Folga maldita (parte 1)
▬ Bella ▬
Eu nunca agradeci tanto quando uma semana chegou ao fim. Parecia que a semana se arrastava e não terminaria nunca. Mas por sorte, era finalmente sexta feira. Tá, a semana ainda não acabou totalmente, mas as sextas eram sempre muito tranquilas, fora que era o dia que meu chefe me azucrinava pouco.
— Então você que é a Isabella? – assustei-me ao ver uma mulher extremamente baixa, de cabelos escuros que iam até seu ombro e corte repicado praticamente em cima de mim.
Sério, ela estava literalmente em cima da minha mesa, cara a cara comigo, tipo... a uns 5 centímetros do meu rosto.
— Se você não se importa, está invadindo meu espaço pessoal, sem ofensas – falei me afastando – Sim, sou Isabella, você quem é?
— Ah, você já deve ter ouvido falar muito de mim, sou Alice, prima do Edward – estendeu sua mão para mim empolgada.
Se é da família do meu chefe é claro que eu vou avaliar sua genética. Parei para observá-la. Ela tem a pele branca igual Nat, Edward e Rosalie, a diferença é que ela tem olhos castanhos... não, se fosse definir uma cor eu diria que ela tem olhos em um estranho tom de âmbar, cabelos castanho escuro, nariz fino, pequeno e arrebitado. Ela é comum.
Ok, a quem eu quero enganar? A filha da puta não tem a genética "ruiva dos olhos verdes", mas porra, ela é bonita. Caralho, vá se foder, será que todo mundo nessa merda de família é vencedor da porcaria da loteria genética? Vou ter que ter uma séria conversa com Charlie e Renée para questionar a ausência de genes bons deles. Isso é um absurdo.
Que ódio da família dele. Retribuí seu cumprimento apenas para não a deixar no vácuo.
— Na verdade eu nunca nem ouvi falar de você – ela fez um biquinho e pareceu que ia chorar – Não se ofenda, a empresa inteira entrou em combustão e a mente de todo mundo bugou quando descobrimos que Edward tem família. Ficou tudo mais louco quando a irmã e a filha começaram a aparecer aqui, o fato de ter alguém querendo por livre e espontânea vontade ficar perto dele pegou todo mundo de surpresa – sorri educada.
— Oh, mas que coisa mais malvada – ela colocou a mão no peito parecendo estar ofendida – Edward é um doce.
Sim, o próprio doce cagado pelo capeta.
— Certo – não iria discutir com a prima do cara que paga meu salário – Então Alice, eu vou anunciar a Edward sua chegada para que você possa ent... –
— Ah não bobinha – me interrompeu – Eu vim ver você.
Eu não quero ver você.
— Oi? – questionei confusa.
— Vim te conhecer. Nat fala muito bem de você e fiquei curiosa – a doida se sentou em cima da minha mesa ficando ainda mais perto e ficou me olhando com os olhos brilhando em expectativa – Me conte sobre você.
Ok isso é estranho.
— Meu nome é Isabella e eu trabalho pro seu primo, o que mais você quer saber de mim?
— Tudo. Seus gostos, o que faz nas horas vagas, você costuma ir muito ao shopping? Eu amo ir ao shopping, comprar é minha paixão – seus olhos brilhavam – Você se veste sempre assim? Seu cabelo é natural? A cor é bonita, mas o mais importante, você tem namorado? Se não tem, está procurando por um?
— Você tá me cantando? – perguntei confusa com suas perguntas – Porque se estiver, não tá fazendo direito, pelo contrário, está me assustando. Também tem o fato de que você não faz meu tipo.
— Qual é o seu tipo? – perguntou confusa.
Quem está confusa aqui sou eu.
— Homens, eles fazem muito o meu tipo.
— Ah legal, mas que tal homens ruivos de olhos verdes?
— Você tá me cantando ou não? Eu estou confusa.
— Não. Eu já sou casada – mostrou o anel que adornava seu anelar esquerdo – Jasper Whitlock é o nome do meu marido. Ele é uma graça – sorriu toda apaixonada. Eu vou vomitar – Mas então. você está solteira? Quer conhecer alguém? Responde mulher, eu tô curiosa.
Esse seria um bom momento pro tio Luci ali dentro gritar me chamando.
— Com licença, eu tenho que levar esses... – olhei a minha volta e vi uns papeis riscados que eu uso pra testar se a caneta está falhando e juntei eles em um bolo – Papeis pro seu primo assinar. Licencinha – sorri amarelo me levantando e praticamente correndo dali.
Abri a porta e entrei sem me importar em bater. Ele nunca responde mesmo.
— Você não bateu na porta, Isabella – como sempre, ele não desviou o olhar do computador para me olhar – O que quer aqui? Não lembro de ter te chamado.
