Folga maldita (parte 2)

▬ Bella ▬

— Quer parar? – perguntei olhando irritada para o meu chefe.

Ele já havia pulado da poltrona que estava para a poltrona que Nat deveria estar ocupando –que inclusive é do meu lado e perto demais– se ela não tivesse sido uma fuleirinha e ido embora. Bufava irritado a cada vez que um dos personagens começava a cantar. Isso cortava a vibe do meu sonzinho e eu não conseguia curtir bem o filme.

— É meio difícil não se irritar, eles cantam a cada 30 segundos – jogou a cabeça para trás apoiando-a no encosto da poltrona que ocupava – O filme não tem nem 30 minutos e já cantaram umas cinco músicas. Eu estou isso aqui – fez um sinal de 'pouco' com as mãos – De morrer bem aqui.

— Então morre logo – resmunguei ranzinza – Era o sol que me faltava – agora quem bufou irritada fui eu – Quer vir assistir filme da Disney e não quer que tenha musical? – revirei os olhos – E você está aqui porque quer, Nat te abandonou há tempos, já podia ter ido embora.

— Depois do seu relato eu meio que fiquei com pena de te deixar aqui sozinha – falou encarando o teto – Ah, e não vamos esquecer que Nat te designou a missão de cuidar de mim – falou com certa ironia na voz.

Meu Deus. Meu chefe é uma criança mimada e eu sou a babá.

— Estamos sonhadores hoje, Edward? – ironizei – Agora se for ficar, fica quieto, estou curtindo meu filme e você tá cortando minha vibe.

— Por que tem uma mancha roxa na sua coxa? – perguntou aparentando estar preocupado.

Ele não tava olhando pro teto? O que os olhos dele faziam na minha coxa?

— Eu sou desprovida de coordenação motora – respondi sem tirar os olhos da tela onde passava o filme – De vez em quando eu me bato nas quinas da mesa da sala que eu trabalho.

— Aquele barulho não é de você derrubando alguma coisa? – perguntou alarmado.

Seu dedo foi parar em cima da mancha roxa em minha perna e aí quem ficou alarmada fui eu. Amigo, quer parar de ficar alisando minha perna? Eu estou sem sexo num dia que eu devia estar transando e ter uma mão masculina em mim não ajuda.

— Achei que o "puta que pariu, mesa filha da puta" que eu tento abafar, mas sei que grito alto, já fossem suficientes pra indicar que eu não derrubei nada – dei de ombros dando um tapa em sua mão para que a tirasse dali, o filho da mãe apenas riu – Agora para de olhar para as minhas pernas e presta atenção no filme.

— Achei que você queria mostrar um pouco de pele.

NÃO PRA VOCÊ.

— No momento apenas meter a mão na cara de alguém se esse alguém não me deixar assistir meu filme – resmunguei irritada.

Tenho que ter uma séria conversinha com Natalie. Aquela pequena ordinariazinha ainda vai se ver comigo.

[...]

— Filme infinito da porra – meu chefe reclamou assim que a sessão terminou e saímos do cinema – Achei que não ia terminar nunca.

— Eu também achei que você não fosse parar de reclamar nunca, infelizmente você não parou e ainda tá aqui reclamando até agora – revirei os olhos.

Achei que ele fosse falar alguma coisa, mas quando me virei de frente pra ele seu olhar caiu – descaradamente – em meus seios. Tá, eu sei que vim com uma blusa branca e transparente usando sutiã de renda, queria atrair olhares sim, mas não os olhares do meu chefe. Isso é estranho. Não vou mentir, talvez um pouco excitante, mas ainda sim estranho. É mais estranho ainda que ele olha descaradamente.

— Meu rosto é aqui em cima, senhor Cullen— ironizei o chamando como chamo no trabalho.

— Eu sei, estava vendo que você está cheia de pipoca por baixo da blusa – olhei pra baixo constatando que realmente, parecia que eu tinha preenchido meu sutiã com pipoca. Que vergonha – Devia aprender a comer em público, senhorita Swan— sorriu debochado.

— Eu vou atrás de um milkshake – e um buraco pra me enterrar.

Girei em meus calcanhares para longe dali sem me importar se ele viria atrás ou não e na real, eu esperava que ele não viesse, mas como nada acontece como eu espero, ele veio.

— Sua aparência fica melhor com olhos e cabelos castanhos – comentou ao meu lado – Você ficava realmente horrível com aquela combinação medonha de cabelo loiro e olhos verdes assustadores.

— Com relação a minha autoestima, você não está ajudando – reclamei.

— Nem mentindo – deu de ombros.

Para não meter a mão na cara dele, eu apenas ignorei. Pedi meu milkshake e pedi um grande de morango com Nutella, depois da raiva que já passei até aqui, eu mereço uma boa dose de calorias pra acordar amanhã me amaldiçoando por ter comido tanta besteira e procurar gorduras em minha barriga na frente do espelho.

— Você sai de casa e consome só isso? – critiquei ao ver que ele havia pedido apenas uma água mineral.

— Eu sou intolerante a lactose e talvez eu não me dê muito bem com glúten também. Minhas opções são um pouco limitadas.

