pôs preguiçosamente de pé e veio, devagar, como se desfilasse. Subiu na minha mala roxa e encostou a cabeça em meu braço.

- Bom te ver de novo, Rurichan. - e ela me respondeu com um miado, e pulou em meus ombros.

- Oh, Ryou-kun, voltou de Tóquio? - e uma voz doce falou.

Por um momento achei que fosse Ruki, mas era apenas minha vizinha e minha melhor amiga, Rino. Era mais uma japonesa com um ar de coreana comum, magra e de busto pequeno, que apesar de seus vinte e cinco anos, não aparentava ter mais de quinze, graças ao rosto agraciado, sem marcas de espinhas e ao cabelo que chegava um pouco abaixo dos ombros, apesar de seus 165cm.

- Acabei de chegar.

- E parece que a sua Nyamorada veio te receber.

Rimos. Sim, o grande motivo de eu ter Ruri comigo não foi porque eu apenas gosto de gatos, foi ela que me adotou. Em um dia de Maio, no fim de um inverno, ela veio me seguindo do parque perto de minha casa. Estava com dó dela, estava machucada e bem magra, mas o olhar dela me encantou. O olhar roxo, firme e sagaz, mas que no fundo só queria alguém a que chamasse de sua e cuidasse dela.

- Você sabe como ela é...

- Tenho vindo aqui todos os dias, ela se recusa a sair daqui. Tentei algumas vezes levar ela pra minha casa, mas ela insiste em ficar, então eu venho trazer a comida dela. - e sorriu.

- Talvez porque ela não vai com a cara do Lee Nyang? - brinquei.

- E quem não ama meu Lee Nyang? - e ela fez muxoxo.

Apontei pra Ruri. E ela se esfregou ainda mais em mim.

- Rurichan, não seja assim. - ela reclamou

E rimos.

- Como foi Tóquio?

- Ah, foi bem. Não quer entrar?

- Opa.

Levei a mala para dentro da casa. Lá, a deixei em minha cama e voltei pra cozinha. E minha amiga me esperava, sentada.

- Tirei bastante foto, tive que lidar com fangirls - fui falando, enquanto colocava a água no fogo - Foi naquelas, né? Vida de Capital.

- Ouvi dizer que você arrumou uma namorada por lá. Uma do cabelo laranja, parecida com a Rurichan.

Parei de mexer nas coisas e olhei pra ela.

- De onde você tirou isso, Rino?

- Não se fala em outra coisa nos fóruns. Ao que parece, o fandom da Makino e o seu concordam e te aceitam, juntos. - e me mostrou o SamSung S6.

Dei uma risada, nervosa. "Ainda bem que ninguém sabe do resto", pensei.

- Mas eu não apoio vocês juntos. - ela disparou.

- Vamos voltar nisso de novo, Rino? - suspirei, divertido.

- Qual é? Eu ainda não desisti de você, Ryou. A Makino pode ser bonita, mas eu sou mais, e eu te conheço melhor e por mais tempo.

Dei uma risadinha.

O telefone de Rino tocou, e depois de uma breve conversa, ela desligou.

- Preciso ir, hora de voltar pro plantão.

- Te cuida, mulher.

- Eu vou. São apenas crianças.

E saiu.

Vamos lá.

O verdadeiro nome dela é Park Lee Nung, e ela veio de Seoul, Coréia do Sul, mas por algum motivo obscuro ela nasceu no Japão. Estudamos juntos na faculdade desde o comecinho do curso, e hoje ela trabalha atendendo crianças que precisam de algum tipo de acompanhamento psicológico.

E... exceção à uma noite, onde aconteceu algo extremamente ruim, nunca tivemos nada.

Sempre fomos bons amigos.

Ela, a nerd convicta coreana.

Eu, o galinha gentil japonês.

Sempre fomos um bom time.

Entretanto uma noite, enquanto a gente estava no quinto semestre, ela terminou com o namorado dela. Naquela época, ela era mais gorda, cheia de curvas, mas ainda assim ela tinha um ego grande o suficiente pra não se abalar sobre. Mas ainda assim, as palavras do ex dela a deixaram bem mal. Digo, bem mal mesmo, ao ponto de ela querer se matar.