— O inferno me persegue – murmurei para mim mesma.
— Seja mais específica ou volte e faça seu trabalho – falou ainda com os olhos presos ao computador.
Caminhei até ele e sentei na cadeira a sua frente, ele finalmente parou para me observar. Sorri amarelo pra ele.
— Então senhor Cullen... o senhor vem sempre aqui? – falei apenas para prolongar assunto.
É meio difícil dizer ao seu chefe que um parente dele estava me infernizando com suas perguntas totalmente descabidas. Meu –nada– querido chefe me olhava parecendo não estar nada contente em ter sido interrompido do seu trabalho. Tentei sorrir de forma mais honesta, mas na real, eu acho que saiu foi uma careta.
Seus olhos desviaram para o meu decote e isso me incomodou tipo... muito. Mas foi tão rápido e tão discreto que eu fiquei me perguntando se isso aconteceu mesmo ou se não foi impressão minha. Edward respirou fundo e seu olhar já era irritadiço novamente.
— O que quer Isabella?
— Então é que eu meio que estava aqui pensando... o senhor vem sempre por aqui?
— Que porra você quer Isabella? – perguntou impaciente.
Poxa, custava ser menos grosso?
— Acho que sua prima tá me cantando – falei de uma vez.
— O que? – perguntou sem entender – Você bebeu antes de vir trabalhar?
— Não mas tô começando a achar que eu devia ter bebido – confessei – Sua prima Alice, ela sentou na minha mesa, tá me perguntando coisas tipo "o que faz nas horas vagas?", "você tem namorado", "está interessada em ter um?" e coisas assim, ela tá me assustando, tira ela de lá – pedi em um gemido de frustração.
— E você tem? – o olhei sem entender sua pergunta.
— O que? – ele queria saber se eu tinha namorado ou entendi errado?
— Nada – balançou a cabeça e logo deu um sorriso – Você sobrevive, Alice é inofensiva. Agora saia da minha sala.
— Não por favor, tira ela de lá, tenho medo de ser aliciada pela fada demoníaca.
— Fada o que?
— Fada demoníaca, é que ela parece uma fada – 'e o demoníaca é porque todos da sua família são parentes do lúcifer, no caso você mesmo', completei mentalmente.
— Isabella, Alice sabe bem como perturbar, mas se você responder suas perguntas ela logo te deixa em paz. Volte, responda e vá fazer trabalho.
— Não quero – tá, eu estava fazendo birra – Por favor, eu já sou jogada no inferno todo dia quando tenho que vir trabalhar, apenas me dê abrigo aqui por uns minutos até ela ir embora.
— Ela não vai embora e se você demorar demais ela vai vir aqui – voltou seus olhos para o computador – Se você quer um conselho, eu aconselho a não demorar. Se ela vier aqui vai fazer você passar vergonha, vai ser muito pior, acredite.
— Que vergonhas ela me faria passar? – franzi o cenho em confusão.
— Ela vai questionar sua vida sexual e não vai parar até obter uma resposta bem embaraçosa. A sala é minha, daqui eu não vou sair para vocês conversarem, mas também não vou impedir Alice, ela me assusta – falou sério, mas eu pude ver o brilho de divertimento que surgiu em seu rosto.
Chefe dos infernos.
— Lúcifer de olhos verdes – murmurei baixinho, mas torcendo para que ele escutasse.
Saí de sua sala e fiz questão de bater a porta com bem força. Alice ainda estava sentada em minha mesa e abriu um largo sorriso ao me ver.
— Então, você não me respondeu – sua empolgação não ia embora nunca? – Você tem namorado ou está a fim de arranjar um?
Me ajuda Deus.
[...]
— Vejo que sobreviveu a Alice – meu chefe fez gracinha ao me ver jogada em minha cadeira girando e olhando pro teto – Você não está em um carrossel Isabella.
— Olha só, eu tive que responder até qual era a cor da calcinha que eu estou usando hoje, não estou pra gracinha senhor Cullen – respondi irritada – Sua prima me infernizou o quanto pôde, rodar nessa cadeira é quase um prêmio pra mim.
— Pois compre uma e rode em casa.
É moralmente aceito mostrar o dedo do meio pro seu chefe?
— Inferno – reclamei me ajeitando na cadeira.
Olhei para o relógio e só faltavam dez minutos para as cinco da tarde, tamborilei os dedos em minha mesa e perguntei o que eu nunca achei que fosse perguntar na vida.
— Que tal fazer hora extra hoje? – perguntei casualmente.
Tá, eu odiava fazer hora extra e sexta feira era meu dia sagrado pois nunca fazia hora extra nesse dia, mas já que eu dei um pé na bunda de Jacob ontem, eu não tenho muito o que fazer em casa, ia descansar pra que? Não ia transar no sábado então não tem nada que me impeça de me cansar até o cu rachar.