— Que vida mais triste – tomei um pouco do meu milkshake entupido de lactose do jeito que eu amo – Isso explica porque é tão rabugento. Não pode comer nada... ei, uma vez eu te dei um croissant.

— Isso não quer dizer que eu fui muito sábio em escolher comer isso.

"Espero que tenha te dado diarreia". Sorri mentalmente com esse pensamento.

— Acho que eu devo levar algo para Natalie comer também – refletiu – Ela não gosta muito de hambúrguer, acho que vou levar pizza.

— Você pode comer pizza?

— Não devia, mas quando como eu compro sem queijo e tem que ser daquelas com a massa extremamente fina.

— Sua vida é tão triste – tomei mais um pouco do meu milkshake agradecendo aos céus por eu poder desfrutar dessa maravilha – Eu se fosse você compraria comida, na sua casa não tem nada – ele riu.

— Por que as pessoas insistem em dizer isso? Natalie diz que sente falta de uma refeição "de verdade" – fez aspas com as mãos pra essa última parte – Achei que o sonho americano de toda criança era comer besteira no jantar.

— Edward, eu já fui na sua casa. Só tinha água e sua geladeira é de enfeite. Crie vergonha na cara e passe em um supermercado e compre algo pra sua filha comer. Um homem de 30 anos que não tem criança mas não tem comida em casa é deprimente.

— 35 – o olhei confusa – Eu tenho 35.

— Credo, pior ainda, devia ter me deixado pensar que tem 30 – fiz uma careta – Vamos.

— Pra onde?

— Pra sua sorte eu estou sem absolutamente nada pra fazer e gosto muito da Nat, vou te levar em um supermercado e você compra nem que seja um chocolate pra ela ter o que comer quando estiver em casa – não esperei por sua resposta, apenas segui em direção ao estacionamento.

Eu estava cada vez mais no fundo do poço mesmo. Como se já não bastasse ser explorada até a alma por meu chefe de segunda a sexta, ainda estava aqui em um sábado me voluntariando de livre e espontânea vontade a ir fazer compras de supermercado com meu chefe. A que ponto minha vida chegou.

[...]

— Eu não posso comer isso – Edward falou enquanto eu olhava para um pacote de macarrão penne em minhas mãos.

— Mas eu estou zero preocupada com sua alimentação Edward, você é grande, você que se vire, estamos aqui pra Nat ter o que comer – o ignorei e continuei olhando qual seria a melhor marca do macarrão – Alias, ela tem intolerância a alguma coisa?

— Não. Ela come de tudo – respondeu.

— Ótimo, alguém tinha que ter sorte – coloquei o que considerei ser o melhor macarrão no carrinho que Edward empurrava – Além de uma babá recomendo contratar uma cozinheira também. Alguém tem que cozinhar isso e eu realmente não acho que você saiba sequer fritar um ovo.

Meu chefe nada respondeu, apenas me olhou com cara de poucos amigos, cara essa que eu já me acostumei. Saí colocando várias comidas e besteiras no carrinho, confesso que algumas coisas eu coloquei da marca mais cara apenas pra ele pagar caro, sei lá, era minha pequena vingança.

[...]

— Se quando eu me virar você estiver olhando pra minha bunda eu vou ficar irritada – falei enquanto estava inclinada com a cara praticamente enfiada dentro do freezer para pegar alguns nuggets.

— Eu não estava olhando pra nada – respondeu com uma risada abafada.

Ah tá. Ele espera mesmo que eu acredite que eu estava praticamente de bunda pra cima e ele não estava olhando? Ainda mais depois de eu o pegar várias vezes me secando descaradamente e eu estando de mini short? Tá foda coleguinha.

— Uma mulher sempre sabe quando estão olhando pra ela Edward. Sabe aqueles um segundo que você olha pro decote de uma mulher e jura que não deu tempo de reparar? Então, uma mulher repara sim – falei pegando três caixas dos nuggets e jogando de qualquer jeito no carrinho.

— Se você diz – fez pouco caso.

Passamos pela sessão de vinhos e decidi que levarias alguns pra mim, se eu desse sorte essa noite eu iria ter um coma alcoólico enquanto assistia filmes sobre o dia dos namorados e me lamentando por estar sozinha.

Estava olhando os vinhos e o que eu queria estava em uma prateleira que eu não alcanço, mas também era orgulhosa demais para pedir que Edward pegasse pra mim, então fiquei apenas encarando a garrafa esperando que um milagre acontecesse e ela viesse parar em minhas mãos.

— Você quer que eu pegue pra você? – Edward disse após eu estar a um tempo olhando a maldita garrafa.

— Não, eu consigo – respondi e continuei só olhando a garrafa.

— Tem certeza? Eu realmente acho que ela não vai vir magicamente para suas mãos.

— Já falei que eu consigo – bufei irritada.

Ele nada respondeu, cruzou os braços e ficou me olhando com puro deboche estampado em seu rosto. Estreitei os olhos pra ele e estava decidida a pegar a porcaria da garrafa dali. Merda de genética ruim que me fez ser baixa.

Eu não vi outra alternativa a não ser escalar as prateleiras, sendo assim, me apoiei firme e pisei na primeira prateleira subindo e ficando um pouco mais alto.

— Isso é ridículo – Edward falou impaciente.