Naquele dia eu estava meio bêbado, e tentei ajudar ela, e como você deve imaginar, acabamos numa cama. Na verdade, acabou na minha.

O problema foi: ela se apaixonou. Depois que aconteceu me senti o pior cara de todos, especialmente porque eu não lembrava de nada. Expliquei, mil vezes, que ela podia ser a mulher mais linda daqui, eu ainda a via como minha amiga, e minha amiga apenas. Ela emagreceu, ficou ainda mais bonita, cuidou dela mesma, se reergueu, mas nunca me despertou nada. A via mais como uma boneca.

Quando terminei de fazer meu café e alimentar Ruri, fui até as cinzas de minha mãe e fiz uma oração silenciosa. Fui interrompido pelo meu celular, com uma ligação de Tóquio.

- Ryouzinho?

- Oi Jun.

- Tudo bem ai? Chegou direitinho?

- Estou são e salvo.

- E a gata Ruki?

- Ela se chama Ruri, e ela está bem - ela miou, de fundo - como você mesma pode ouvir.

- Certo... - ela suspirou.

- E você? Tudo bem ai?

- Estou levando. As manhãs na Donna não são as mesmas sem a sua voz cantando Volare e desfilando esse bundão pelos corredores.

- Meu Deus, Jun... - dei risada.

- Quié? Estou falando sério, ficou sem graça sem você por aqui. - Chi gritou, de fundo, "volta pra gente, Ryou-san! Achei uma loja de Mentaiko em Ikebukuro!"

- Ahahah gente... - Ri bastante - Chantagem emocional não vale, viu?

- Okaaaaay... Bem, precisamos ir. Até depois, Ryouzinho.

- Até, meninas.

E desliguei, entre risos. Mas logo recebi uma outra ligação, de um número privado.

- Alô? Akiyama falando.

- Como você está?

Ué?

- Qual foi o motivo de você me ligar de um número privado?

- Me deu na telha.

- Oh, tá querendo outro daquele que eu deixei contigo? - e dei uma risada.

Ela não falou nada. Dei um risinho.

- Eu estou bem, Ruki. Apenas tomei café e fui alimentar minha gata. - e passei meus dedos em Ruri, acariciando a cabeça dela.

- Ah, ok.

- Era apenas isso?

- Na verdade... Não.

- "Não"?

- Bom...

Me sentei no sofá, e coloquei Ruri em meu colo.

- Desembucha, Ruki.

Ela suspirou.

- Semana que vem vou ter de descer em Kyushu, promoting de uma empresa local desse fim de mundo.

- Ah, sério?

- Hm. E pelo que parece, vai ser realmente perto da sua casa.

- Entendo. Você quer ficar aqui em casa? Ou vai pra algum hotel?

- Não sei. Eiichi-san vai estar na mesma campanha, então eu acredito que seja seguro para a minha integridade física ficar ai se ele também vá estar. Até porque ele me convidou.

- Ahhan... - me segurei pra não contar à ela o quão gigolô era Eiichi Akiyama.

- Apenas liguei pra te avisar.

- Entendo.

- E... Quando isso acabar, Jun espera que você tenha a resposta da proposta e, entre a gente, ela quer que você esteja no mesmo avião que eu quando eu voltar.

- Típico da Jun.

- Bem, não estou te pressionando em nada, a decisão é sua, e sua somente.

- Obrigado, Ruki.

Do outro lado ela deu uma risadinha, pelo que eu ouvi.

- Mais algo?

- Era tudo.

- Bem, eu tenho algo pra te perguntar.

- No aguardo. – ela suspirou

- Sabe aquela tarde?

- Hm.

- Você quer que se repita?

Ela se calou. Deixei ela responder.

- Eu não sei. Naquele dia eu estava em lágrimas quando você me deixou.

- Entendo...

Nos calamos.

