—O tempo abriu um pouco. - Sypha falava com a boca cheia de pão.
—Ahã. - Trevor mastigava uma cenoura, já de olho em outra.
—E acho que devíamos dar uma volta. Comprar mais comida. Ver a paisagem.
Ele repetiu o som de concordância por trás da caneca de vinho.
—Não é como se fosse acabar hoje. - Alucard limpou a boca num guardanapo de pano. - Posso diminuir, também. Não preciso de tanto.
—Não parece que está exagerando. - Sypha passou manteiga em mais pão.
—Estou. Tenho comido desse tanto por celebração.
—Quem diria. Feliz em ter visitas. - Trevor atirou uma maçã ao alto e foi rápido o bastante para espetá-la com a faca.
—É uma eventualidade, e gosto de ver a casa funcionar. - Alucard ficou de pé e recolheu o prato. - Está descontente? Pode dormir no bosque. Também temos excelentes celas no porão e torres geladas da melhor pedra…
—Falando nisso, posso ver o laboratório qualquer hora dessas? - Sypha terminava o pão.
—Eu os levo lá. Espero fornecer uma boa visita, apesar das vidrarias em falta. - Alucard espiou pela janela perto da pia. - Quanto tempo leva até Sohodol?
—Uma hora e meia ou duas. - Trevor limpava as unhas com a ponta da faca. - Sem chuva como agora, se faz rápido.
Vai ser bom, creio. Alucard prendeu o cabelo outra vez. Não fazia ideia de há quanto tempo não deixava o castelo; meses, talvez? Ainda mais num dia de sol. Aguardou os outros dois na sala de estar onde passara a noite lendo com Sypha. Remexendo nas prateleiras, encontrou um encadernado vazio e olhou longamente para ele. Talvez… Pousou a mão no queixo. Vou levar.
—Por que estamos saindo da estrada, mesmo? - Trevor caminhava com as mãos atrás da cabeça. É cada ideia.
—Porque quero mostrar uma coisa. Ali, venham.
Alucard escolhera uma árvore que se destacava, cercada por poucas outras. Levitou até alcançar o galho, de onde se dependurava uma estrutura de madeira e fibra.
—Fiz no verão. Vamos ver se demos sorte.
—O que é? - Sypha perguntou.
—Uma colmeia. As abelhas a deixaram com a chuva, e é nosso, se não estiver molhado ou cheio de formigas. - Abriu a parte de baixo, esperançoso. - E… Vejam só.
Do lado de dentro, havia favos abandonados e limpos, e Alucard trouxe toda a peça quando aterrissou.
—É muito grande para que levemos tudo, mas um pedaço ou outro há de caber na bagagem.
—À sacola de mantimentos, então. - Trevor começou a descarregar os pertences até encontrar um canto. A sacola era menos caótica sem toda a comida.
Aguardaram enquanto se entendia com os favos; soprava uma brisa. Alucard ergueu a cabeça.
—Sentem esse cheiro?
—Que cheiro? - Perguntaram ao mesmo tempo.
Ele os guiou para ainda mais longe da estrada e mais para dentro do bosque, desviando das raízes e galhos. Trevor e Sypha vieram atrás. Difícil acompanhar esse cara. Encontrou no chão um amontoado de cinzas, aos pés de uma grande árvore. Cercaram o objeto; Alucard quebrou um galho próximo e o revirou. O odor de queimado se difundiu no ar.
—Este cheiro.
A pilha de folhas revelou um punhado de ossos queimados, e a matéria ainda estava em brasa no interior do monte.
—Que diabos? A essa hora do dia - Sypha franziu o cenho.
—Há bizarrices por toda parte. - Trevor observava sem atenção. - Isso me cheira a ritual.
—Péssimo trocadilho. - Ela riu e se agachou.
Sypha apagou as brasas e pegou um dos ossos; ainda estava morno. Partiu-o ao meio sem dificuldade para ver o lado de dentro, que continha uma substância vermelha, mais viva do que sangue.