Ignorei completamente, meu orgulho estava falando mais alto. Apoiei meu pé na prateleira acima da que eu estava pendurava e senti ela tremer um pouco, isso me alarmou, mas não me intimidou. Pisei na terceira prateleira, com as mãos trêmulas busquei apoio, mas tudo que consegui foi segurar em uma garrafa e esta quase foi ao chão, só não foi ao chão porque Edward segurou a garrafa antes e colocou em uma prateleira qualquer.

— Tá bom, chega, para de dar show – senti suas mãos me segurarem pela cintura e me puxarem pra longe da prateleira – Uma coisa é você fazer birra outra é tentar virar uma estante cheia de garrafas de vidro em você. Como eu digo, se for morrer, por favor, morra longe da minha responsabilidade.

Claro que eu ignorei o que ele disse. O problema é que eu não consegui ignorar suas mãos em minha cintura. Ele sempre teve mãos grandes assim ou eu que nunca percebi? Segurava minha cintura com força, com firmeza e isso me fez perder as palavras por um tempo, até o ar que respiro abandonou meus pulmões. Eu só conseguia pensar 'porra que mãos grandes, elas devem fazer maravilhas'

Quando ele me colocou no chão, eu estava de costas pra ele, mas consegui sentir cada centímetro do seu corpo colado ao meu. Diga-se de passagem... que corpo. Eu sempre reparei que meu chefe era alto e tinha um corpo legal, mas nem nos meus piores pesadelos (ou sonhos, vai do seu ponto de vista né?! É do tio Luci que estamos falando) tinha imaginado como era estar com seu corpo tão próximo assim do meu.

Pude sentir cada músculo e cada centímetro do corpo de Edward. Por um momento de loucura instantânea, imaginei como seria estar em baixo do seu corpo em uma situação que envolvia um total de zero roupas.

Balancei a cabeça aturdida pra tirar esses pensamentos da cabeça. Eu hein, era tudo fruto da falta de sexo. Hoje eu devia estar transando com Jacob e como não estou, a abstinência está me dominando.

Sendo assim... isso faz de mim uma cadela no cio? Se sim, eu devia estar me esfregando as coisas agora, não devia?

— Pega – saí do transe com Edward me entregando a maldita garrafa de vinho que eu tentava pegar antes disso tudo.

— Não pedi sua ajuda – reclamei, mas peguei a garrafa colocando no carrinho – Intrometido.

Edward deu uma risadinha baixa e veio andando atrás de mim. Meu corpo inteiro ficou em alerta quando ele me conduziu apoiando uma mão na base da minha costa. Quis pedir para ele tirar a mão daí porque não dei intimidade, mas estava aqui curtindo meu cio com a mão dele ai.

[...]

— Tô entediada, fala alguma coisa interessante sobre você – pedi quando estávamos na fila para pagar as compras.

Ele franziu o cenho e me olhou confuso.

— O que você quer saber sobre mim que ainda não sabe? – revirei os olhos pra sua pergunta.

— Se eu soubesse eu não estaria perguntando – resmunguei ranzinza e ele gargalhou como se eu tivesse dito algo engraçado.

Acho que Nat tem razão, a falta de sexo está me deixando estressada.

— Não sei o que falar – ele pensou um pouco – Já cheguei a comentar que Rosalie e eu somos gêmeos?

— Gêmeos? – perguntei incrédula, ele assentiu concordando – Por favor me diz que vocês são só do signo de gêmeos.

— Isso também, nascemos em junho, mas somos gêmeos mesmo. Sabe? Da mesma gestação.

— Meu cu – exclamei, ele me olhou sem entender – Você está me dizendo que aquela mulher perfeita, de corpo perfeito tem 35 anos? – ele assentiu novamente – Eu pareço ser mais velha que ela, achei que ela tinha uns 23 anos.

— Rosalie é duas horas mais nova. Ela sempre fez Esme sofrer, até na hora do parto que inclusive, nascemos de parto normal.

— Olha, o que eu vou falar agora, não quero que leve pro lado pessoal – refleti melhor – Bom, você eu até quero, mas sua família não mas... Eu quero que você e sua família de genes perfeitos vão se foder. Puta que pariu, vão ter uma genética assim na casa do caramba.

— Você é sempre boca suja assim? – arqueou uma sobrancelha me encarando divertido.

— Meu cu pro mundo inteiro, eu estou revoltada e você não pode me julgar, você fala palavrão no trabalho, eu só penso. Você já está todo errado, Cullen.

Ele apenas riu, deve estar achando que eu sou louca... talvez eu seja mesmo. Senti meu celular vibrando em minha bolsa, peguei para ver quem era e na tela apareceu o nome 'Jake '. Bufei irritada, eu preciso tirar esse coração do contato dele. Ia apertar em rejeitar a ligação, mas daí refleti melhor, tá, ele não mentiu, só me escondeu um detalhe um pouco grande, mas isso era mesmo motivo para eu o dar um pé na bunda, mandar ele ir pastar e dizer pra ele não olhar mais na minha cara ou não me ligar mais?