Meu chefe me olhou com uma sobrancelha arqueada. Um lampejo de sorriso pareceu se formar no rosto dele. Eu até cairia de amores por ele porque convenhamos, o filho da puta é gostoso pra caralho, mas daí eu lembro que quando ele abre a boca só me faz passar raiva, então isso me ajuda a quebrar o encanto.
— Você implorando pra fazer hora extra? – perguntou incrédulo.
— O fundo do poço chega para todos – dei de ombros e voltei pra minha missão de tamborilar os dedos na mesa – Mas e aí, nada de hora extra?
— Vá pra casa Isabella, aproveite sua sexta feira – falou simplesmente.
— A Nat exigiu sua presença em casa não foi? – não contive o riso ao ver que ele já estava com suas coisas e pronto pra ir embora.
— Sim – bufou irritado – Eu preciso arranjar uma babá pra ela, não posso sair cedo do trabalho todo dia. De qualquer forma, vá pra casa, vou te liberar dez minutos mais cedo hoje – falou conferindo algo no celular.
— Eu diria 'obrigada', mas pelo inferno que você me faz passar, esse é o mínimo que você poderia fazer por mim – sorri educada, mesmo sendo bem petulante.
— Vou ignorar isso para o seu próprio bem – ele correu a mão por seu cabelo o deixando mais bagunçado do que já estava – Por que não está arrumando suas coisas e correndo daqui?
— O sistema só abre para eu bater o ponto às 17h pontualmente – dei de ombros – Entre esperar dez minutos lá do lado da maquininha em pé e esperar aqui, sentada no ar condicionado eu prefiro ficar aqui.
— Então pra que você sai mais cedo nos outros dias?
— Ah, é pra ficar fofocando com a Jess, a Jane e a Ang, mas hoje eu estou exausta demais pra isso – rodei na minha cadeira uma vez apenas por birra – Você confia na Jane né? A chama pelo nome.
— Sim, ela é bem competente e apesar de ter medo de mim, sabe lidar com meu temperamento, merece ser chamada pelo nome – confessou – O resto das pessoas eu não faço ideia de como se chamam, então pra mim é todo mundo Ana.
Estranhei quando vi meu chefe puxando a cadeira em frente a minha mesa e se sentando em seguida. Que foi? Agora ele vai sentar aqui e vamos conversar que nem dois bffs como se ele não fizesse da minha vida diariamente um inferno? Decidi não me importar com isso. A empresa é dele, eu que não vou mandá-lo sair, seria dar como dar corda pra me enforcar e eu já estou enforcada demais pra qualquer coisa.
— Só quem não sofre com isso é quem se chama Ana. A empresa de fato tem duas Ana's – refleti – Devo assumir que você confia nelas também?
— Não. Elas são apenas coincidência – deu de ombros – Você não tem mais nada pra fazer da sua sexta feira? Querendo fazer hora extra hoje, isso é um bom indício de vida social destruída.
— Estamos com a língua ferina hoje senhor Cullen? – ironizei, ele riu e eu quis socar a cara dele por rir da minha desgraça – Eu sou uma piada pra você não sou?
— É sim, mas convenhamos, você faz uma piada de si mesma.
MEU CU.
— Obrigada, adoro seus elogios – eu estava pura ironia hoje – Mas você não pode falar muito de mim, sua vida social também não é nenhuma noite de Nova Iorque – revirei os olhos.
— Se é ou não é você não saberá.
— Tudo bem, eu tenho zero interesse nisso mesmo – dei de ombros.
Mas confesso, se a vida dele fosse um pouquinho mais agitadinha talvez ele me deixasse em paz. Ouvi a risada do meu chefe e me perguntei do que ele ria. Estou contando alguma piada por acaso?
— Tenha um bom final de semana, Isabella – disse gentil e se levantou para ir embora.
— Igualmente, mas se você puder sofrer, por favor, sofra – sorri.
— Tenho certeza que Natalie vai se certificar disso.
— Vou me certificar disso com ela também. Até mais ver senhor Cullen.
Ele simplesmente saiu e eu voltei a girar na minha cadeira. Ah sim, eu adoro girar aqui.
A tela do meu celular acendeu anunciando a chegada de um e-mail. Fui conferir e é claro que era do meu chefe, cogitei se devia abrir ou fingir que não vi a tempo, mas tava aqui, não estava fazendo nada, ia conferir.
De: edwardcullen
Para: bellaswan
Isso aqui não é playground, Isabella.
Olhei totalmente desacreditada para a tela do meu celular. Ele só pode estar me vigiando, não é possível.
VÁ PARA O INFERNO EDWARD CULLEN.
[...]