—Vejam. - Ela se levantou e estendeu os fragmentos. Cada um dos dois pegou uma parte.
—É de uma criatura da noite. - Alucard constatou. - Há isso nos esqueletos de algumas.
—E isto aqui… - Trevor apontou. Abaixou para recolher algo. Na mão, uma agulha de osso do tamanho de um dedo. - É da gárgula que matamos.
—É verdade. - Sypha pegou o espinho. - Alguém se deu ao trabalho de trazer os restos aqui e incendiá-los.
—Bem debaixo do nosso nariz, inclusive. - Trevor suspirou. - Tem cara de trabalho para nós.
Olhou para Sypha e ela concordou. É agora.
—Pode nos ajudar nessa? Ficamos te devendo.
—Devendo o quê? Não penso em cobrar de um pé-rapado.
—Explique direito. - Sypha reclamou. - As coisas têm sido difíceis. Digo, mais do que somos capazes. Deixamos passar vários incidentes maiores, porque não operamos milagres. Viaje conosco.
—Serei mais uma boca a alimentar. Mesmo que eu coma pouco.
—E um par de mãos a mais, use a cabeça. - Trevor sorriu com sarcasmo. - Não seria bom, também, tomar um ar fora da sua caverna?
—Estou bem em casa, agradeço a preocupação.
Mentira. Conteve-se, ou seria pior. Sabe bem onde estava ontem à noite. Alucard continuou:
—Vou auxiliar vocês por agora. Fiquem no castelo o tempo que for necessário, até que se estabeleçam.
—Os trabalhos ao redor vão rarear. - Trevor revirou os olhos. - Você vai ver, e vai pagar a língua.
Alucard o olhou feio, mas Trevor pouco se importou. Voltaram à estrada, com nada do clima anterior; não conversavam, não trocavam farpas, Sypha o acompanhava lado a lado e deixavam que ele fosse na frente. Como adoro ter que contar com os outros.
As primeiras fazendas começavam a aparecer de ambos os lados da estrada. O povo do campo também aproveitava o dia de sol. Um grupo de crianças que não podia ter mais de oito anos chutava e jogava uma bola de feno por cima da trilha e das cabeças dos que passavam. Sypha acenava para quem os reconhecia, e Trevor o fazia com a cabeça apenas, enterrado na capa de pele e sem vontade de ser visto. Um saco ser um Belmont por aqui. Alucard olhava em volta com discrição, não mais tão distante dos outros dois. Está curioso, o sujeito? O cabelo era quase transparente à luz do dia, e a pele, definitivamente, adoraria um pouco de cor. Avistaram a amurada de madeira que cercava as construções mais centrais, que de nada adiantou contra a gárgula com asas de morcego e fome de outro mundo.
O estábulo de Sohodol ficava próximo ao portão. Trevor bateu à porta e o mesmo garoto que os levara atendeu, com trejeitos tímidos e quanta polidez a simplicidade o permitia.
—Olá, senhor. - Aparentou surpresa. - Por estas bandas de novo?
—Para você ver, amigo. - Trevor notou que o rapazote olhava Alucard dos pés à cabeça e quase fez o milionésimo sinal da cruz.
—Procurando cavalos?
—Não, muito grato. Mas água fresca, sim, se tiver. - Estendeu os cantis vazios e pôs-lhe uma moeda na mão. - O que se passa por aqui?
—Hoje abre o mercado. Dormimos em paz agora. Graças ao senhor e à senhora, está tudo bem. - Ele abriu um sorriso e olhou em volta. - Digo, mais ou menos.
—Mais ou menos? - Trevor ergueu a sobrancelha.
—Vou pegar a água, senhor. Já volto.
—Pense rápido. - Atirou mais uma moeda, que caiu no feno, e o menino passou um bom momento procurando-a até, enfim, ir aos fundos.
Aguardaram em silêncio. Que pode ter acontecido aqui num intervalo desse? O garoto retornou com um jarro em cada mão e outro debaixo do braço.