Agora eu já não sei mais se eu fui exagerada ou não, mas acho que não. Desisti de fazer birra e ia atender sua ligação, mas antes que eu pudesse fazer isso, Edward tomou o celular da minha mão o guardou no bolso em seguida. Olhei pra ele sem acreditar no que ele havia feito. Mas quem deu essa intimidade toda pra ele?

— Você vai me agradecer por isso um dia – falou piscando pra mim.

Senti meu olho esquerdo tremer de raiva. Agora além de mandar em mim no trabalho ele vai querer mandar na minha vida pessoal também?

— Me devolve esse telefone agora – ordenei.

— Não – respondeu simplesmente.

Eu vou matar esse homem gente.

— Me devolve essa porra agora, Edward.

Ele me encarou por uns segundos depois pegou o celular me entregando em seguida.

— Como quiser – seu tom era de puro deboche – Mas tenha um pouco de amor próprio Isabella. O cara mentiu por omissão e ainda quis virar o jogo pra ele com um ridículo "queria saber se você não estava comigo pelo meu dinheiro". Pelo que contou, isso durou mais de dois anos e meio, a confiança dele em você está oh, divina.

Fiquei olhando pra ele e pro meu celular em suas mãos. Se eu tivesse levado um tapa na cara teria doído um pouco menos. Merda, o Lúcifer de olhos verdes tem razão, eu preciso mesmo ter um pouco de amor próprio.

— Guarda essa porcaria aí no seu bolso – falei irritada virando o rosto para o outro lado, mas ainda o vi sorrindo vitorioso.

Tio Luci 1 x Bella 0.

[...]

— Eu só posso estar muito no fundo do poço mesmo – reclamei quando chegamos a tal sorveteria que vendia sorvetes sem lactose – Eu não parei de dizer não durante todo o caminho, como eu vim parar aqui?

— Você é muito chata quando quer – falou com um sorriso irritante no rosto.

Eu sou chata? Repeti um milhão de vezes que não queria vir e ainda sim ele me arrastou e eu que sou chata? Meu cu. Se bem que eu estava no meu carro, então podia ter desviado caminho. Meu Deus, eu sou MUITO tapada... e burra. Ou burra e tapada são a mesma coisa? Sobressaltei de susto ao sentir meu celular vibrando em meu bolso. Sim, na vinda pra cá o recuperei, segundo Edward eu poderia precisar.

Nat filhinha do demo

21:37 pm

"oi amiga, ainda estou MUITO ocupada com as tias rose e alice, vc pode cuidar do meu paizinho mais um pouco? Obrigada te amo de nada"

Bella Swan

21:38 pm

"olha aqui sua pequena alma atribulada, pode deixar de graça e ir pra casa ficar com seu pai, tira esse homem da minha cola"

Nat filhinha do demo

21:38 pm

"bella se vai mentir pra alguém por que mente pra vc mesma? Eu sei que vc quer o corpo cansado do meu paizinho, se ele não fosse meu pai eu tbm ia querer, so aproveita essa perfeição da natureza que ele é, ele ta solteiríssimo sua boba"

— Sua filha tem sérios problemas – falei guardando o celular.

Seria constrangedor demais se ele visse as besteiras que a filha de 10 anos mandou. Ou será que Rosalie ou Alice que digitaram essa mensagem? Não, isso é uma ideia fantasiosa demais... não é?

— Ela tem uma personalidade forte e uma mente... única, digamos assim – concordou.

Porra nenhuma. Personalidade forte tenho eu, ela tem uma personalidade estranha. Claro que eu não diria isso né, ele ainda é meu chefe e ele ainda inferniza minha vida, pode infernizar mais se eu provocar. Falar mal da cria do satã manifestado não me parece muito prudente e olha que eu nem sou referência pra 'pessoa prudente'.

— Vai querer de qual sabor? – perguntou me tirando dos meus pensamentos.

Grudei os olhos na vitrine de sorvetes me apoiando nela. Eram tantos sabores. Cranberry, blueberry, morango, uva, melancia, abacate, limão, pêssego... como alguém espera que eu vá me decidir com tantas opções? Posso misturar os sabores ou devo pedir só de um? Mas não tem lactose, se for ruim eu vou ter que comer do mesmo jeito porque me recuso a estragar alimento. Será que Edward teria uma crise de gases ou diarreia se comesse o sorvete tradicional? Eu ia achar bem feito se tivesse.

— Moça – a atendente chamou minha atenção – Você não pode se apoiar na vitrine – ela apontou pra uma placa gigantesca que tinha ali dizendo exatamente isso.

Sorri sem graça e me afastei, ao meu lado, Edward prendia uma risada.

— Você sabia não sabia? – estreitei os olhos pra ele.

— Sim, mas eu queria ver se iam chamar sua atenção.

Filho da puta.

– Qualquer dia desses, eu vou cuspir no seu café e não vou te falar – ameacei.

Edward gargalhou, mas quem vai gargalhar vai ser eu quando ele tomar café com meu cuspe.

[...]

— É ruim sim – reclamei quando ele afirmou que era bom.

— É igual ao tradicional. Lactose é só um tipo de açúcar, Isabella – revirou os olhos pra mim.

Sério? Eu sempre achei que fosse um ingrediente que era adicionado a comida.

— Esse açúcar faz toda diferença no sabor.