— Filha, são nove da manhã de um sábado – Renée reclamou se afundando em seus lençóis – Eu te amo, mas me deixa dormir coisinha. Vídeo chamada uma hora dessas? Saudades de quando você passava o sábado dando pro Jacob e me deixava dormir.
— Para mãe, você tem que me escutar – reclamei com ela.
— Filha, eu sei que você teve seu arranca-rabo com o Jacob, mas já que deu um pé na bunda dele... aproveite o dia de hoje pra fazer o que eu falei e saia de casa, vista uma minissaia, use um decote ousado, mostre um pouco de pele, vá arranjar uma outra piroca pra você se esfregar. Não tem ninguém em mente?
— Não né. Eu só conhecia o Jacob do sexo masculino. Passo a maior parte da semana trancafiada no escritório com meu chefe, isso não me dá muita abertura pra conhecer gente nova – reclamei – Minha vida está um desastre e eu não tenho nem 27 ainda.
— Então dê pro seu chefe – a olhei totalmente incrédula – Ele é um belo de um pedaço de mau caminho. Vá se esfregar no pau dele então.
— Por que a senhora não vai se esfregar no pau de Charlie? – revirei.
Ela fez uma careta de desgosto e me olhou aborrecida.
— Não dá nem pra comparar um negócio desses né querida?! Tenha bom senso.
— Pra mim dá no mesmo. Deus me livre. Eu nem consigo me imaginar tendo alguma coisa com aquele homem. Ele já inferniza minha vida profissional, não preciso dele infernizando minha vida pessoal também.
— Azar o seu, eu dava pra ele fácil, fácil. Se aquele homem pisca pra mim, Phil está solteiro – gargalhou, eu não ri nem um pouco – Bom, mas faça o que eu falei. Aproveite que você não tem porra nenhuma pra fazer do se sábado e saia de casa, mostre um pouco de pele, vá conhecer gente nova. Vá ser jovem filha, só não volte grávida, por favor.
— Vou tentar, mas é que eu meio que est... –
— Tchau filha, Phil acordou, eu vou transar agora, por favor não ligue mais hoje, vá sair e ver o mundo. Amo você – ela jogou um beijo e simplesmente encerrou a vídeo chamada.
Mas que absurdo. Minha mãe tem uma vida sexual mais ativa que a minha. Que inferno.
[...]
Quando já se aproximava das três da tarde eu decidi seguir o conselho de Renée. Estava a um passo de ligar para Jacob e dizer que ele poderia vir, mas fui mais forte e segui ignorando suas ligações, quando me irritaram eu bloqueei seu número. Para manter minha sanidade fui me arrumar para sair um pouco.
Ponderei bem sobre a roupa que usaria, eu já me vestia muito bem pra ir trabalhar, seguiria mais uma vez o conselho de Renée e mostraria um pouco de pele. Coloquei um short jeans preto, curto e apertado, um all star de cano médio e uma blusa branca. Não era decotada como ela orientou, mas também mostrava meu colo, confesso, talvez fosse um pouco transparente, mas era intencional.
Fui para o shopping Westlake Center e só quando já estava lá percebi o quanto era patético o fato de eu estar em um shopping sozinha, mas é o que temos pra hoje. Jane foi visitar os pais, Jess está ocupada demais na cama de Mike Newton, Ang foi ajudar a avó a fazer bolo, ela até me chamou, mas era tédio demais pra mim.
Em resumo, eu sobrei, por isso quase perdoo o imbecil do Jake, mas ainda não estava tão louca assim. Almocei no shopping irritada pois estava sozinha e eu sempre tinha a impressão que as pessoas olhavam pra mim com pena. O poço que estou só fica cada vez mais fundo.
Decidi que estava sendo pouco patética em passar o dia no shopping sozinha e pra ser mais patética ainda, escolhi ir ao cinema. Iria sozinha, sim, acompanhada infelizmente jamais. Fiquei olhando para os cartazes em exibição, de cara descartei os romances. Eu não precisava ir assistir um filme de romance, sozinha e triste. Então vi os de terror, descartei também, eu moro sozinha, não preciso sentir medo da minha sombra e pulei pros de ação, hm... eu queria assistir um filme de ação? Meu celular vibrou interrompendo meu conflito interno.
Nat filhinha do demo
16:19 pm
"oi bella, onde vc ta?"
Curiosa essa garotinha né?! Mas vou responder porque pra sorte dela... eu gostei dela.
Bella Swan
16:19 pm
"to no Westlake center, vim ver um filme"
Nat filhinha do demo
16:20 pm
"sozinha? Que deprimente"
Bella Swan
16:20 pm
"vai ficar me tombando filha do cão?!"