—E então, o que há por aqui? - Trevor secou o cantil e o devolveu para que enchesse de novo.
—Pensaram que o demônio de vocês tinha levantado dos mortos. O corpo sumiu.
Mas vejam só.
—E o que mais?
—Desaparecimentos, senhor. - Fez sinal para que se abaixasse e começou a cochichar. - Dois desaparecidos. Não sabem deles desde ontem.
—Mesmo? - Trevor olhou de esgueira para os dois atrás. - E quem deu falta?
—A prefeitura. É o escrivão. É uma história curiosa, senhor.
—Pois conte.
—Veja só. - Parou de cochichar e começou a gesticular. - Um ladrão entrou na casa do escrivão. Ele foi sair com o roubo pela janela e caiu na rua como fruta podre. Está aleijado e na cadeia. Mas nem sinal do dono, nem da visita que ele tinha.
—Nem ideia de onde estão?
—O preso disse que saíram quando desceu o sol. Esperou que fossem, sabe?
—Sei bem. E a casa fica…?
—A uma rua da fonte.
—Grato, rapaz. - Pôs mais um trocado nas mãos do garoto. - Esta é sua, não do patrão.
Seguiram ao centro da apinhada vila. Trevor rastreava os arredores atrás da casa, e acreditou que fosse um dos abastados sobrados antes da praça. Tiveram que dividir a rua estreita com carruagens, cavalos e transeuntes de todo tipo. Em meio ao murmúrio, Alucard pensou alto:
—Dois desaparecidos. Por que, e onde estão?
—Não seriam desaparecidos se soubéssemos. - Trevor nem se dignou a olhar para trás.
—Incrível. Discutir uma hipótese em voz alta é, agora, crime passível de retaliação do clã Bel-
—Foco. O mercado. Está aqui na nossa frente. - Sypha se intrometeu, desviando de uma idosa. - Mil perdões, senhora.
Ela continuou a transitar pela feira com energia e bom humor. Apertava as mãos a todos que a reconheciam, recebia descontos, ouvia toda e qualquer gratidão. Trevor recostou-se a uma banca de carne-seca para comer uma fatia, e o comerciante estava tão soturno quanto ele próprio. Bom, deixe que se virem.
—Vou caçar uma cerveja. - Despejou a bagagem nas mãos de Alucard.
Era difícil transitar pelo caos corrente do mercado. Não só passava o tamanho da maior parte das pessoas em uma cabeça; Alucard estava cheio da bagagem. Havia quem o medisse com os olhos quando parava para avaliar a mercadoria. Uma banca reluzia, cercada por ninguém, com um enrugado senhor de bigode atrás dos produtos. Caminhou até lá. Um latoeiro. O homem pouco o observou e disse que ficasse à vontade. Entre lamparinas, panelas, regadores e outras mil peças, o vendedor perguntou:
—Está de passagem por Sohodol, filho?
—Pode-se dizer que sim. Mas não deixo muito minha casa.
—Vejo bem. Precisa de uma cor na pele. - O tom foi de gracejo, mas o senhor estava de cabeça baixa desamassando uma caneca e não sorriu.
—Talvez fosse mesmo bom. - Alucard olhou para o céu. - Dia raro nessa estação.
Continuou a examinar os produtos e se decidiu pela caneca que o vendedor consertava. Ofereceu em troca um favo de mel.
—Pode levar também outra coisa. - Desenrolou-o do pano e o admirou. - Se posso sugerir, pegue uma caneca igual. Ou, talvez, o macerador.
Alucard alcançou a peça, feita de um pesado copo e do socador em si. Temos desse, de fina porcelana. Mas a cozinha vai receber bem. Agradeceu e foi encontrar Sypha, sentada à beira da fonte, com uma sacola tão cheia quanto a dele.
—O que tem aí? - Perguntou a ela, acomodando-se ao lado
—Veja você mesmo. - Estendeu a bolsa, de onde já podia ver um nabo.