Tá. Não era ruim, esse sorvete era até bem gostosinho, mas eu ia admitir isso pra ele? Não ia.

Pedi de blueberry com melancia e uva, é inusitado, mas eu gostei. Demorei quase trinta minutos pra escolher esses sabores e só não demorei mais pois meu chefe estava impaciente ao meu lado me apressando pra escolher logo. Ele escolheu de morango com cranberry.

— Eu gosto do de frutas vermelhas – comentei.

— Por que você não pediu esse então?

— Não sei, só lembrei agora que gostava – dei de ombros.

— O que você costuma fazer aos sábados? – sua pergunta me pegou de surpresa. Devo ser honesta?

— Transar – merda, fui honesta.

Era pra eu só pensar isso. Sorri totalmente sem graça, Edward me olhava com a sobrancelha arqueada e uma grande interrogação estampada na cara. Merda.

— Quer dizer – tentei disfarçar – Eu me encontrava com Jake aos sábados, não tenho muito tempo durante a semana.

— Por que não?

Ah jura? Agora ele quer fazer a sonsa? Vai fingir que não inferniza minha vida, querida?

— Porque meu chefe consome muito do meu tempo – confessei – Não que eu esteja reclamando. Que conste nos registros por aí que eu amo meu trabalho – mentira, eu só quero que ele não me demita – Amo com todo meu coração.

— Não precisa forçar, sua encenação está exagerada – sorri amarelo pra ele.

— Eu gosto de margaridas – mudei de assunto.

— Aquelas flores brancas que tem em cemitério? – fez uma careta – Você tem um gosto estranho.

— Quer parar de se desfazer das flores? Elas têm seu charme – reclamei enquanto colocava uma colher de sorvete na boca – Vem cá, você nunca falou mais que o necessário comigo, por que está falando agora? – questionei curiosa mudando novamente de assunto.

— Se eu for completamente honesto, sua aparência me assustava – fiz minha melhor cara de cu, ele riu – Sério, ficava a coisa mais medonha que eu já vi, isso me dava um pouco de medo e ficava um pouco incomodado só de olhar, mas acho que o que deixava assim eram seus olhos, eram tão...

— Artificiais?

— Tá mais pra medonhos.

— Obrigada, você é sempre um amor – ironizei.

— Mas seus olhos ficam bonitos assim, naturais, eu nem te reconheci quando você chegou no escritório com cabelos e olhos castanhos. Pareceu outra pessoa.

— Eu me sinto outra pessoa, tinha esquecido como era minha aparência natural – sorri orgulhosa – Mas mudando de assunto – peguei meu celular abrindo o aplicativo de música – Eu vou por uma música e você vai dizer qual é a música, quero ver se a Nat te treinou pra ser um fanboy da Disney ou se você é poser.

— Sabe que eu não vou responder e vou apenas ficar olhando pra sua cara pensando o quão desequilibrada você é, não sabe?

— Eu acabei de dar um chute na bunda do meu boy fixo, eu devia estar em casa ficando bêbada com aquele vinho que eu comprei e provavelmente chorando em uma vídeo chamada com minha mãe, você me roubou essa diversão e me arrastou até aqui, vai mesmo se recusar a jogar esse jogo comigo? – fiz manha.

— Vou sim – respondeu sério – Eu tenho uma filha de 10 anos, se eu consigo dizer não pra ela tão facilmente, pra você é que eu não vou ter dificuldade.

GROSSO.

Ignorei o que ele disse e liguei em uma música da Taylor Swift.

— Qual é essa música? – óbvio que ele me ignorou. Troquei e coloquei uma dos Jonas Brothers – E essa? – mais silêncio – Não? Tá bom – ia desistir, mas coloquei outra, coloquei uma da Demi Lovato – E essa, conhece?

Ele continuou me olhando com a melhor cara de cu dele, seríssimo e parecendo que queria me matar, já ia desistir da brincadeira, mas algo totalmente inesperado aconteceu, Edward cantou, mesmo que baixinho¸ parte da música que estava tocando.

But you make me wanna act like a girl, paint my nails and wear high heels (Mas você me faz querer agir como uma garota, pintar minhas unhas e usar salto alto) – o olhei totalmente atônita e não aguentei explodindo em uma gargalhada.

— O que foi que aconteceu aqui? – perguntei enxugando uma lágrima que escorria pelo canto do meu olho de tanto que eu ri.

— Nat já infernizou muito minha vida com essa música dos infernos – riu – Quando lançou ela tinha 4 anos, ouvia sem parar, ela me fazia cantar essa maldita música pra ela o tempo todo. Quando acordava, antes de dormir, quando a dava banho, quando a levava pra escola, quando estávamos no carro, quando ela tinha pesadelo. Eu sei a letra dessa música de cor e salteado – gargalhei mais ainda – O mais vergonhoso é que eu até gosto dessa música.

— Esse foi o momento mais aleatório de TODA a minha vida – afirmei – Canta de novo.

— Nem fodendo, uma vez já foi bem vergonhoso – falou sério.

— Você é muito estranho Edward, acho que você é mesmo uma alma atribulada. Parece ser um bom pai, talvez não sofra tanto quando chegar no inferno.