- Preciso, ir, Akiyama. Daqui a pouco chego na aula.

- Ok. Se cuida, Branca das Trevas.

- Claro que vou me cuidar, Pedreiro.

- Certo... - e tentei bancar o espertinho. - Te iubesc Ruki.

Ela riu, alto.

- Ce naiba? Esti nebun? - falou, sem sotaque, mas parecia cética.

- Mas que? - Não esperava por nenhuma resposta em Romaniano.

- Força não, Akiyama, faz favor.

E rindo, ela desligou.

Fiquei sem entender. Devo ter fado de algum jeito errado, só pode.

ooOoOoo

Tirei o dia para dormir. E assim uns dois dias se passaram desde que a Satanás me ligou. Fiquei matutando um bocado e recebi uma ligação da Jun nesse meio tempo, para me falar do feedback detalhado da Shiseido. Pelo o que parece, agora não é só a Jun que ama a miha bunda.

Bem: estava um pouco menos quente do que o costume, então resolvi ir correr um pouco. Passei em frente à escola que trabalho, e do portão fechado consegui ver os vidros reluzindo à luz do sol. E automaticamente lembrei da Jun.

Como será que aquela doida está? Ainda tenho mais ou menos seis dias pra decidir se fico aqui em Kitakyushu ou volto pra capital.

Dei uma suspirada. Eu me sinto comfortavel aqui.

- Oh, olha quem eu encontro por aqui!

E olhei pra quem quer que tenha falado isso. Era Rino.

- joh-eun achim, Rino. – falei com um aceno. – Que te traz até a Ohtani?

Ela estava com roupas simples, mais para um role de manhã.

- Plantão acabou faz algum tempo, resolvi ir caminhar pra ver a luz do sol. Mas não esperava te ver. – e bebeu um pouco do café dela.

- Ah, compreendo. Muito ocupada?

- Nada, foi bem tranquilo.

- Ah sim.

- Bem, estou indo para casa, agora. Caminha comigo? – ela pediu.

Me alonguei um pouco.

- Vamos. – acenei com a mão.

Ela veio ao meu encontro.

Juntos, fomos caminhando devagar, passando pelo centro comercial da cidade, vez a quando cumprimentando algum cliente dela, ou algum aluno meu.

- Dormiu bem noite passada?

- Ah sim, dormi. Recebi uma ligação da galera de Tóquio, eles meio que me deram um prazo pra me decidir.

- Aaaaah – ela suspirou – essa galera é esquentadinha demais, dá um tempo.

- Bem – dei de ombros – prazos. Sabe como é.

- Te entendo. Mas... Faz algum tempo que não vejo teu pai. Que houve com ele?

- Ah, ele tá voltando pra Kyushu. Parece que vai ter uma campanha aqui e ele vai ser o fotógrafo...

- "..."?

- Bem... – me acanhei.

Viramos a curva da esquina da minha casa, e lá na frente do meu portão havia um carro cinza, de meu pai.

Ele saiu do carro, se esticou e de longe ouvi o barulho dos ossos do velho se estalarem.

- Opa, já voltou? Nem fiz nada pra ti, pai.

- Oh Ryou! Rino-chan, bom dia!

- Bom dia, Akiyama-san. Fez uma boa viagem? – e ela sorriu, franca.

- Na medida do possível, vou te falar. – se alongou um pouco mais. – Eu tô ficado muito velho.

- Ah não diga isso, ainda tem muitos anos pela frente!

E rimos.

A risada parou quando um nissan coupe 370Z azul escuro parou perto do carro de meu pai.

E aqui fica marcado, galera: Eu adoro carros. E fiquei um bom minuto repetindo pra mim mesmo: "que carro lindo".

O ronco baixo do motor cessou. A porta abriu e de dentro saiu Ruki, dentro de um jeans azul escuro e uma camiseta branca. Sapatos de salto alto (sério, moleque, a mina já é alta, pra quê caralhos vai se enfiar num salto?) vermelho e óculos escuros da rayban (um modelo similar ao meu).