Cebola, aipo, repolho, espinafre… Viu um elemento intrigante e o pegou. Era um pequeno e charmoso saco de tecido, amarrado por uma fita larga demais para seu tamanho.
—Cravo? - Sentiu o cheiro.
—Sim, para o vinho quente.
—Surpresas de uma vila próspera. - Devolveu-o a ela. - Há algo escrito na fita. O que é?
—"Pelo poder, se mede um homem." - Sypha espremeu os olhos para ler a letra miúda.
—Deve ser um lema de família. Veja a minha. - Entregou a sacola.
—Aveia, manteiga, carne, grão de trigo… Geleia?
—O dinheiro sobrou. - Fez menção de se levantar. - Vamos andando?
Encaminharam-se lado a lado; ela sabia onde ficava uma das tavernas, e pedir informações a uma vendedora de frutas os indicou a outra. É mais perto, então lá deve ser.
—Deveríamos tentar achar a tal casa do escrivão antes. - Ocorreu a ele.
—É verdade. A uma rua da fonte, o garoto disse?
Rodearam a via em forma de anel que cercava o centro da cidade. Mais de um sobrado a ladeava, alguns de janelas abertas, com bem-afortunados moradores a aproveitar o dia de sol; outros tinham sinais de vida, os sons da cozinha, as passadas abafadas do lado de dentro. Um deles, no entanto, se encontrava fechado e silencioso.
—É este aqui. - Sussurrou para Sypha.
—A casa velha e sinistra?
—Não só. - Respirou fundo. - Tem aroma de sangue seco.
—Consegue farejar? - Ela pensou um pouco e deu de ombros, rindo. - Bom, não sei o que eu esperava.
Alucard sorriu e mudou de assunto:
—Não sou a favor de tentarmos entrar agora.
—Vai chamar atenção demais. - Sypha ajeitou a sacola no ombro. - Mas, talvez, dar uma volta nos fundos…
—Não é má ideia.
A parte de trás da casa também era pouco inspiradora e a porta dos fundos estava fechada. Ou bloqueada. Alucard tentou empurrá-la e sentiu mais força do que apenas a de um trinco.
—Faltam parafusos. - Sypha apontou a armação da porta. - Na verdade, falta muito da ferraria.
—Pode ter sido o ladrão.
—Acho que ele perderia menos tempo tentando arrombar apenas a tranca.
—E por que alguém deixaria a porta desconjuntada dessa forma? - Ele levou a mão ao queixo.
—Para trocar, não sei. - Ela fez o mesmo. - Vide o estado da casa, por que cuidariam só disso?
—É uma boa pergunta. Não deve ser esse o motivo.
—Lá dentro deve estar a resposta. Mais tarde, então?
—Mais tarde. Buscamos Trevor?
—Puxando pela orelha. - Sypha sorriu de canto.
—Estou ansioso para que ele me interrompa de novo. - Fez cara de desgosto e voltaram a caminhar. - Agora que estava apreciando um momento em que alguém me ouvia.
Sypha pareceu perder as palavras e ele a olhou com interrogação.
—O que houve? - Perguntou a ela.
—Nada. - Ela gaguejou. Você disfarça as coisas muito mal. Sypha apontou um prédio. - Aquilo parece uma taverna para mim.
Ao que puseram os pés no interior do lugar, a atendente, uma mulher de meia-idade, foi rápida como um raio e parou na mesma hora o que fazia para impedi-los.
—Sem compras aqui dentro.
—O que fazemos, então, senhora? - Alucard tentou respeitá-la sem muita vontade.
—Podem pagar e deixar no armazém.
Ele e Sypha se entreolharam e concordaram a contragosto. Entregaram a ela as sacolas e uma pequena taxa. Trevor era bem visível daquele canto, ainda debaixo da capa de pele e sentado ao balcão. Bebia sem companhia, mas o garoto que o servia era seu interlocutor, em uma compenetrada conversa. Era uma criança descabelada e franzina, com talvez dez anos, que os notou com o olhar antes do cliente.