— Sabe, eu sempre achei que o inferno é mal organizado – refletiu – Acho que algumas pessoas deveriam sofrer mais que outras, se eu for pro inferno, espero que tenha um setor com um SAC por lá, essa vai ser uma das reclamações que eu vou fazer – minha boca se abriu em um perfeito 'O' e eu nem conseguia acreditar no que estava ouvindo – O que? – perguntou confuso ao ver minha expressão de choque/surpresa/perplexidade.

— Oh meu Deus – levei a mão a boca pra abafar um grito – Isso que eu falei no meu primeiro ano na empresa. Que você quando chegasse ao inferno já ia chegar reclamando, que ia dizer que o inferno estava mal organizado e que o Lúcifer era um incompetente, que já ia chegar lá você mesmo organizando tudo, pondo ordem no lugar e que nem o capeta ia te querer por lá – gargalhei.

— Pra quem tem medo de ser demitida, você tem zero filtros – respondeu ranzinza.

Isso era bem verdade, mas já estava aqui, já estava na linha de fogo e talvez na forca, vou exagerar mais um pouco.

— Por que você me inferniza tanto minha vida no trabalho? – perguntei curiosa – Tá bom que as vezes eu dou algumas mancadas, mas puta merda hein, a maior parte do tempo eu quero meter a mão na sua cara.

— Eu infernizo a vida de todo mundo, Isabella – respondeu indiferente – Você só deu o azar de trabalhar diretamente comigo. Inclusive, estamos conversando aqui, mas segunda-feira vou continuar te "infernizando a vida" – respondeu com uma certa ironia explícita ao falar a última parte.

— Que você inferniza a vida de todo mundo isso está óbvio, não precisa nem comentar, mas... Abusando da minha falta de bom senso, prudência e filtros... pra que? Qual a necessidade disso? – chutei o pau da barraca e perguntei logo.

Sempre quis saber isso.

— Se eu não for assim, as pessoas tendem a achar que porque o chefe é 'legal' podem relaxar em seus trabalhos, aí quem perde é a empresa – ajeitou sua postura na cadeira, franziu o cenho e fez uma expressão pensativa – O ser humano é sequelado, se você der um pouco mais de abertura tentam se aproveitar da sua boa vontade, não sabem separar o profissional do pessoal e isso é o principal motivo no qual algumas empresas são mais bem sucedidas que outras. A Cullen Enterprises & Co. não é a mais bem sucedida dos Estados Unidos a toa. Se eu fosse legal com todo mundo o tempo todo, talvez não estivesse no patamar que está hoje.

— Jesus Cristo – exclamei triste – Eu estou falando de trabalho, no meu dia de folga, que coisa mais deprimente.

— Você não prestou atenção em nada do que eu falei?

— Infelizmente prestei e é por isso que eu estou triste, pois estamos falando de trabalho, num sábado a noite, em uma sorveteria de sorvete sem lactose. Esse poço tem muitos níveis de profundidade.

— Você é estranha e eu não acho que tem 100% de sua sanidade mental.

— Pelo menos 50% foi destruído graças a você, querido chefe – sorri irônica.

Pela cara que ele fez, acho que tá bom de eu começar a usar alguns filtros, ele ainda é o cara que pode ou me demitir ou infernizar minha vida. Nunca se sabe qual opção ele vai escolher... ou qual é a pior.

▬ Natalie ▬

— Tá bom pirralha, me conta – tia Rose dizia enquanto tentava, sem sucesso, fazer uma trança em meu cabelo – Qual é a sua com a Bella? Até onde eu saiba, você infernizava toda e qualquer mulher que chegasse perto do seu querido 'paizinho'. O que ela tem de especial pra você fazer tudo isso e me meter nisso? Não que eu reclame, amo me meter na vida do Ed, é meu hobby favorito, mas quero saber.

— Não sei – dei de ombros – Quando eu olhei pra ela eu simplesmente pensei "é ela, tenho certeza que ela vai conseguir fazer meu pai feliz", sem contar que ela é bem legal, eu gosto dela.

— Agora me conta, Edward te contou que gostava dela ou ela te contou que gostava dele? – tia Alice perguntava empolgada.

— Eu acho que nem eles descobriram isso ainda – as duas me olhavam com o cenho franzido – Mas se eu ajudar tenho certeza que logo vão descobrir.

— Pera aí garota, você me disse que seu pai estava caindo de amores pela Bella – sorri amarelo pra tia Rose.

Talvez eu tivesse exagerado um pouco nas minhas palavras.

— Ele foi escolher as flores dela pessoalmente, supervisionou a montagem do arranjo das flores e ele mesmo escolheu o cartão que mandou pra ela. Eu o vi no escritório dele, ele ia assinar o cartão de aniversário que deu pra ela, mas desistiu de última hora e mandou sem escrever nada – expliquei – Eu sinto no meu coração que eles vão dar certo juntos.

— Você está me dizendo que eu fiz um interrogatório pesadíssimo com a Isabella apenas porque você sentiu "algo no seu coração"? – tia Alice perguntou incrédula e eu apenas assenti. Ela levantou, pegou uma almofada e tacou em mim – Isso podia ter sido só gases sua pirralha – sentou na cama bufando irritada – Poxa, eu achei mesmo que agora ele ia amolecer aquele coração de pedra dele.