Nat filhinha do demo
16:21 pm
"estressada sabe do que isso é falta? Já sabe né? Kkkkkkkk
To ai perto me espera ai no cinema vou assistir com você, talvez eu demore um poquuinho"
Bom, pelo menos sozinha eu não assisto mais. Continuei olhando os filmes em cartaz, decidi que assistiria Aladdin e não, não é por causa da Nat, é por minha causa mesmo. A Disney é a dona e proprietária de todo meu dinheiro.
Comprei meu ingresso e fui pra fila comprar minha pipoca, será que eu queria refrigerante? Isso dá celulite, mas... eu não estou mais transando com ninguém então foda-se. Me possuam celulites. Vou tomar um copo de 1L de coca cola se tiver.
— HEY BELLA – ouvi a voz de Nat gritando meu nome e logo em seguida um choque de algo se chocando contra meu corpo.
Era Natalie que se jogou em meus braços me abraçando empolgada. Retribuí seu abraço com a mesma empolgação a rodando em meus braços.
— E aí filhotinha do demo, conseguiu se livrar do capeta hoje? – perguntei enquanto ainda a abraçava.
— Não hoje, quem sabe outro dia – ouvi uma voz conhecida.
Ai puta que pariu. Fechei os olhos e respirei fundo.
— Ele tá atrás de mim não está? – perguntei em um sussurro a Nat que riu. Filha da mãe.
— E ouviu cada palavra do que disse – confirmou.
Bom, eu vou fingir demência. Para todos os efeitos, eu nunca disse nada.
— Olá senhor Cullen, boa tarde – o cumprimentei como se nada tivesse acontecido.
Criei coragem do cu para olhá-lo. Ele tinha um sorriso debochado no rosto. Notei que usava uma calça jeans escura justa, tênis preto e uma camisa branca gola V que marcava todo seu peito definido e evidenciava a largura de seus ombros. Aliás, ele tem roupa assim? Sempre imaginei que ele só tivesse terno e gravata, mas porra, ou o cara tava gostoso ou eu que estava carente por hoje ser dia de sexo e não ter sexo.
Em resumo: bonitinho, mas ordinário.
— Boa tarde senhorita Swan – respondeu debochadíssimo.
Eu volto pra aquela pergunta... é politicamente correto mostrar o dedo pro seu chefe?
— Qual filme você vai assistir Bella? – por sorte Natalie quebrou o silêncio no qual eu estava imersa.
— Aladdin – respondi.
— Pai, eu já me decidi, eu quero ver Aladdin – a pirralha tomou meu ingresso da minha mão – Aqui, compra o meu do lado do assento da Bella, quero sentar com ela. Onde você vai sentar eu não sei, mas eu quero sentar com a Bella – entregou a ele meu ingresso.
Ele não disse nada, apenas pegou o ingresso, olhou meu assento e me devolveu em seguida. Olhei para a demo filha e estreitei os olhos pra ela.
— Você originalmente não vinha ao cinema, vinha? – questionei a garotinha que abriu um grande e encapetado sorriso no rosto.
— Não sei do que você está falando – fingiu que não era com ela – Meu pai perguntou o que eu queria fazer. Eu disse que queria vir ao cinema.
— Mentirosa – acusei – Você demorou que só pra chegar. Deu tempo de eu escolher qual filme eu ia assistir e olha que eu demoro pra porra escolhendo alguma coisa – ela riu mais ainda.
— Olha sua ingrata, não reclama, eu estava longe daqui sabia? Fiz meu pai dirigir que nem um louco só pra chegar aqui a tempo – ela puxou o celular da bolsa e digitou alguma coisa nele, sorrindo em seguida.
Esse celular dela me causa inveja só de olhar. Sem contar que é maior que a garota, pelo amor de Deus, é algo tipo 'Olha, lá vem o Iphone segurando a Nat pela mão'. Jesus.
— Eu reclamo sim. Já é castigo suficiente olhar pra cara do seu pai durante a semana, na minha folga eu quero paz, quero distância – bufei irritada – Trabalho pra ele há quase três anos e sempre consegui evitar de encontrar ele fora da empresa. Vem a diaba filha e faz eu encontrar. Que absurdo.
— Para de reclamar Bella – a coisinha revirou os olhos – Ele é um gato. Um colírio pros olhos, dá um bom caldo.
— Minha vista não tá cansada pra precisar de descanso.
— Se não precisasse não estaria num sábado vindo sozinha pra um cinema.
Ai. Essa doeu. A pirralha tem a língua ferina.
— Touché, filha do puto – óbvio que como eu sou uma piada a pirralha apenas gargalhou.
Edward voltou em seguida com os ingressos nas mãos. Claro que ele comprou o dele com o assento ao lado da filha. Triste, eu estava mesmo com esperança que ele procurasse outro lugar pra sentar.
Natalie recusou pipoca ou qualquer outra coisa, meu chefe não comprou nada pra ele. Olhei para o balde de pipoca em minhas mãos e para minha bebida, espero do fundo do meu coração que ninguém me peça nada pois eu não disposta a dividir minha comida.