O cabelo descia como uma cascata laranja, e quando o sol batia praticamente refletia a luz toda, chamando a atenção de quem quer que fosse.

Digna de uma modelo de salão de Milão, daquelas que você vai parar pra ver a modelo e não o carro.

Dei uma respirada funda, e mesmo distante eu consegui pegar o cheiro do perfume dela.

Suspirei e olhei para Rino. A cara de desprezo dela beirava o indescritível.

- Oh Makino, bom dia! – falou meu pai – Né que conseguiu chegar direitinho aqui?

- Bom dia! Bem... não tem muita gente vindo pra essas bandas.

- Ora, ora – Rino falou – Para quê se dar ao trabalho de alugar um carro aqui? A cidade é bem pequena, ou não pode andar com esses sapatos?

Ruki virou pra voz. Tirou os óculos escuros, revelando os olhos claros.

- Não costumo falar com estranhos, mas respondendo sua pergunta: na realidade o carro é meu e eu prefiro dirigir quando venho para o sul. Assim eu posso passar em casa. – e a olhou de cima a baixo.

Rino pareceu inflamada, então me meti no meio.

- Olha só o que a Mirei me trouxe! Branca das Trevas! Essa é a Rino!

- Muito prazer. – Ruki se curvou de longe.

- E quem é você? – Rino rosnou.

- Makino Ruki. – Ruki respondeu, calma, quase inocente. – Sua namorada, Pedreiro de Templo?

- Não, não, imagina. Somos amigos, apenas.

Aquilo bastou pra Rino perder o controle e corar. As unhas delas quase entraram na carne da palma da mão.

- Vai ficar aqui em casa, Satanás Celta? – falei.

- Ah, não. Passei aqui pra dizer que vim recusar seu convite de ficar aqui, Eiichi-san. – olhou para meu pai – Tem um hotel perto do aeroporto, vou estar por lá.

- Entendi... Vem cá, tem algum motivo em especial pra você ter recusado? – meu pai perguntou.

Ela olhou de soslaio para Rino e eu.

- Se eu ficar o casal ali vai entrar em conflito, e eu já tenho problemas o suficiente pra resolver. Muito obrigada pelo convite. Ah, e vim entregar umas coisas que a Jun pediu.

Ela abriu o porta-malas, e pegou uma bolsa grande.

- Ela disse que iriamos precisar disso tudo pra essa campanha, e pediu pra que eu deixasse contigo. – e deixou a bolsa nas mãos de meu pai.

- Oh, beleza. Deve ser as referências. Valeu, Makino.

- Se precisar é só ligar. – e entrou no carro.

O motor gemeu de novo, e o carro maravilhoso foi embora.

Fiquei tão absorto vendo aquele carro ir embora que levou alguns segundos de meu pai gritando meu nome.

- RYOOOOOU! Acorda, cara! Me ajuda a levar essas coisas pra dentro!

- AH! Ah, claro. Rino, nos vemos depois. – e estiquei meu braço pra dar um tapiha no ombro dela, mas ela havia sumido.

Sem entender, fui ajudar meu pai.

ooOoo

- Desde quando você e a Rino estão namorando? – Meu pai perguntou, depois de fazer um chá.

- Não estamos.

- Oh.

- Acho que ela percebeu que a Rino estava no ponto de fazer escândalo e saiu deixando uma granadinha pra trás. – falei, meio revoltado.

- Eita.

- Eu odeio essa mulher, cara. Numa boa. – e bati minha testa na mesa.

- Cara, lida com isso, a boma é sua.

- EU SEI! O pior de tudo é a Rino, insistindo pra que eu namore com ela, mano. Eu não a vejo como uma namorada pra mim, por mais que eu tente! Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!

Respirei fundo.

- Essa mulher vai acabar me destruindo, pai. Na boa.

- Eu acho que você deveria ir conversar com a Rino e pedir desculpas por tudo.

- E por que tu acha que ela vai me ouvir?