— Eles foram pro cinema juntos hoje... –

— Você quis dizer que forçou um encontro e largou eles lá – a tia loira respondeu com puro deboche.

— Isso é o de menos, o que importa é que eles ainda estão juntos até agora, foram até fazer compras num supermercado e agora estão naquela sorveteria que o papai sempre vai – as duas me olharam de olhos arregalados.

— Sua pequena mentirosa. Assim você vai pro inferno e quando chegar lá quem vai te atormentar vai ser seu 'paizinho' – tia Alice me mostrou língua.

— É sim tia, olha – mostrei a elas a mensagem que meu pai enviou dizendo que iria demorar pois estava indo a sorveteria com a Bella – Eu sabia que só precisava de um pouco de incentivo pra ele se soltar.

— Eu tô bege – tia Alice falou tomando o celular das minhas mãos e relendo a mensagem.

— Nat meu amor, eu sempre confiei em você, nunca duvidei da sua mente distorcida – tia Rose deixou um beijo molhado em meu rosto. Nojo – O que faremos agora?

— Eu já mandei mensagem pra Bella que ia demorar com vocês e falei pra ela cuidar do meu pai pra mim – sorri – Espero que ela tenha entendido meu recado.

— Ela me disse que não estava atrás de um namorado – disse tia Alice cabisbaixa – Talvez o Edward não tenha muitas chances.

— Você é estranha baixinha, acho que só assustou a garota com seu jeito elétrico ligado no 220.

— Concordo com a tia Rose – afirmei.

Tia Alice nos mostrou o dedo médio nos fazendo rir.

— Agora vamos esperar né – me joguei de costas na cama – E vocês duas, nada de irem questionar nele. Vocês são duas caçadoras e meu pai é como uma gazela sendo caçada, se assustar ele foge.

— Nada de pressionar o Ed na parede e perguntar se ele deu uns beijinhos na Bella?

— Nada de ir perguntar se ele já molhou o biscoitinho?

As duas perguntaram tristes e fazendo beicinho. Deus, a criança sou eu, mas as duas conseguem ser mais crianças ainda. São duas amadoras mesmo, elas ainda têm muito o que aprender comigo.

▬ Bella ▬

— Está entregue senhorita Swan— meu chefe disse assim que parei na porta do meu apartamento.

Ele fez questão de vir me deixar na minha porta dizendo que "queria garantir que eu chegaria inteira para ir trabalhar na segunda". Achei desnecessário já que ele veio no carro dele e eu no meu, isso foi no mínimo estranho e mais desnecessário ainda ele subir até aqui. Olhei pra cara dele e quis revirar os olhos, mas já fiz tanto isso essa noite que meu globo ocular já está dolorido e eu vou precisar deles para fuxicar a vida das Kardashians mais tarde no instagram, ou será que eu vou fuxicar se Jacob já não arranjou outra pra me substituir? Pensando bem nada me impede de fazer os dois.

— Certo – concordei, ficamos nos olhando e aquilo estava estranho – Oh Professor Girafales, não gostaria de entrar e tomar uma xícara de café – brinquei apenas para quebrar o clima.

Edward me olhou com o cenho franzido e pareceu não entender nada do que eu tinha dito.

— Eu não sou professor e você vai tomar café uma hora dessas, sério? – perguntou confuso.

— Você nunca assistiu Chaves?

— Você perdeu suas Chaves?

Do que esse homem tá falando?

— Esquece – não aguentei, tive que revirar os olhos – Você não quer pelo menos um copo de água antes de ir embora? – perguntei por educação, por favor, recuse e vá embora, estou exausta.

— Tudo bem – concordou.

Merda.

Girei a chave na porta a abrindo e entrando em seguida, Edward entrou atrás de mim e pareceu olhar o local com curiosidade. Se ele começar a criticar minha casa, eu juro que ponho ele pra fora a base da vassourada.

Minha sala era ampla, mas eu era um pouco compulsiva com flores de pelúcia, por conta disso, a decoração da minha sala era abarrotada de diversas dessas pelúcias em formato de flores, tipo, em todos os lugares mesmo, do teto ao chão. Resumindo...

— Talvez eu seja um pouco acumuladora – falei ao perceber que ele observava a decoração da sala – Mas eu gosto, ainda quero comprar um puff de flores.

Ele apenas assentiu, não respondeu nada. Ótimo, assim não critica nada.

— Vou buscar sua água, sinta-se em casa – falei e fui direto pra cozinha buscar sua água.

— Quadro legal – ele gritou da sala e ouvi sua risada.

Estranhei, mas logo percebi que ele poderia estar se referindo a um quadro enorme que eu tenho na parede da sala no qual diz "Sinta-se em casa, mas lembre-se que você não está". Sorri, espero que ele leve isso ao pé da letra, esse é o objetivo.

Bebi um pouco de água e levei sua a em seguida. Me joguei no sofá ao seu lado e agradeci a todos os deuses por estar finalmente em casa. Alisei meu sofá e só conseguia pensar "te amo meu sofá querido, você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida depois da minha cama".