—Temos coisas a fazer. Levante daí. - Alucard o cutucou no ombro.
—Que pena. - Trevor espreguiçou. - Acabei de pedir mais um copo. Por que não se sentam?
—Não faz mal. - Sypha o fez.
—Bebidas, senhores? - Ofereceu o menino.
—Uma da mesma para cada, se puder. - Trevor pediu antes que tivessem chance de recusar.
Bom, que seja. Alucard ocupou o outro banco, à esquerda de Trevor. Antes do garoto voltar, houve tempo para olhar ao redor e notar os vistosos pratos nas mesas. Ao que ele chegou com a cerveja, Sypha perguntou:
—Qual é o prato do dia?
—Ave assada com cherovia e repolho. Vai pedir, senhora?
—Traga, por favor.
—Por que vão comer se temos as compras? - Trevor disse quando o atendente se foi.
—Estão no depósito daqui. - Sypha suspirou. - Não nos deixaram entrar com elas.
—A mulher mal-humorada? - Teve o cuidado de falar baixo.
—A própria. - Alucard respondeu depois de um gole na cerveja. Não é ruim.
Levou um instante apenas até que o álcool lhe atingisse, de estômago vazio. Observou a taverna outra vez, e viu a famigerada mulher se aproximando, mas deu a ela pouca atenção. De repente, Trevor xingou e se voltou para Alucard.
—O que acha que está fazendo?
—Eu o quê?
—Não se faça de idiota, seu-
Sypha indicou que olhasse para trás e lá estava a dona da taverna com uma colher de pau.
—Vieram buscar o amigo de vocês? - Murmurou ela com a voz azeda.
—Senhora, posso saber por que fez isso?
—Você sabe bem. Mantenham-no longe da minha filha.
—Filha? - Os três perguntaram ao mesmo tempo.
Ela apontou com a colher para a mesma criança do balcão, que esvaziava copos numa mesa desocupada.
—Tem onze anos a garota. Mantenha a decência.
—Conversei com ela sobre cerveja, senhora. E estou no balcão perto da bebida. Sou bem comprometido. - Puxou Sypha pelos ombros, que se assustou de leve.
A senhora os olhou feio por mais um tempo e se despediu com um "passar bem". Trevor terminou a caneca e tocou a parte da cabeça onde levara a pancada, reclamando:
—Cada coisa. Nem que parecesse uma menina…
A então garota chegou com o almoço, que cheirava tão bem quanto era farto. Após deixar as vasilhas, foi para detrás do balcão e recolheu a caneca de Trevor, dizendo:
—Desculpe pelo que mamãe fez. - Baixou a cabeça. - Ela fala para eu me vestir assim. Para não me acontecer nada.
—Sei como é. - Sypha sorriu para ela e provou a cherovia, voltando a falar de boca cheia. - Muito boa comida. Você fez?
—A cherovia, sim. Mais uma bebida, senhor? - Perguntou a Trevor, que aceitou, também comendo. - Só não mexo com a lenha. Mamãe não deixa. Antes era papai, mas ele está com Deus.
—E você tem irmãos? Irmãs? - Sypha a deu atenção.
—Irmãs. Sou a mais velha, somos três. - A garota apontou Trevor. - Juro que ele não fez nada comigo.
—Uma mente sã, que raridade. - Trevor celebrou com ironia. - Podemos nos mudar para a mesa vazia ali?
—Pela mesa se paga a mais. Mas dou a mamãe uma moeda minha.
—Muito agradecido. Qual seu nome? - Alucard resolveu perguntar.
—Isobel. Rápido, antes que ela veja.
Ajudaram-na a levar os pratos e copos, e a menina aproveitou o tempo para atender outras mesas. Ao que se acomodaram, cutucou a perna de Trevor, que levou um pequeno susto. Traumatizado?, Alucard riu por dentro e lhe estendeu um embrulho de pano por baixo da mesa, num bom ângulo que não seria visto. Trevor deu uma espiada sem compreender.