- Porque eu apostei uma grana alta naquele bolão da Jun e eu me recuso a deixar a coreana ferrar meu esquema. – ele balançou a mão – até porque, Ryou, se a Rino não vai ser sua namorada ou coisa do tipo, você precisa impor isso, não?

- Sério mesmo?

- Claro.

Meu pai colocou o copo na pia e saiu, falando que precisava ir no mercado.

Fiquei bons cinco minutos e mastiguei mentalmente o que aconteceu nessa manhã.

Tomei coragem e mandei mensagem pra Rino, que levou pelo menos outros dez minutos para responder.

Perdi a paciência e liguei.

Depois de algumas vezes ela me atendeu.

- Alô?

ooOoo

- Me desculpa por hoje, Rino.

- Nah, tudo bem.

Eu consegui arrastar ela para um almoço.

Eu nunca fiquei tão embaraçado e me curvei tanto pra pedir desculpas pra ela.

- Mas é que... Sabe...

- Eu sei que não sou sua namorada ainda, beleza, mas aquela mulher... Ela me tira da calma sem fazer muito! – ela desabafou.

- Seja bem vinda à minha vida com ela, Rino. E... Espera.

Ela olhou para meu rosto.

- Cara, por favor, não. A gente-

- Ryou, a chance tá ai. Você vai deixar a vassoura ambulante bagunçar sua vida? Assim, desse jeito? Você sabe que eu jamais faria isso, estaria do seu lado para o bem e para o mal! – ela pegou na minha mão – Eu jamais iria fazer você se humilhar desse jeito.

Respirei fundo.

- Olha: eu não sou o cara pra você. Você me conhece melhor do que muita gente. Eu não estou te dando o toco porque quero ficar com ela, simplesmente acho que há pessoas melhores do que eu pra você. – suspirei – Eu gosto de você e eu sei que não posso te fazer feliz.

- Você está errado. Compleatemte errado! – ela estava levantando a voz – Eu não sou boa pra você por quê? Não sou ruiva? Não sou rica e famosa?

- Porque você não é um desafio pra ele, querida. Esse idiota aqui vive de adrenalina, e adora se gabar de títulos que ele conquistou. – falou Ruki.

Eu pulei da cadeira, e foi eu e cadeira pro chão. Rino ficou chocada demais e levou um minuto e meio pra se recuperar.

- Mas que diabos você tá fazendo aqui? Veio espionar minha rela-

- Não, fofa. Eu vim pra pedir pra vocês ficarem quietos, porque estão incomodando o pessoal aqui. – ela apontou pro resto do restaurante. – Arrumem um quarto pra resolver o problema de vocês, se for melhor, mas se forem ficar aqui então tratem de ficar quietos.

- Mas.. – eu falei.

- Recomponha-se. – ela estendeu a mão para mim – Por favor, ajam como japoneses civilizados, ou saiam. Tenho uma reunião acontecendo aqui e tá complicado conversar enquanto vocês debatem a vida privada de ambos quando ninguém aqui tá interessado em saber.

Agarrei a mão dela e me levantei, arrumando minha bagunça.

Ela se virou e saiu para o lado oposto e se sentou numa mesa com dois homens. Me virei e baixei a cabeça, de vergonha, querendo morrer a cada passo que ela dava e o salto ressonava na madeira do chão.

- Meu pai amado. Ela é...

- Ela tem atitude, de fato. – ela falou. – Vamos embora, vai? Isso foi demais pra mim.

Fui até o balcão e paguei a conta, e saímos de lá o quanto antes.

- Rino! – segurei o braço dela antes de ela ir embora. – Você quer terminar essa conversa na minha casa? Porque eu não quero ficar sem resolver isso.

- Eu...Acho que sim... – ela hesitou.

Dei espaço pra ela pensar e ver o que iria se decidir. No fim ela acabou entrando no meu carro e fomos para a minha casa.

Durante o trajeto ficamos calados. Mas dava pra ver que ambos estavam quase ligando pro Taichi e pedindo o brasão emprestado, porque foi algo bem complicado.