Quando entramos na sala do cinema, ainda não tinha começado nem a passar os trailers. Fiquei imersa em pensamentos... eu devo oferecer minha pipoca? Seria mal educado da minha parte eu não oferecer? Se for mal educado, é muito ou pouco? Se for pouco eu posso conviver. Sério, será que eles vão querer minha pipoca? Eu não quero dividir, mas a pipoca eu divido, o refrigerante não, não quero ninguém babando na minha bebida.
— E essa cara de bunda que você tá fazendo? – Nat me tirou dos meus pensamentos – Tá pensando no meu pai? Eu estaria pensando nele se não fosse filha dele.
Eca. Que garota nojenta.
— Eu vou te ignorar pois estou imersa em pensamentos realmente importantes aqui – respondi voltando a minha linha de raciocínio.
Devo oferecer?
— Vou ao banheiro, já volto – Nat simplesmente levantou e saiu dali praticamente pulando por cima das pessoas.
Ótimo. Agora eu ia ficar sozinha com meu chefe. Se eu não falar nada talvez ele nem perceba que eu estou aqui.
Nenhum dos dois falou nada e eu estava super agradecida por isso. Por incrível que pareça, a sessão estava praticamente vazia, o que era bom, eu podia curtir meu filme sem um monte de criança interrompendo. Aproveitei que ainda não tinha começado o filme e peguei meu celular da bolsa.
Nat filhinha do demo
17:13 pm
"desisti de ver o filme, tia rose veio me buscar, cuida bem do meu paizinho pra mim ta bom? Ele é meu bem mais precioso. Falo com você depois bells"
Ordinária. Era tudo que eu conseguia pensar. Filha da mãe ordinária. Ta bom, ela é uma criança... mas uma criança bem ordinária.
— Ih, sua filha te deu cano – sabe Deus porque eu comentei isso com meu chefe.
Ele se virou pra me olhar e parecia não entender do que eu falava. Virei o celular para lhe mostrar a mensagem que ela havia me enviado e de repente ele tinha seu cenho franzido e bom, não parecia confusão e sim irritação.
— Eu vou ignorar o fato que você salvou o número da minha filha como 'Nat filhinha do demo'.
Eu tenho que parar de ser pega no pulo. Senhor.
— Deixa de ser indelicado senhor Cullen, quando alguém lhe mostrar algo no celular você deve olhar só pra aquilo e nada mais – tentei disfarçar – Que coisa feia.
Tenho que lembrar de comprar óleo de peroba. Tá na hora de dar brilho nessa minha cara de pau.
— Para de me chamar de senhor Cullen, não estamos na empresa Isabella, ouvir isso o tempo todo é irritante – reclamou.
— E quer que eu te chame do que? Chefe? – ironizei.
— Edward. Eu um tenho nome Isabella, e é Edward – respondeu ranzinza.
— Tá bom então, Edward— ironizei mais um pouco ao pronunciar seu nome.
— Mas me responde uma coisa – se virou pra me olhar – Aquela droga de apelido "Lúcifer de olhos verdes", foi você que inventou não foi?
Tive que prender uma risada. Eu não confessaria isso. Seria suicídio.
— Eu não sei do que você está falando – me fiz de desentendida.
— Eu sei que foi você Isabella. A questão é, por que? Eu sou tão chato assim? Pode ser honesta – pediu.
Pode ser honesta o caramba. Ele acha que eu vou cair nessa? Nem fodendo. Pra depois ele me demitir vai ser um tapa.
— Veja bem, Edward – me virei sentando de lado para ficar de frente pra ele – Você está me pedindo pra falar mal do meu chefe, pro meu chefe, na cara do meu chefe – enumerei nos dedos essas três coisas – Assim você me fode toda né parceiro? – ele deu uma risadinha que foi maliciosa demais pro meu gosto.
Repeti mentalmente o que eu havia falado e não percebi nada que pudesse ter algum duplo sentido ou soar malicioso. Ele deve estar é perturbado. Ele tem a alma atribulada. Coitado.
— Certo. Então devo presumir que alguém aleatório e que não trabalha diretamente comigo pensou no apelido?
— Sim, essas coisas acontecem. Até hoje me chamam de "A assistente do Satã". Algumas coisas ficam marcadas – dei de ombros.
— Assistente do Satã? – repetiu meio incrédulo – Essa machucou um pouco. Deixa-me ver, isso tem cara de Jane, estou errado?
Está certíssimo, mas claro que não seria eu a confessar isso.
— Assim você põe palavras em minha boca, Edward – percebi que o olhar de Edward recaiu sobre meus lábios.