— Daqui a pouco esse sofá registra uma queixa contra você por aliciamento – a voz do meu chefe interrompeu meu momento de carícias com meu sofá.

— Ele não faria isso comigo – respondi passando ainda mais a mão pelo confortável móvel – Ele me ama e é recíproco.

— Percebi isso.

Tá bom, você já bebeu sua água, pode ir embora. Quero tomar banho e ir futricar a vida dos outros no instagram. Tenho que pesquisar na internet 'como fazer a visita entender que já tá na hora de ir embora'.

Me espreguicei no sofá e estiquei as pernas as apoiando na mesinha de centro que fica em frente ao sofá. Eu não olhei para Edward, mas sentia seu olhar queimando em minhas pernas. Mas sim, ele vai passar a noite toda olhando pra elas?

— Minha canela já é fina, se continuar secando elas assim vão ficar mais finas ainda – comentei ainda sem o olhar.

— Vamos fazer o teste então, eu olho mais um pouco e você diz se sentiu alguma diferença – riu.

Era pra ser engraçado? Porque eu achei bem tosco na verdade.

— Antes minhas pernas do que meus peitos, eles já são pequenininhos demais pra diminuírem mais ainda – falei sem pensar.

Edward não falou nada, mas ouvi a risadinha que ele deu. Merda, será que ele está olhando pros meus peitos agora? Acho que esse é um bom momento para eu começar a ter filtros. Se bem que esse "bom momento" já aconteceu faz é tempo.

— Por que você foi trabalhar na Cullen Enterprises? – perguntou mudando de assunto e mentalmente eu soltei um grande 'aleluia' por isso – Tenho certeza que minha fama já é bem consolidada no mercado.

Gargalhei.

— Você? Com alguma fama de péssimo chefe? Magina amigo – ironizei e ganhei uma cara feia como resposta – Porque eu estava muito desesperada – falei entre risadas – Eu tinha acabado de me formar e estava com medo de não conseguir mais nenhum emprego porque ninguém me contratar. O desespero tomou conta de mim. Fiquei com medo de virar pedinte na rua, ter que vender meu corpo e ser enterrada como indigente caso não arranjasse um emprego – admiti.

— Que pensamento mais... absurdo – falou abafando uma risada.

— Tem também o fato que eu não sabia da sua fama de demônio manifestado – ri – Mas eu devia ter desconfiado disso quando fui fazer a entrevista e vi que só quem apareceu fui eu. Acho que ali eu devia ter tido um indício que algo de errado não estava certo. Jane nem quis me entrevistar, só disse que eu estava contratada, quando eu disse que ela nem tinha me entrevistado ela me fez olhar pra uma câmera e dizer que eu aceitava de livre e espontânea vontade trabalhar pra você – refleti melhor sobre aquele dia – Acho que esse era outro indício.

— Demônio manifestado? – repetiu incrédulo, eu ignorei.

Se ele soubesse que esse é apenas um dos muitos nomes que ele tem.

— No dia que apareci na sua sala foi porque Jane literalmente me empurrou lá pra dentro dizendo "que Deus te ajude". Quando você começou a gritar comigo assim que olhou pra mim, meu Deus, eu quase me borro toda – dessa vez Edward foi quem gargalhou pendendo a cabeça pra trás em uma risada gostosa de ouvir – No final da daquele dia eu fui pro banheiro e chorei como um bezerro desmamado. Esse foi o dia que eu descobri o , desde então uma vez por semana eu ponho seu nome lá – ops, informação demais.

— ? – me olhou com uma expressão de incredulidade.

— Sim – apontei para mim – Usuária premium, prazer.

— Alguma das suas macumbas online já deu certo alguma vez?

— Claro, óbvio e evidente que não. Você já viu o diabo armando contra ele mesmo?

— E ainda sim você continuou trabalhando pra mim?

— Sim, eu precisava do emprego. Ninguém trabalha porque quer coleguinha. Os boletos chegam para todos – afirmei – Mas olha, teve uma vez que eu cheguei no meu limite. Foi quando eu peguei todos os papeis que consegui juntar nos braços e invadi sua sala tacando todos na sua cara. Aquele dia foi libertador – confessei – Mas daí você se recusou a assinar minha demissão, depois eu até achei bom. Seria cansativo procurar outro emprego, aí decidi arriscar em continuar te aturando. Sabe, as vezes se você não se arriscar a fazer algumas coisas, você nunca vai saber o que poderia ter acontecido, acabar que eu aprendi muito na empresa, aprendo até hoje, tirando a parte que você me inferniza, eu até gosto do meu trabalho – Edward parecia pensativo.

Será que exagerei nas palavras?

— Esse negócio de arriscar que você falou – falou após um tempo em silêncio – É sábio, o mais estranho é que eu não espero esse tipo de coisa vindo de você – riu e dessa vez quem olhou pra ele de cara feia foi eu – Mas você tem razão, as vezes é bom tomar alguns riscos.

— Eu sempre tenho raz... – fui interrompida de continuar falando pois antes de poder concluir o que falava senti os lábios de Edward nos meus.

Meu corpo inteiro estava imóvel com a surpresa em sentir sua boca na minha.

Minha mente inteira girava ao redor de um único pensamento: 'Que merda que está acontecendo aqui?'.