Quando chegamos em casa, meu pai não estava lá. Pedi pra ela se sentar no sofá, e fiz um café para nós dois.

- Bem...

- Olha, Rino. Por favor, eu realmente queria que você entedesse isso. Falo pro seu bem.

- Meu, acho que foi você que não entedeu: custa dar uma chance pra nós? Sério mesmo que você tá colocando toda sua vida na mão dela? Por qual preço? Por qual motivo?

- Rino, você não me entendeu! Não é por ela! Nada disso aqui é por ela! Sou eu! Cara, pelamor, Ruki até três semanas atrás era apenas uma lembrança da minha infância! Ela não têm nada a ver com a minha vida aqui em Kyushu!

- Cara, eu sou tão ruim assim?

- Pela ultima vez, Rino: eu te quero como minha amiga. Eu vou sempre te querer do meu lado pra sair comigo e tomar café ou te pedir conselho sobre como lidar com meus alunos ou coisa do tipo mas eu não consigo te ver como minha namorada! Não é pela sua aparência, é quem você é, é seus planos e sonhos, não são algo que eu consiga dar todo meu suporte! Pela ultima vez, entende isso! – despejei.

Quando dei por mim, ambos estavam chorando. Eu não queria magoar minha amiga, mas eu queria que ela entendesse de uma vez por todas. Meu corpo se moveu e eu a acabei por abraçar, e assim ficamos por meia hora ou coisa assim.

- Ainda seremos amigos? – perguntei, com os meus olhos inchados de tanto chorar.

- Ainda não sei. Preciso digerir isso. – ela respondeu, degastada pelo chororo.

- Entendo...

- Mas tem algo que eu gostaria de pedir.

- Oh... claro.

- Eu sei que é pedir demais, mas...

- "Mas"?

Ela respirou fundo, e levou uns minutos para conseguir dizer.

- Poderia me dar um beijo? Pelo menos uma vez eu gostaria de lembrar que eu fui desejada por você como mulher e não apenas como uma amiga de longa data.

Eu titubeei. Eu não sou de recusar mulher, e o meu passado amoroso tá lá como prova, mas eu me senti muito mal. Eu pensei por um bom cinco minutos antes de dar a resposta.

Respirei fundo.

- Você vai me prometer de que nunca mais vai me pedir isso.

- Eu prometo. – ela falou, resoluta.

Me aproximei e me inclinei, e fui o mais delicado que eu pude.

O que aconteceu, eu não sei explicar, mas eu perdi toda a concentração no mundo ao meu redor.

Mas quando eu me afastei, estava Ruki e meu pai, parados na porta, em silêncio.

Rino ficou vermelha e saiu correndo e chorando de minha casa. Ruki saiu do caminho dela, justamente pra Rino não esbarrar nela.

- Galera, eu posso explic-

- Não se preocupe, Akiyama – Ruki falou, inatingível – Não é como se você tivesse uma namorada e tivesse traído ela ou coisa do tipo.

- Mas...

- Am terminat asta ca jucăria ta, nu-i asa... – ela falou, num tom firme – Eiichi-san, me liga depois. Creio que podemos acertar os detalhes via telefone ou email... Pelo visto não vai ser uma boa ideia continuar o planejamento aqui.

E assim ela saiu, com o salto ressoando no assoalho, o suave barulho das chaves dela martelando e ecoando no meu coração.

Enfiei minha cabeça entre as pernas e chorei ainda mais. Meu pai resolveu não se meter por hora e me deixou sozinho.

ooOoo

Havia quatro dias no qual eu não ouvira uma palavra sequer de Ruki.

Todas as perguntas que eu fiz ao meu pai sobre ela, a resposta foi taciturna e simples. "Ah, tá tudo bem. Estamos bem ocupados com a campanha".

Eu estava começando a achar que estaria tudo bem, pois eu ainda tinha contato com Rino. Até que uma tarde, Ruki apareceu aqui em casa.

- Oh. Que surpresa.

- Eiichi-san está?

- Não.