—Fiz a gentileza de contrabandear. - Alucard sussurrou entre os sons da taverna.
Trevor abriu o pacote, que cabia na palma da mão, e reconheceu um favo de mel.
—Seria um milagre? - Atirou com discrição um pedaço ao fundo da caneca, mas não agradeceu.
Por um bom instante, ocuparam-se demais com a comida para conversar. Quando todos os refratários já chegavam ao fim, Sypha sugeriu:
—Poderíamos tentar falar com ela sobre o que há por aqui. - Limpou a boca com as costas da mão. - Passa muita gente na taverna. Deve ter ouvido algo.
—Parece bom. Tente. - Trevor apertou-lhe a mão com afeto sobre a mesa, e logo deixaram-nas caírem para o lado de baixo.
Ao que Isobel passou com uma pilha de pratos vazios, Sypha a chamou pelo nome.
—O que tem se passado na cidade? Somos de fora.
—A gárgula e o roubo. Já sabem?
—Um pouco a respeito. Adoraria ouvir mais.
—Então, a gárgula. Dizem que era grande, e que voava, ainda por cima. Mamãe me proibiu de sair de casa e não me deixou ver. - Ao tocar no assunto, a mãe a chamou da cozinha aos gritos. - Mas vieram aqui, dizem, um homem e uma mulher. A moça soltava fogo das mãos! Dizem que pôs fogo no ninho do demônio e quase no paredão inteiro. E o moço tinha… Uma espada longa e um chicote. Laçou o bicho pela asa e o atirou no topo da igreja. Ficou espetado na cruz. Ele subiu lá e-
Espada longa? Alucard riu, mas não corrigiu; também notou Trevor e Sypha olhando um para o outro, compartilhando a graça. A mãe de Isobel chamou de novo.
—Já volto, não demoro.
Quando deu as costas e estava longe o bastante, caíram os três na gargalhada.
—Quebrou a espada, Trevor? - Ele gracejou.
—Ah, sim. E, com certeza, não atirei a gárgula na parede da igreja.
—Quem conta um conto… - Sypha deu de ombros e atacou o resto de repolho que ninguém se interessou em comer.
Isobel voltou, com um brilho no olhar que não tinha antes.
—Onde foi que eu parei? Acabei a história da gárgula?
—Exato. - Alucard pôs a mão no queixo e a encarou com o sorriso mais amigável do arsenal.
—O roubo, agora. Meu tio é guarda da cidade e da cadeia. Ele veio ontem contar a mamãe. - Ela se aproximou para falar mais baixo, com uma risadinha. - Eles conversam muito alto.
Os três da mesa se entreolharam. Golpe de sorte. Isobel prosseguiu:
—Veio um ladrão de outra cidade, se fez de pedinte. O povo já começava a saber quem era. Ficou ali na rua, olhando a casa, viu que o escrivão saía todo dia, decorou o horário. Quando subiu na janela e viu o que havia lá dentro… - Fez um gesto de objeto caindo. - Despencou do primeiro andar.
—Dizem que o escrivão não estava em casa. - Alucard arriscou.
—Não estava mesmo. Nem ele, nem a visita. Ninguém sabe aonde foram. E o ladrão faz o sinal da cruz toda vez que fala do que viu lá dentro.
—Por que, você diz? - Trevor surgiu na conversa.
—Ele achou coisas do demônio por lá. - Isobel sussurrou.
—Coisas? - Indagou Sypha.
—Coisas. - Fez que sim com a cabeça. Os três a ouviam com toda atenção. - Desenhos, manchas vermelhas… Ele acendeu uma das velas da sala e viu sangue no chão. Começou a andar para trás, e aí despencou da janela. O tio disse que a queda o endoidou, que não pode ser. O escrivão estudou para ser padre…