Não sei se por instinto ou por pura provocação, mas lambi meu lábio inferior o umedecendo. Seu olhar continuava fixo ali e por alguma razão eu achava isso engraçado e interessante ao mesmo tempo. Ele abriu a boca pra falar alguma coisa, mas foi bem na hora que as luzes se apagaram e os trailers começaram a passar na tela.
— Oh, se quiser conversar a hora é agora. Eu nunca assisto aos trailers, mas quando começar o filme, se você ficar falando eu vou ficar puta – falei.
— Por que você não assiste aos trailers?
— Porque eu paguei pra assistir ao filme, não aos trailers – respondi – Não é óbvio?
— Mas já vem no pacote. Não aproveitar é um desperdício de dinheiro.
— Ah pronto – revirei os olhos – Dá licença? O dinheiro é meu. Desperdiço como eu bem entender.
— Tem razão. O dinheiro é seu, mas se você não cuida bem de suas questões financeiras, então voc... –
— Edward, eu sou administradora, não contadora – o cortei.
Tudo que eu não precisava era meu chefe querendo ditar como eu tinha que gastar meu dinheiro.
— Tem razão – concordou e eu sorri vitoriosa – Mas convenhamos, se você não é um pouco dos dois você não é uma pessoa muito competente – meu sorriso sumiu.
— Você tá mesmo me chamando de incompetente na minha cara? – me controla Deus, se não eu meto a mão na cara desse homem.
— Talvez essa tenha sido uma infeliz escolha de palavras, vamos substituir pro 'imprudente'.
— Pra mim o sentido é o mesmo – dei de ombros enfiando um punhado de pipocas na boca.
— Não vai me oferecer sua pipoca, Isabella? – questionou com um sorriso.
— Não, você não me ofereceu sua canja – coloquei um punhado de pipocas na boca – Eu guardo rancor – respondi de boca cheia.
— Tudo bem, eu só queria ver o que responderia – sorriu – Mas me diga, por que veio a um cinema sozinha em pleno sábado? Isso é um pouco triste, não acha?
Acho, mas o que ele ia fazer? Ficar jogando na minha cara minha situação deprimente?
— Você não está muito diferente não. Olha onde está, em uma sessão pra assistir Aladdin – retruquei o fazendo rir.
— Bom, é verdade. Mas eu vim com minha filha. Se ela me abandonou e preferiu minha irmã é outra história, mas originalmente eu vim com ela.
Merda. Eu que estava na merda mesmo.
— Então. o que te trás sozinha ao cinema para assistir Aladdin por escolha própria? Onde está a pessoa que te enviou as flores que 'realmente importam'?
— Ciúmes, por acaso? – provoquei.
— Um pouco chateado talvez, mas ciúmes não – deu de ombros – Mas então. Onde está a pessoa das flores?
Ponderei bem. Tenho intimidade com meu chefe pra contar um negócio desses? Com toda certeza NÃO. É prudente ter esse tipo de intimidade? Também não. Me sinto a vontade falando esse tipo de coisa pra ele? Não. É humilhante contar que fui engana por quase 3 anos? Muito. Avaliando tudo isso, não é nada prudente da minha parte abrir a boca pra falar um 'ai' que seja.
— Dei um chute na bunda dele – como meu chefe disse, eu não era a pessoa mais prudente do mundo.
— O que houve? – questionou parecendo interessado.
— Quer saber? Não vou criar caso. Eu estou mesmo precisando desabafar sobre isso – me ajeitei na cadeira em que estava sentando por cima das minhas pernas – Eu estava saindo com um cara acho que tinha o que... uns 2 anos e uns 6 meses, por aí, pode ser mais ou menos tempo. Ele é bem legal e tudo mais, mas eu tenho pouco tempo pois meu chefe faz questão de me explorar até a alma – Edward revirou os olhos quando falei, mas ignorei. Ele que perguntou, ele que aguente – Eu sabia que ele trabalhava na Black's, mas enfim, indo direto ao assunto, acabar que ele era nada mais nada menos que advinha? – ele arqueou uma sobrancelha parecendo puramente entediado – Jacob Black.
Sua boca se abriu em surpresa e ele pareceu realmente surpreso ao ouvir isso. Franziu o cenho em confusão e por um momento não parecia acreditar no que eu falava.
— Jacob Black, o diretor executivo da Black's? – perguntou surpreso – Aquele que eu pedi pra você ligar pra agendar a reunião comigo?
— Sim. Você acredita num negócio desses? – bufei irritada – Se você não mandasse eu ligar e falar diretamente com ele eu nunca descobriria. Sério? Você consegue imaginar um negócio desses?
— Nunca nem passou pela minha cabeça. Isso é realmente algo surpreendente – falou totalmente surpreso – Mas por que terminou com ele? Pelo que entendi vocês namoravam há algum tempo.