- Ah beleza, volto depois, en-

- Não, por favor, fica um pouco. Ele foi no mercado, vai voltar logo.

Ela ponderou.

- Por favor. Eu quero conversar com você. – pedi com carinho.

- Certo...

Ela tirou o all star e entrou.

Ela ficou na sala, com uma postura reta digna da realeza de Elizabeth. Eu ofereci algumas coisas para ela, mas apenas um copo de água ela aceitou.

- Então, qual era o assunto?

- Bem, não ouvi falar de sua pessoa por um tempo, e fiquei me pergutando se estava tudo bem.

- Sim, está. Eu vou voltar pra casa amanhã de manhã, passei aqui pra ver se o Eiichi-san vai precisar que eu leve algo pra vaca da Jun.

Esse carinho para com a Jun me fascina. E muito.

- Bem, ele também não falou muito sobre a campanha aqui em casa, então nem posso te ajudar.

- Como se sua ajuda fosse lá grandes merdas, né...

Ri de escárnio.

- Amo quando você me trata assim, Satanás.

- E sua namorada, ela t-

- Não estamos namorando.

Ela levantou uma sombrancelha.

- Ah não?

- Não. Foi um fav-

- Não estou interessada na sua vida amorosa, Pedreiro, então poupe-me dos detalhes. – ela me cortou.

- Ah... Vi que ficou chateada, não...? – joguei verde.

- Bitch please, eu tava trabalhando! Tu achou mesmo que eu iria perder neurônio pensando naquilo? Meu tempo custa caro pra gastar com coisa mediocre assim.

Essa doeu.

- Nossa, valeu. – falei, desanimado.

Nessa hora meu pai entrou em casa.

- Cheguei, Ryou! Temos visitas? – ele gritou da porta.

- Sou eu, Eiichi-san. Ruki. – Ruki respondeu, animada.

- Ah, Ruki! Que prazer! Veio ameaçar o Ryou de morte antes de ir? – e apareceu na porta.

- Eu vou deixar isso pra namorada dele. – ela sorriu.

- Oh, falando na Rino, ela queria falar contigo e me pediu pra arrumar um encontro contigo.

- Eu?

- Ela? – fiquei surpreso.

- Assunto de mulher, Ryou. Ela deixou claro, era apenas a Ruki.

Fiquei apreensivo.

- Bem... Eu passei aqui pra saber se quer que eu leve algo pra Tóquio...

- Só aquelas referências que a Motomiya mandou, mas estão bagunçadas.

- Vamos fazer assim: eu vou agora falar com essa menina e ver o que ela tem pra me dizer e volto aqui depois, pode ser?

Meu coração bateu mais devagar.

- Pode ser. – disse meu pai.

- Bem, eu to indo, então. Volto daqui a pouco.

E ela se levantou e partiu. Meus reflexos falharam,porque eu queria segurar a mão dela e pedir para que ela não fosse.

Mas bem...Tarde demais.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

Freetalking: Depois de um hiato bem comprido, eu voltei.

E aqui, entre a gente? Eu estou aprendendo Romeno por causa da Ruki. Meti na cabeça podia falar Romeno porque ela tinha contratos naquelas bandas, e desde então estou sempre me dedicando a aprender um pouco mais da língua pra ficar o mais natural possível.

E bem... Nesse capítulo eu gastei um bom tempo pesquisando elementos pra fazer a fanfic ficar o mais realista possível. Calculei quanto tempo mais ou menos a Ruki levaria de Shinkuju até Kitakyushu de carro, pesquisei o carro dela (cara, me obriguei a dar algo foda pra ela, por que né? A quenga merece), revisei as frases que não estão em Português... Sim, trabalhei mais nisso, mas ficou algo bem bonitinho.

Eu vou focar pra terminar ela o quanto antes que assim eu posso fazer um arquivo PDF colocando algumas ilustrações que eu fiz/farei dessa fanfic, mais pra ficar algo bonitinho, já que está tão comprido quanto um livro.

Vejo vocês depois. Espero de coração de que tenha gostado desse chp.

Juny.