— Nunca de fato namoramos, como eu disse, não tenho tempo pra relacionamentos sérios – expliquei – Mas na real, eu fiquei bem chateada por ele não ter sido sincero comigo, eu até ia perdoar ele, de verdade, até porque eu não achei que foi tão grave assim, mas juro pra você, meu sangue ferveu inteiro quando ele abriu a boca pra falar – pigarreei pra ajudar em minha dramatização – "Eu queria ter certeza que você estava comigo porque gostava de mim e não do meu dinheiro. Você tinha que merecer minha confiança" – imitei fajutamente uma voz masculina – Me poupe, ele que mentiu pra mim e eu que tinha que merecer confiança? Meu cu pra ele.
Edward não disse nada, ficou em silêncio esperando que eu continuasse. Respirei um pouco para me acalmar e logo continuei.
— Sabe, eu até entendo ele fazer isso no começo, questão de autopreservação. Eu respeito isso, de verdade, mas porra, quase três anos depois, aí já é demais. Acho que já deu tempo suficiente pra ele me conhecer e perceber que eu não sou assim, isso foi o que mais me chateou, pois me senti realmente muito ofendida. O que ele achou? Que eu ia pegar o dinheiro dele e viver pra gastar? Que eu ia pedir pra ele me comprar um barco? Diamantes? Ah me poupe. Eu trabalho, tenho minha casa, meu carro, sou muito bem resolvida na vida. Eu ganho bem, não tão bem como vocês, claro, mas para os meus padrões de vida, eu sou quase uma milionária. Eu não consigo nem gastar todo meu salário, quem dirá gastar o dinheiro dos outros – reclamei num fôlego só.
Eu precisava desabafar, pôr isso pra fora.
— Entendo seu lado – falou após perceber que eu não continuaria falando – Concordo que é um tempo considerável e que deu tempo de conhecer a pessoa com quem você está. Creio que honestidade seja um fator importante em um relacionamento, mesmo que este não tenha sido oficialmente oficializado – comentou – Mas... se você não gasta seu salário, o que faz com ele? – perguntou com genuína curiosidade.
— Eu tiro apenas o suficiente para pagar a fatura do meu apartamento, carro, minhas contas básicas e fazer meu rancho mensal, de vez em quando me dou a certos luxos tipo pedir comida em casa ou sair... tipo hoje que vim aqui, mas no geral, isso não dá nem 4 mil, então o resto eu ponho tudo em uma poupança – respondi com um largo sorriso ao perceber que eu não era tão imprudente assim com meu dinheiro.
— E o que pretende fazer com esse dinheiro na poupança?
— Não faço nem ideia. É o dinheiro que sobra e eu não tenho com o que gastar. Meus pais se sustentam, não precisam de ajuda financeira e bom, eu não tenho filhos, então... – dei de ombros
— O surpreendente é que isso é muito sábio, não esperava isso vindo de você – comentou.
Decidi ignorar, continuaria a desabafar.
— Então para não voltar atrás da minha decisão e ligar para Jake o chamando para ir até minha casa, ouvi os conselhos da minha mãe e saí de casa. Ela me disse pra mostrar um pouco de pele – estiquei as pernas as olhando enquanto exibia meus palmitinhos finos e brancos.
Quando levantei o olhar, Edward olhava descaradamente para minhas pernas, a sala estava escura, mas posso jurar ter visto um certo brilho de desejo em seu olhar. Apenas para confirmar, passei a mão por minha perna, desde meus joelhos até minha coxa onde começava meu short e seu olhar acompanhou todo esse movimento.
Não vou mentir, Edward era um dos homens mais atraentes que já vi na vida, uma personalidade bem escrotinha, mas sua aparência física era realmente de tirar o fôlego e como eu estava recém solteira, mesmo que eu tinha tivesse de fato namorado com Jacob, ele era meu cara fixo, ainda era bom sentir que conseguia atrair pra mim a atenção de homem desse. Atrair a atenção de um homem sexy como ele é realmente um elevador subindo para a minha autoestima, mas ele ainda é meu chefe e isso ainda era estranho.
— Tá bom, já pode tirar os olhos da minha perna – baixei minha perna, mas rindo internamente.
Edward balançou a cabeça parecendo sair do transe e me olhou com um sorriso nos lábios no qual eu não consegui identificar.
— Achei que você quisesse mostrar um pouco de pele – falou naturalmente com a voz calma.
Ainda bem que a sala estava escura pois eu sentia meu rosto esquentando e não era de raiva.
— Outra hora eu mostro mais – só quando Edward me olhou com a sobrancelha arqueada e um sorriso divertido nos lábios que eu percebi o que havia falado.
Eu vou apenas fazer o que eu faço de melhor que é fingir que não é comigo. Para todos os efeitos, eu não falei nada.
